Por que nem todo mundo pode realizar a Eucaristia?

Santo Inácio de Antioquia, um cristão que foi discípulo de João e se tornou mártir da fé cristã, escreveu o seguinte: “Considerai legítima a eucaristia realizada pelo bispo ou alguém que foi encarregado por ele.” (Aos Esmirniotas, Cap 8). Existe fundamento nas Escrituras para isso?

1. Cristo deu a missão aos apóstolos, não a outras pessoas.

Cristo tinha muitos discípulos e seguidores, mas foi somente a esse grupo de pessoas que ele deu autoridade para celebrar o sacramento. Foi a eles que ele disse “fazei isto”, na Bíblia. Não disse isso a outros cristãos. Então nenhum outro cristão tem base para concluir que Cristo deu essa autoridade a outra pessoa, a menos que lhe tenha sido dada autorização apostólica. É bem comum que as pessoas leiam qualquer texto da Bíblia e pensem: “aqui, Jesus se referiu a mim”. Mas cada texto tem seu contexto.

2. O sacramento envolve a disciplina eclesiástica.

Quando uma pessoa ministra a Eucaristia, ela decide para quem vai entregar: para todos ao redor, apenas a si mesma, a uns sim e a outros não? O sacramento é celebrado para a Igreja, para a comunhão da Igreja. Cristo não só deu aos apóstolos a missão de celebrar a Eucaristia, mas disse que eles não deveriam entregar as coisas santas aos cães (Mt 7:6). Quando uma pessoa é expulsa do corpo, ela é privada do sacramento (1Co 5:11-13). Se fosse possível para cada pessoa celebrar, por si mesma, o sacramento, a disciplina eclesiástica seria subvertida.

3. Não há associação entre o sacerdócio universal e celebração da Eucaristia.

Alguém pode alegar que, como todo cristão é sacerdote, todo cristão poderia celebrar esse sacramento validamente. No entanto, nenhum texto que fala do sacerdócio universal do NT associa isso a realizar a Eucaristia (1Pe 2:5-9; Ap 1:5-6; 5:5). A Escritura Sagrada não indica que todo mundo pode celebrar esse sacramento.

Isso é uma confusão sobre o sentido do sacerdócio universal. Desde o Antigo Testamento existe o sacerdócio universal (Êx 19:5-6), e, mesmo assim, Deus tinha selecionado pessoas específicas para exercerem um sacerdócio ministerial. O sacerdócio universal do NT não é uma eliminação do sacerdócio ministerial do AT. Nos dois casos, sempre houve sacerdócio universal e ministerial. (Na Igreja Anglicana, os presbíteros são chamados priests, sacerdotes.)

Às vezes, esse tipo de pensamento envolve um certo desprezo pelo Antigo Testamento, ainda que seja verdade que o sacerdócio do NT é diferente do sacerdócio do AT (não em tudo). Havia, desde o AT, uma profecia de que Deus selecionaria algumas pessoas (não todas) para serem sacerdotes (Is 66:21). O apóstolo Paulo ensina que todo o AT é útil (2Tm 3:16-17), então a lógica do sacerdócio continua sendo importante, e não há nenhum texto na Bíblia que ensine que ela foi abolida.

No Antigo Testamento, houve alguém, chamado Corá, que cometeu justamente esse pecado: confundiu o sacerdócio universal com o ministerial. O Novo Testamento nos adverte a não cometer o mesmo pecado, em Jd 11.

Rev. Gyordano M. Brasilino

14 comentários em “Por que nem todo mundo pode realizar a Eucaristia?

  1. Complicado. Levado às últimas consequências, esse raciocínio retiraria a legitimidade de todas as eucaristias da maior parte dos evangélicos, inclusive calvinistas que não alegam sucessão apostólica. O mesmo capítulo de Inácio diz que “sem o Bispo não é permitido batizar”, mas há evidente consenso em toda a história da Igreja da validade do batismo realizado por leigos. Os reformados agora vão considerar o magistério da Igreja como regra de fé e prática ao lado da Escritura?

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    1. Complicado pode ser, mas a questão é se é verdade ou não. Se for verdade que essas celebrações são inválidas, essa verdade deve ser aceita, embora não seja essa a argumentação aqui.

      Quanto ao Batismo, realmente não é permitido batizar sem o Batismo. Isso naõ significa que um leigo não possa batizar, mas não pode batizar sem o bispo. Um batismo corretamente ministrado por um leigo é válido, mas só é lícito com autorização da Igreja.

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      1. Concordo plenamente contigo, sem dúvida a questão mais importante é se as conclusões do artigo são verdadeiras ou não.

        Por outro lado, eu preferi não entrar no mérito dessa questão tão importante quanto espinhosa, mas lembrar que se o raciocínio exposto no artigo for verdadeiro e os únicos sacramentos legítimos são aqueles realizados com a anuência de bispos que possuem a sucessão apostólica, isso me leva a conclusão inescapável de que quase nenhuma eucaristia realizada no universo evangélico é válida, nem mesmo as calvinistas, o mesmo valendo também até para o batismo. É isso mesmo? Trazendo uma reductio ad absurdum para a discussão, será que não existe o risco de o nosso formalismo invalidar a adoração em Espírito e em verdade daqueles “dois ou três” pequeninos que se reúnem sinceramente em nome de Cristo?

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      2. Para mim, não é nenhum absurdo que esses sacramentos sejam inválidos. Ninguém pode simplesmente supor que são válidos apenas porque quer que sejam. Também não entendo por que você se refere especificamente aos calvinistas, como se fossem um grupo diferente dentro dos protestantes.

        O Batismo ministrado pelos evangélicos, em geral, é válido, porque não depende da sucessão apostólica, embora sua licitude dependa da autoridade apostólica. A discussão aqui diz respeito apenas à Eucaristia. A sucessão apostólica garante a validade da Eucaristia. Sem isso, não há como garantir a validade da Eucaristia. Afirmo que são inválidos? Não afirmo. Digo apenas que não há como garantir, até o momento. Mas, para essas pessoas que nem mesmo acreditam em sucessão apostólica, que diferença isso faz? Estou preocupado apenas com a minha doutrina, não com a dos outros.

        Nada disso é formalismo, nem invalida adoração. Há uma confusão aí.

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  2. De fato minha redação ficou confusa, obrigado por notar. Quando mencionei invalidar a adoração, referia-me ao contexto sacramental.

    Estou ciente de que há na Europa alguns grupos de bispos luteranos (especialmente da comunhão de Porvoo) que juntamente com todos os anglicanos alegam a sucessão apostólica por meio bispos da Igreja de Roma. Metodistas anedoticamente o fazem por meio de uma alegada ordenação de John Wesley supostamente válida na Igreja Ortodoxa. Há pentecostais que alegam a sucessão apostólica nos primórdios do movimento por meio da ordenação de bispos metodistas, e assim por diante. Por outro lado, mencionei os calvinistas em particular por duas razões: 1) parece-me que os reformados não alegam sucessão apostólica e que o próprio Calvino, não podendo alegar a sucessão apostólica, desdenhava da sucessão como critério de apostolicidade e 2) imaginei estar em uma página em que um clérigo calvinista ensina a doutrina calvinista, e por isso fiquei perplexo porque, se eu entendi corretamente, o autor questiona a validade das eucaristias que ele mesmo venha a celebrar, assim como a dos seus irmãos calvinistas. Pelo sim, pelo não, achei melhor conformar se entendi as coisas corretamente.

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      1. Paula, sacerdócio universal é o de todo cristão. Em virtude da obra de Cristo, todo cristão é sacerdote (cf. 1Pe 2:5,9; Ap 5:9-10).

        Sacerdócio ministerial é o dos ministros ordenados.

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  3. Essa autorização apostólica pode ser dada a qualquer um, ou está reservada aos oficiais da igreja (diáconos, presbíteros, etc.)?

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  4. A Paz, queria uma pergunta e uma indicação, já pensou em falar sobre a história do anglicanismo? acho que seria interessante já que tem pouco conteúdo em português. Outra questão poderia indicar autores anglicanos? Acho que o único que ouço falar é o Lewis

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    1. História do Anglicanismo é um tema interessante. Já pensei em gravar uma série de vídeos sobre o tema. É algo que dá bastante trabalho, porque é muita história e é uma história bem pouco conhecida.

      Alguns autores anglicanos de várias correntes: Alister McGrath, B. F. Westcott (bp), E. L. Mascall, F. D. Maurice, Fleming Rutledge, Gerald McDermott, Gregory Dix (bp), Jeremy Taylor, J. I. Packer, John Jewel (bp), John Stott, Lancelot Andrewes (bp), Larry Hurtado, Martin Thornton, Michael Ramsey (abp), N. T. Wright (bp), Richard Hooker, Robert Moberly, Rowan Williams (abp), Scot McKnight, William Law, William Temple (abp).

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      1. Obrigado pelas indicações.

        Verdade seria bem trabalhoso, mas de fato seria bem interessante. Hm…videos?! você teria algum canal no youtube?

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