Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal?

Prague The Fresco Of Baptism Of Jesus In Church Kostel Svatého Václava By S  G Rudl Stock Photo - Download Image Now - iStock

Como eu gosto de dizer, poucas doutrinas são tão uniformes e indisputáveis, entre os Pais da Igreja, como a doutrina da Regeneração Batismal. De fato, ela é mais uniforme do que a própria doutrina da Trindade. Enquanto jamais nenhum Pai da Igreja combateu a Regeneração Batismal, os hereges da época o fizeram, como veremos. Tertuliano se encontra no número dos primeiros cristãos que deram testemunho dessa doutrina. O caso de Tertuliano, aliás, é peculiar comparado aos Pais da Igreja (grupo ao qual ele não pertence plenamente), em razão de alguns problemas doutrinais e históricos presentes nos seus escritos. Isso torna a defesa da Regeneração Batismal, um caso em que podemos aplicar a antiga regra: um momento em que até quem erra sinaliza a doutrina correta.

Pois bem, não é difícil encontrar o ensino de Tertuliano sobre regeneração batismal. Ele escreveu um tratado sobre o sacramento da fonte (De Baptismo), e o propósito desse tratado é precisamente explicar a necessidade do Batismo para a salvação, quando Tertuliano argumentou contra os gnósticos cainitas, comunidade que negava a necessidade do Batismo para a salvação. O tratado De Baptismo inicia propondo o seu tema: “Acerca do Sacramento da nossa água, no qual, sendo absolvidos dos delitos da nossa vida pristina, somos liberados para a vida eterna…” (cap. I). Mais adiante, ele escreveu (grifo meu):

Em razão disso, aqueles criminosíssimos provocadores de perguntas dizem ‘Portanto, o batismo não é necessário àqueles a quem basta a fé; assim também Abraão agradou a Deus, sem nenhuma água, senão com o sacramento da fé.’ Mas, em tudo, as coisas posteriores concluem, e as coisas subsequentes prevalecem sobre as antecedentes. A salvação anteriormente foi pela fé nua, antes da paixão e ressurreição do Senhor; mas como a fé aumentou, aos crentes no seu nascimento, paixão e ressurreição, é ampliado o sacramento pelo selo [obsignatio] do batismo, como uma vestimenta para a fé que antes estava nua, que já não pode salvar sem a sua lei. Pois a lei do batismo foi imposta, e a fórmula prescrita: “Ide”, ele diz, “ensinai todas a nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A comparação dessa fórmula com esta lei: “A menos que um homem nasça da água e do Espírito, ele não poderá entrar no reino dos céus”, restringiu a fé à necessidade do batismo. De Baptismo 13

Nesse trecho, Tertuliano tenta descrever a posição contrária como a noção de que, se a salvação é pela fé, o Batismo se torna desnecessário. Tertuliano não nega a salvação pela fé, mas argumenta que ela não deve ser pela fé nua. O Batismo é como a vestimenta necessária á fé. Para Tertuliano, portanto, o Batismo é necessário à salvação, e ele argumenta em favor dessa noção apelando para o conhecido texto de João 3:5, que limita a entrada no reino de Deus aos que nascerem da água, o que ele interpreta como significando a necessidade do Batismo. Para Tertuliano, “sem o batismo, ninguém pode alcançar a salvação” (nemini sine baptismo competere salutem, cap. 12).

De que maneira o Batismo é necessário à salvação? Num contexto um pouco diferente, Tertuliano acusa Marcião de Sinope (como redução ao absurdo) de privar o Batismo de quatro benefícios: a remissão de pecados, o livramento da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo (Contra Marcion I, 28). Isso concorda com o que propõe o De Baptismo; já mencionamos a remissão dos pecados acima. Ele também menciona o Espírito Santo ao escrever sobre “…o Espírito de Deus, que de início pairava sobre as águas, continuaria sobre as águas dos batizados.” (De Baptismo 4).

Para Tertuliano, através da invocação de Deus, as águas adquirem o “poder sacramental de santificação” (praerogativa sacramentum sanctificationis, De Baptismo 4). Aqui Tertuliano alude à tradução, difusa na patrística, segundo a qual há nas águas do Batismo um poder santificador. Por isso, no mesmo capítulo, ele segue escrevendo: “Portanto, depois que as águas foram, de algum modo, imbuídas com virtude medicinal pela intervenção do anjo, o espírito é corporalmente lavado pelas águas, e a carne é, no mesmo, espiritualmente lavada.” Tertuliano esclarece que não são as águas em si mesmas que purificam, mas seu poder santificador prepara para o envio do Espírito Santo que acontece naquele momento (De Baptismo 6). Por isso, ele distingue o ato do batismo, que é carnal, do efeito do batismo, que é espiritual: a remissão de pecados ( De Baptismo 7).

Esses são só alguns exemplos de como Tertuliano ensinava a doutrina patrística unânime da Regeneração Batismal.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Descenso de Cristo ao Hades

Na época da Reforma, muitos reformados assumiram uma posição que deveriam mudar, com respeito à Descida de Cristo ao Hades — basicamente negaram essa descida como um evento literal, desmitologizaram o evento.

Os anglicanos e luteranos (com algumas diferenças) preservaram a doutrina mais histórica do Descenso. Corrigir essa posição não causaria nenhum dano à doutrina dos reformados e, por outro lado, traria vários benefícios:

(1) A profundidade da Encarnação. Cristo não se identificou apenas com os vivos, mas com os mortos, não só na condição de estar morto, mas no destino comum das almas no mundo antigo: a morte é o seu pastor.

(2) A alma humana de Cristo. Sendo a morte a separação entre corpo e alma, se Cristo desceu ao Hades, isso significa que ele tinha uma alma humana.

(3) A primazia de Cristo. Se tirarmos dos nossos olhos por um instante as belas imagens que povoam o imaginário cristão, a essência da doutrina da Descida é a de que os antigos não tinham a visão de Deus após a morte, e Cristo (ele mesmo Deus) foi até eles para libertá-los. Portanto, para os antigos, Cristo abriu as portas do Paraíso.

(4) A forma narrativa da Redenção. As Escrituras não ensinam nossa redenção como uma teoria abstrata, mas como uma narrativa dramática. Assim, o modo como a obra de Cristo afeta os antigos não é através de uma “aplicação” abstrata (tratando a obra de Cristo como atemporal), mas concreta: ele vai até eles e realiza neles a redenção.

(5) A vitória de Cristo sobre os poderes das trevas. Como São Paulo nos ensina, foi para isto que Cristo morreu e ressuscitou: para ser Senhor de vivos e mortos. Cristo conquistou o inimigo terrível, ele possui as chaves da Morte e do Hades, que ele usa, não para reter, mas para libertar. Algo precioso da vitória de Cristo se perde se ele não invadiu o império do diabo, daquele que detinha o poder da morte.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Culpa e a Morte

Madalena Penitente (1796), Canova

A culpa afeta toda a humanidade, mas não afeta cada pessoa igualmente. Existem pessoas, de fato, sem culpa, como crianças muito pequenas e deficientes mentais. Aquilo que chamamos de culpa (no sentido de ‘merecimento de punição’) é associado a certo envolvimento pessoal (conhecimento e vontade), e diminui quando há certa ignorância inocente (Jo 9:41; 15:22); assim, o conhecimento torna indesculpável (Rm 1:20), o que só faz sentido se a ignorância torna, em alguma medida, inculpável.

Diante disso, se achamos que o problema principal do homem for a culpa, entramos num dilema: ou dizemos que só algumas pessoas precisam de salvação (pois só alguns são culpados), e portanto minamos a necessidade de Cristo; ou damos algum jeito de dizer que todo ser humano é culpado mesmo (culpa herdada). A salvação, nesses termos, é fundamentalmente jurídica: a culpa jurídica (como ‘merecimento de punição’) provoca uma consequência jurídica (condenação), então Cristo aparece como solução jurídica.

Na verdade, a solução é diferente: a culpa não é o problema principal do homem, precisamente porque nem todos são culpados. A culpa é um sintoma de uma realidade espiritual mais profunda, de um desligamento do homem com Deus, de uma desordem e mortalidade que procuram afetar a todos nós. Só isso pode explicar a necessidade de salvação para todos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Monergismo ou Sinergismo?

Há certas linguagens teológicas que não servem para nada. Se o sujeito pergunta se eu sou “monergista” ou “sinergista”, o certo é orar por ele.

A salvação se dá por inciativa e providência de Deus, mas não acontece sem cooperação humana. A salvação final exige santificação, e a santificação envolve cooperação. Quando eu digo algo assim, o jovem não iniciado me julgará como sinergista, mas os grandes teólogos tidos por monergistas concordam. De fato, meu grande modelo nessa área é Santo Agostinho de Hipona, que eles acham que era monergista.

Se você simplesmente abandonar esses nomes, fica tudo bem. O mar continua no seu lugar, nenhum terremoto é provocado, nenhuma praga se alastra sobre a terra, e os poderes dos céu não são abalados. (Alguns poderes da terra talvez o sejam, mas nada mais imponente do que síndico de prédio.)

A cooperação é mais profunda do que parece à primeira vista, pois envolve a dinâmica entre a vontade divina e a vontade humana no próprio Cristo. Ele é o exemplo supremo de cooperação, pois a impecabilidade divina flui para a sua natureza humana como graça. Por um lado, a vontade humana coopera sem possibilidade de queda ou hesitação; por outro lado, ela o faz sem que sua liberdade seja eliminada (muito pelo contrário). Tomando emprestada a imagem que São Tomás usa em outro contexto, é como a cooperação entre o ferreiro e o martelo (mas sem sugestão de apolinarismo ou monotelismo). A cristologia ortodoxa exige uma soteriologia suficientemente ampla. Monergismo extremo é uma forma de monoenergismo, a heresia cristológica mais esquisita de todas.

De fato, a própria obra da Redenção envolveu cooperação humana. Deus podia fazer de outro modo, mas quis adentrar na esfera humana e estar entrelaçado nela, e se doar através dela. Por isso, falar da redenção como “extra nos” ou “in nobis” também não me ajuda muito.

De Maria a Judas, o homem cooperou com Deus na realização do sacrifício de Cristo. Maria, com o “sim” máximo (causa salutis); Judas, com o “não” máximo; e Jesus usou o “não” para realizar o “sim”, usou o “sim” para curar o “não”. A Paixão foi realizada pelo homem, em cujas mãos Cristo foi entregue. E não há em Cristo nenhum sofrimento além daquele que o homem e o diabo lhe provocam, e que é maximizado por sua compaixão. Não há um terceiro sofrimento invisível provocado por Deus Pai. Nós, criaturas, o fizemos.

Somente a sua Ressurreição se deu principalmente sem cooperação de outros homens. (Isso nos fiz muito sobre a centralidade da Ressurreição na Redenção.)

Depois de realizada a obra da redenção, Cristo enviou ao mundo os seus discípulos como “cooperadores de Deus”, nas palavras do apóstolo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Santíssima Trindade | Resumão

– É a doutrina mais importante da religião cristã.

– A doutrina da Trindade pode ser demonstrada usando a Bíblia, mas não está toda explícita.

– Uma mesma essência divina, três pessoas consubstanciais (Fórmula Capadócia). Não confundir as pessoas, nem separar a essência (natureza divina).

– Não são três partes de Deus. Cada pessoa é a natureza divina inteira.

– O Pai é ingerado e o princípio eterno da divindade. O Filho é gerado eternamente do Pai. O Espírito procede do Pai através do Filho. Essas relações (paternidade, filiação, processão) distinguem as pessoas incriadas. Sem isso, a doutrina colapsa no modalismo.

– Na Trindade, há uma só essência, uma só divindade, um só poder, uma só vontade, uma só energia, um único princípio, uma única autoridade, um único domínio, uma única soberania. Não há subordinação eterna na Trindade.

– A palavra “pessoa” equivale a “hipóstase” ou “subsistência”. Tem sentido metafísico. Não faz referência à psicologia da pessoa humana. Não há três mentes independentes em Deus, mas uma mente infinita (sem prejuízo da Encarnação), que é predicada de cada pessoa.

– A Trindade Imanente (Ontológica) indica quem e o que Deus é. A Trindade Econômica é como Deus age e se revela às criaturas, particularmente na criação e na redenção. Em razão disso, certas atividades e predicados, mesmo pertencendo aos três, são mais apropriadas a uma das pessoas.

– Há várias analogias úteis para a Trindade. Mas nenhuma criatura é exatamente como a Trindade.

– As pessoas da Trindade são coinerentes e inseparáveis; suas obras exteriores são indivisíveis. Opera trinitatis ad extra indivisa sunt.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Calvino: fora da Igreja não há salvação.

Para Calvino, não se deve esperar salvação fora da Igreja visível:

“Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos [Mt 22.30]. Porque nossa habilidade não permite que sejamos despedidos da escola até que tenhamos passado toda nossa vida como discípulos. Anotemos também que fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação… de sorte que
é sempre funesto o afastamento da Igreja.” Institutas IV, 1, 4

“A muitos os impele ou a soberba, ou o desdém, ou a inveja, de sorte que se persuadam de poder fruir de suficiente proveito lendo e meditando em particular, e com isso desprezam as reuniões públicas e consideram a pregação como sendo supérflua. Mas, uma vez que, quanto está em si, quebram ou rompem o sagrado vínculo da unidade, ninguém escapa à justa pena deste ímpio divórcio, sem que sedeixe enfeitiçar por erros pestíferos e por delírios os mais horríveis.” 1, 5

“…aos fiéis nada é de mais importância do que esta administração do culto público, através da qual Deus gradativamente eleva os seus ao alto.” 1, 5

“lgualmente, não é louvor vulgar dizer que a Igreja é eleita e separada por Cristo para ser sua esposa, que “fosse sem ruga e sem mácula” [Ef 5.27], “seu corpo e suaplenitude” [Ef 1.23]. Do quê se segue que o abandono da Igreja é negação de Deuse de Cristo, razão por que mais se deve guardar de tão celerado dissídio, porque, enquanto nos esforçamos, quanto está em nós, por fomentar a ruína da verdade de Deus, somos dignos de que ele dardeje seus raios com todo o ímpeto de sua ira, afim de fazer-nos em pedaços. Não se pode imaginar mais atroz qualquer crime do que o de violar com sacrílega perfídia o matrimônio que o Unigênito Filho de Deus se dignou contrair conosco.” 1, 10

“Portanto, permaneça fixado um e outro destes dois pontos: primeiro, que nenhuma escusa tem aquele que, deliberadamente, deserta a comunhão exterior da Igreja, onde é pregada a Palavra de Deus e são ministrados os sacramentos; segundo, que as faltas e pecados de outros, sejam poucos ou muitos, não nos impeçam de fazer profissão de nossa religião usando os sacramentos e os demais exercícios eclesiásticos juntamente com eles, porquanto uma consciência piedosa não é nem ferida pela indignidade de outrem, quer de pastor, quer de leigo; e os sacramentos do Senhor tampouco deixam de serpuros e santos para o homem limpo por ser recebidos em companhia dos impuros e perversos.” 1, 19

“Portanto, três coisas devemos aqui observar. Em primeiro lugar, por grande que seja a santidade em que os filhos de Deus se distingam, contudo, sempre que habitarem no corpo mortal nesta condição, não podem permanecer na presença de Deus sem a remissão dos pecados; em segundo lugar, este benefício é a tal ponto próprio da Igreja, que não usufruímos dele de outra sorte senão permanecendo na comunhão; em terceiro lugar, ele nos é dispensado por intermédio dos ministros e pastores da Igreja, seja pela pregação do evangelho, seja pela ministração dos sacramentos, eneste aspecto sobressai especialmente o poder das chaves que o Senhor conferiu à sociedade dos fiéis. Conseqüentemente, que cada um pense ser este seu dever: não buscar a remissão dos pecados noutro lugar senão onde o Senhor a colocou.” 1, 22

Rev. Gyordano M. Brasilino

Vivam os gregos! Viva Platão!

File:Giovanni Paolo Pannini - Apostle Paul Preaching on the Ruins -  WGA16977.jpg - Wikimedia Commons

Desde Harnack, o desenvolvimento dos dogmas cristãos é interpretado como helenização e corrupção da mentalidade pristina e protocristã, supostamente mais hebraica. Não é difícil encontrar pessoas batalhando contra a influência de categorias gregas tanto na Teologia Sistemática quanto na Teologia Bíblica. Até N. T. Wright é refém desse purismo hebreu. O que Harnack via como degeneração, eu vejo como coisa muito bela, como o avanço do Evangelho para além das (supostas) fronteiras intelectuais de uma nação.

Uma oposição entre o “pensamento grego” e o “pensamento hebreu” é indefensável, herdeira de uma antropologia muito rígida. As muralhas entre os povos são porosas. Afinal, o “pensamento grego” nunca foi uma coisa só. Havia variedade capaz de cobrir tanto a impassibilidade quanto a passibilidade. Os inimigos da helenização se referem principalmente à influência do platonismo e, em alguma medida, à do estoicismo, escolas que, contudo, fazem sentir sua influência já no Novo Testamento, que recebe essas imisções não como o ouro egípcio no Bezerro, mas como o cedro sírio no Templo. O NT não só afirma a salvação para todos os povos, como também é profundamente influenciado pelo pensamento desses povos.

Por outro lado, o “pensamento hebreu”, desde o Antigo Testamento, também era aberto ao emprego de categorias, símbolos e padrões dos povos em redor (canaanitas, egípcios, fenícios, mesopotâmicos), coisa óbvia para quem saiba fazer comparações. Fílon de Alexandria não era um traidor da pátria, mas um autêntico israelita, sem dolo. (É engraçado ver o mesmo tipo de gente dizer que Fílon estava helenizando as Escrituras e que o Logos do Quarto Evangelho é apenas a Sabedoria do AT, sem muita helenização.)

Mesmo Tertuliano, o mais antifilosófico dos antigos, foi um dos principais responsáveis pelo estabelecimento da linguagem teológica da União Hipostática e da Santíssima Trindade, através das noções de pessoa e substância, e também importou categorias do pensamento jurídico romano (como “satisfação”). Também ele afirmava a impassibilidade divina. Assim também, os inimigos do “pensamento grego” estão o tempo todo introduzindo categorias do pensamento ocidental (moderno e pós-moderno) em suas reflexões sobre Deus e sobre a Bíblia. E, a priori, não há nenhum problema nisso! Se cremos na Bíblia e não cremos que a terra é plana, é porque não estamos presos a uma forma de pensamento antiga.

Não é preciso destruir a Beleza do Infinito para apreciar as narrativas das Escrituras. Não há motivo pelo qual o Cristo judeu não possa se manifestar através das línguas do grego, do romano, do chinês, do indiano ou do nigeriano. Todo bom missionário sabe disso. Nossos teólogos, infelizmente, nem sempre são bons missionários. Como no Pentecostes, Deus se mostra capaz de falar nas línguas de todos os povos, não conforme a “mente do hebreu”, mas conforme a Mente do Espírito. Tudo pertence a Cristo.

“Procure Cristo, o Filho de Deus; que era antes do tempo, mas apareceu no tempo; que era invisível por natureza, mas visível na carne; que era impalpável e não podia ser tocado, como se não tivesse um corpo, mas por nossa causa se tornou tal, e podia ser tocado e manuseado no corpo; que era impassível como Deus, mas se tornou passível por nós como homem; e que de todas as maneiras sofreu por nossa causa.” Santo Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo 3:2

Rev. Gyordano M. Brasilino

Um Messias divino no Antigo Testamento?

Sim, porém… mais ou menos.

Há várias coisas no AT que se unem para formar a imagem do que nós HOJE somos capazes de identificar como um Messias-Deus. Não existe um texto que diga explicitamente que o Messias é Deus — na verdade, a própria figura do Messias aparece em pouquíssimos lugares no AT. Mas há coisas que sutilmente, lidas de certa forma, apontam nessa direção.

1. Binitarianismo. Os especialistas identificam no AT um dualismo divino que geralmente é chamado de “binitarianismo” — mas num sentido diferente do trinitarianismo — ou, como os rabinos da Antiguidade chamavam (e rejeitavam), os “Dois Poderes no Céu”. A ideia basicamente é de que havia um culto duplo a Javé e ao Anjo de Javé, que carrega o seu nome (“o meu nome está nele”, Êx 23:21). Como teofanias, os cristãos identificaram o Anjo de Javé como sendo o Verbo de Deus. A versão oficial do judaísmo rabínico suprimiu essa doutrina como sendo uma “heresia” (minim). Isso é importante para mostrar o quão amplas podiam ser as concepções de Deus no Antigo Testamento, muito diferentes de um “monoteísmo estrito”.

2. A visitação de Javé. Há vários textos no AT, particularmente nos profetas (há um caso importante em Levítico 26), em que se fala de uma visitação que Javé faria ao seu povo, trazendo sua presença e habitando entre eles. Essa vinda de Javé é tratada messianicamente (em sentido amplo) no AT, embora o próprio Messias não seja mencionado. Por exemplo: “Canta e exulta, ó filha de Sião, porque eis que venho e habitarei no meio de ti, diz o Senhor.” (Zacarias 2:10). Essa noção é bastante explorada pelo Evangelho de Lucas: como eu gosto de dizer, Lucas não tem uma doutrina da Encarnação; ele tem uma doutrina da Visitação.

3. A figura do Filho do homem apocalíptico. O caso mais importante é Daniel 7, mas a imagem é bastante desenvolvida na literatura apócrifa (como 1 Enoque). O Filho do homem é uma figura que reina (como o Messias) e, ao mesmo tempo, tem características divinas — por exemplo, a expressão “eis que vinha com as nuvens do céu” (Dn 7:13) sempre indica Deus no AT.

4. O culto ao rei. Assim como um Faraó, o rei de Israel era cultuado pelo povo como um filho de Deus: “…inclinaram-se e prostraram-se perante o Senhor e perante o rei.” (1Cr 29:20). Isso se conecta com as teofanias porque o rei era, assim como o anjo, um representante sacerdotal de Deus. Alguns textos, como o Salmo 110 e o bloco final de Ezequiel (sobre o Templo), falam mais detidamente do papel sacerdotal do rei. Isso é importante porque o Messias é o sucessor e continuador da linhagem dos reis de Judá.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus foi ouvido — O Pai disse “Sim”

“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,” Hebreus 5:7

Quando estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Cristo fez uma oração que está profundamente gravada na consciência da primeira comunidade de cristãos, pedindo ao Pai pelo livramento. Essa oração agonizante aparece nos Evangelhos Sinóticos: “Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14:36 = Mt 26:39 // Lc 22:42); e depois é mencionada em Hb 5:7 e 1Pe 2:23, tendo talvez um eco nas palavras de Paulo (Rm 8:15; Gl 4:6).

Antes de ser levado para sua humilhação e morte, Cristo fez uma oração intensa, “com forte clamor e lágrimas”, àquele que “o podia livrar da morte”. Ele disse: “Minha alma está triste [perilypos] até à morte” (Mc 14:34). O evangelista usa palavras graves para descrever o estado da alma de Cristo: ele começou se impressionar e apavorar profundamente [ekthambeisthai] e se angustiar [adēmonein]. O tom é tão forte que é suavizado pelos evangelistas posteriores — o Cristo do Quarto Evangelho nos parece resoluto e determinado, mas mesmo Marcos conhecia a intenção do Filho do homem de doar sua vida (10:45) —, mas mesmo Lucas, na variante textual mais conhecida, fala da “agonia” de Cristo (Lc 22:44), isto é, da batalha que ele enfrentava. Na hora das trevas, Cristo batalhava contra os poderes obscuros que o cercavam e tentavam, e pedia ao Pais que o livrasse da morte. Diante da injustiça que sofreria, Cristo “entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2:23).

E Cristo foi ouvido. Isso surpreende a algumas pessoas, mas a oração de Cristo foi ouvida pelo Pai. Não poderia ser diferente, afinal, ele mesmo disse: “Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11:42). Assim como Cristo havia ensinado ao Pai que seus discípulos receberiam o que pedissem quando fossem obedientes (Jo 15), ele mesmo, estando na perfeita obediência (“por causa da sua piedade [eulabeia]”), recebia do Pai tudo o que pedia. Então Cristo foi ouvido pelo Pai!

Mas como pode ser, se ele morreu? Ele morreu, mas ressuscitou. Ao retornar à vida, ele foi livre daquilo que o prendia. Aqueles que acreditam que a paixão de Cristo foi um “não” do Pai ao Filho terão muita dificuldade em ligar o que está em Hb 5:7 à oração registrada nos Evangelhos, mas, de fato, o Pai passou o cálice. Cristo morreu, mas não morreu eternamente. Ele esteve morto por apenas um tempo. Ao ressuscitá-lo, o Pai dizia o “sim” ao Filho, passando dele o cálice. Como Jó, Cristo foi restituído após os seus sofrimentos injustos, provocados pelas forças das trevas.

Em 2Co 4 (o Evangelho de hoje), Paulo tinha em mente exatamente a mesma coisa. É por isso que ele podia dizer, juntamente, que “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus” (v. 14) e, então, que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (v. 17). Jó foi restituído, Cristo foi restituído, e Paulo sabia que o mesmo poder da ressurreição estava nele. A ressurreição é restituição e muito mais do que restituição.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Simul Justus et Peccator? Uma leitura apocalíptica.

A Redenção, assim como a Criação, é realizada pela Palavra criativa de Deus. Uma das contribuições mais importantes da Escola Apocalíptica — inspirada em Käsemann e pouco conhecida além dos círculos protestantes de estudos bíblicos — é a noção de que a “justificação” (pela fé) em Paulo deve ser entendida como “retificação”: Deus agindo para endireitar o que está errado no homem e no mundo.

Quando Deus encontra o homem ímpio e o “conta” como justo, a Palavra divina não apenas aceita a condição do pecador através de uma ficção legal, nem age como como contabilista de méritos humanos, mas, como ação criativa, ela gera uma realidade nova que não existia até então. Nos espíritos, Deus diz, mais uma vez: “Haja luz”.

Fleming Rutledge ilumina a questão com o exemplo de Gideão, herói do Antigo Testamento que já deve ter figurado em muitos sermões pentecostais e carismáticos por aí, mas que nem sempre aparece ligado ao tema da justificação. (Ele aparece em Hb 11:32-33 entre os que “pela fé venceram reinos” e “praticaram a justiça”).

A palavra do anjo do Senhor a Gideão foi “O Senhor é contigo, homem valente.” (Jz 6:12). Gideão não era, até então, um homem valente, mas essa palavra, de caráter profético, é uma palavra de envio e, portanto, aponta para um novo futuro que Deus inicia, e não para o passado do próprio Gideão. A explicação de Deus é: “Vai nesta tua força, e livrarás a Israel das mãos dos midianitas; porventura não te enviei eu?”. Deus chama à existência aquilo que ainda não é, mas que então começa a surgir. Ao dar um novo destino a Gideão e colocar-se ao seu lado na batalha — uma batalha que seria vencida por Deus —, Deus gera um novo Gideão.

De fato, a palavra sobre o “homem de valor” tem um sabor irônico, mas temos já aí a ironia de Deus, que manifesta sua força através da fraqueza de Gideão, mostra sua grandeza através do pequeno, transformando a realidade pela fé.

Como no Evangelho de João, caracterizado por uma escatologia já realizada, que trata o futuro como já presente — “consumei” (17:4-5) antes de já estar “consumado” (19:28,30), ou “está julgado” (16:11) antes de ser julgado (12:31), ou “tem a vida eterna” (6:47) antes da “ressurreição da vida” (5:29), e tantos outros exemplos —, os olhos da fé veem, no presente, o começo do futuro e, com isso, veem já o futuro inteiro, como por uma janela. Como Santo Agostinho no De Trinitate, a justiça começa como um poder interior, ainda por frutificar. É o poder dos “novos céus e nova terra, onde habita a justiça”, que irrompe no presente como signum praedestinationis, gerando pelo Espírito, em prolepse, a identidade escatológica.

É nesse sentido, e talvez só nele, que se pode falar do remido como simul justus et peccator (simultaneamente justo e pecador) — ainda é um coração que produz o pecado, mas que também é alvo do agir salvador de Deus (“justiça”). Essa condição é uma dádiva, mas o dom é um poder na guerra: na luta contra as paixões dos pecados, contra principados e potestades. Como na reviravolta do livro de Ester, o povo judeu recebe, do rei, o presente que lhes dará vida, mas o presente não é a anulação da sentença de morte por instigação de Hamã (Satanás), mas a capacidade de se defenderem, através de uma nova lei. Essa é sua vindicação.

Por isso, é uma condição da qual alguém deve se alegrar, até gloriar-se na cruz — como escreveu Paulo com certo exagero poético, mas também com uma verdade visceral —, mas não simplesmente descansar. É uma nova posição no “grande conflito”: não como escravos dos poderes das trevas e sujeitos à morte, mas como membros alistados das hostes celestes, lutando com armas poderosas em Deus para a destruição de fortalezas, pois o inimigo mais poderoso já foi vencido e desarmado.

Rev. Gyordano M. Brasilino