Nós já nascemos mortos?

Memento mori, o recado que todo homem deveria lembrar

Uma pessoa me fez uma pergunta que considero importante porque diz respeito ao modo como as pessoas leem a Bíblia, sem muita noção de como manusear as figuras de linguagem que ela apresenta. A pergunta foi mais ou menos a seguinte: se nós já nascemos mortos (espiritualmente), por que Romanos 7:5 ensina que essa morte é consequência dos nossos pecados?

A lógica é: se você já está morto, não faz sentido morrer de novo. O que essa pergunta presume, e que está na cabeça de muita gente, é que você deve tratar a morte espiritual do mesmo modo que trata a morte corporal. Em vez de limitar a figura de linguagem ao seu contexto próprio, se tenta tratá-la como uma explicação completa de uma dada condição. E tudo sempre naquela lógica disjuntiva exclusiva: ou é isto ou é aquilo. Na verdade, o mais comum é que na Bíblia a resposta seja: é as duas coisas.

Isso é muito comum. Todo mundo já viu algum calvinista mal informado de internet argumentar que, se chagamos ao mundo espiritualmente mortos, não temos livre arbítrio porque, em tese, “morto não faz nada” (o que só é verdade para quem pensa como ateu). É a extrapolação de uma figura de linguagem.

Embora não haja um texto na Bíblia que ensine explicitamente que nascemos espiritualmente mortos (isto é, separados da comunhão com a vida divina), isso pode ser deduzido do que Paulo ensina sobre o pecado em Romanos 5:12-21 (texto que não distingue entre morte corporal e morte espiritual). É nesse sentido que o Concílio de Orange fala do pecado adâmico como “morte da alma”. Uma pessoa assim não está morta em todos os sentidos, mas apenas sem comunhão com Deus.

Mas é certo que o mais comum, na própria bíblia, é que a morte espiritual seja vista como resultado dos nossos próprios pecados: “as paixões pecaminosas… operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte” (Rm 7:5), “se viverdes segundo a carne, morrereis” (Rm 8:13), “estando vós mortos em ofensas e pecados” (Ef 2:1), “o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1:15). Esse segundo lado é mais esquecido pelas pessoas que acham que, uma vez vivificadas em Cristo, não podem mais sofrer morte espiritual. O que é falso, segundo esses e outros textos.

Contudo as coisas não terminam por aí. A metáfora da morte tem outros usos, como quando Paulo diz: “estou morto para a lei, para viver para Deus” (Gl 2:19). É ainda outra morte.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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