Fundamentos bíblicos da oração pelos mortos

The Victorian Era & the Art of Mourning - SevenPonds BlogSevenPonds Blog

“Eu acredito que a oração pelos Fiéis Falecidos
é um dever a se observar.” John Wesley

Há um grande mistério da morte. Ela se levanta contra nós com um poder terrível e incontrolável. Pessoas que amamos nos deixam, colocando-se além de nossas forças. A mortalha se coloca entre nós e os que partiram, levando algo de nós mesmos, de nossos pensamentos, lembranças, sentimentos.

Parte desses sentimentos inclui o de que os falecidos estejam bem, estejam em paz, desfrutem da luz divina. Não sabemos como eles estão, mas só desejamos que estejam melhor do que nós. É nesse amor pelos falecidos (amor que nunca falha), que o bispo Aulén encontra o fundamento para a oração pelos mortos. O amor espera além de toda esperança.

Com toda a evidência, desde muito cedo os cristãos oraram pelos mortos, como exemplificam a Inscrição de Abércio (séc. II) e as referências de Tertuliano (séc. III). As indicações que temos são também de que os judeus do período do Segundo Templo oravam pelos mortos e de que ele necessitavam de expiação (2Mc 12:44-45; Testamento de Abraão 15; Sifre Deverarim 210 etc.). Então a fé cristã se desenvolveu num ambiente em que a oração pelos mortos era uma prática aceitável, não rejeitada.

A prática de interceder pelos cristãos falecidos, durante a liturgia eucarística, é unânime nas liturgias antigas, dos mais diversos lugares, e abundam as referências patrísticas em seu favor. Mas os desenvolvimentos da Reforma Protestante, especialmente na tendência calvinista, levaram a uma rejeição da oração pelos mortos. Ainda assim, vemos a oração pelos mortos ser aprovada e, às vezes, ensinada e praticada por figuras como Lutero, Zuínglio, além de anglicanos como Lancelot Andrewes, John Cosin e John Wesley.

Como uma prática assim pode ter se tornado tão universal até o período da Reforma? Há um fundamento bíblico para ela? Há uma utilidade?

A intercessão pelos mortos é bíblica?

É importante dizer primeiramente que, para que uma prática seja aceita na fé cristã, não é necessário ela seja exigida, exemplificada, ensinada ou autorizada nas Escrituras Sagradas. Nada do que fazemos pode contradizer as Santas Palavras, mas nenhum texto da Escritura jamais foi escrito com o propósito de elencar tudo o que podemos fazer na religião cristã.

A suficiência da Escritura não diz respeito à liturgia, por exemplo. Ninguém pergunta se pode orar por emprego, por exemplo, mesmo que não haja nenhuma oração por emprego na Bíblia. O que perguntamos não é se a Bíblia autoriza a orar por emprego, mas se esse tipo de oração é compatível com os princípios que vemos nas Escrituras. Felizmente, a Escritura nos dá mais do que apenas princípios, como veremos.

Vemos ao longo das Escrituras um costume universal: o luto através do pranto e jejum (de vários dias) pelos falecidos, como por Arão, Moisés, Saul e seus filhos, por Estêvão e tantos outros, mas são o ambiente adequado em que essas orações podem começar a surgir, dados os bons desejos dos vivos pelos mortos.

Primeiramente, sabemos que a Escritura nos ensina a orar “por todos os homens” (1Tm 2:1) e “por todos os santos” (Ef 6:18), isto é, por todos os cristãos. Os contextos jamais limitam essas obrigações aos vivos. Em ambos os casos, há referência a pessoas vivas em redor, mas isso não constitui uma limitação. Afinal, se devemos orar por todos, obviamente os vivos são incluídos! O que procuramos não é uma referência aos vivos, mas uma exclusão dos mortos. Não encontramos essa exclusão, e isso, recordemos, num ambiente judaico e pagão em que a oração pelos mortos era conhecida e aceita. A responsabilidade de não apenas alegar, mas provar que esses “todos os homens” não incluem todos, mas apenas os vivos, é de quem é acredita nessa limitação. Do jeito que está, lido da maneira mais natural, o texto inclui mesmo a todos. A única coisa que impede de perceber essa leitura natural é o preconceito do leitor contra a oração pelos mortos.

Segundamente, vemos que a intercessão pelos mortos era bem conhecida de Paulo e dos cristãos de Corinto. O texto de 1Co 15:29 faz referência a um tipo de intercessão pelos mortos:

Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?

1 Coríntios 15:29

Nesse trecho de difícil interpretação, Paulo usa o “batizar-se” pelos mortos como um argumento em favor da ressurreição, como indicando que, de algum modo, a premissa por trás dessa prática é a de que os mortos seria, de algum modo, beneficiados por essa intercessão quando ressuscitassem. Não é possível decidir com segurança o que seria esse batismo pelos mortos, mas sem dúvida era uma prática intercessória, que beneficiaria os mortos. O fato de que Paulo usa a prática como argumento, sem condená-la, mostra que ele via a intercessão pelos mortos como, no mínimo, possível. De modo interessante, vemos nesse texto, assim como em 2Mc 12:40-46 (texto desconsiderado pela maioria dos protestantes), a intercessão pelos mortos aparecer na perspectiva da ressurreição.

Terceiramente, Paulo intercedeu por misericórdia sobre Onesíforo no dia do juízo.

Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas; antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou solicitamente até me encontrar. O Senhor lhe conceda, naquele Dia, achar misericórdia da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

2 Timóteo 1:16-18

Esse texto nos ensina algo muito importante, que afeta diretamente o modo como vemos a oração pelos mortos. Paulo ora por misericórdia do Senhor sobre Onesíforo, no dia do juízo (“naquele Dia”). Com isso, aprendemos com muita naturalidade que podemos orar por misericórdia no juízo final, que é possível Deus realizar misericórdia (cf. Tg 2:13). Isso, por si só, já justifica a oração pelos mortos, uma vez que podemos orar por um dia que chegará quando a maioria de nós já estivermos mortos.

Mas o argumento vai além: Onesíforo provavelmente já havia falecido quando Paulo fez essa oração. O texto faz pouco sentido se Onesíforo ainda estivesse vivo. Os motivos são simples: 1. Paulo pede misericórdia pela família de Onesíforo, mas por Onesíforo ele pede misericórdia apenas no dia do juízo; 2. Onesíforo é mencionado no passado, pelo que fez anteriormente; 3. Em 2Tm 4:19, a família de Onesíforo é mencionava novamente, num contexto de saudação a diversos indivíduos, e essa família recebe uma saudação, mas Onesíforo não recebe diretamente. Assim, os indícios apontam na direção de que esse texto de 2Tm 1:18 seja uma oração pelos mortos. Bem no Novo Testamento.

Por fim, há o exemplo já mencionado de 2Mc 12:40-46. Esse texto não é usado como referência pela maioria dos protestantes, embora faça parte da tradição anglicana (e luterana), não sendo usado para estabelecer uma doutrina, mas apenas para instrução, significando que seu ensinamento não é herético.

Do que foi dito, se segue que: 1. é nosso dever orar por todos os homens, sem distinção (portanto também pelos mortos); 2. a intercessão pelos mortos era conhecida dos primeiros cristãos, não sendo condenada; 3. é possível interceder por misericórdia de Deus no juízo final, independentemente de se estar morto ou não. Assim, no fim das contas, há muito mais fundamento nas Escrituras para orar pelos mortos do que pelos desempregados.

A intercessão pelos mortos é útil?

Que utilidade pode haver na oração pelos mortos? Esse é o questionamento natural de quem não estudou a questão, especialmente se criado num ambiente em que essas orações não existem ou são condenadas. Para quem não refletiu sobre nossa condição após a morte, realmente não há como vislumbrar utilidade nessas orações.

No nosso ambiente ocidental, as orações pelos mortos frequentemente são tratadas em termos de Purgatório, como se dependessem dele. Mas é fato que as primeiras orações pelos mortos que conhecemos apareceram antes do surgimento e popularização da teologia so Purgatório. Até hoje, as comunidades orientais que não acreditam em Purgatório (como ortodoxos e miafisitas) oram pelos mortos. Primeiro vieram as orações pelos mortos; só depois, uma concepção de Purgatório. As explicações dadas aqui são independentes dessa noção.

Já vimos uma das utilidades que a oração pelos mortos tem: misericórdia no juízo. Nós somos julgados por Deus por tudo o que fizemos nesta vida (2Co 5:4), e cabe a Deus realizar a misericórdia pela qual Paulo orou. Essa misericórdia no juízo se enquadra perfeitamente bem na intercessão pelos mortos vista em 1Co 15:29, que diz respeito à ressurreição. É particularmente importante lembrar que nós também somos julgados por Deus após a morte (Hb 9:27), sendo essa outra possibilidade de misericórdia no juízo divino.

O que essa misericórdia significa? No caso de Onesíforo, falamos de uma oração feita em favor de um (provável) cristão, de alguém que pode ter morrido em plena comunhão com a Igreja. Nesse sentido, essa oração se pareceria com as que aparecem nas liturgias antigas. Não se trata de uma oração por alguém sem fé, mas, possivelmente, com fé, ainda que seja uma fé que não se sabe se é totalmente viva. A questão da oração por um “incrédulo” (ninguém é incrédulo depois da morte) seria mais complicada, mas, de toda forma, como há diferentes graus de condenação, a misericórdia ainda seria possível, mas parece desrecomendada (1Jo 5:16-17). Como não sabemos o destino de ninguém, podemos orar. Nada está perdido, porque Deus atende nossas orações desde a eternidade, e não limitado ao momento em que oramos.

Mas há algo mais, além disso. Pois, mesmo os salvos que já estão na luz divina, em Cristo, ainda podem crescer infinitamente no conhecimento e no amor (epektasis), portanto também na felicidade, mesmo depois que o pecado for completamente extirpado. Assim como, oramos pelos que estão vivos, para sua santificação e crescimento em Deus, oramos pelos que faleceram, para que cresçam cada vez mais em Deus, porque para Deus nada é impossível. Nossas orações são meios pelos quais Deus cumpre seus propósitos eternos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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