Cristo bebeu mesmo o cálice da ira de Deus?

Poucos momentos antes de ser entregue nas mãos dos homens, Jesus orava: “Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.” (Marcos 14:36)

Segundo os defensores da Substituição Penal, esse cálice, a que Cristo se refere, é o cálice da ira de Deus, que Cristo teria bebido substitutivamente, ou seja, ele teria bebido o cálice da ira de Deus no lugar dos homens, livrando-os dessa ira. Tais palavras de Jesus, como as de João 18:11 (“não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?”), seriam uma confirmação da teoria. Isso é correto?

Na verdade, as Escrituras usam a imagem do cálice para significar vários destinos diferentes, bons ou maus (cf. Sl 16:5; 75:8; 116:13). Os profetas bíblicos várias vezes mencionam o cálice da ira de Deus, mas é impossível que, nas palavras de Cristo, esse seja o cálice da ira, por um motivo simples: o Senhor ensina com clareza que os discípulos beberiam do mesmo cálice que ele.

Mateus 20:22–23: Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos. Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.

É relevante que aí seja o cálice do Senhor (“o meu cálice”); jamais se diz, em qualquer lugar, que Cristo toma o nosso cálice (cf. Ez 23:31-33), mas nós somos chamados a tomar o dele. O “cálice” da oração indica, é óbvio, os sofrimentos que o aguardavam. Usar como prova de que Jesus recebeu a ira de Deus é petição de princípio.

O Senhor não fala aqui de um sofrimento substitutivo, mas de um sofrimento representativo, participativo, no qual os próprios apóstolos deveriam se inserir. Então, longe de provar que Cristo suportou a ira de Deus substitutivamente, esgotando-a, na verdade, o tratar os seus sofrimentos como um cálice do qual os discípulos também beberiam, Cristo ensina que nós precisamos passar pelo mesmo com ele.

Ao usar o símbolo do cálice (e do batismo), Cristo visualiza uma comunhão de sofrimentos, uma partilha de aflições. Diante disso, são plenamente compreensíveis as palavras de Paulo: “preencho o que resta das aflições de Cristo” (Cl 1:24). Os discípulos de esejavam glória, mas teriam cruz. O banquete do reino de Deus é diferente.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sobre a tradução de Isaías 53 — uma amostra grátis.

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Poucos textos na Bíblia são tão danificados pelas traduções incorretas e crítica textual deficiente quanto o capítulo 53 de Isaías. Eu evito falar disso porque dá muito trabalho explicar tudo. Mas aqui vai uma palhinha sobre Isaías 53:11. O texto é este:

“Depois do sofrimento de sua alma,
ele verá a luz e ficará satisfeito;
pelo seu conhecimento meu servo justo justificará a muitos,
e levará a iniqüidade deles.”

Coloquei, de propósito, a versão NVI. As traduções Almeida (ARC 1995, ACF, ARA, NAA, S21) trocam a conjunção “e” (em negrito) por “porque”. A NVT troca por “pois”. A NTLH preserva a conjunção correta, mas dá seu jeito de mudar as palavras do texto. Além da NVI, uma tradução protestante para português correta, nesse versículo, é a KJA. Comparativamente, as traduções antigas, como a LXX e a Vulgata, todas usam o conectivo equivalente, corretamente. Em inglês, é muito mais fácil encontrar versões protestantes corretas.

Sobre isso, não há o que discutir: a conjunção hebraica (waw) significa “e” mesmo. Por que, então, várias traduções mudam o texto? Basta ler o texto com atenção, para perceber como isso muda a interpretação do versículo e repercute na leitura de todo o capítulo.

O que ocorre é que esse texto se refere, numa interpretação cristã, ao Servo agora exaltado. A primeira parte do versículo situa o momento quando o Servo, depois dos seus sofrimentos, vê o resultado do seu trabalho e fica satisfeito com o que vê, e como ele justifica muitos. Isso significa que o trecho diz “e levará a iniqüidade deles” se refere também ao Servo exaltado. Na interpretação cristã, isso significa que o Cristo exaltado às alturas “levará a iniqüidade deles”. Quando o texto é mudado, dois benefícios são granjeados: primeiro, a justificação é conectada a esse “levar” dos pecados, e a questão do “conhecimento” é um pouco mais apagada; segundo, se torna possível separar temporalmente esse trecho final do restante do versículo.

Ou seja: o Servo exaltado carrega os pecados desses “muitos”. Isso gera um problema para a Substituição Penal, porque essa leitura encara esse “carregamento” de pecados como significando uma punição (substitutiva), pelos pecados dos homens, caindo sobre Cristo. Mas isso não é possível, pois não há nenhum sentido em dizer que o Servo exaltado é punido depois dos seus sofrimentos. Então você muda o texto bíblico, preserva a doutrina e elimina o problema.

O significado do texto, na verdade, é outro. Quando se diz que o Servo exaltado leva as iniquidades dos homens, o sentido é sacerdotal. Assim com os animais oferecidos em sacrifício, o sumo-sacerdote carregava os pecados dos homens (cf. Êx 28:38; Lv 10:17; Nm 18:1). Quando conectamos isso ao ofício do Cristo exaltado, sumo-sacerdote que intercede por nós hoje (cf. Rm 8:34; Hb 7:25; 9:24), assim como ao trecho seguinte de Isaías (v. 12: “e intercedeu pelos pecadores”), entendemos o que significa “carregar os pecados”: significa assumir a responsabilidade de interceder por eles, por sua expiação (purificação). Não tem relação com punições substitutivas ou coisa do tipo.

Que diferença isso faz? Isso repercute na leitura do restante do capítulo. Como eu já mostrei algumas vezes, a expressão “carregar os pecados” e equivalentes pode significar muitas coisas na Bíblia. Isso é um indício de como essa expressão deve ser interpretada no contexto de Isaías 53, particularmente nos vv. 4-6, e concorda inteiramente com o modo como Mt 8:16-17 interpreta o “tomou sobre si as nossas enfermidade”, ou seja, não ficando doente em nosso lugar, mas resolvendo o nosso problema, trazendo cura. Ou seja: se compadeceu, como sacerdote. Daí a imagem do v. 4: “as nossas dores levou sobre si”, trecho que usa o mesmo verbo (sāḇal) que o v. 11. Isso ilumina particularmente a linguagem sacerdotal de textos como Rm 15:1-3 e Gl 6:1-2:

“Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação. Porque também Cristo não se agradou a si mesmo; antes, como está escrito: As injúrias dos que te ultrajavam caíram sobre mim.”

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.”

Ou seja, essa linguagem tem a ver com o sofrimento da paciência, não com o sofrimento da punição. Curiosamente, essa é a interpretação do Targum Jonathan, uma paráfrase aramaica judaica que faz leitura messiânica do texto. Ele traduz continuamente o “carregar” pecados, em Isaías 53, como orar ou interceder pelos pecados dos homens e agir para resolver o seu problema.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Princípios Protestantes, na versão equilibrada.

Texto originalmente publicado em 27 de fevereiro de 2019, na minha página do Facebook.

A Reforma Protestante costuma ser explicada a partir de alguns princípios, mas há sempre uma forma radical e uma forma equilibrada de tratar esses princípios.

SOLA FIDE
Forma Equilibrada — A salvação é somente por meio da fé em Cristo. Essa fé salvífica é uma fé viva e frutífera, que opera em amor, não uma fé morta.
Forma Radical — A salvação é somente por meio da fé em Cristo, e essa fé não tem qualquer relação com as obras. Não há qualquer necessidade de busca da santidade de vida (antinomismo).

SOLA GRATIA
Forma Equilibrada — Do começo ao fim, a salvação resulta da graça de Deus, pelos méritos de Cristo, que se tornam nossos de muitas maneiras (meios de graça, especialmente os sacramentos).
Forma Radical — Do começo ao fim, a salvação resulta da graça de Deus, e essa graça não está ligada a nada, sendo totalmente invisível e conhecida apenas internamente.

SOLA SCRIPTURA
Forma Equilibrada — Todos os artigos da fé cristã estão explícitos ou implícitos nas Escrituras Sagradas, havendo um papel fundamental na Tradição como preservação do sentido correto dessas Escrituras. Cada cristão pode fazer o livre exame dessas Escrituras, respeitando o papel histórico da Igreja como sua guardiã.
Forma Radical — Todas as verdades da fé cristã devem estar explícitas nas Escrituras Sagradas. Não há lugar para credos ou tradições (Solo Scriptura), portanto cada cristão é livre para interpretar as Escrituras.

SOLO CHRISTO
Forma Equilibrada — Cristo é o único caminho de salvação, e ele vem a nós através do seu corpo, cuja missão espiritual é não apenas falar sobre Cristo, mas realmente levar Cristo às pessoas.
Forma Radical — Cristo é o único caminho, portanto a Igreja é dispensável e desnecessária para a salvação.

SOLI DEO GLORIA
Forma Equilibrada — Toda a glória deve ser dada a Deus, e devemos honrar aqueles que nos precederam na fé e nos deixaram (em doutrina e em vida) exemplos de fé fundamentais para a nossa santificação. Maria é a mãe de Deus, bendita entre as mulheres.
Forma Radical — Toda a glória deve ser dada a Deus, portanto nenhuma outra pessoa deve ser digna de honra ou pode servir de exemplo. Maria foi uma mulher comum.

SACERDÓCIO UNIVERSAL
Forma Equilibrada — Cada cristão é vocacionado por Deus a exercer um sacerdócio com sacrifícios espirituais (oração, jejum, obras de misericórdia), testemunhar do nome de Cristo, intercedendo por outras pessoas. Os ministros do evangelho são pais espirituais.
Forma Radical — Todo cristão tem autoridade total para exercer1 qualquer ministério. Nenhum dom específico é concedido por Deus a certas pessoas para exercerem ministério do evangelho. Os ministros do evangelho são só professores.

O radicalismo é uma disjunção entre:
– Fé e Obras
– Graça e Sinal
– Escritura e Tradição
– Cristo e Igreja
– Adoração e Comunhão dos Santos
– Sacerdócio e Pastorado

O espírito católico protestante é o da unidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo morreu “por nós”. O que isso significa?

Christ in Majesty (Maiestas Domini) | Museu Nacional d'Art de Catalunya |  Urban art, Art movement, Painting

Cristo “padeceu por nós” (1Pe 4:1).
Cristo “morreu por nós” (Rm 5:8).
Cristo “ressuscitou” por nós (2Co 5:15, por eles).
Cristo “intercede por nós” (Rm 8:34).

As quatro expressões são bíblicas. O que significa “por nós”? Significa: em nosso benefício, em nosso favor, nos tendo como objetivo ou motivo.

Não significa “em nosso lugar”, pois não faz nenhum sentido dizer que Jesus ressuscitou “em nosso lugar”. Ele é o primeiro da ressurreição, assim como de todo o resto. Inclusive, ele fala da morte e ressurreição juntas como sendo “por nós” (2Co 5), pois “Deus é por nós” (v. 31). O fundamento da obra da redenção é o fato de que Deus está do nosso lado, não uma substituição.

Ademais, a Bíblia não diz apenas que Cristo morreu “por nós”, mas que morreu “por nossos pecados” (1Co 15:3). É muito fácil entender que isso não pode significar “em substituição aos nossos pecados”, mas “tendo em vista os nossos pecados”, “em razão dos nossos pecados”.

Os autores bíblicos evitaram conscientemente usar a expressão que poderia ser mais facilmente traduzida (ainda que não exclusivamente) como “em nosso lugar” (anti hēmōn) e usam apenas “por nós” (hyper hēmōn). É claro que isso não impediu as traduções mais sem-vergonha de mudar “por nós” para “em nosso lugar” em alguns poucos lugares.

Assim como Cristo fez tudo isso por nós, nós somos chamados também a “padecer por ele” (Fp 1:29). Pois nós somos salvos quando somos coparticipantes dos sofrimentos de Cristo (Rm 8:17).

Rev. Gyordano M. Brasilino

Hebreus 9:22 não tem nada ver com Substituição Penal.

Embora o texto não nos diga nada sobre o assunto da Substituição Penal — ele não nos diz nada sobre substituição, nada sobre pena ou punição, nada sobre justiça retributiva —, Hebreus 9:22 é um dos favoritos entre os defensores daquela teoria, já que ele é um lugar perfeito para projetar essa doutrina. Leem que “sem derramamento de sangue não há remissão”, e supõem que “derramamento de sangue” significa punição, portanto o texto seria lido como “sem punição não há remissão”, de modo que o derramamento de sangue de Cristo seria essa punição que “autoriza” remissão. Supõem, ademais, que isso seja uma regra inviolável da justiça divina.

Não poderia estar mais longe da verdade. Um pouco de contexto, com certeza, ajuda. Vejamos o que nos dizem os textos em redor do versículo. A numeração inserida corresponde aos comentários em seguida.

Hebreus 9:18-24
Por isso, nem a primeira aliança foi estabelecida sem sangue.
Porque, havendo Moisés proclamado a todo o povo todos os mandamentos conforme a lei, pegou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã tingida de escarlate e hissopo e aspergiu não só o próprio livro, como também todo o povo, dizendo: “Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para vocês.” [1]
Igualmente também aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os utensílios do serviço sagrado [leitourgia] [2]. De fato, segundo a lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue [3]; e sem derramamento de sangue [4] não há remissão.
Era necessário, portanto, que as figuras [hypodeigmata] das coisas que estão nos céus [5] fossem purificadas com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais [6] requerem sacrifícios superiores àqueles. Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos humanas, figura [antitypa] do verdadeiro Santuário, porém no próprio céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus [7].

Observações necessárias:

[1] Um primeiro exemplo dado pela carta é o sangue aspergido sobre o livro e sobre o povo israelita, em Êxodo 24, para selar a aliança de Deus com aquele povo. Esse sangue aspergido não tem, ali em Êxodo, ligação com perdão de pecados, mas com selo da aliança (cf. Sl 50:5). Esse exemplo é relevante porque, na tradição sinótica, ele aparece ligado ao cálice da Eucaristia (Mt 26:27-28; Mc 14:24), na qual aparece tanto a aliança como o derramamento de sangue, agora definitivamente unido à remissão de pecados (cf. Jr 31:31-34).

[2] O segundo exemplo é a aspersão do sangue sobre o santuário, para santificá-lo.

[3] Observe-se a linguagem: “quase todas as coisas” são purificadas com sangue na Lei. É notório que havia outras formas de expiação nas Escrituras, sem derramamento de sangue, usando incenso, óleo, farinha, esmola, oração e outras coisas. Não se trata de uma regra da justiça punitiva divina, mas do regramento do funcionamento das purificações do Santuário. O verbo “purificar” é importante; a pureza, e não a culpa legal, está em vista.

[4] Ao dizer “derramamento de sangue”, a carta não se refere a punições, mãos ao sangue que era derramado ou aspergido no altar nos vários sacrifícios. Não se trata, portanto, da morte do animal especificamente, mas do que era feito com o seu sangue depois. Há exemplos abundantes desse derramamento de sangue Escrituras (Êx 24:6,8 [renovação da aliança]; 29:12; Lv 1:5,11; 3:2,8,13; Lv 4:6-7,17-18,25,30,34; 5:9; 7:2; 8:15 [santificação do altar], 19,24; 9:9,12,18; 16:14-15,19; 16:6; Nm 18:17; 19:14; Dt 12:27; 2Rs 16:13; Ez 43:18), que era feito inclusive sobre o sacerdote (Êx 29:21; Lv 8:30), o que era função particular dos sacerdotes, enquanto a morte poderia ser feita por outra pessoa (2Cr 30:16; 35:11). Isso é confirmado pelo fato de que, nos dois exemplos dados nos versículos anteriores ([1] e [2]), fala-se do sangue derramado sobre o livro, as pessoas e o Santuário. Não se trata do derramamento do sangue quando o animal morria, mas do ritual posterior. Era o ritual que fazia expiação com o sangue (cf. Lv 17:11). Hb 12:24, posteriormente, fala da salvação como “aspersão do sangue” de Jesus (cf. 1Pe 1:2).

(Algumas traduções inserem “ponto e vírgula”, o que pode dar a impressão de que não se fala mais de algo que acontece segundo a Lei (Torá). Como veremos, essa impressão é enganosa.)

[5] As “figuras das coisas que estão nos céus” são o Santuário terreno e seus rituais, que agem como figuras, imitações ou representações (hypodeigmata), uma vez que imitam o modelo mosaico (cf. Cl 2:16-17; Hb 8:5; 10:1). Tudo aquilo era uma “parábola para o tempo presente” (Hb 9:9), sinal tipológico [antitypa] da realidade celeste (Hb 9:24).

[6] Aqui começa-se a falar do sacrifício de Cristo. Tudo o que foi dito anteriormente, inclusive que “sem derramamento de sangue não há remissão”, refere-se aos sacrifícios inferiores da Lei. Cristo realiza a purificação das coisas celestiais, nos termos explicados no versículo seguinte.

[7] A finalidade de tudo é que, a partir do seu sacrifício, Cristo compareça diante do Pai por nós e interceda (cf. Rm 8:34; Hb 7:25). O texto usa a expressão “por nós” (hyper hēmōn), isto é, “em nosso benefício”. Como em todo o Novo Testamento, evita-se usar a expressão que poderia significar mais claramente “em nosso lugar” (anti hēmōn). Como se trata de uma intercessão, de fato, não faz sentido usar uma expressão diferente.

Em síntese: o contexto é uma comparação entre aquilo que é da lei e aquilo que é de Cristo. Cristo realizou um sacrifício superior ao da Lei. Os sacrifícios da lei faziam purificações no santuário. Para a Lei, não havia remissão sem derramamento de sangue sobre o altar e o “propiciatório” (kapporet), que anualmente era purificado com sangue. Esse derramamento de sangue não era o momento da morte; a morte era necessária para que, através do sangue, as pessoas e objetos fossem purificados.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Dia da Expiação: o que você entendeu errado.

Francesco Hayez, Meeting between Esau and Jacob 01 Work, Interpretation of  the bible, With Footnotes — 176 | by Henry Zaidan | Medium

O Dia da Expiação (Yom Kippur) é um dos acontecimentos mais importantes do calendário religioso israelita antigo, e central para a compreensão do sacrifício de Cristo como ele aparece no Novo Testamento, particularmente na Carta aos Hebreus. Minha convicção é a de que a leitura mais comum entre os evangélicos, acerca desse ritual, está inteiramente equivocada. O erro não é só na interpretação do sentido (profético?) do sacrifício. O erro começa antes, na leitura do funcionamento do próprio ritual. Quem quer interprete o ritual como uma Substituição Penal, como se um bode estivesse tomando sobre si, substitutivamente, a punição de todo o povo — uma imagem do que supostamente Jesus teria feito —, precisa ler o texto com maior atenção.

A festa de Yom Kippur é marcada para o décimo dia do sétimo mês do ano. O texto principal que explica o funcionamento do Dia da Expiação — que ali é chamado Yom Kippurim (dia das expiações) — é Levítico 16. A esse texto se somam outros cinco: Êx 30:1,10; Lv 23:27-32; Lv 25:9-10; Nm 29:7-11; Ez 45:18-20. Como o propósito aqui não é explicar a história crítica do desenvolvimento do ritual, as diferenças entre das versões de Êxodo 30, Lv 23 e Nm 29 não serão tratadas. A de Levítico 16 é, particularmente, a mais elaborada das três.

Em Levítico 16, o ritual envolve um lugar particular do templo: o Santo dos Santos (ou o Santíssimo). Ali era o lugar onde Deus aparecia na nuvem (Lv 16:2; cf. Nm 7:89). O sumo sacerdote (Arão) só podia atravessar o véu e entrar ali uma vez por ano, ou morreria, e sua morte está conectada precisamente a esse aparecimento de Deus. Essa nuvem era a nuvem de incenso (Lv 16:13), que cobria o kapporet, costumeiramente traduzido como “propiciatório”, que era a tampa da Arca da Aliança.

O ritual iniciava assim: após um banho de purificação, o sumo-sacerdote tomava sobre si a veste sagrada toda feita de linho, como um anjo (Lv 16:4; Ez 44:17; cf. Ez 9:2-3; Dn 10:5; 12:6-7; Ml 2:7; Ap 15:6; 19:8,14), uma “transformação” ritual. Então ele tomava primeiramente um bezerro e o imolava por si e por sua casa, como “oferta pelo pecado” (ḥaṭṭā’āṯ). Para poder oficiar, ele precisava estar puro. Então juntamente com o sangue dos animais e incenso aromático (que significava oração; cf. Sl 141:2; Ap 5:8; 8:3-4), ele entrava no Santíssimo e aspergia o sangue sobre o propiciatório sete vezes.

Depois ele tomava dois bodes, cada um com um destino (decidido aleatoriamente): um dos bodes seria para o Senhor, como “oferta pelo pecado” (ḥaṭṭā’āṯ), e o outro será para o deserto, “para Azazel”. O bode como oferta tem um propósito importante:

Levítico 16:16
“Assim, fará expiação pelo santuário por causa das impurezas dos filhos de Israel e por causa das suas transgressões e de todos os seus pecados. Fará o mesmo pela tenda do encontro, que está com eles no meio das suas impurezas.”

O sangue do animal era também levado para dentro do véu e aspergido sete vezes. Esse bode fazia pelo santuário e pela nação de Israel aquilo que o novilho fez pelo sacerdote e sua família. Então ele purifica o altar perante o Senhor (Lv 16:18-19). Essa expiação é descrita como “pelo santuário, pela tenda da congregação e pelo altar” (16:20).

Isso é importante porque mostra como o ritual não tinha um propósito jurídico, mas totalmente religioso. O Santuário era profanado pelas impurezas dos israelitas: os que consagravam seus filhos a Moloque (Lv 20:3) e os que não se purificavam do contato com os mortos (Nm 19:13), por exemplo, contaminavam o Santuário. É importante observar como isso funcionava: os pecados dessas pessoas não contaminavam o Santuário quando seus pecados eram “magicamente” transferidos para lá, através de algum tipo de substituição; eles contaminavam o Santuário no momento em que eram cometidos. Por isso, por estar no meio das impurezas do povo, o Santuário precisava ser purificado.

Essa purificação geral, que se dava uma vez ao ano, era como uma renovação do santuário. Na versão de Ezequiel, o rito se dava no primeiro dia do ano, constituindo precisamente uma “renovação” do Santuário (Ez 45:18-20). O animal não era imolado dentro do Santuário; o seu sangue era trazido para dentro para, nas palavras famosas de Jacob Milgrom, agir como um “detergente espiritual”. Não era a morte, mas o sangue do animal, que era o centro do ritual.

Agora, o segundo bode, que não era uma oferta pelo pecado, era apresentado vivo perante o Senhor e então era enviado ao deserto (Lv 16:9-10). Ele fazia expiação vivo, não morto. O sumo-sacerdote impunha as mãos sobre o animal e confessava sobre eles os pecados de todo o povo, para que ele os carregasse para o deserto, para uma terra solitária (Lv 16:21-22).

O ritual não especificava quem deveria levar o animal, mas certa tradição judaica curiosa procurou limitar essa missão a não-israelitas (Mishnah Yoma 6:3). Ou seja, enquanto o sumo-sacerdote levava o sangue do primeiro bode para diante do Senhor, um gentio levava o bode com os pecados para um lugar deserto, “para Azazel”. Mesmo que a tradição do gentio fosse questionável e de início desconhecido, isso nos diz algo importante sobre o modo como o ritual era encarado numa época próxima à de Jesus (como veremos adiante); ademais, esse costume faria com que toda a obra de purificação do Templo acabasse dependendo de um gentio para sua consumação. O centro dependia do outro.

No período do Segundo Templo, “Azazel” era visto como uma entidade demoníaca. O lugar em que ele aparece, o deserto, é propício, pois esse ambiente é associado a demônios nas Escrituras (cf. Is 13:21; 34:14; Mt 12:43-45 par.; Mc 1:12-13; Lc 8:29; Ap 17:3). O animal é levado a essa região desértica.

Certa tradição judaica inseriu aí o costume de que o bode fosse empurrado de um desfiladeiro (Mishnah Yoma 6). Não sabemos quando ou com que propósito isso foi feito. Poderia, por exemplo, envolver algum tipo de preocupação com que o bode “para Azazel” não fosse encarado como um sacrifício para outra divindade; ou para evitar que o animal retornasse, fosse trazido de volta ou fosse consumido por alguma pessoa. Não é possível saber ao certo. O que é possível saber é que a morte do segundo bode não fazia parte do ritual do Yom Kippur. Como qualquer outro animal, ele iria morrer em algum momento, mas expiação não dependia da sua morte. Tudo o que o texto diz sobre o seu fim é “e o homem soltará o bode no deserto” (Lv 16:22). Josefo trata esse bode expulso como apotropiasmos” (afastamento) e paraitesis (abdicação).

Esse sacrifício do primeiro bode e “exílio” do segundo bode é uma versão ampliada de um rito em Levítico 14:33-53. Na purificação de uma casa, duas aves eram usadas: uma era imolada num vaso de barro sobre águas correntes (Lv 14:50), aspergindo a casa sete vezes; a segunda ave era solta “para fora da cidade, para o campo aberto” (Lv 14:53). Tanto o número de aspersões quanto o propósito de cada animal é refletido no Yom Kippur. No rito de Levítico 14, uma casa comum é purificada; no rito de Levítico 16, a casa de Deus é purificada. Trata-se de um rito de eliminação (da impureza).

No caso do Yom Kippur, feitas essas coisas, o sumo-sacerdote retira as vestes do santuário, se banha, toma suas vestes, e oferece seu holocausto e o holocausto do povo, para expiação de todos eles (16:23-25). O homem que tiver levado o bode para o deserto primeiro se banhará para poder, depois, retornar à comunidade. Ou seja, ele ficou impuro pelo contato com o animal, que levava os pecados (16:26). Também fica impuro aquele que leva os corpos do novilho e do primeiro bode para fora do arraial (16:27-28).

O ritual prescreve que todo o povo deveria “afligir a sua alma” (Lv 16:29), o que provavelmente significava: jejum e contrição (cf. Sl 35:13; Is 58:3,5,10). Isso era parte do “sacrifício interior” de todo o povo (cf. Sl 51:16-17). Na época do Segundo Templo, é assim que essa aflição da alma foi interpretada (Atos 27:9; Mishnah Yoma 8.8; Fílon, De specialibus legibus, 1:186-7; Josefo, Antiguidades 3:10.3). Era o único jejum anual prescrito pela lei, além daqueles posteriormente criados pela tradição (cf. Zc 8:19).

A cada cinquenta anos (Jubileu), no Dia da Expiação, uma trombeta vibrante deveria anunciar a libertação de todo o povo (Lv 25:9-10), significando o fim de todas as dívidas e de toda a escravidão, assim como o repouso da terra.

Esse é o Yom Kippur. Como os sacrifícios do Santuário eram sombras das realidades cristãs (Hb 8:5), os dois bodes podem representar dois aspectos da obra de Jesus. O Novo Testamento só associa Jesus ao bode cujo sangue é levado ao Santíssimo (Hb 9:24-28; 13:11-13). O bode que recebe os pecados sobre si não é diretamente associado a Jesus. Curiosamente, o texto de Hb 13:11-13 poderia ter usado o exemplo desse bode, que é expulso, mas não o faz; usa o exemplo da carcaça do primeiro bode.

No entanto, como lemos várias vezes que Cristo levou os pecados sobre seu corpo no madeiro para nos santificar (Cl 1:21-22; 1Pe 2:24), é possível fazermos essa associação, levando em conta, particularmente, o modo como seu ministério constituiu um confronto direto com o demônio desde o começo. Então, embora não existe um ensinamento no Novo Testamento de que o segundo bode corresponde a Jesus, poderíamos, com certa condescendência, associá-lo a ele. (Também se pode argumentar, a partir dos evangelhos, que Jesus é o primeiro bode e Barrabás (Bar-Abba, o filho do Pai), o verdadeiro culpado, corresponderia ao segundo bode, o que eliminaria, ao menos em parte, a dupla associação com Jesus.)

Ainda assim, é importante observar: os dois bodes são dois aspectos distintos da obra de Jesus, se o forem. No ritual, um dos bodes, que não recebe os pecados sobre si, morre e seu sangue é usado para purificação do Santuário; o outro bode não morre no ritual, e é esse bode quem recebe sobre si os pecados.

Fazer essa cuidadosa distinção no texto é importante porque anula a interpretação que os defensores da Substituição Penal dão ao texto, como se receber os pecados sobre si fizesse do animal “juridicamente culpado” e portanto designado para uma “punição” no lugar do povo. Não é isso que acontece no texto. Esse animal não morre, não derrama sangue. Ele carrega os pecados e impurezas do Santuário… e vai embora com eles. O ritual separa intencionalmente duas coisas: o carregar dos pecados e a morte do animal. Podemos falar, portanto, de duas dimensões da obra de Cristo: trazer purificação (como assinala Hebreus várias vezes) e enfrentar o demônio. Essas coisas se tornam ainda mais relevantes quando levamos em conta que no Jubileu deveria haver tanto o perdão das dívidas quanto a libertação dos escravos.

A dimensão do segundo bode, aplicada à vida de Jesus, pode nos levar a várias observações interessantes. O que temos ali é um bode expulso da comunidade, que carrega os pecados e impurezas de todos. Essa é a imagem do Exílio, como Adão e Eva expulsos do Paraíso, ou o povo levado de Jerusalém no Cativeiro Babilônico (levado a viver em terra pagã). O segundo bode é um exilado, que carrega simbolicamente o pecado de todos, como numa encenação. Como na tradição do Yom Kippur, e como os israelitas no Cativeiro Babilônico, Jesus é levado pelas mãos de pagãos para a morte.

Essa imagem é fortalecida pelo que vemos nas histórias dos irmãos Isaque e Ismael, assim como Jacó e Esaú. Para não corromper a herança do seu irmão Isaque, Ismael, o filho da egípcia Agar, é expulso para o deserto, vindo a casar com uma mulher também egípcia (Gn 21:14,20-21). Tanto a história de Isaque-Ismael quanto a de Jacó-Esaú têm reconciliações finais (Gn 25:8-9; 32:3-23; 33:1-17). No caso de Jacó-Esaú, em particular, há sete prostrações (Gn 33:3), correspondendo às aspersões do Yom Kippur, e uma oferta expiatória (Gn 32:20; 33:8). Nos dois casos, Ismael e Esaú representam o lado “pagão” da família, enquanto Isaque e Jacó são os filhos da promessa.

Há uma última dimensão importante a se entender: a obra sacrificial é uma obra intercessória, é um pedido, não uma transação jurídica com obrigações. Assim como o sumo-sacerdote se ocultava da visão de todos e intercedia pelo povo, Cristo, depois de morrer, ascendeu até o trono do Pai para interceder por nós (Hb 7:25; 9:25-28). Nesse sentido, ao associar a obra de Cristo ao Yom Kippur, entendemos que essa obra não terminou quando Cristo morreu. Porque o ritual não é a morte do animal, mas o oferecimento de seu sangue no Santíssimo, como um sacerdote invisível que voltará uma segunda vez, assim como o primeiro sacerdote saía do Santuário. O Santuário é o trono de Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Uma Parábola

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O reino dos céus é semelhante a um homem de muitas riquezas. Esse homem foi roubado por um escravo, a mando do seu senhor, mas o escravo acabou perdendo tudo. Agora, além de escravo, ele era um ladrão e devedor. O senhor do escravo, insatisfeito e furioso, decide matá-lo.

Aquele homem rico, que perdera quase tudo, movido de compaixão por aquele escravo, toma, das últimas riquezas, o que tinha de mais precioso, compra aquele escravo, perdoa sua dívida, o liberta da escravidão e lhe permite morar em sua casa como filho.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A morte é uma punição?

Dead Jesus Christ Art Print by Vivida Photo PC | Jesus christ art, Art  prints, Art

Se a morte é a punição do pecado, a morte de Cristo não foi uma punição que não era sua? Alguém fez essa pergunta. Eu gosto dela porque acredito que está quase na direção certa, visualizando o grande problema como sendo o problema da MORTE. Ou seja, a morte de Cristo está ligada à nossa morte, não à nossa condenação eterna (ainda). Cristo anulou o poder da morte e trouxe vida e imortalidade (2Tm 1:10).

Mas há vários problemas na pergunta:

1. Quando dizemos que a morte é punição do pecado, a única forma válida de dizê-lo é: a morte é punição (condenação) do pecado de Adão. Mesmo quem nunca cometeu um pecado atual pode morrer. Essa morte não está ligada aos nossos pecados individuais (“pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte”, Rm 5:17).

2. Essa morte adâmica é propagada por toda a humanidade. Ela não acontece “substitutivamente”. Todos nós participamos dela. Quanto maior a humanidade, mais gente participa dela. Ninguém toma o lugar de ninguém.

3. Quem foi redimido por Cristo ainda vai morrer. Portanto, se o propósito da obra de Cristo fosse receber sobre si a morte que nós deveríamos receber, sua obra teria falhado. Quase todos nós vamos morrer.

4. Geralmente o texto usado (e mal entendido) para indicar isso é Rm 6:23: “o salário do pecado é a morte”. Citando-o isoladamente, ignoramos tudo o que São Paulo elaborou desde Rm 5:12. A morte é o “salário” do pecado de Adão. Nesses capítulos de Romanos, “o pecado” (singular) não é o mesmo que as nossas transgressões individuais, e sim a “força destruidora” que Adão trouxe ao mundo.

5. Nesse mesmo contexto, Cristo morreu, não para receber uma morte que não era sua em nosso lugar, mas para romper o domínio da morte, de modo que possamos ressuscitar com ele (Rm 6:8-9), vencendo a morte em nós mesmos.

6. Não custa lembrar: nem todo pecado nosso leva à morte (espiritual), como aprendemos em 1Jo 5:17.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Éden, o Êxodo e o Templo no Cântico dos Cânticos

File:Johann Wenzel Peter - Adam and Eve in the earthly paradise.jpg -  Wikimedia Commons

A interpretação mais antiga do Cântico dos Cânticos é alegórica, porque o próprio texto induz o leitor atento (que conhece seus símbolos) nessa direção. Três tipos de simbolismo ligados à nação de Israel aparecem no Cântico: o Éden, o Êxodo e o Templo.

(1) O Éden é precisamente o mais fácil de encontrar, o que mais rápido salta aos olhos. A palavra “jardim” aparece seis vezes no livro (Ct 4:12,15,16; 5:1; 6:2; 8:13), sempre cercada de águas, frutos, árvores e coisas semelhantes. Trata-se de um “jardim fechado” (Ct 4:12), no entanto, como o foi o Éden. A mulher aparece com uma perfeição edênica (Ct 4:7,12; 5:2; 6:9), “pura como o sol” (Ct 6:10).

(2) Quanto ao Êxodo, em três momentos, o Cântico exalta a grandeza inigualável da amada (Ct 3:6; 6:10; 8:5). Em dois desses momentos, se diz que ela sobe “do deserto”. Na segunda vez (Ct 6:10), ela é descrita como “formidável como um exército com bandeiras”, uma descrição militar adequada para a nação que, subindo do deserto, em certa narrativa, invadiu a Terra Prometida. Essa mesma linguagem aparece, um pouco antes, próxima a Jerusalém (Ct 6:4).

No amor do casal, aparece a promessa do “mel e leite” (Ct 4:11), frequentes no Êxodo. As “éguas dos carros de Faraó” (Ct 1:9) também estão presentes. Mais que a do homem, a beleza da mulher é comparada à geografia de Israel e adjacências (1:5; 2:1; 4:2; 4:8,15; 6:4-5; 7:4-5), fazendo referência particularmente a Jerusalém (a capital) e ao norte (a fonte do Jordão).

(3) A associação com Salomão é proposital: o Cântico dos Cânticos faz referência ao Templo de Salomão. Por exemplo: “Como és formoso, amado meu, como és amável! O nosso leito é de viçosas folhas, as traves da nossa casa são de cedro, e os seus caibros, de cipreste.” (Ct 1:16-17)

O cedro e o cipreste (nessa ordem) são as duas madeiras do revestimento do Templo de Salomão, ambas vindas do Líbano (1Rs 6:15). As “viçosas folhas” podem fazer referência aos entalhes e desenhos de árvores no Templo, mas podem também ser uma continuidade do costume patriarcal (abolido a partir do rei Josias) de ter no Templo certas árvores sagradas, que aparecem simbolicamente nos Salmos. A palavra usada para “viçoso” (raʿănān) aparece diversas vezes indicando árvores cultuais abolidas na reforma deuteronômica (Dt 12:2; 1Rs 14:23; 2Rs 16:4; 17:10; Is 57:5; Jr 2:20; 3:6,13; Ez 6:13 etc.), assim como, justamente, em dois salmos que mencionam alegoricamente as árvores no Templo (cf. Sl 52:8; 92:10-14). Esses salmos são resquícios do Templo de Salomão, preservados na música do Segundo Templo (que não tinha árvores).

Semelhantemente, duas vezes a mulher fala de como o amado “apascenta o seu rebanho entre os lírios” (Ct 2:16; 6:3). Os lírios eram os símbolos presentes nas duas colunas do Templo de Salomão (1Rs 7:15,19), de modo que o rebanho era apascentado, de fato, entre elas. Esse rebanho pode indicar os animais dos sacrifícios ou o próprio povo.

Outros símbolos cúlticos, como “monte” e “outeiro” (Ct 4:6), o trono púrpura (Ct 3:10, cf. Nm 4:13-14) e o fio escarlata (Ct 4:3), o ouro e a prata, o incenso (Ct 3:6; 4:6,14), a mirra (Ct 1:13; 3:6; 4:14; 5:1,13), a romã no manto/cabelo (Ct 4:3; 6:7; Êx 28:34; 39:26) e o véu (Ct 4:1,3; 6:7) perpassam o Cântico. Essa união de símbolos sagrados na “amada” aparece também em Ez 16:8-14; ali se fala, por exemplo, de água, sangue e óleo (as três substâncias usadas na sagração do sumo-sacerdote). A tudo isso se soma o fato de que o simbolismo do Templo está em continuidade com o Éden e o Êxodo. Quanto ao véu, particularmente, se diz que o rosto da mulher “brilha” através do véu; ora, o véu é um símbolo de ocultação da glória. Todas essas imagens poderiam, separadamente, fazer parte de outros contextos. É surpreendente que elas estejam juntas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Christus Victor no Novo Testamento: (quase) todos os textos

Esses não são todos os textos, é claro. Outros textos que ensinam sobre o reino de Deus, sobre luz e trevas, morte e vida, são também relevantes para entender esse tema. Além disso, incluí apenas textos do Novo Testamento, embora o tema Christus Victor esteja presente desde o Antigo, particularmente nos textos que falam da vitória de Javé contra os poderes contrários. Eu selecionei os textos que falam de maneira mais clara sobre o confronto de Cristo com as forças das trevas (o pecado, o mundo, a morte, o diabo), assim como nossa libertação resultante; outros temas ligados à recapitulação, por exemplo, e ao papel do Espírito Santo, não foram enfatizados.

De fato, o texto bíblico do Antigo Testamento mais usado no Novo é: “Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.” (Salmos 110:1). É um texto que proclama a vitória messiânica de Jesus sobre os seus inimigos. O fato de ser o mais citado já diz muito sobre como os primeiros cristãos viam Cristo. Comparativamente, Isaías 53:5 aparece apenas uma vez no Novo Testamento (1Pe 2:24), na parte que diz que “por suas pisaduras fomos sarados”. Cura.

Mateus 28:18
Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.

Lucas 11:20-22
Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é chegado o reino de Deus sobre vós. Quando o valente, bem-armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos.

Lucas 22:52-53
Então, dirigindo-se Jesus aos principais sacerdotes, capitães do templo e anciãos que vieram prendê-lo, disse: Saístes com espadas e porretes como para deter um salteador? Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim. Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas.

João 8:31-36
Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres? Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.

João 10:12-15
O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo chegando, abandona as ovelhas e foge; então o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.

João 12:31-33
Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer.

João 13:2
Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus,

João 16:7-11,33
Mas eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque eles não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado. Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.

Atos 2:22-24
Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela.

Atos 26:16-18
Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.

Romanos 5:14,17
No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.

Romanos 6:8-9,18,22
Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele.
E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.
Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.

Romanos 7:6
Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Romanos 8:2,21
Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.
Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

Romanos 14:9
Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e tornou a viver: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos.

1 Coríntios 15:21-26,54-57
Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte.
E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo.

Gálatas 1:3-4
graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do [nosso] Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai,

Gálatas 4:1-9
Digo, pois, que, durante o tempo em que o herdeiro é menor, em nada difere de escravo, posto que é ele senhor de tudo. Mas está sob tutores e curadores até ao tempo predeterminado pelo pai. Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo; vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus. Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos?

Gálatas 6:14-15
Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo. Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura.

Efésios 1:18-22
iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés (…)

Filipenses 2:8-11
a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Colossenses 1:13-14
Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.

Colossenses 2:13-15,20-22
E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.
Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem.

2 Timóteo 1:8-10
Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho,

Hebreus 1:3-4
Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.

Hebreus 2:14-15
Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.

Hebreus 10:12-13
Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés.

1 Pedro 3:22
o qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes.

1 João 3:5,8
Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado.
Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.

Apocalipse 3:21
Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.

Apocalipse 5:5-10
Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos. Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos? Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele. Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono; e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos, e entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra.

Apocalipse 12:5-12
Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono. A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias. Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos. Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida. Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta.

Rev. Gyordano M. Brasilino