A divinização do homem na teologia anglicana, segundo seis teólogos

Minha publicação (30)

Lemos nos pais da Igreja, particularmente nos gregos, sobre a deificação do homem como a finalidade da obra do Redentor. Aprendemos com Sto. Irineu que o Filho de Deus se fez homem para que fôssemos feitos filhos de Deus, ou, com Sto. Atanásio, que Deus se fez homem para que nós fôssemos deificados. De que maneira a tradição anglicana incorporou essa linguagem patrística?

Diferentemente de outras tradições, que podem preferir em falar da deificação ou theōsis, os teólogos anglicanos com certa frequência preferiram usar uma outra linguagem, falando em participação na natureza divina. Essa linguagem não é exclusiva do anglicanismo, sendo também usada em outras tradições, e repete a linguagem de 2Pe 1:4, texto que inclui a promessa de sermos “participantes [koinōnoi] da natureza divina” (2Pe 1:4). A Escritura também fala de “participantes [metochoi] de Cristo” (Hb 3:14), “participantes [metochous] do Espírito Santo” (Hb 6:44), “participantes [metalabein] da sua santidade” ou “participante [koinōnos] da glória que se há de revelar” (1Pe 5:1).

A deificação do homem não é a elevação de deuses alternativos, mas a habitação do Deus único naqueles a quem ele eleva, sendo “tudo em todos”. Ela resulta de uma união mística na qual, quem se une ao Senhor, é um só espírito com ele (1Co 6:17).

A doutrina da deificação tem diversas facetas. Através das citações abaixo, podemos conhecer um pouco de algumas delas. Uma coisa ausente nessas discussões é uma preocupação em explicar como criaturas finitas podem participar do Deus infinitamente transcendente. Simplesmente se afirma que é, com base na promessa divina.

1. Richard Hooker (1554–1600): Participação na Eucaristia

“É confessado por todos os lados, primeiro, que esse sacramento [da Eucaristia] é uma participação real e verdadeira de Cristo, que assim concede a si mesmo, de fato sua inteira pessoa, como cabeça mística, a cada alma que o recebe, e que cada recebedor assim incorpora ou une a si mesmo a Cristo como um membro místico seu, e, aliás, também daqueles a quem ele reconhece serem seus. Segundo, que, àqueles a quem a pessoa de Cristo é assim comunicada, ele dá pelo mesmo sacramento o seu Espírito Santo para santificá-los, assim como ele santifica aquele que é a cabeça. Terceiro, que qualquer mérito, força ou virtude que haja em seu corpo e sangue sagrados, nós a temos livremente, inteiramente e totalmente através desse sacramento. Quarto, que o o efeito disso em nós é uma transmutação real de nossas almas e corpos do pecado para a justiça, da morte e corrupção para a imortalidade e vida. Quinto, que sendo o sacramento de si mesmo apenas uma criatura corruptível e terrena, deve necessariamente ser pensado como instrumento improvável para operar tal efeito no homem, devemos então descansar inteiramente na força do poder glorioso de Deus, que é capaz e fará acontecer, em que o pão e o cálice que ele dá serão verdadeiramente aquilo que ele promete.” Lawes, V, 67

Nas palavras de George Herbert (1593–1633), poeta e também clérigo anglicano, o Banquete Eucarístico “makes divine!” (torna divino).

2. Lancelot Andrews (1555–1626): No Pentecostes

“Mas nós não os compararemos [a Encarnação e o Pentecostes], pois estão acima de toda comparação. Mas isto podemos dizer seguramente deles: sem algum deles não estamos completos, não temos nosso cumprimento; mas por ambos nos o temos, e o temos inteiramente, justamente pela troca régia deste dia [de Pentecostes]. De modo que, assim como antes ele foi participante de nós, nós agora somos feitos participantes dele. Ele se vestiu de nossa carne, e nós somos investidos com seu Espírito. A grande promessa do Antigo Testamento já realizada, de que ele partilharia da natureza humana, e aquela grande e preciosa promessa do Novo, de que deveríamos ser consortes divinae naturae, “participantes da natureza divina”, ambas são cumpridas hoje.”
Sermons on the Sending of the Holy Spirit, Preached upon Whit-sunday, Sermon I

Vale observar que, aqui, o Pentecostes não é visto como uma vinda do Espírito Santo apenas para capacitar a Igreja para a missão no mundo.

3. John Donne (1572–1631): Como num casamento, deuses na terra

“Como, então, Cristo está em nós? Aqui, a questão De modo (sobre o modo), é legítima: pois ele no-lo revelou. É por nossa obediência à sua inspiração e por nosso uso reverente daqueles meios visíveis que ele ordenou em sua igreja, sua palavra e sacramentos: assim como nossa carne está nele, por participação nela, assim sua carne está em nós, por comunicação dela; e assim está sua divindade em nós, por nos fazer participantes da sua natureza divina, e por nos fazer um só espírito com ele, o que ele faz neste Pentecostes, isto é, sempre que o Espírito Santo nos visita com sua graça eficaz. Pois essa é uma união na qual Cristo, em seu propósito, se casou com nossas almas, inseparavelmente, e Sine solutione vinculi (sem intenção de divórcio de sua parte); mas se nos separarmos dele à mensa et toro (se tomarmos a cama da licenciosidade ou a mesa da voluptuosidade), ou se quando nós comemos ou bebemos, dormimos ou estamos acordados, não fazemos tudo para a glória de Deus, se nos separarmos, ele se divorciará.”
Sermão 28 (de Pentecostes)

“De modo que, como se a glória do céu fosse demais para Deus sozinho, Deus chamou para lá, na ascensão do seu Filho, para participar dela; e como se Deus não fosse suficiente para a administração do mundo, Deus multiplicou deuses sobre a terra, e concedeu, comunicou, não somente seu poder a cada magistrado, mas sua natureza divina a cada homem santificado.”
Sermão 65

4. Jeremy Taylor (1613–1667): A teologia, o amor e o exemplo

“O modo de julgar a religião é pelo cumprimento do dever; e a teologia é uma vida divina, em vez de um conhecimento divino.” Via Intelligentiae (Sermão à Universidade de Dublim)

“A caridade é o grande canal através do qual Deus lança todas as suas misericórdias sobre os homens. Pois nós recebemos absolvição dos nossos pecados na proporção do perdão que damos ao nosso irmão. Essa é a regra de todas as nossas esperanças, e a medida de nosso desejo neste mundo; e, no dia de morte e juízo, a grande sentença sobre a humanidade será conduzida de acordo com nossas esmolas, que é a outra parte da caridade. É certo que Deus não pode rejeitar, não rejeitará e nunca rejeitou um homem caridoso em suas necessidades maiores e em suas orações mais fervorosas; pois Deus mesmo é amor, e cada grau de caridade que habita em nós é a participação na natureza divina;” Holy Dying II, 3, 1

“Deus, por uma vos dos céus, e por dezesseis gerações de milagres e graça, atestou o santo Jesus como sendo a fonte da santidade, e o Maravilhoso Conselheiro, e o Capitão dos nossos sofrimentos, e o guia dos nossos modos, por ser seu Filho amado em quem tem um prazer e um comprazimento que vão à altura da satisfação; e se algo no mundo for motivo dos nossos afetos, ou satisfatório aos nossos entendimentos, o que há nos céus ou na terra que nós possamos desejar ou imaginar além da semelhança com Deus e a participação da natureza e perfeições divinas.”
The Great Exemplar

5. Thomas Ken (1637–1711): A pureza necessária

“Eu sei, ó Senhor, que eu nunca serei participante da Natureza Divina, a menos que eu escape da poluição que está no mundo através da luxúria. Ó limpa-me, então, de toda a impureza da carne e do espírito, para que eu possa aperfeiçoar a santidade no teu temor. Dá-me a graça de possuir meu vaso em santificação e honra e de manter santo o teu Templo, para que o teu Espírito de Amor possa sempre nele habitar.”
A Prática do Amor Divino, Sétimo Mandamento

6. William Law (1686–1761): A deificação é o propósito do mistério salvífico

“Todos os mistérios desse Filho de Deus encarnado, sofredor, morto, todo o preço que ele pagou por nossa redenção, todas as lavagens que temos do seu sangue derramado sobre nós, que tudo purifica, toda a vida que n´so recebemos por comermos sua carne e bebermos seu sangue, têm seu valor infinito, sua elevada glória e uma incrível grandeza nisto, pois nada menos que esses mistérios sobrenaturais do Deus-homem poderiam elevar ressuscitar a nova criatura da morte de Adão, para que ela pudesse ser novamente um templo vivo e uma habitação deificada do Espírito de Deus.”
An Adress to the Clergy

Rev. Gyordano M. Brasilino

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