O que Deus acha de punir um inocente?

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Cristo morreu como um inocente completo e absoluto, sem qualquer culpa. Em qualquer discussão sobre o propósito da sua morte no plano divino, em algum momento a questão da sua inocência vem à tona. Os Evangelhos pintam a cena de seu julgamento como envolvendo uma mistura de testemunhos mentirosos, inveja, pressão, interesses políticos e ignorância, pois só uma mistura dessas coisas poderia levar à condenação de um inocente. Aqueles que hoje acreditam que, além de ser um inocente sofrendo na justiça humana, Cristo também era um inocente sofrendo na justiça divina, isto é, que Cristo foi punido pelo Pai no lugar dos homens, precisam lidar com o fato de que Cristo era inteiramente inocente. É justo punir um inocente? Pois podemos facilmente dizer que o tribunal humano que condenou Cristo foi injusto. Mas não podemos dizer o mesmo do tribunal divino. Juízo e justiça são a base do trono de Deus.

O que Deus pensa dessa questão? Nosso instinto moral nos dirá que é injusto punir inocentes, e não esperamos que Deus, o juiz mais justo de todos, nos diga algo diferente. De fato, demonstrar que é injusto punir inocentes é quase como tentar provar que a grama é verde. Essa é uma regra tão universal, presumida por todas as nossas reflexões éticas e sistemas jurídicos, que é estarrecedor que precise ser dita ou que se precise argumentar em seu favor. Todos aqueles que leem sabem, no fundo, que há profunda injustiça em punir um inocente. Mas como há quem afirme que Deus pode punir inocentes (ao menos no caso de Jesus), é importante visualizar como as Escrituras colocam essa questão, não só na rejeição completa da punição de inocentes, como na linguagem com que essa rejeição aparece.

Um primeiro grande exemplo na Bíblia é o da destruição da cidade ímpia de Sodoma, a cidade de Ló, pela qual Abraão intercedeu. Javé revela a Abraão que a cidade será destruída pois “o seu pecado é gravíssimo” (Gn 18:20). No entanto, aquela palavra pareceu dura a Abraão, que inicia uma “luta” com Deus em oração, tentando encontrar a possibilidade de que, em razão dos justos que morassem ali, a cidade não fosse condenada.

Gênesis 18:23-25
“E, aproximando-se a ele, disse: Destruirás o justo com o ímpio? Se houver, porventura, cinquenta justos na cidade, destruirás ainda assim e não pouparás o lugar por amor dos cinquenta justos que nela se encontram? Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”

Para Abraão, era uma questão clara: Deus não iria destruir o justo com o ímpio. Seria injustiça dar a ambos a mesma punição. Há aí uma conexão direta com a justiça (mišpāṭ) de Deus. A justiça de Deus exige que o justo não sofra a mesma punição do ímpio. Que esse não é só um pensamento de Abraão, mas algo com o que Deus concorda, mostram as sucessivas respostas que Deus dá a Abraão, a começar desta: “Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a cidade toda por amor deles.” (18:26). Os injustos são poupados por amor aos justos, para que os justos não sejam punidos em razão dos ímpios. É preferível, para Deus, dar temporariamente o destino dos justos aos ímpios do que dar o destino dos ímpios aos justos (cf. Is 65:8; Jr 5:1; Ez 22:30; Mt 24:22). Portanto há um claro pendor, na justiça divina, para a misericórdia, não para a severidade. De fato, todos os caminhos de Deus são justiça (Dt 32:4).

Esse não é o único caso em que a Escritura Sagrada coloca a justiça de Deus ao lado do inocente. Outros exemplos são estes:

Êxodo 23:6-8
“Não perverterás o julgamento do teu pobre na sua causa. Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, porque não justificarei o ímpio. Também suborno não aceitarás, porque o suborno cega até o perspicaz e perverte as palavras dos justos.”

Deuteronômio 24:16
“Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado.”

Provérbios 6:16-19
Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos.”

Provérbios 17:15,26
“O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o Senhor, tanto um como o outro. Não é bom punir ao justo; é contra todo direito ferir ao príncipe.”

A Escritura condena, em vários momentos, a injustiça de matar o justo ou o inocente (Dt 19:10,13; 1Sm 19:5; 2Rs 21:16; 24:4; Sl 94:21; 106:38; Pv 1:11; Is 59:7; Jr 7:6; 22:3,17; 26:15; Jl 3:19; Mt 27:4; Tg 5:6 etc). Por isso, o próprio Cristo, como inocente, se lançava nas mãos “daquele que julga justamente” (1Pe 2:23), o que não faria nenhum sentido se aquele que julga justamente o estivesse punindo por pecados de outras pessoas. O que Cristo fez foi se entregar aos cuidados daquele que não pune inocentes e que não apoia a punição de inocentes.

Nesse sentido, ao rejeitar a punição do inocente, a Escritura Sagrada sustenta que somente o culpado pode ser punido. Há um vínculo entre um mal praticado, uma pessoa que o cometeu e uma punição: “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim.” (Êxodo 32:33). Numa linguagem muito semelhante, o profeta Ezequiel transmite o oráculo da justiça divina: “a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18:4). Cada um é julgado por suas próprias obras. De fato, o trecho de Ezequiel merece muita atenção:

Ezequiel 18:1-4,19-24
Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.
Mas dizeis: Por que não leva o filho a iniquidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo, e guardou todos os meus estatutos, e os praticou, por isso, certamente, viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este. Mas, se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é reto e justo, certamente, viverá; não será morto. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela justiça que praticou, viverá. Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? — diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Mas, desviando-se o justo da sua justiça e cometendo iniquidade, fazendo segundo todas as abominações que faz o perverso, acaso, viverá? De todos os atos de justiça que tiver praticado não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu e no seu pecado que cometeu, neles morrerá.

Ezequiel, assim como Jeremias, profetizava o juízo da nação de Israel naquele momento. Era um juízo nacional, intimamente ligado aos pecados das gerações anteriores e, mesmo assim, o profeta indicava a responsabilidade individual. Para Ezequiel, Deus não pune inocentes. Isso é importante porque a resposta mais comum a esse princípio, por parte dos que acreditam que Deus pode punir inocentes, é assinalar casos bíblicos de juízos sobre famílias e nações, os quais podem, segundo se argumenta, envolver a punição de inocentes. Embora esses textos sejam importantes e testemunhem a amplitude com a qual a Escritura trata essa questão, as coisas nunca são tão simples. Mesmo nos textos bíblicos escritos em condições em que se vislumbra responsabilidade coletiva, nesses casos sempre existe a possibilidade do repúdio mal, para que não haja conivência coletiva (cf. Dt 21:1-9).

Na verdade, toda essa questão desaparece inteiramente se percebermos que, na execução da condenação, o juiz não é o Pai, e sim o Filho (Jo 5:22,27), e que, portanto, o Filho não foi, de modo algum, condenado pelo Pai.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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