Cristo, Sofrimento e Império

Uma pessoa me perguntou o seguinte: que importância tiveram os sofrimentos de Jesus? A pergunta não é sobre a morte, mas sobre os sofrimentos. Como eles afetam nossa salvação?

Uma coisa que precisa ser entendida, antes de mais nada, é: os sofrimentos de Jesus não foram diretamente causados pelo Pai. Pessoas humanas causaram esses sofrimentos: Pilatos, Caifás, soldados e outras pessoas. Nós causamos o sofrimento de Cristo.

Nenhum texto do Novo Testamento (o cumprimento das coisas), ao descrever a obra da Redenção, ensina que esses sofrimentos foram causados pelo Pai.

Existe um entendimento errado do que significa “a Deus agradou moê-lo” (Is 53:10), que é tão errado como o de quem lê “Deus se arrependeu” e conclui que há arrependimento em Deus. Isso ignora duas coisas: (1) a identidade contextual do Servo de Javé no Segundo Isaías (Is 40–55), que é a nação de Israel sob o juízo divino; (2) o cumprimento concreto dessas coisas no Novo Testamento, a maneira como as coisas visivelmente aconteceram.

Esse entendimento não é possível por um motivo simples: Deus não coopera com pecados. Ele só coopera com o bem, e transforma o mal em bem (como em José), mas nunca coopera com o mal. Todos os sofrimentos que Cristo teve foram pecados dos líderes, dos soldados e da multidão. Nenhum deles foi justo ao castigar o Cristo inocente; pelo contrário. ele sofreu injustamente, por isso apelou ao tribunal divino, “entregava-se àquele que julga justamente“. O diabo, e não Deus, induziu aquelas pessoas a pecarem.

O que o Pai fez, diante de tudo isso, foi entregar o Filho do homem, como os evangelhos repetem. O que os homens fizeram estava dentro da presciência e providência divinas, mas essas coisas incluem a liberdade humana. Deus não é o autor dos pecados dessas pessoas.

Ao falar desses sofrimentos, o Novo Testamento dá preferência a uma expressão: “sofrer“, “padecer“, “sofrimentos” ou “aflições de Cristo” (ou seja, do Messias), não os de “Jesus” ou do “Senhor“. Ao falar do modo como nós participamos desse sofrimentos, essa preferência permanece. Há um motivo para essa preferência de linguagem, dessa a conexão entre sofrimentos e messiado, que causava bastante escândalo. Até hoje, nós falamos dos “Paixão de Cristo”, não “de Jesus”, repetindo a expressão bíblica.

Como isso funciona? De que maneira esses sofrimentos consagram o seu messiado?

Um dos trechos mais antigos do Novo Testamento é o cântico crístico de Fp 2:5-11. Em síntese, ele nos fala de como, em auto-humilhação, Cristo é obediente até a morte e, por isso, é exaltado pelo Pai e recebe um nome acima de todo nome (Senhor). O cântico segue um padrão da justiça restaurativa nas Escrituras: os humilhados são exaltados.

Se entendemos que os sofrimentos de Cristo são tentações, sua obediência até a morte é a vitória contra essas tentações e se constitui o motivo de sua exaltação. Numa linguagem mais antiga, dizemos que a obediência de Cristo “mereceu” a chegada do Reino de Deus; para não usarmos uma palavra tão desgastada (“mérito”), podemos dizer que os sofrimentos de Cristo exigem que a justiça divina façam algo (como em Dn 7): Cristo é vindicado.

Essa é uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam. Esses sofrimentos são correlatos da sua obediência, através da qual ele reina sobre nós. Então os sofrimentos do Messias são a preparação para a sua entrada na glória. Por isso, participamos dos seus sofrimentos. Assim como ele, sofremos injustamente, e o que agrada ao Pai, como nosso sacrifício, não é sermos punidos justamente por ele, mas suportarmos os sofrimentos injustos com paciência e obediência (1Pe 2).

Isso é muito bonito porque tem uma dimensão política. Quando o Messias veio ao mundo, havia um Império que, com forte propaganda (inclusive intelectual e profética), prometia paz e prosperidade ao mundo. Cristo, em vez de agir como esse Império, conquistando o mundo pela força bruta de sua mão onipotente, conquista o mundo através dos sofrimentos, morrendo na mão do Império segundo os homens, vivendo para o Reino segundo Deus.

Essa é só uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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