O que é Christus Victor?

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Christus Victor (“Cristo Vencedor”) é o tema segundo qual um propósito fundamental da obra de Cristo — particularmente quanto a sua paixão, morte, descida, ressurreição e ascensão — é uma vitória sobre os poderes das trevas, como o diabo a morte e o pecado, que oprimem o ser humano e o levam a uma vida de destruição, alienação, desintegração e condenação. É uma maneira de encarar e explicar a doutrina cristã da salvação. É a linguagem dos Pais da Igreja.

Esse tema é explicado a partir de uma moldura doutrinal mas ampla, que é a cristologia adâmica ou recapitulação: Cristo recupera e supera o que foi perdido no pecado do primeiro homem, Adão. Esse primeiro pecado impôs ao homem a servidão sobre o reino da morte e desses poderes tenebrosos, mas Cristo age como libertador e restaura o homem ao seu propósito original, a imagem divina. A preocupação do tema Christus Victor é com o pecado enquanto escravidão espiritual.

Nesse sentido, o tema Christus Victor é um tema dramático. O Evangelho é tratado como um grande drama cósmico, como um grande conflito cuja solução se dá nos acontecimentos da história de Jesus. Cristo é visto como o que esmaga a cabeça do Leviatã, como aquele que exorciza o mundo através da sua cruz e do seu sofrimento. Ele estabelece seu reino através da vitória definitiva de uma guerra espiritual. É assim que a justiça divina é vista, corrigindo o mal do mundo.

Christus Victor não é uma teoria sobre o sentido da obra de Cristo, ou, ao menos, não é uma teoria no sentido moderno da palavra. Ela é um tema bíblico, e, por isso, todos os grandes teólogos, das mais diversas vertentes e tradições cristãs, o abraçam de alguma maneira. No entanto, a perspectiva aqui defendida é de que esse tema é realmente central, e a doutrina bíblica não é bem compreensível sem ele. Alguns exemplos de textos bíblicos em que esse tema aparece:

João 12:31-33
Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer.

Colossenses 2:13-15
E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.

Gálatas 1:3-4
graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do [nosso] Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai,

Hebreus 2:14-15
Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.

1 João 3:8
Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.

O tema Christus Victor integra bem a dimensão política e a dimensão teológica do acontecimento evangélico. Pois significa que há poderes tenebrosos por trás dos poderes humanos que levaram a crucificação do Senhor. A injustiça de Judas, de Caifás e de Pilatos resulta de uma injustiça mais profunda, de forças espirituais caídas, anteriores à humanidade, o Maligno findo neste mundo.

Ainda que o tema Christus Victor possa se centrar, com justiça, na cruz, essa cruz é vista como parte de uma história mais ampla. Cada elemento dessa história ilumina quem Cristo é e o que ele fez. Assim, a pregação do Evangelho do Reino, tão presente nos evangelhos sinóticos e sinalizada particularmente do nascimento de Cristo no Evangelho de Lucas, os exorcismos e os milagres todos devem ser entendidos dentro de um conflito mais amplo entre luz e trevas, conflito vencido na cruz. Essas coisas não são meras introduções para a “coisa principal”; são parte de um mesmo processo salvífico cujo ápice é o Gólgota.

O tema Christus Victor não vislumbra a obra de Cristo na cruz como substitutiva, mas sim como participativa. Nós participamos da vitória e do prêmio conquistados por Cristo, mas participamos também dos seus sofrimentos. Temos em comum com a lógica da substituição a centralidade do que Cristo fez a verdade de que somente ele poderia realizar a obra da nossa salvação. Isso significa que nossa própria participação é muito pequena e não tem um poder salvífico inerente, antes recebe-o de Cristo. Ou seja, participamos de quem Cristo é. Aqui participação significa algo como compartilhamento; Cristo compartilha conosco sua vida através dos seus sofrimentos.

Embora haja essa semelhança com a lógica substitutiva, há uma diferença importante no fato de que nós, não sendo nossos próprios salvadores, ainda temos uma responsabilidade pessoal peculiar: é tornando-nos como Cristo que participamos dos seus benefícios, é sofrendo com ele que somos glorificados com ele. Precisamos beber do mesmo cálice que Cristo bebeu, tomar a cruz e ir após ele. Ele não carregou a cruz dos homens em seu lugar — mesmo porque a condenação bíblica do pecado não é a cruz —, mas carrega com eles. Portanto, a lógica participativa não nos isenta do nosso lado no processo. Isso não significa que não aja alguma substituição, no sentido de que Cristo, por sua morte do corpo, livra os homens da morte na alma; mas o processo é participativo, não há uma troca literal, já que os salvos em Cristo continuam morrendo como Cristo morreu.

Dentro dessa lógica de participação, o tema Christus Victor também se alinha muito bem a linguagem de purificação: a obra de Cristo é vista como purificação dos nossos pecados e, portanto, essa purificação tem sentido transformativo. Libertação e transformação. A reconciliação ocorre não porque Deus estava irado e saciou sua ira derramando-a sobre Cristo, mas porque ele o homem só pode ser reconciliado com Deus se for purificado do mal que há em sua alma. Não há comunhão entre luz e trevas.

Um fato relevante é que o diabo detinha o poder da morte (Hb 2:14-15). Assim como, na cruz, Cristo venceu o diabo (venceu sua tentação), ele venceu a morte na ressurreição, rompendo seus grilhões. Nessa temática, o diabo é visto como o grande tirano, o usurpador da autoridade divina, aquele que submete o mundo através da mentira e do engano, mas é um usurpador já vencido , que perdeu seu lugar drama cósmico e agora se contorce, corrompendo os homens, aguardando a sua condenação definitiva. Como usurpador, o diabo usa a lei para acusar e matar os homens, pois a força do pecado é a lei.

Cristo é a imagem Divina. Ele não apenas restaura em nós a imagem original e a leva ao cumprimento do propósito plenos. Mais do que isso, ele é a imagem divina, ele é aquele que traz a ordem e a unidade entre os céus e a terra. O homem foi criado para ser um representante divino no mundo, para trazer o governo divino sobre a criação, mas somente Cristo cumpriu esse propósito plenamente, e agora ele nos restaura para esse cumprimento, de glória em glória, de modo que cada salvo se torna, cada vez mais, um ícone de Cristo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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