Sobre a tradução de Isaías 53 — uma amostra grátis.

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Poucos textos na Bíblia são tão danificados pelas traduções incorretas e crítica textual deficiente quanto o capítulo 53 de Isaías. Eu evito falar disso porque dá muito trabalho explicar tudo. Mas aqui vai uma palhinha sobre Isaías 53:11. O texto é este:

“Depois do sofrimento de sua alma,
ele verá a luz e ficará satisfeito;
pelo seu conhecimento meu servo justo justificará a muitos,
e levará a iniqüidade deles.”

Coloquei, de propósito, a versão NVI. As traduções Almeida (ARC 1995, ACF, ARA, NAA, S21) trocam a conjunção “e” (em negrito) por “porque”. A NVT troca por “pois”. A NTLH preserva a conjunção correta, mas dá seu jeito de mudar as palavras do texto. Além da NVI, uma tradução protestante para português correta, nesse versículo, é a KJA. Comparativamente, as traduções antigas, como a LXX e a Vulgata, todas usam o conectivo equivalente, corretamente. Em inglês, é muito mais fácil encontrar versões protestantes corretas.

Sobre isso, não há o que discutir: a conjunção hebraica (waw) significa “e” mesmo. Por que, então, várias traduções mudam o texto? Basta ler o texto com atenção, para perceber como isso muda a interpretação do versículo e repercute na leitura de todo o capítulo.

O que ocorre é que esse texto se refere, numa interpretação cristã, ao Servo agora exaltado. A primeira parte do versículo situa o momento quando o Servo, depois dos seus sofrimentos, vê o resultado do seu trabalho e fica satisfeito com o que vê, e como ele justifica muitos. Isso significa que o trecho diz “e levará a iniqüidade deles” se refere também ao Servo exaltado. Na interpretação cristã, isso significa que o Cristo exaltado às alturas “levará a iniqüidade deles”. Quando o texto é mudado, dois benefícios são granjeados: primeiro, a justificação é conectada a esse “levar” dos pecados, e a questão do “conhecimento” é um pouco mais apagada; segundo, se torna possível separar temporalmente esse trecho final do restante do versículo.

Ou seja: o Servo exaltado carrega os pecados desses “muitos”. Isso gera um problema para a Substituição Penal, porque essa leitura encara esse “carregamento” de pecados como significando uma punição (substitutiva), pelos pecados dos homens, caindo sobre Cristo. Mas isso não é possível, pois não há nenhum sentido em dizer que o Servo exaltado é punido depois dos seus sofrimentos. Então você muda o texto bíblico, preserva a doutrina e elimina o problema.

O significado do texto, na verdade, é outro. Quando se diz que o Servo exaltado leva as iniquidades dos homens, o sentido é sacerdotal. Assim com os animais oferecidos em sacrifício, o sumo-sacerdote carregava os pecados dos homens (cf. Êx 28:38; Lv 10:17; Nm 18:1). Quando conectamos isso ao ofício do Cristo exaltado, sumo-sacerdote que intercede por nós hoje (cf. Rm 8:34; Hb 7:25; 9:24), assim como ao trecho seguinte de Isaías (v. 12: “e intercedeu pelos pecadores”), entendemos o que significa “carregar os pecados”: significa assumir a responsabilidade de interceder por eles, por sua expiação (purificação). Não tem relação com punições substitutivas ou coisa do tipo.

Que diferença isso faz? Isso repercute na leitura do restante do capítulo. Como eu já mostrei algumas vezes, a expressão “carregar os pecados” e equivalentes pode significar muitas coisas na Bíblia. Isso é um indício de como essa expressão deve ser interpretada no contexto de Isaías 53, particularmente nos vv. 4-6, e concorda inteiramente com o modo como Mt 8:16-17 interpreta o “tomou sobre si as nossas enfermidade”, ou seja, não ficando doente em nosso lugar, mas resolvendo o nosso problema, trazendo cura. Ou seja: se compadeceu, como sacerdote. Daí a imagem do v. 4: “as nossas dores levou sobre si”, trecho que usa o mesmo verbo (sāḇal) que o v. 11. Isso ilumina particularmente a linguagem sacerdotal de textos como Rm 15:1-3 e Gl 6:1-2:

“Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação. Porque também Cristo não se agradou a si mesmo; antes, como está escrito: As injúrias dos que te ultrajavam caíram sobre mim.”

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.”

Ou seja, essa linguagem tem a ver com o sofrimento da paciência, não com o sofrimento da punição. Curiosamente, essa é a interpretação do Targum Jonathan, uma paráfrase aramaica judaica que faz leitura messiânica do texto. Ele traduz continuamente o “carregar” pecados, em Isaías 53, como orar ou interceder pelos pecados dos homens e agir para resolver o seu problema.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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