Expiação não é punição

Minha publicação (20)

Nos debates sobre a obra do Redentor, o conceito de expiação é um dos mais importantes. Não estão errados os que tratam o mistério da redenção como doutrina da expiação, mas o que significa expiação? Os defensores da Substituição Penal acreditam que ela está ligada à punição, que a expiação dos nossos pecados acontece através de punições substitutivas, seja as punições (simbólicas?) dos animais no Antigo Testamento, seja a punição de Cristo no Novo.

Precisamos nos perguntar, por primeiro: quando lemos os usos de expressões como “expiação” ou “expiar” (kāfar, hilaskomai) ao longo das Escrituras Sagradas, neles transparece algum sentido de punição? Há algo que indique que os sacrifícios expiatórios bíblicos são punitivos? Em alguns dos sacrifícios expiatórios bíblicos (não todos), há morte de animais, então podemos supor que essa morte seja algum tipo de punição, que o animal é punido substitutivamente. No entanto, isso seria uma suposição. A pergunta é: o texto em si nos ensina que os sacrifícios expiatórios são punitivos? De que maneira?

Para entender isso, é importante saber que a Escritura não fala apenas da expiação de pecados, o foco da Substituição Penal procura explicar. Expiação é uma categoria mais ampla, e só entende o que é expiação de pecados quem entende o que é expiação em si. Os sacrifícios expiatórios incluem o sangue de animais, mas também outras coisas: dinheiro (Êx 30:16), intercessão (Êx 32:30), farinha (Lv 5:11-13), azeite (Lv 14:29), incenso (Nm 16:46) ou até esmola (Dn 4:27). Por outro lado, há sacrifícios não expiatórios com a morte do animal, como aqueles feitos depois que a expiação já aconteceu (Lv 5:7). Aliás, nos sacrifícios expiatórios com morte, esta sequer acontecia no altar. Os sacrifícios expiatórios não significam punição, pois aconteciam sem pecado e não precisavam acontecer necessariamente quando havia pecado; não há a ligação direta. Além disso, mesmo quando o sacrifício expiatório envolvia a morte de um animal, a lei previa sacrifícios para pecados cuja punição não era morte.

Uma confusão comum se dá numa má interpretação de Hebreus 9:22. Esse texto não diz nada sobre punição, mas é usado para contradizer os demais textos que tratam de expiação sem sangue, geralmente citado apenas pela metade, o trecho que diz que “sem derramamento de sangue, não há remissão”. Supostamente, esse derramamento de sangue seria uma punição, e isso seria uma exigência da justiça retributiva divina, jamais mencionada em nenhum texto que trate de expiação. O contexto é o da Purificação do Templo:

Hebreus 9:21-23: “Igualmente também aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os utensílios do serviço sagrado. Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão. Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que se acham nos céus se purificassem com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios a eles superiores.”

Como as expiações do Santuário exigiam que ele estivesse purificado, anualmente ele era purificado, no rito do Dia da Expiação (Lv 16). É por isso que, embora houvesse outras formas de expiação sem sangue, elas dependiam do sangue indiretamente, já que dependiam do Templo. Portanto, Hb 9:22 não anula os demais textos que mostram expiação sem sangue. Mas, mesmo a expiação com sangue não é indicada, jamais como punição.

Isso coloca diante de nós, mais uma vez, a pergunta: o que significa, então, expiação?Observando os dados das Escrituras, vemos uma variedade de usos:

  • A mulher que deu à luz um bebê deve fazer um sacrifício expiatório: “o sacerdote o oferecerá perante o Senhor e, pela mulher, fará expiação [kāfar]; e ela será purificada do fluxo do seu sangue; esta é a lei da que der à luz menino ou menina.” (Lv 12:7). O texto não dá a entender, em nenhum lugar, que o texto envolve qualquer tipo de culpa pessoa. Aqui, expiação envolve purificação. A mulher é purificada do sangue, o qual, na lei mosaica, causa impureza em algumas situações (cf. Nm 35:33). A impureza impede a entrada nos lugares e ritos santos (Lv 12:4).
  • O leproso também precisa de um sacrifício expiatório: “o restante do azeite que está na mão do sacerdote, pô-lo-á sobre a cabeça daquele que tem de purificar-se; assim, o sacerdote fará expiação [kāfar] por ele perante o Senhor.” (Lv 14:18). Embora, no mundo antigo, a lepra pudesse ser considerada uma punição divina, coisa que aconteceu em alguns textos, nesse texto em si essa noção não é exatamente o que está por trás da expiação. Ela não se dava pelo arrependimento do leproso, mas devia acontecer depois de o sacerdote o considerar curado, após exames consecutivos. Antes disso, a lepra em si não tinha expiação. Aqui, a expiação envolve purificação. Essa purificação envolve uma restauração da saúde, embora o rito em si não possa curar como Cristo pôde: “os leprosos são purificados” ( Lc 7:22).

  • Expiação não é feita só por pessoas, mas também por coisas, como casas mofadas: “Então, soltará a ave viva para fora da cidade, para o campo aberto; assim, fará expiação [kāfar] pela casa, e será limpa.” (Lv 14:53). A casa está impura e o sacrifício diz respeito à sua purificação. É importante observar que o sacrifício não “causa” a purificação da casa; o sacrifício expiatório só é feito depois que a casa já não tem mais mofo; do contrário, ela é destruída (vv. 43-48). Portanto, segue a mesma lógica do leproso. Esse exemplo em si é interessante porque ele é um paralelo com o Dia da Expiação, que é também a purificação do Templo (a casa de Deus), que ficava imundo pelas impurezas de Israel (cf. Lv 16:16; Nm 16:13); nos dois casos, há o uso de um par de animais (um par de pombos no primeiro, um par de bodes no segundo), e o segundo animal do par é o responsável por levar a impureza embora da comunidade. De todo modo, esse sacrifício pela casa com mofo é importante porque a casa recebe uma expiação, mas ela em si não transgrediu. É uma expiação sem pecado, feita por um objeto sem vida. Aqui, expiação envolve purificação.
  • Em Dt 21:1-9, há o curioso caso de um homicídio insolucionado, diante do qual os anciãos da cidade mais próxima, juntamente com os sacerdotes, devem lavar as mãos sobre uma novilha degolada num wadi. Ele fazem, então, uma confissão de inocência: “e dirão: As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram derramar-se. Sê propício [kāfar] ao teu povo de Israel, que tu, ó Senhor, resgataste, e não ponhas a culpa do sangue inocente no meio do teu povo de Israel. E a culpa daquele sangue lhe será perdoada [kāfar].” (Dt 21:7-8). Aqui há um crime cometido, mas o pecado do criminoso não é expiado; é expiado o pecado que a comunidade não cometeu. Eles são perdoados de uma culpa que não têm, mas que teriam se fossem coniventes e ignorassem o crime; presume-se uma responsabilidade social. O animal não foi punido no lugar do criminoso; caso ele seja encontrado, ainda deve ser punido. Ele não foi perdoado.

Quanto ao contexto dessas expiações é importante observar: expiação, na Escritura, não é linguagem de um tribunal, mas linguagem sacerdotal. Quando achamos que expiação é algo que acontece apenas por culpas pessoais, é mais fácil tirá-la de seu contexto bíblico e movê-la para o tribunal. Na Bíblia, ela é muito mais conectada ao santuário e à purificação.

Quando lemos a Escritura como um todo, não há qualquer texto que nos indique que os sacrifícios expiatórios são punições. Saindo dos sacrifícios expiatórios, em Nm 35:31-34 se diz que o pecado do homicida é expiado com a morte do próprio homicida, mas o sentido não é de que a morte do homicida lhe concede perdão. Os efeitos dessa expiação vêm sobre a comunidade, pelos mesmos motivos de Dt 21:1-9, não sobre quem foi punido. O sangue do crime faz profanar a terra, então é necessária uma expiação que a purifique. Mais uma vez, a expiação diz respeito à pureza.

Esses textos nos dão um amparo importante para compreender o que significa expiação, de modo que, com isso, possamos dizer o que é expiação dos pecados, particularmente quanto à expiação mais fundamental de todas, a que Deus realizou por nós em Cristo. Até agora, há uma conexão nítida com a noção de impureza: a expiação consiste em transitar da impureza para a pureza, seja uma impureza ritual, seja uma impureza moral. Vemos essa necessidade de purificação dos pecados em outros textos (Lv 16:30; Sl 51:2; Zc 13:1). O pecado é tratado como uma mancha ou sujeira que necessita de limpeza.

Essa é precisamente a doutrina de Hebreus, que trata a remissão de pecados em termos de purificação e santificação (cf. Hb 1:3; 9:13-14; 10:29; 13:12). Essa linguagem da purificação dos pecados aparece ligada à obra de Cristo em outros textos (cf. Ef 5:25-27; Tt 2:14; 2Pe 1:9; 1Jo 1:7,9), cujo resultado é santificação. Esse é, em Hebreus, precisamente o problema dos sacrifícios da Lei: embora neles houvesse uma promessa de perdão, sua expiação não santificava, enquanto a obediência de Cristo santifica (Hb 10:1-10). A lei tinha apenas a sombra, Cristo tem a realidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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