Os Nove Problemas Principais com a Substituição Penal

Jesus Christ, the Suffering Servant - Seedbed

Em suma, a Substituição Penal é a teoria segundo a qual a morte de Cristo teve o propósito de satisfazer a ira de Deus contra o pecado, para que os homens fossem perdoados. Ela é penal porque há uma punição aplicada sobre Jesus, feita por Deus Pai (não apenas um sofrimento autorizado e conduzido pela providência divina, mas uma punição do Pai sobre o Filho); ela é substitutiva porque Cristo estaria recebendo essa punição no lugar dos homens (não apenas com eles, por exemplo).

A depender da versão, algumas dessas palavras podem ser modificadas: alguns defensores da teoria não veem aí o único propósito, mas talvez o principal, um dos principais ou mesmo um propósito secundário. Esses homens perdoados podem ser apenas os eleitos (o que eu considero mais consistente com a teoria). Também a depender da versão, isso se dá assim porque Deus Pai não poderia perdoar os homens sem aplicar uma punição sobre alguém, isso seria incompatível com sua justiça, então ele não teria essa liberdade; ou porque, embora o possa, Deus Pai não o quis fazer, por algum motivo inquestionável, preferiu aplicar uma punição que não era necessária.

Aqui estão o que para mim são, numa versão simplificada, os nove motivos principais por que essa teoria é incorreta e não condiz com as Escrituras Sagradas e com a doutrina cristã. Há outros problemas, e cada um destes problemas pode ser expandido e demonstrado com maiores detalhes. Alguns desses outros problemas são sérios, mas exigem uma explicação mais detalhada, como o modo como a Substituição Penal contradiz a doutrina bíblica da Redenção Universal (que Cristo morreu em favor de todos os homens, mesmo aqueles que se perderão). Eu costumo dizer: a Substituição Penal é uma solução errada para um problema inexistente. Os motivos abaixo ajudarão a entender isso.

  1. O Problema do Perdão

Esse é, talvez, um dos problemas mais óbvio: se Cristo teve que pagar pelo “perdão” da dívida penal dos homens, então esse perdão não é realmente gratuito e, na verdade, não é perdão de modo nenhum. Perdoar uma dívida é não cobrar o seu pagamento. Cobrar a outra pessoa, substitutivamente, não é perdoar a dívida. Na Substituição Penal, a dívida não é eliminada, é paga, e não é preciso pensar muito para entender que perdoar uma dívida e pagar uma dívida são coisas diferentes. A reação a essa crítica é de tipos variados, mas geralmente envolve lançar para debaixo do tapete o fato de que é um perdão de uma dívida.

Mateus 18:27
E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida.

  1. O Problema da Dívida

Ao contrário do que essa teoria ensina, Cristo nos ensina a pedirmos perdão por nossas dívidas, no Pai Nosso, significando que a dívida ainda existe, e nos ensina, mais ainda, que devemos perdoar assim como fomos perdoados. Nós não exigimos pagamento quando perdoamos alguém. Na verdade, não há, na Palavra de Deus, qualquer sugestão de que Cristo tenha pago as dívidas dos homens.

Mateus 6:12
e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores;

  1. O Problema do Sacrifício

A Substituição Penal envolve uma profunda incompreensão de como funcionavam os ritos sacrificiais e expiatórios da Antiga Aliança. Em síntese: nem todo sacrifício (mesmo envolvendo morte) era expiatório, ao passo de que nem todo sacrifício expiatório envolvia morte (havia expiação através de plantas, azeite, incenso, dinheiro, esmola, oração etc.). A morte não era da essência da expiação na lei; quando ela acontecia, ela era um meio para que o sangue (vida) fosse oferecido no altar. Fazia-se expiação por coisas e lugares, assim como por pessoas com alguma doença (como leprosos) ou condição física especial (como mulheres após o parto), não só por pessoas culpadas. Esses exemplos são relevantes para entender o que significava expiação na Lei.

Em nenhum lugar, a Escritura sugere ou atribui aos sacrifícios um caráter penal, como se o animal sofresse uma punição (morte) substitutiva, mesmo porque certos sacrifícios eram feitos por pecados que não levavam à morte. Embora se possa alegar que toda morte é penal, isso não tem nenhuma relação com a expiação, pois um animal morto para uma refeição comum e um morto para um sacrifício morriam igualmente. A diferença entre eles não era a morte, mas sim o que acontecia com o sangue.

O Antigo Testamento assinala o processo de espiritualização dos sacrifícios, de modo que a essência do ritual expiatório consistia na entrega do coração arrependido, não na morte em si.

Números 16:46
Disse Moisés a Arão: Toma o teu incensário, põe nele fogo do altar, deita incenso sobre ele, vai depressa à congregação e faze expiação por eles; porque grande indignação saiu de diante do Senhor; já começou a praga.

Salmos 51:16-17
Pois não te comprazes em sacrifícios; do contrário, eu tos daria; e não te agradas de holocaustos. Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.

  1. O Problema do Sofrimento

Isto é absolutamente crucial: as Escrituras Sagradas nos ensinam que nós somos salvos participando e comungando dos sofrimentos de Cristo. Assim como Cristo entrou na glória através dos sofrimentos, nós participamos de sua glória participando dos seus sofrimentos. Isso começa no Batismo, no qual nós somos unidos à morte de Cristo (Rm 6:3-4), mas continua nas aflições do evangelho:

Romanos 8:17
Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.

Filipenses 3:10-11
para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos.

Assim, sofrer por Cristo é um sinal da habitação do Espírito Santo (1Pe 4:13-14). Mas um cuidado é necessário. Com isso, não dizemos que Deus deseje o nosso sofrimento por si mesmo, como um deus sádico contemplando com prazer nossas dores. O que Deus nos pede não é o sofrimento em si, mas a paciência, a obediência, o amor em meio aos sofrimentos. Esse esclarecimento aparece em 1Pe 2:20-21, num momento em que os cristãos da Ásia Menor sofriam o fogo das hostilidades (sinalizada também pelo Apocalipse de São João):

1 Pedro 2:20-21
Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo [hypogrammos], para que sigais as suas pisadas.

Isso afeta diretamente o modo como vemos o próprio sofrimento de Cristo, pois nós participamos desse sofrimento. Não se trata de um sofrimento necessário em si mesmo, mas um meio para que a obediência de Cristo reluza. Foi por obedecer até à morte de cruz que Cristo foi exaltado soberanamente, tendo um nome diante do qual todo joelho deve se dobrar, todos os inimigos sendo postos por escabelo dos seus pés. Sua vitória sobre principados e potestades é um prêmio pelos seus sofrimentos.

Em suma: os sofrimentos de Cristo são participativos, não substitutivos. Ele bebeu o cálice (Mc 14:36) e ensina que os discípulos também iriam beber (Mt 20:22-23). Jamais se diz que ele carregou a cruz no lugar dos discípulos, antes ele os chama a carregar a cruz com ele. Se é assim, então seus sofrimentos não podem ser uma substituição penal.

  1. O Problema da Ira

Entre a Bíblia e a Substituição Penal, há uma profunda diferença no modo como a ira de Deus é retratada. Há vários fatores importantes: I. Ela pode ser sofrida pelos filhos de Deus, portanto não foi “esgotada” por Jesus; II. Ela não dura para sempre (até ser satisfeita); III. Por isso, a ira de Deus pode ser esgotada pelos homens (e, se o propósito da obra de Cristo fosse esgotar substitutivamente a ira de Deus, seria realmente desnecessária e supérflua.). IV Deus não precisa realiza-la inteiramente, e em vários momentos não o fez. V. Não se dirige a inocentes.

Salmos 90:7
Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos angustiados.

Miqueias 7:9
Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra ele, até que julgue a minha causa e execute o meu direito; ele me tirará para a luz, e eu verei a sua justiça.

Salmos 30:5a
Porque não passa de um momento a sua ira…

Isaías 51:17
Desperta, desperta, levanta-te, ó Jerusalém, que da mão do Senhor bebeste o cálice da sua ira, o cálice de atordoamento, e o esgotaste.

Ezequiel 16:40–42
“Farão subir contra ti uma multidão, apedrejar-te-ão e te traspassarão com suas espadas. Queimarão as tuas casas e executarão juízos contra ti, à vista de muitas mulheres; farei cessar o teu meretrício, e já não darás paga. Desse modo, satisfarei em ti o meu furor, os meus ciúmes se apartarão de ti, aquietar-me-ei e jamais me indignarei.

Oséias 11:9a
Não executarei o furor da minha ira…

Salmos 78:38
Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade e não destrói; antes, muitas vezes desvia a sua ira e não dá largas a toda a sua indignação.

Ezequiel 18:20
A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.

  1. O Problema da Ressurreição

A Escritura Sagrada conecta nossa salvação não só à morte de Cristo, mas também à sua ressurreição, de modo que nossa esperança da vida eterna se fundamenta (também) nessa ressurreição. Sem a ressurreição, nossa esperança é em vão. Cristo não apenas morreu por nós, mas ressuscitou por nós. Mas se a justificação consiste em uma transação penal, não é possível encontrar um lugar importante para a ressurreição. Então a Substituição Penal coloca um obstáculo para reconhecer o valor da ressurreição na orgânica na salvação.

Romanos 4:25
O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação.

1 Coríntios 15:17
E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.

1 Pedro 1:3
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,

  1. O Problema da Equivalência

Se os sofrimentos ou a morte de Cristo são uma punição substitutiva, se Cristo recebeu o que os homens mereciam, a pergunta que se levanta é: como se dá essa equivalência? Pois, óbvio, os sofrimentos de Cristo não são idênticos à condenação que o homem merece: a condenação eterna. Cristo não foi condenado eternamente e não foi ferido pelas chamas do Inferno.

Então como se dá a equivalência entre os sofrimentos temporais de Cristo e a salvação eterna dos homens? Certo ramos dos defensores da teoria alega que os padecimentos de Cristo, por serem os sofrimentos do Deus-homem, têm valor infinito, suficiente para satisfazer penalmente pelo que os homens sofreriam eternamente. Concedamos por um instante essa “equivalência”. O problema não foi eliminado, mas agora migrou: se o valor do sofrimento de Cristo é infinito simplesmente por ser quem ele é, então qualquer sofrimento de Cristo já seria suficiente. Ele não precisaria passar pela cruz. Uma só bofetada em seu rosto já seria sofrimento mais do que suficiente.

Então eis o dilema do defensor da Substituição Penal: ou afirma o valor infinito de qualquer sofrimento de Cristo, tornando a cruz supérflua no seu esquema de satisfação-equivalência; ou nega o valor infinito, e assim fica sem solução para o problema inicial (a compensação dos sofrimentos punitivos eternos pelos sofrimentos passageiros).

  1. O Problema Cristológico

A Substituição Penal contradiz a Trindade de alguns modos. Um modo é a afirmação de alguns defensores dessa teoria: a de que Cristo foi espiritualmente abandonado pelo Pai por um momento, coisa que é realmente impossível para quem entende que a comunhão entre o Pai e o Filho é imutável e eterna. É preciso ser justo: essa blasfêmia não é afirmada por todos os defensores da Substituição Penal, embora esteja presente em boa parte dos defensores mais populares.

Outra contradição diz respeito à Trindade econômica, isto é, o funcionamento da Trindade na história, particularmente na história da salvação. Cabe ao Filho, não ao Pai, realizar todo o juízo. Nesse sentido, não faz nenhum sentido dizer que, na cruz, o Filho sofre o juízo do Pai (substitutivamente), se é justamente o Filho quem realiza juízo. Assim, a teoria da Substituição Penal contradiz o modo como a Trindade age na história.

João 5:22,27
E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.

9. O Problema da Injustiça

São dezenas os textos bíblicos que explicam o mesmo: Deus pune o pecador, ou seja, a pessoa que realiza o pecado. Deus não toma o culpado por inocente. Ao contrário do que querem os defensores da Substituição Penal, Deus não pune o pecado. Deus pune o pecador. Por isso, não há transferência de culpa. É assim que Deus descreve sua própria justiça.

Provérbios 17:15,26
O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o Senhor, tanto um como o outro. Não é bom punir ao justo; é contra todo direito ferir ao príncipe.

Isso levanta várias questões sobre casos bíblicos (mal interpretados) de punições de nações, castigos geracionais etc., mas em nenhum desses casos há um réu substituto ou uma punição substitutiva. De todo modo, o problema colocado aqui não é a existência do sofrimento do inocente, mas a punição do inocente, negada pelas Escrituras.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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