Jesus era inclusivo? 16 razões por que a Comunhão deve vir depois do Batismo.

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A Tradição cristã ensina que a Santa Comunhão só deve ser recebida por batizados. Ao menos ordinariamente, é assim, e a maioria dos cristãos reconhece essa restrição. No entanto, aqueles de tendência mais biblicista sempre acabam perguntando se existe um fundamento nas Escrituras para essa limitação. Cristãos de tendência mais pós-moderna, apaixonados por uma ênfase particularmente aguda na inclusividade, tendem a não ver propósito nessa restrição. Seria uma marca da ‘religiosidade’ do passado, a ser eliminada.

Pretendo oferecer aqui o que considero serem razões corretas por trás dessa restrição. Defenderei que o Batismo é exigido antes da participação na Comunhão. (Não está em jogo, aqui, se há ou deve haver, canônica ou teologicamente, requerimentos ulteriores, como algum processo de catecumenato, Primeira Comunhão ou Confirmação, para a participação na Comunhão. Simplesmente não é o que se discute aqui. Queremos saber se um não-batizado pode participar do sacramento.)

É importante observar que os motivos que eu ofereço só fazem sentido quando tratamos os sacramentos como mais do que apenas símbolos. Para aqueles que veem o Batismo como “mero símbolo” e a Santa Comunhão do mesmo modo, usar um como limitação do outro é apenas questão de conveniência e ordem pública, mas sem um motivo espiritual grave. Assim sendo, a Igreja poderia mudar essa restrição sem efeitos sérios, caso julgasse que seria pastoralmente benéfico em alguma situação. Para alguém que pensa assim, os motivos que eu ofereço não parecerão mais do que analogias rarefeitas.

No entanto, se os sacramentos são realmente sacramentos, sinais e mistérios sagrados, isto é, se eles realmente invocam e selam forças espirituais (“graça”), se eles provocam um impacto espiritual sério, se realmente eles nos introduzem na esfera sobrenatural, se eles têm mais em comum com a magia do que com uma placa de trânsito, a coisa muda de figura. Aqui não tentarei provar que os sacramentos são essas coisas. Falo apenas aos que já lhes dão uma importância maior, e que estão convencidos de que essa posição é correta de acordo com a Escritura ou a Tradição.

Antes dos motivos, é importante dizer que nem todas as pessoas estão aptas a participar da Eucaristia, como Paulo escreve em 1Co 11. Isso pode inclusive ser ruim para elas. A eletricidade é muito útil, mas você não mexe com ela a menos que esteja devidamente protegido e preparado. Uma falha pode ser fatal. Esse é, inclusive, um dos motivos pelos quais sabemos que, para Paulo, o sacramento não era só um símbolo. Uma encenação não deveria ser capaz de fazer alguém adoecer, morrer e ser condenado. Então o sacramento não é e não deve ser para todo mundo. Não se trata de privar as pessoas de um bem, mas de evitar que esse bem as prejudique.

Eis dezesseis motivos pelos quais é mais sensato pensar que o Batismo é um requisito para a participação na Eucaristia:

1. Em Mt 7:6, lemos: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.” Esse texto bíblico, desde muito cedo, foi aplicado ao Batismo pelos cristãos, como registra a Didaquê (documento provavelmente do século I d.C). Não é difícil entender a lógica por trás dessa aplicação: Cristo ensina que coisas santas e preciosas (e a Eucaristia é uma coisa santa e preciosa) não devem ser dadas aos cães ou porcos (impuros, fora da comunidade). Nem todo mundo pode receber o que é precioso e santo. Como o Batismo torna alguém parte da comunidade (cf. 1Co 1:13; 12:13), ele se torna, no mínimo, um requisito para a condição de participante de alguém que pertence à comunidade. Esse argumento leva em conta uma lógica de pureza (limitando a hospitalidade) que se repetirá em argumentos posteriores.

2. Como indica implicitamente o texto de João 3:25-26, o Batismo (de João, ainda) era entendido como uma purificação. A lógica ritual da Bíblia é de que aqueles que estão puros podem participar dos ritos da comunidade, particularmente dos sacrifícios. Isso certamente inclui a Eucaristia.

3. Como lemos em Êx 12:44,48, somente os circuncisos poderiam participar da Páscoa. Ora, Cristo é a Páscoa da qual participamos (1Co 5:7-8), e a nossa circuncisão ocorre no Batismo (Cl 2:11-12). (Observe-se que o Batismo assume tanto o papel dos ritos de purificação com água quanto da circuncisão.)

4. Em linha com o que se disse até aqui, lemos em Hb 10:19-22: “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” Esse texto, por si mesmo, já mostra a necessidade de que tenhamos o corpo lavado com água pura (Batismo) para adorarmos a Deus como devemos. Mas a referência dupla ao sangue e à carne de Cristo parece ser alusão ao mistério cristão da Comunhão, no qual chegamos a Deus, entrando no Santo dos Santos. Mais uma vez, temos a lógica de pureza (“água pura”, cf. Ez 36:25).

5. Em Mt 28:19, os apóstolos recebem a missão de discipular pessoas de duas maneiras: batizando-os e ensinando-os a guardar o que Cristo ensinou. No contexto desse evangelho, aprender a guardar o que Cristo ensinou inclui a participação na Comunhão. O texto presume que, embora haja uma missão para todas as nações, a obediência a Cristo se dá no contexto da formação de discípulos.

6. Aprendemos em textos como 1Co 1:13; 12:13; Ef 4:4-7 e outros que o Batismo assinala nossa pertença à unidade da Igreja. Ora, o mesmo se diz da Eucaristia em 1Co 10:16. Ora, por uma questão de coerência eclesiológica, essas duas coisas só fazem sentido se aquele que participa do segundo sacramento também recebeu o primeiro.

7. Como o Batismo cristão é recebido apenas uma vez, ao passo que a Comunhão é recebida muitas vezes, é muito mais coerente encarar o Batismo como a entrada na comunidade e a Eucaristia como uma continuação nela.

8. No Novo Testamento, o Batismo era feito com certa urgência, sem muita preparação ou ensino prévios. Não se nota a mesma urgência quanto à participação da Eucaristia, ainda que ela seja central. Esse padrão é mais coerente com visualizar o Batismo como antecedendo a Eucaristia.

9. Enquanto o Batismo nos introduz na realidade escatológica futura, o mundo Vindouro (At 2:38; Rm 6:3-7; Gl 3:26-28; Cl 2:12 etc.), a Eucaristia corresponde ao Banquete escatológico do cordeiro (cf. Mc 14:25; Lc 22:30 etc.). Ora, essa vinculação escatológica, por analogia, faz com que aquilo que está ligado no futuro (no “ainda não”) esteja ligado também à sua iniciação presente (no “já”). Assim, se o Banquete pertence ao Mundo Vindouro, a Comunhão pertence ao Batismo.

10. Uma vez que é no Batismo que nos revestimos de Cristo, é nele que recebemos nossa filiação (cf. Gl 3:26-28). Ora, é absurdo que haja comunhão entre os que vivem como filhos de Deus e os que não vivem.

11. Como aprendemos em At 2:38 e noutras partes, no Batismo nós recebemos a remissão de pecados (necessária). Como podemos ter comunhão com Cristo na Eucaristia (1Co 10:16-17) sem a remissão de pecados? Impossível.

12. Aprendemos em Jo 3:3-5 que somente podem ver o reino de Deus aqueles que nascerem do alto, isto é, da água e Espírito. A maioria dos cristãos interpreta essa “água” como indicando o Batismo. Se a Eucaristia pertence ao reino de Deus, ela não pode estar separada do Batismo.

13. Em 1Co 10:1-4, o apóstolo Paulo faz uma leitura alegórica da história da libertação da nação de Israel, aplicando-a aos sacramentos cristãos do Batismo e da Eucaristia. Há uma sequência no texto: primeiro, cruzou-se o mar; depois, bebeu-se da rocha. Primeiro os israelitas foram libertos, depois foram alimentados por Deus. Essa coerência narrativa parece presumir a sequência entre Batismo e Eucaristia.

14. Comunhão presume aliança. Ora, a Eucaristia é comunhão (1Co 10:16-17). Se o Batismo, enquanto circuncisão, envolve aliança (cf. Gn 17:10), a Eucaristia presume o Batismo.

15. Na vida de Cristo e na narrativa dos Evangelhos, o Senhor foi precedido por João Batista, o pregador do Batismo. Esse precursor tem o trabalho de anunciar a preparação para o que Cristo depois faria. O Batismo de João batista deu lugar ao Batismo cristão, mas, ao colocarmos o Batismo antes da Eucaristia, nós preservamos a sequência da vida de Cristo (que só instituiu a Eucaristia perto do fim). Há uma coerência narrativa e cristológica, pois revivemos a história de Jesus.

16. Em At 2:38 e outros textos, vemos que recebemos o Espírito Santo através do Batismo. Em 1Co 10:16, temos comunhão com Jesus através da Eucaristia. Ora, se é através do Espírito Santo que temos comunhão com Jesus, o Batismo deve preceder a Eucaristia.

Embora eu tenha prometido dezesseis motivos, o leitor atento notará que esses motivos têm vários semelhanças entre si. Eles formam um padrão: preparação-comunhão, uma lógica de pureza. Esses motivos podem permitir que outros sejam vistos, seguindo a mesma lógica de observar os traços tipológicos e os benefícios do Batismo, e enxergar como eles fazem mais sentido se o Batismo precede a Eucaristia.

Mas Jesus limitaria a mesa? Essa é uma pergunta importante a se fazer. O que Jesus faria? Mas inevitavelmente, a resposta que damos a essa questão está ligada o modo como vemos Jesus, a imagem que fazemos dele e, nesse ponto, limitamos a sua liberdade nessa questão. O que podemos fazer é, no máximo, refletir a partir dos registros de Jesus. Se tomarmos os evangelhos canônicos como parâmetro — e a própria noção de “evangelhos canônicos” já presume certa seleção exclusiva —, notaremos que há motivos encontrar, na imagem de Jesus, tanto exclusividade quanto inclusividade, em suas ações e palavras.

Vemos nas atitudes de Jesus aquilo que nós poderíamos chamar hoje de inclusividade. Ele comeu e andou com pecadores e publicanos (como Zaqueu); visitou e pregou a inimigos do seu povo (como os samaritanos); convocou crianças; ensinou a mulheres; tocou leprosos; conviveu com os pobres. Ele disse que não veio chamar os justos, mas sim os pecadores. Ele foi até aqueles que nós poderíamos chamar de “excluídos”, os impuros, os de fora. Ele disse: “quem não é contra nós é por nós” (Mc 9:40). Vemos em Jesus uma hospitalidade acolhedora para com todos esses diminuídos. Essas e outras coisas atravessam os evangelhos.

Por outro lado — eu sei que vocês já esperavam por isso —, vemos também no Jesus canônico uma representação da tendência inversa. Ele disse que veio apenas para os perdidos da casa de Israel — perdidos (inclusividade!) mas da casa de Israel (restrição) —, e ensinou os seus discípulos a evangelizarem apenas judeus; ele ensinou que aquele que não desse ouvidos à Igreja deveria ser tratado “como um gentio e publicano”, isto é, como alguém de fora; ele ensinou que não se deveria dar as coisas preciosas e santas aos impuros (cães e porcos); ele falou em parábolas para não ser entendido pelos de fora. Aliás, embora tivesse uma mensagem universal, Cristo em alguns momentos guardava segredos para aqueles que os pudessem reter, até o momento certo, como na ressurreição da filha de Jairo, na Transfiguração, no Gêtsemani e na própria instituição do sacramento. Vemos, no discurso de Jesus, a possibilidade da perdição eterna, das Trevas Exteriores, e o ensinamento de que “porque estreita é a porta e apertado é o caminho que leva à vida, também poucos há que a encontrem.” (Mateus 7:14). A porta estreita e o caminho apertado são símbolos de exclusão. Poucos encontram o caminho, essas são as palavras terríveis de Jesus nas Escrituras. Por isso, ele diz a alguns: “apartai-vos de mim”. Na Parábola das Bodas de Mt 22, depois de fazer um convite a que todas pessoas participem do banquete, o rei manda retirar da festa uma pessoa que entrou sem as vestes adequadas (vv. 11-13). (É interessante observar que a versão de Lc 14 não tem esse trecho, e que Mateus geralmente tende um pouco mais à exclusividade do que Lucas.)

Então vemos inclusividade e exclusividade, e a única maneira de preservar essa tensão é não tentar eliminar um dos dois polos, que emergem por haver uma dualidade contraditória, não em Jesus, mas em nós. Essa dupla tendência aparece belamente nas palavras finais do Apocalipse: as portas da cidade estarão sempre abertas (21:25-26; cf. Is 60:11), mas podem entrar apenas os que lavaram as suas vestes (22:14).

Eu tenho muita simpatia pelos amigos e irmãos que em em Jesus uma mensagem de hospitalidade irrestrita. Eu diria que tenho mais em comum com eles do que com quem vê apenas o Jesus exclusivista, pois também eu quero ser incluído. No entanto, julgo que não encontramos, nas palavras de Cristo nos evangelhos, uma mensagem de comunhão sem restrições. Cristo ressignificou os padrões de pureza, mas não eliminou a noção de pureza em si. Sem isso, qualquer discurso sobre a necessidade de conversão e transformação é sem sentido.

Há um vínculo profético entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico. Onde houver a possibilidade de exclusão no banquete escatológico — “ficarão de fora” (Ap 22:15), “serão lançados para fora” (Mt 8:12) —, deve haver, pelas mesmas razões (mas segundo nossas limitações), possibilidade de exclusão do banquete eucarístico presente, pois “com o tal nem ainda comais” (1Co 5:11). O Batismo, enquanto transição profética, é o momento adequado para assinalar a mudança inclusiva. O sacramento da fonte é a inclusividade de Cristo, a declaração divina de que, pela graça, a partir de agora certas pessoas estão incluídas na comunidade do futuro.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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