Alegria na morte do ímpio?

Não devemos nos alegrar com a morte de ninguém.

Cristo criou um grande problema quando fez duas afirmações: (1) que devemos tratar outras pessoas como queremos ser tratados por Deus, e (2) que devemos imitar a bondade de Deus para conosco — basicamente quando ele ancorou, com rigidez, os imperativos das criaturas finitas na Bondade Infinita do Absoluto Primeiro e Último.

Essas coisas estão, é verdade, em linha com a tradição dos profetas de Israel, e não são inauditas no mundo pagão de sua época — são, por assim dizer, o resplendor da Justiça Divina que nossos instintos morais e sabedoria recebida não são capazes de ignorar impunemente.

De todo modo, ao colocarmos essas coisas no centro da vida divina e do caminho cristão, nós percebemos que nossas intenções e atitudes — isto é, da maioria de nós, na maior parte do tempo — estão marcadas por insuficiência e ignorância, que condicionaram mesmo as intenções santificadas dos antigos sábios e profetas israelitas, que não tinham consciência exata e imediata do fim último (não obstante Hebreus 11), e que, em razão disso, tomavam decisões que, conquanto corretas da perspectiva de certo condicionamento teleológico finito da prosperidade de uma nação no Antigo Oriente Próximo, são incorretas para quem procura ser digno do Reino Eterno. Em algum momento, um fim maior derroga um menor.

Assim, lemos as palavras de Provérbios de que “perecendo os perversos, há júbilo” (11:10) do mesmo modo como lemos outros trechos sobre como a violência dos açoites traz purificação para os maus, inclusive crianças ( 13:24 ; 19:18,25; 20:30; 22:15; 23:13–14; 29:15,17), ou outros traços igualmente interessantes e escandalosos da sabedoria bíblica. Embora sejam essas coisas elementos da Escritura Canônica, elas não foram registradas sem atenção para as condições do momento, razão por que os cristãos, ao longo dos séculos, aprenderam a usar os salmos imprecatórios, que desejam a morte violenta dos inimigos de guerra, com referência à nossa batalha espiritual contra pecados, paixões e demônios. Não é clichê demais dizer que nossos inimigos somos nós mesmos.

É claro que nem sempre é fácil equacionar a questão. Afinal, se mesmo grandes lumes cristãos de antanho, como Tertuliano e São Tomás, foram capazes de pensar que os justos inderrogavelmente extasiados na glória da Visão Beatífica jubilariam com o castigo eterno dos malditos (“O justo se alegrará na vingança“, Sl 58:10) — para o escândalo compreensível (mas hipócrita) de Nietzsche —, que mal menor é pensar que homens de carne e sangue, como nós, celebrariam a queda temporal (leia-se: morte) dos tiranos? Não seria essa, inclusive uma forma de simpatizar com os oprimidos? Nós ainda não nos recuperamos do desafio imposto pelo Senhor.

No entanto, Deus não se alegra, e nunca se alegrou, com a morte dos pecadores, mas deseja que eles se arrependam e vivam. A possibilidade de arrependimento, transformação e perdão colocam uma perspectiva diferente nas coisas, especialmente numa religião que tem como missão precisamente isso, não apenas protegendo suas fronteiras santas contra a corrupção do mundo, mas cooperando com Deus pela salvação do mesmo mundo, tanto na união de obras quanto na união de intenções com ele, para que todo joelho se prostre e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor.

Assim, tanto Deus exulta como nós devemos festejar a justiça feita, com o fim do mal na terra. Mas essa questão é mais complicada, porque a justiça não é nunca simplesmente a punição. A justiça (ṣedaqâ) de Deus é restaurativa, e tem como fim último o estabelecimento pleno da ordem divina no mundo. Há um bem quando o mal é impedido, mas há um mal quando a possibilidade de mudança foi, ao menos em parte, eliminada — ou se, ela ainda existindo, escapa a possibilidade concreta de nossa cognição. Um Paulo convertido é justiça maior e bem maior que um Herodes morto. Por isso, ainda que haja uma alegria relativa no bem menor, há um lamento maior pela ausência do bem maior.

O perdão é infinitamente mais belo e inspirador que o castigo, e é uma faceta do Amor Eterno que só se manifestou com a “culpa feliz” dos homens. Mesmo no Antigo Testamento, Davi, que sofreu debaixo das mãos do ímpio e autoritário Saul, lamentou sua morte e felicitou os que o sepultaram.

Afinal, todo ímpio que morre é como qualquer um de nós poderia ter sido, se tivéssemos vivido em condições de vida suficientemente diferentes — e talvez ainda possamos sê-lo. Só o que nos diferencia é o dom de Deus. Por isso, teme.

Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,
que vos vestia de rica escarlata,
que vos punha sobre os vestidos
adornos de ouro.
Como caíram os valentes
no meio da peleja!
Jônatas sobre os montes foi morto!
— 2 Samuel 1:24–25

Rev. Gyordano M. Brasilino

Simul dignus et indignus

No Evangelho de Lucas, três personagens diferentes confessam sua indignidade diante de Deus: o maior dos profetas, João Batista (3:16); o centurião pagão e romano (7:6–7); o filho pródigo da parábola (15:19,21), que representa imediatamente os publicanos e pecadores israelitas (meio termo entre os outros dois).

Embora duas palavras gregas sejam usadas — hikanos (apto, qualificado) e axios (digno, merecedor) —, a correpondência entre elas é indicada na história do centurião, que usa ambas. Aliás, a versão lucana dessa história é enfática: enquanto Mateus narra o diálogo direto entre o centurião e Cristo, Lucas conta a distância mantida pelo centurião, que depende da intercessão de anciãos judeus e amigos para falar indiretamente com Cristo. Enquanto os anciãos dizem “ele é digno” (do milagre), ele mesmo diz “eu não sou digno… eu mesmo não me julguei digno” (de ver Jesus pessoalmente). Num evangelho tão preocupado em mostrar a aproximação de Cristo quanto aos pecadores — o único que contém o dito de Lc 19:10 —, a fé do centurião é a distância que ele mantém. Tanto a ousadia da aproximação quanto a ousadia da distância são louvadas.

O terceiro caso, a Parábola do Filho Indigno — ela deveria se chamar assim —, retrata um filho que, apesar do reconhecimento da indignidade da condição de filho, tem também a ousadia de retornar para implorar um lugar de servo. Ele é recebido como filho, mesmo indigno, contra os protestos moralistas do irmão, e é recebido na festa. Isso contrasta muito com a Parábola das Bodas (Mt 22:1–14), na qual os convidados indignos são trocados por outras pessoas, que honrem a festa, que venham a caráter, pois o que tem a veste coerente com a festa é expulso — traço ausente na versão lucana. Essa narrativa recorda, tematicamente, as maldições que São Paulo evoca sobre os que participam indignamente (anaxiōs) do corpo e do sangue do Senhor.

Por isso, um evangelho que enfatiza o amor de Deus pelos indignos também é capaz de falar sobre sermos “dignos de alcançar o mundo vindouro” (Lc 20:35) e “dignos de evitar todas estas coisas” (21:36), e fala de diferenças de dignidade (14:8). Essas palavras são exclusivas de Lucas (!), mas o Cristo mateano fala de sermos “dignos de mim” (Mt 10:37–38), isto é, dignos dele, o amando acima de outras pessoas e carregando a cruz com ele, ou de como algumas pessoas seriam dignas da benção apostólica (10:11,13).

Assim também, Paulo fala de sermos “dignos do reino de Deus” (2Ts 1:5,11), e o Apocalipse menciona a promessa divina para as pessoas que foram fiéis a Cristo, “pois são dignas disso” (Ap 3:4). Esse jogo de dignidade e indignidade, o abraço dos pecadores (iustificatio impii) e a congruência do destino último (iudicium operarum), atravessa os evangelhos e o Novo Testamento. Essa dualidade está na raiz da doutrina da dupla justificação.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Dom Escatológico do Celibato

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Não vivemos para o sexo. Eu lembro que, na época da escola, tive uma conversa com um colega sobre isso. Por algum motivo, falamos sobre planos para o futuro e esse colega me disse que pensava, como objetivo de vida, em casar e fazer sexo, “pois é para isso que nós vivemos”.

Eu não era cristão, não acreditava em Deus, então não fazia nenhuma ideia sobre um propósito para a vida. Nunca tinha pensado seriamente sobre aquilo, e tinha muita dificuldade de responder qual era o propósito da vida. Foi a primeira vez que alguém colocou um propósito. Mas eu fiquei chocado em pensar que a vida se resumiria, de fato, a alguns momentos de prazer. Parecia pouco.

A fé cristã ensina muito claramente que esse não é o propósito da vida. Cristo era celibatário. Paulo e tanto outros discípulos seguiram a mesma rota. Se eles nos ensinam algo nessa área, é a moderação, o domínio próprio. Assim, o mesmo Paulo não só recomenda o celibato, como recomenda que os viúvos permaneçam como viúvos (1Co 7:8), embora não proíba totalmente um segundo casamento. Ainda assim, os ministros e as viúvas consagradas ao serviço na Igreja (e que dela dependem) não devem ter um segundo casamento, como ensina 1Tm 3:2; 5:9.

Aqui vemos claramente como a fé cristã se distingue do judaísmo ou do islamismo. A despeito de como seja interpretada (e alegorizada), é famosa a concepção muçulmana de que o prazer sexual é parte da nossa realização celestial última. Na religião cristã, o sexo, embora seja bom se vivido como “leito sem mácula”, é coisa apenas desta vida.

Embora nem todos tenham a vocação do celibato, uma coisa não é opcional para os cristãos: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.” (Gl 5:24). Então nossa vida não é dominada por desejos e necessidades humanas, mas pela sede que só é saciada no Deus Vivo. O que se esconde na mentalidade de cristãos que consideram inferior o celibato (a condição de Cristo!) talvez possa ser, em alguns casos, uma vida dominada pelas paixões, tão dominada que essas paixões passam a controlar a maneira como julgamos as coisas.


O Novo Testamento dá um lugar especial ao voto do celibato. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente como essa condição é recebida por Deus. Essas palavras indicam que se trata, ao menos, de uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia, para todos nós, a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária, acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62), um escândalo para os padrões da época. Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. No Reino de Deus, os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.


Se o matrimônio fosse superior ao celibato, como querem algumas pessoas, isso significaria que Deus nos levaria do estado superior (casados hoje) para o inferior (castos na eternidade), e que Cristo estava numa condição familiar inferior à de Abraão ou Moisés. Isso não faz sentido.

Nesse aspecto, é bem óbvio o motivo pelo qual o celibato é superior: é dedicação maior de tempo e energia a Deus, maior liberdade para se entregar e sacrificar. Qualquer pessoa com família sabe disso. É puro realismo pastoral do Apóstolo.

Existe um motivo pelo qual uma pessoa pode resistir a isso: a maioria de nós, que fomos ensinados sobre o quanto somos especiais e temos direito a igual felicidade, nos sentimos desprezados se imaginamos que há uma vocação com consagração superior à nossa. Mas é precisamente por reconhecermos nossa fraqueza — de que precisamos de cônjuges e família, e por não sermos capazes de resistir às tentações da castidade —, ou seja, por reconhecermos nossa condição real, que temos a possibilidade de que nossa condição seja exaltada, não pelo matrimônio, mas pela humildade. Pois, no corpo de Cristo, quando um é honrado, todos são honrados, e, nesse caso, Deus deu “muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24). Quando tentamos furtar a dignidade maior do celibato, perdemos a humildade. A humildade começa quando reconhecemos nossa própria condição real e concreta. Deus dá graça aos humildes.

O que Paulo queria, ao ensinar sobre o celibato?

“O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa, e assim está dividido. Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito; a que se casou, porém, se preocupa com as coisas do mundo, de como agradar ao marido.” (1Co 7:32–34)

O propósito bíblico do celibato é este: por causa do reino dos céus, para que “vos facilite consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor” (1Co. 7:35). Lançando as bases para o espírito do monasticismo, o apóstolo Paulo procurava uma vida sem distrações (aperispastōs).


No capítulo famoso de 1Coríntios 7, São Paulo ensina que o casamento é bom, o celibato é melhor e a viuvez é um meio termo. A parte da viuvez parece piada moderna, mas Paulo diz mesmo isso (“será mais feliz [makariōtera] se permanecer viúva”). Não se trata de demonizar nenhuma situação, mas de reconhecer a superioridade. Para Paulo, a pergunta que devemos fazer não é “devo mesmo ser celibatário?”, mas “preciso mesmo casar?”.

Ambas as situações são dons de Deus, segundo o apóstolo, mas, por algum motivo, algumas pessoas recebem um dom superior, outras recebem um dom inferior. Veja que escândalo! Minha inveja não tolera que alguém tenha recebido algo melhor. Preciso diminuí-la, devo anulá-lo.

E não é só inveja, mas são escatologias diferentes. O cristão visualiza a vida eterna como uma realidade na qual o casamento e a vida sexual deixaram de existir, não por serem maus, mas por serem inferiores. Então todos nós estamos destinados a termos apenas alguns anos de casados, uma gota na imensidão eterna de uma vida sem casamento. O mundo, por outro lado, só conhece esta vida, então o celibatário está perdendo tempo precioso, deixando de aproveitar.

Às vezes, pessoas tão dispostas a dizer que Deus concede salvação a uns e não a outros, não são capazes de ver que, entre os salvos, alguns recebem posição superior.


É normal que o Antigo Testamento exalte a vida matrimonial. A expectativa dos obedientes à Torá, em seu sentido histórico e literal, é de uma vida longa, portanto de um sucesso natural: uma descendência numerosa e próspera que preservasse o nome. São abundantes, no Deuteronômio, exortações como esta: “Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir.” (Dt 30:16)

O Novo Testamento coloca um fim mais elevado: a vida angélica (“são iguais aos anjos”, Lc 20:36). A mudança de fim implica mudança na maneira como as coisas são priorizadas hoje.

Se a melhor vida a se alcançar, no AT, era vida longa com com muitos filhos naturais (como no Salmo 128), então o matrimônio era a melhor forma de vida, e tanto os eunucos quanto os inférteis tinham uma condição social de desonra e inferioridade, como amaldiçoados. O Novo Testamento vê mais longe do que aquilo que está explícito no Antigo. Então aqueles que eram desonrados foram elevados por Deus, “concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24).

A Antiga Aliança toma como referência a Primeira Criação, passada. A Nova Aliança, sem desprezar a Primeira Criação (portanto sem desprezar o matrimônio), toma como referência maior a Nova Criação. Por isso, o milagre de Isabel (que cuja família significa o ápice da Antiga Aliança) foi o milagre de ter um filho mesmo sendo infértil, como Sara. Sua vergonha foi convertida em alegria: “Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbrio perante os homens.” (Lc 1:25). Mas o milagre de Maria (cuja família significa o ápice da Nova Aliança) foi o da maternidade sobrenatural, preservada sua virgindade.


O texto de 1Co 7 trata, em parte, da “opinião” do apóstolo Paulo sobre qual deveria ser o destino de todos os cristãos, mas a superioridade do matrimônio não é matéria de opinião. Se fosse opinião, já seria bastante coisa, pois era a opinião de um apóstolo de Cristo, de alguém que tinha uma mente muito mais espiritual que a nossa, que tinha um “conhecimento tácito” das coisas divinas e das realidades humanas que nós não alcançamos. A opinião (isolada?) de um apóstolo não é mera opinião.

Mas o que o apóstolo Paulo trata como “opinião” é que todos deveriam ser celibatários (“Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto…”, 7:7). A superioridade do celibato não é tratada como opinião no texto: “quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor.” (7:38).

Algumas pessoas tentam fugir dessa superioridade do celibato alegando que havia algum motivo particular para a preferência do celibato, motivo que estaria ligado, talvez, à perseguição que os cristãos sofriam. A particularização é a primeira estratégia de quem quer fugir de qualquer texto bíblico, alegando que o texto trata de certas condições que, curiosamente, não estão em parte alguma do texto. Não há qualquer menção à perseguição. Esses leitores veem Paulo falar da “angustiosa situação presente” ou “instante necessidade” (7:26) e presumem que Paulo fala aí de perseguição. Paulo procura ali poupar os cristãos de “tribulações na carne” (7:28), mas essas tribulações não estão diretamente ligadas, no contexto, a nenhuma perseguição, mas às necessidades do mundo que nos impedem, como casados, de alcançar a consagração total, sem distrações (7:32-35).

Isso se percebe no motivo pelo qual os cristãos são autorizados a casar (como coisa boa): “por causa da impureza” (7:2), ou seja, porque, para os que não são capazes de se dominar (manter a continência da castidade), “é melhor casar do que viver abrasado” (7:9). O que isso tem a ver com perseguição? Coisa nenhuma. Ora, se estão autorizados a casar aqueles que não se dominam, como pode ser coisa superior o matrimônio? Se o celibato tem o propósito de dedicação completa, como ele pode ser inferior ao matrimônio? É como dizer que se dominar é inferior a não se dominar, ou se consagrar é inferior a não se consagrar. É absurdo. Prefiro concordar com o apóstolo. E com o Espírito Santo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Os Apóstolos não escreveram tudo

Existem várias coisas que Cristo e os apóstolos ensinaram e que sabemos, através do Novo Testamento, que não foram registradas nos escritos canônicos. Os apóstolos esperavam que esses ensinos orais tivessem autoridade (cf. 1Co 11:2; 2Ts 2:15; 3:6 etc).

Alguns exemplos:

1. O ensino acerca dos símbolos do Santuário israelita é mencionado em Hb 9:1–5, e a carta diz: “Dessas coisas, todavia, não falaremos, agora, pormenorizadamente.” Embora haja, aqui e ali no Novo Testamento (como no livro do Apocalipse) e nos primeiros Pais da Igreja alusões a esse tema, esses pormenores não estão explícitos em nenhum lugar da Bíblia.

2. A liturgia primitiva não foi registrada no Novo Testamento. Os apóstolos ensinaram às pessoas da época algum tipo de culto, mas ele só é conhecido indiretamente, por poucas referências no NT e por comparação com as liturgias históricas preservadas e costumes sinagogais. Não sabemos pelo NT como era a liturgia cristã primitiva, exceto quando lemos o NT à luz desses conhecimentos posteriores (ex: quando lemos os relatos da Ressurreição à luz dessas liturgias).

3. Em Jo 21:25 e At 1:3, ficamos sabendo que Jesus fez e disse coisas que não foram registradas por escrito. Alguém pode supor que essas coisas teriam reaparecido em algum outro momento do NT, mas não há como verificar essa afirmação. Como At 20:35 dá a entender, esse conhecimento oral sobre as palavras de Jesus não registradas nos evangelhos (ágrafos) circulava na época.

4. O NT depende de um “dicionário” moral específico, ou seja, de que certas virtudes, que nunca são explicadas, sejam entendidas de certa maneira. O que é piedade? O que hospitalidade? O que é mansidão? Essas e outras expressões dependem de uma dada cultura religiosa — pré-cristã em grande parte, inclusive (judaica e pagã) — que lhes confira significado e praticidade. Com certeza em algum momento os apóstolos tiverem que ensinar algo sobre essas coisas, mas não temos o registro direto desses momentos.

5. Em alguns momentos, como 2Tm 2:2, temos o ensino oral como coisa preciosa a ser guardada por pessoas específicas. Não faria sentido dizer isso se tudo seria escrito num mesmo lugar.

6. Em 2Co 12:2, Paulo fala do “terceiro céu“. Esse terceiro céu não é explicado em nenhum lugar da Bíblia. Havia no judaísmo apocalíptico da época especulações sobre isso. Cristo e os apóstolos pensavam algo sobre isso, e o texto dá a entender que eles concordavam em parte com essa cosmologia. Mas onde concordaram e onde discordaram? O NT não nos diz.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Se os mártires morreram alegres, por que Cristo se entristeceu com a morte?

Alguém me fez essa pergunta. É comum que as pessoas que acreditam que Cristo teve “separação espiritual” com o Pai usem a tristeza de Cristo como indício disso. É um argumento antigo, usamos também pelos arianos na Antiguidade.

No entanto, tudo o que os textos bíblicos dizem a esse respeito é quanto à morte: “profundamente até à morte” (Mc 14:34), “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte” (Hb 5:7). A leitura mais óbvia dos textos é que se trata do temor da morte (timor mortis).

Na morte de Cristo, existe uma dualidade. Enquanto vários textos bíblicos sinalizam que ele se entregou voluntariamente, e ninguém tomou a sua vida, ao contrário ele mesmo se deu a Deus — portanto que o sacrifício por nós era seu desejo —, por outro lado outros textos mostram que ele não queria morrer. É da natureza humana não desejar a morte, não há pecado ou tentação nisso a priori, e, no caso de Cristo, a tristeza é agravada pela compaixão dele pelos pecadores.

Um exemplo de texto em que se pode ver a angústia causada pela compaixão, isto é, pela tristeza que os pecados dos seus “inimigos” lhe trouxeram: “Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá.” João 13:21

Essa dualidade existe nos santos também. Por um lado, eles desejam alegremente se unir a Cristo através da participação nos seus sofrimentos — isso é crucial, pois eles desejam passar pelo menos que Cristo passou, o que seria absurdo se Cristo estivesse passando por um sofrimento exclusivo. Mas, por outro, eles não desejam a morte em si mesma (Santo Atanásio fugiu de morrer), e lamentam por seus perseguidores.

Alguns pais da Igreja sinalizam o fato de que esse temor, em Cristo, não se origina nele, mas em nós. Ele entra na natureza humana para curá-la, então ele participa dos nossos sentimentos de tristeza e temor da morte. Com isso, ele nos mostrou o seu caminho para lidar com temores e ansiedades: a oração.

Um fato intrigante é o modo como o desleixo dos apóstolos é visto em termos escatológicos.

“É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie. Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a todos: vigiai!” Marcos 13:34–37

“Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes… Voltando, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” Marcos 14:30,37–38

A tentação de Pedro (o porteiro) e dos apóstolos era um sinal da história da igreja, de como viria o sono, a tentação escatológica, e de como isso trazia angústia ao coração de Jesus. Essa leitura paradigmática e arquetípica dessa narrativa fortalece a ideia de que Cristo não está angustiado ali apenas por si, mas por nós, particularmente pelos seus mártires.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Três Epifanias

As Três Epifanias (revelações) são:

A da Natividade, com os magos, em Belém, diante dos pagãos, pela estrela no céu.

A do Batismo, com João Batista, no Jordão, diante dos judeus, pelo Espírito que desce sobre a água.

A das Bodas, com Maria, em Caná, diante dos discípulos, pela água que vira vinho.

A primeira é 6 de Janeiro. A segunda é a terceira são os dois domingos seguintes.

Há um vínculo teológico entre as três epifanias. A primeira é a luz da razão (o conhecimento dos magos), a segunda é a revelação do Antigo Testamento (João Batista é o ápice da Antiga Aliança), a terceira é o Novo Testamento. Por isso: gentios, judeus, cristãos (os três povos).

A luz da razão apenas contempla os céus (estrela). A Antiga Aliança traz o céu à terra (como a chama que desceu para o altar). Mas somente a Nova Aliança tem o milagre na terra.

Os magos trazem os presentes do casamento. João Batista é o amigo do noivo (ele é o “amado” do Cântico dos Cânticos). Maria é a mãe do noivo (que faz simbolicamente as vezes da noiva).

As três epifanias são três eras: a origem, a maturidade e a consumação.

A sequência é também a da cristã iniciação. Na primeira epifania, o ensino e a doutrina. Já segunda epifania, o Batismo. Na terceira epifania, a Eucaristia.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A vela como símbolo

Texto originalmente publicado em 16.11.2020

Assim como os símbolos da Escritura aparecem em quatro níveis (quadriga) na leitura dos Pais, podemos ver um sentido quádruplo em símbolos como a vela.

1) O sentido LITERAL da vela é iluminar o ambiente com uma luz bela, quente, mais bela e viva que a luz elétrica, com uma “memória ancestral” que nós atrai para nossas raízes mais simples e primitivas.

2) O sentido ALEGÓRICO (a fé) é Jesus, a luz do mundo, que em seu sacrifício foi inteiramente consumido, e juntamente com ele todas as pequenas luzes mencionadas nas Escrituras, como João Batista (a comunhão dos santos), que brilham pela luz do Espírito Santo, vindo do céu sobre eles, preparando-lhes para serem mártires do Senhor.

3) O sentido MORAL (o amor) é a nossa alma subindo para Deus em oração. Assim como o incenso (que participa do fogo), a chama da vela se dirige para cima. Os antigos falavam dessa propriedade do fogo. Apontar para cima é naturalmente ser um símbolo da oração. Mas a oração deve ser sacrifício como o de Jesus, perseverante contra o vento frio, contra as trevas que em redor, contra a noite escura da alma. A chama arde continuamente sobre o altar.

4) Por fim, o sentido ANAGÓGICO (a esperança) é a Nova Criação, que, como a Sarça Ardente, será cheia da luz e da glória do Senhor, ao descer aos homens o Trono de fogo, mas, diferente da criação que há hoje, sem ser consumida.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Epifania do Senhor e os Reis-Magos

Hoje, 6 de janeiro, é o dia da Epifania do Senhor, o momento em que “uns magos” foram honrar o menino Jesus, o Rei dos judeus, que havia nascido. O significado desse dia se torna mais forte quando entendemos por que, ao menos no Ocidente, eles foram identificados como reis e como três.

Na antiga profecia hebreia, reis gentios viriam trazendo presentes e tributos, inclusive ouro, incenso e adoração (Sl 68:28–29; 72:10—11; Is 49:7; 60:3,6). Eles vieram a Jerusalém “para adorá-lo” (Mt 2:2), isto é, para se curvarem diante dele como seus tributários. A chegada dos reis-magos sinaliza, por isso, a luz do mundo atraindo os gentios à salvação. Ela representa uma tardia hospitalidade ao Rei de Israel, enquanto, em sua própria nação, os sinais dos tempos não eram percebidos.

O Evangelho nos diz que eram “uns magos”, então eram, no mínimo, dois ou três, e, provavelmente, não muitos, já que os presentes foram apenas três — a menos que houvesse repetição nos presentes, seria desonroso que muitos levassem apenas alguns presentes. Mas esse número de três se liga tipologicamente a outras histórias do Antigo Testamento, como os três valentes de Davi que foram até Belém, quando ela estava sob o domínio estrangeiro, para buscar a água preciosa para o rei — água que depois é rejeitada pelo rei e derramada em sacrifício.

Tradicionalmente, os três magos aparecem como sendo de três nações diferentes, um um negro, um branco e um asiático, recordando os três filhos de Noé que, na narrativa do Gênesis, teriam dado origem a todos os povos do mundo. Nesse símbolismo está, ao mesmo tempo, a igualdade entre eles, sua grandeza comum, e também o reconhecimento comum do Rei dos reis.

Os reis da terra, no Salmo 2, se unem contra Cristo, como vemos acontecer no Apocalipse (19:9), mas ali eles são exortados a “beijarem o Filho”. No Apocalipse, o cenário muda e vemos que “os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra” (Ap 21:24). A chegada dos reis magos é só um pequeno sinal dessa esperança final da paz universal sob o Ungido de Deus. Por isso, a Epifania é a festa da esperança da salvação para todos os povos. Ele é o Rei dos reis, “o Esperado das Nações” (Gn 49:10 LXX), “em seu nome os gentios confiarão” (Is 42:4).

Por isso, o mistério profundo da Epifania é, ao mesmo tempo, o cuidado de Deus para com todos os povos da terra, e o modo como todos os povos, sem saber, desejam e esperam o Cristo de Israel. Ele é a satisfação de todo o desejo.

“As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu. A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do Senhor.”
Isaías 60:3,6

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deus, O Rei da Montanha: uma teologia da adoração

“Vi o Senhor, que estava em pé sobre o altar…” Amós 9:1

“Moisés, tendo descido do monte ao povo, consagrou o povo; e lavaram as suas vestes. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo…” Êxodo 19:14,18

A entrada em uma igreja normalmente é uma experiência de elevação. É comum que haja ao menos quatro planos paralelos, quatro níveis numa subida contínua. O primeiro nível é o nível exterior, o nível do mundo, com suas regularidades e irregularidades, o palco dos homens, do trabalho, do mercado, da guerra.

Ao entrarmos, subimos ao nível comum dos cristãos, numa diferença de, ao menos, um degrau em relação ao exterior. Esse é o nível do santuário. Nós nos deparamos com um nível diferente à frente, o presbitério, o espaço dos “anciãos”, do clero. Esses três livres são os níveis das pessoas humanas.

Quando Cristo subiu para pregar o seu famoso Sermão da Montanha, ele não se colocou numa posição acusticamente ótima. As pessoas daquela época sabiam que o anfiteatro, como o de Epidauro (fechado por Teodósio II) — ou seja, ou buraco, não uma montanha —, permitia que a voz fosse melhor ouvida. Ele não subiu principalmente para ser bem ouvido por todos, mas para ser visto e contemplado por todos, colocando-se como o novo Moisés que trazia a revelação da Lei desde os céus. Mesmo em igrejas com estrutura de um anfiteatro, como a famosa “igreja da caverna” do Mosteiro de São Simão, no Cairo, ainda haverá uma elevação central, um pequeno monte que se ergue.

Há, contudo, um quarto plano, que costumamos esquecer porque não é um lugar em que possamos colocar os nossos pés. Esse nível é a mesa-altar, o nível em que Deus pisa, de tal maneira que os nossos olhos se voltem para os seus pés. A mesa é o estrado dos pés de Deus (“…adoremos ante o estrado dos seus pés.”).

Essa estrutura geométrica, que envolve a subida em níveis cada vez mais delimitados, é a forma aperfeiçoada de uma montanha, a transposição arquitetônica velada da geografia sagrada. É a contínua conversão da multiplicidade da terra na unidade dos céus. Quando entramos numa igreja, subimos uma montanha. Deus é o rei dessa montanha.

Na profecia de Daniel 2, lemos que a estátua constituída dos reis e reinos deste mundo é destruída por uma pedra que cresce e se torna uma montanha, e que se expande para o mundo inteiro. Essa profecia do reino da montanha não é a única ocorrência de uma montanha nos oráculos divinos, muito pelo contrário. Os montes são vistos como fonte simbólica de bênção e prosperidade (cf. Sl 72:3; Is 30:25; Jl 3:18; Am 9:13), como no Salmo 121. Na profecia que igualmente aparece em Isaías 2:2–4 e Miqueias 4:1-3, os povos da terra são vistos subindo ao elevado monte do Senhor para adorá-lo no lugar de onde procede a sua lei para o mundo inteiro. A montanha que invade o mundo inteiro é o lugar da adoração das nações.

No Antigo Testamento, o monte de Sião foi o centro de adoração da nação israelita por bastante tempo, o lugar onde Deus estava, em seu Templo, e de onde procedia sua benção para o mundo (“O Senhor te abençoe desde Sião”). A subida ao Monte Santo e à Cidade Santa era uma peregrinação espiritual, que exigia purificação das mãos e do coração, como se canta nos Salmos 15 e 24. O povo israelita ia a Jerusalém levando os frutos do seu trabalho e retornava tendo a bênção, a justiça e o favor do Senhor.

Assim, não apenas as profecias veem o cumprimento messiânico de um dos propósitos do Templo na Oração de Dedicação de Salomão, quando as nações do mundo se converter ao Senhor e vão ao Monte Santo para cultuá-lo, mas o próprio Monte se expandiria para o mundo inteiro. A montanha vai, definitivamente, até Maomé.

Momentos marcantes da vida de Cristo se deram em montanhas e regiões montanhosas, como a visitação a Isabel no ventre de Maria (revelação da divindade), o Sermão, várias orações, a Transfiguração no Tabor, a Agonia no Monte das Oliveiras (revelação da tristeza), a Crucificação no Gólgota e a Ascensão. Assim como os discípulos viram Cristo subir, João vê, sobre uma montanha, descer dos céus a Nova Jerusalém. Isso não apenas é uma repetição dos padrões, onipresentes do AT, de culto a Javé e (por rebeldia) a outros deuses em montes — maximamente gravado em nossa consciência simbólica pela Aqedah, o oferecimento de Isaque no Monte Moriá — mas um sinal profético de que nele se cumpriam todos aqueles antigos propósitos.

Exaltando a Nova Aliança diante da Antiga, o texto de Hb 12:18–24 ensina que os cristãos chegaram ao Monte Sião espiritual, à Jerusalém Celestial, à qual mesmo os antigos santos hebreus não tiveram acesso. Os cristãos entraram em uma “assembleia festiva” (panēgyris), o Culto da Montanha, o Culto do Éden.

Quando nós nos reunimos em adoração, entramos espiritualmente no Monte do Senhor. O domingo, o dia em que repousando de nossas preocupações comuns (shabat), é o pico do monte, onde a elevação nós separa das coisas comuns, que a agora nos parecem pequenas, e nos dirige às extraordinárias. Por isso, é um lugar de visão, de revelação, exigindo nossa consagração pessoal. Embora o monte possa ter muitos caminhos, há um pico no qual nós nos reunimos em unidade.

A subida da montanha é difícil, arriscada, dolorosa, exige disciplina, exercícios — razão porque o Purgatório de Dante é uma montanha. E por que tudo isso, se nós não somos capazes de chegar no céu? Porque tanto esforço, se Deus ainda está infinitamente acima de nós? No entanto, ele promete que o encontrarão os que o buscarem de todo o coração. Não precisamos focar o céu. Precisamos apenas subir a montanha. Ele prometeu descer sobre nós, sobre o cume do monte. Ele nos indicou o lugar onde o milagre da graça acontecerá.

Chegar ao domingo é chegar ao cume da montanha, carregando conosco toda a semana que passou, para adorarmos a Deus. Sair do domingo é descer a montanha, levando a benção do Senhor para a nossa vida no mundo.

Rev. Gyordano M. Brasilino