Inerrância? Contém? Bois?

Eu entendo bem as pessoas que se opõem à inerrância bíblica. Geralmente são evangélicos de origem fundamentalista decepcionados com certos tipos de leitura sectária das Escrituras.

Mas eu acho essa discussão sobre inerrância e infalibilidade, que tem o cheiro da modernidade — ela é proposta inicialmente pela discussão com história e ciência natural — tediosa demais. A Bíblia é ou contém a Palavra de Deus? Que canseira!

Uma abordagem hermenêutica é muito mais satisfatória: como dizem os pós-conservadores, a questão é como usamos as Escrituras. Elas não se usam sozinhas. O uso que fazemos é coerente com o propósito do cânon dentro da comunidade de fé, num encontro com Deus?

Pois a Bíblia é uma coleção eclesiástica de livros privilegiados (“cânon”), falando sobre Deus, a partir de um encontro transformativo com ele (“revelação”), para um contexto de devoção e liturgia próprio à comunidade de fé. Ao colecionar esses livros, percebendo através deles uma “grande narrativa” comum, os cristãos mudaram (muito ou pouco) o propósito original de cada texto, qualquer que tenha sido. Eles agora fazem parte de um projeto maior. Então naturalmente existe uma diferença entre a intenção do autor original e a intenção da igreja com aqueles livros. Acaso Deus cuida de bois ou de nós?

Nesse sentido, o sujeito que usar as Escrituras como critério último para estabelecer os acontecimentos do passado (“história” ou “origem das espécies”), às vezes faz mau uso e não acessa o propósito do cânon. O sentido do texto é condicionado pela maneira (apta ou inapta) como o leitor o usa; um texto sem interpretação é só tinta num papel, barulho no ar ou luz numa tela. A questão não é se as Escrituras têm contradições de história ou erros de biologia — se você as usa mal, elas terão, sim, essas coisas —, mas sim o que fazemos com os símbolos presentes nelas.

As Escrituras, enquanto Escrituras, não existem como pedacinhos que somamos para chegar a uma verdade. Ela existe como uma saga tempestuosa, um drama épico e trágico do qual somos chamados a participar. Quem recorta demais um organismo, pelo desejo de entender seus detalhes, o mata.

Não é, também, que as Escrituras não tenham nada a dizer sobre “o que realmente aconteceu”. Elas contêm, principalmente no Novo Testamento, um amálgama de relatos, religiosamente interpretados, das testemunhas oculares de vários acontecimentos no Oriente Próximo e em alguns outros lugares. Pois, por um lado, a fé cristã, particularmente quanto a certos acontecimentos relativos à vida de Jesus de Nazaré, tem pretensão de historicidade. Por outro, o historiador, segundo uma metodologia crítica, pode e dever usar esses livros como fonte, mas, ao fazê-lo, ele normalmente não lida com o cânon, mas com os livros individuais dentro de um dado condicionamento histórico e social, antes de serem, em conjunto, Escritura Sagrada.

Muito mais do que um sistema de proposições doutrinais — nunca perdoarei Schaeffer — ou descrições modernas dos fatos, a Escritura Sagrada é uma antologia de histórias estranhas e arquetípicas, regulamentos sacerdotais, paradoxos e poemas. É um livro espiritual. Os relatos evangélicos não são as “ipssissima verba”, mas a “ipssissima vox” de Cristo.

Por esses e outros motivos, se quisermos falar de “inerrância”, é muito melhor descrevê-la assim: a Escritura Sagrada, no seu propósito eclesiástico, não tem nenhum erro de nenhum tipo. É possível escrutiná-la de outras maneiras, úteis ou não, e, nesse caso, o uso literário do texto determinará se chegamos a erros ou não. Eu rejeito a distinção entre infalibilidade e inerrância.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo, Sofrimento e Império

Uma pessoa me perguntou o seguinte: que importância tiveram os sofrimentos de Jesus? A pergunta não é sobre a morte, mas sobre os sofrimentos. Como eles afetam nossa salvação?

Uma coisa que precisa ser entendida, antes de mais nada, é: os sofrimentos de Jesus não foram diretamente causados pelo Pai. Pessoas humanas causaram esses sofrimentos: Pilatos, Caifás, soldados e outras pessoas. Nós causamos o sofrimento de Cristo.

Nenhum texto do Novo Testamento (o cumprimento das coisas), ao descrever a obra da Redenção, ensina que esses sofrimentos foram causados pelo Pai.

Existe um entendimento errado do que significa “a Deus agradou moê-lo” (Is 53:10), que é tão errado como o de quem lê “Deus se arrependeu” e conclui que há arrependimento em Deus. Isso ignora duas coisas: (1) a identidade contextual do Servo de Javé no Segundo Isaías (Is 40–55), que é a nação de Israel sob o juízo divino; (2) o cumprimento concreto dessas coisas no Novo Testamento, a maneira como as coisas visivelmente aconteceram.

Esse entendimento não é possível por um motivo simples: Deus não coopera com pecados. Ele só coopera com o bem, e transforma o mal em bem (como em José), mas nunca coopera com o mal. Todos os sofrimentos que Cristo teve foram pecados dos líderes, dos soldados e da multidão. Nenhum deles foi justo ao castigar o Cristo inocente; pelo contrário. ele sofreu injustamente, por isso apelou ao tribunal divino, “entregava-se àquele que julga justamente“. O diabo, e não Deus, induziu aquelas pessoas a pecarem.

O que o Pai fez, diante de tudo isso, foi entregar o Filho do homem, como os evangelhos repetem. O que os homens fizeram estava dentro da presciência e providência divinas, mas essas coisas incluem a liberdade humana. Deus não é o autor dos pecados dessas pessoas.

Ao falar desses sofrimentos, o Novo Testamento dá preferência a uma expressão: “sofrer“, “padecer“, “sofrimentos” ou “aflições de Cristo” (ou seja, do Messias), não os de “Jesus” ou do “Senhor“. Ao falar do modo como nós participamos desse sofrimentos, essa preferência permanece. Há um motivo para essa preferência de linguagem, dessa a conexão entre sofrimentos e messiado, que causava bastante escândalo. Até hoje, nós falamos dos “Paixão de Cristo”, não “de Jesus”, repetindo a expressão bíblica.

Como isso funciona? De que maneira esses sofrimentos consagram o seu messiado?

Um dos trechos mais antigos do Novo Testamento é o cântico crístico de Fp 2:5-11. Em síntese, ele nos fala de como, em auto-humilhação, Cristo é obediente até a morte e, por isso, é exaltado pelo Pai e recebe um nome acima de todo nome (Senhor). O cântico segue um padrão da justiça restaurativa nas Escrituras: os humilhados são exaltados.

Se entendemos que os sofrimentos de Cristo são tentações, sua obediência até a morte é a vitória contra essas tentações e se constitui o motivo de sua exaltação. Numa linguagem mais antiga, dizemos que a obediência de Cristo “mereceu” a chegada do Reino de Deus; para não usarmos uma palavra tão desgastada (“mérito”), podemos dizer que os sofrimentos de Cristo exigem que a justiça divina façam algo (como em Dn 7): Cristo é vindicado.

Essa é uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam. Esses sofrimentos são correlatos da sua obediência, através da qual ele reina sobre nós. Então os sofrimentos do Messias são a preparação para a sua entrada na glória. Por isso, participamos dos seus sofrimentos. Assim como ele, sofremos injustamente, e o que agrada ao Pai, como nosso sacrifício, não é sermos punidos justamente por ele, mas suportarmos os sofrimentos injustos com paciência e obediência (1Pe 2).

Isso é muito bonito porque tem uma dimensão política. Quando o Messias veio ao mundo, havia um Império que, com forte propaganda (inclusive intelectual e profética), prometia paz e prosperidade ao mundo. Cristo, em vez de agir como esse Império, conquistando o mundo pela força bruta de sua mão onipotente, conquista o mundo através dos sofrimentos, morrendo na mão do Império segundo os homens, vivendo para o Reino segundo Deus.

Essa é só uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Missão da Igreja não é a Grande Comissão

Eu não sei como isso aconteceu, mas, entre os evangélicos, existe essa ideia de que a missão da Igreja na terra é definida a partir da Grande Comissão (Mt 28:19–20). Isso me cheira fortemente à propaganda (necessária) do movimento missionário do século 19.

Esse provavelmente é o texto favorito de quem quer definir a missão da Igreja em termos de ensino e pregação — diminuindo a importância de outras dimensões como adoração, arte, misericórdia e taumaturgia. O texto é importante, e deve ser obedecido, mas ele justifica essa restrição?

Não há nada em Mt 28 indicando que ali haja uma definição completa da missão da Igreja. Outros textos, ainda sobre a Ressurreição de Cristo, insinuam uma concepção maior: ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” (Jo 20:21), a missão da Igreja é vista como continuação da de Cristo, portanto continuação de tudo o que ele fez, inclusive exorcizar os possessos e alimentar os famintos.

Creio que o melhor texto bíblico para indicar essa missão é 1Pe 2:5: “…sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.

Ao falar em sacrifícios espirituais como o propósito da casa espiritual (a Igreja), duas dimensões são unidas: a adoração e o serviço, e nelas nós encontramos a totalidade daquilo que a Igreja é chamada a ser e fazer no mundo. E isso quanto a toda a Comunhão dos Santos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Magnificat

O Cântico de Maria é um dos três belos cânticos que vemos no início do Evangelho de Lucas, aquele que conta mais detalhadamente sobre o nascimento de Jesus. Os três cânticos estão cheios de alegria e esperança messiânica.

O Magnificat tem quatro partes. A primeira é a adoração profunda e alegre de Maria. A segunda é a exaltação dela por Deus. A terceira é a reviravolta e inversão no mundo pela visitação de Deus: os pobres e pequenos são exaltados, os ricos e poderosos são rebaixados. A quarta é o fundamento de tudo, a lealdade de Deus a promessa feita aos antepassados da nação de Israel.

Assim, é em razão do juramento e da aliança que Deus cumpre agora sua promessa de trazer justiça ao mundo, alegrando o coração de Maria.

Entre a segunda e a terceira partes, há uma transição abrupta. Na segunda parte, Deus exalta a humilde Maria; na terceira, ela fala da mesma coisa acontecendo com o mundo. Mas essas coisas ainda não haviam acontecido; Maria fala no passado de coisas que se fariam no futuro. (Também o Cântico de Zacarias, o Benedictus, trata no passado coisas que se fariam no futuro.) Qual é a relação entre essas duas partes?

O que ocorre é que Maria vê, profeticamente, acontecer nela aquilo que aconteceria no mundo inteiro. Ela é o começo da salvação e redenção que Deus trouxe. A alegria de Maria é o início da alegria escatológica prometida a Israel na visitação de Deus: “Exulta, e alegra-te, ó filha de Sião, porque eis que venho, e habitarei no meio de ti, diz o Senhor.” (Zc 2:10).

É significativo que o cântico de Maria tenha sido entoado, dentro da narrativa do Evangelho de São Lucas, no momento em que Isabel e João Batista se alegram com a visitação de Jesus através de Maria. Assim como o início do Evangelho de Lucas é um pequeno Pentecostes, ele sinaliza o início da Nova Criação. Aquelas duas crianças e aquelas duas mulheres eram as pessoas mais aptas a, naquele momento, reconhecer os sinais dos tempos. Isabel e sua família eram a antiga aliança (ela era Sara), o antigo sacerdócio, o antigo profetismo, obedientes a todos os mandamentos da Lei. Jesus e Maria eram a Nova Aliança. O Antigo se alegra diante do Novo.

Ela, que não tinha filhos, teve um filho, o bendito fruto do seu ventre. Israel, que era infrutífero, agora produziria os frutos dignos do arrependimento.

O Magnificat contempla a misericórdia prometida aos ancestrais, portanto a dimensão de graça e promessa livre, assim como também a obediência de Maria e de Israel (“contemplou a humildade da sua serva”, “sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem”). Ela está em consonância com a mensagem de João Batista, segundo a qual os verdadeiros filhos de Abraão seriam aqueles que obedecessem a Deus.

A essência do cântico é Maria como um sinal profético da alegria escatológica pela visitação transformadora de Deus, como um cumprimento da aliança de Israel.

Rev. Gyordano M. Brasilino