O que é blasfêmia contra o Espírito Santo?

Uma pessoa perguntou (1) o que é blasfêmia contra o Espírito Santo, (2) por que (supostamente) o sangue de Cristo não seria suficiente para nos limpar dela, e (3) por que é especificamente dirigida ao Espírito Santo (não ao Pai ou ao Filho).

Blasfemar contra o Espírito Santo é aquilo que a expressão indica, e que a versão mateana comunica: “falar contra o Espírito Santo” (Mt 12:32). Blasfemar é insultar algo sagrado (especialmente Deus) — é um sacrilégio de palavras. Falou contra o Espírito Santo? Blasfemou contra ele. Foi o que fizeram os fariseus quando deram (indiretamente) ao Espírito Santo o nome de Belzebu. Isso se enquadra na regra mais ampla de que somos julgados conforme o que falamos (Mt 12:36– 37; cf. Mt 5:22). Parece, então, um pecado relativamente fácil de cometer, embora haja mais a considerar.

O sangue de Cristo é suficiente para nos purificar de todo pecado, se o confessarmos e andarmos na luz (deixando o pecado), como lemos em 1João 1. Ali em Mt 12, Cristo não fala de pecados confessados — do contrário, Paulo jamais poderia ter se convertido, pois, enquanto perseguidor dos cristãos, provavelmente blasfemou muitas vezes (cf. At 26:11) —, mas apenas de pecados cometidos. Com exceção desse, todo tipo de pecado cometido pode ser perdoado ou desculpado (sem referência explícita a confissão) — não digo que ele necessariamente será perdoado, embora Cristo use palavras bem fortes, talvez hiperbólicas (“todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoada”, Lc 12:10).

A condenação extrema desse pecado envolve o fato de que a gravidade da nossa culpa por um pecado cometido é, dentre outros fatores, proporcional à clareza que temos da verdade que o envolve. Quando o Espírito Santo se mostra presente através de um sinal (Mt 12:28), é impossível alegar ignorância. Então é um pecado maximamente consciente, contra Deus, no exato momento em que ele nos dá um presente claro e sinal de sua presença, e nós o rejeitamos publicamente, contaminando outras pessoas — que, no texto bíblico, começavam a se interessar por Jesus e se perguntar se ele não seria o Cristo. É uma ofensa imensa, então não adianta dizer que os fariseus não sabiam que ali agia o Espírito Santo. Sua “ignorância” não é desculpável. A blasfêmia contra o Espírito Santo é, nesse contexto, um anti-evangelho que nega ação do Espirito.

É importante distinguir a linguagem bíblica da linguagem dogmática posterior. Quando Cristo disse tais palavras, ele não estava diante de pessoas que conheciam o dogma da Trindade e que soubessem distinguir hipóstase e “ousia” com rigor capadócio. Quando ele usa palavras como “Filho do Homem” e “Espírito Santo”, não se refere necessariamente à Segunda e à Terceira Pessoas da Trindade, embora suas palavras (assim como o restante do Novo Testamento) tenham servido de base para as definições posteriores. Os biblistas sabem como é complicada essa questão de traduzir “Espírito Santo” no grego do NT.

Há vários outros textos, como Mt 24:36, que geram problemas se presumirmos que Cristo falava a pessoas que conheciam o dogma da Trindade, mas que desaparecem se não tivermos essa premissa anacrônica.

Se Cristo tivesse falado de Pessoas Divinas específicas, o texto estaria um pouco desalinhado com o contexto, já que a blasfêmia dos fariseus foi principalmente contra a Segunda Pessoa, contra o próprio Cristo ali realizando milagre (pelo Espírito Santo). Na verdade, em razão da unidade das Pessoas Divinas, ainda que nossa intenção possa ser repartida, toda blasfêmia contra uma delas é blasfêmia contra as três.

Então não é uma questão de dizer que a uma blasfêmia é tratada de maneira diferente a depender da pessoa a quem se dirige, pois isso seria muito arbitrário e inexplicável. Naquele momento, o que parece é que Cristo usa a expressão “Filho do Homem” no sentido usual que tinha para os seus ouvintes, isto é, “ser humano”, e “Espírito Santo” também no sentido usual, ou seja, a “presença do poder divino”, sem especificar hipóstases. Então ele dizia algo como: quem blasfema contra mim — enquanto homem, sem saber quem eu sou — pode até ser desculpável, mas quem testemunhou meu poder e, mesmo assim, se endureceu, é indesculpável.

A parte mais amável dessas palavras de Cristo é que elas dão a entender que certos pecados têm perdão no mundo vindouro. Do contrário, não faria muito sentido Cristo dizer: “não tem perdão nem neste mundo nem no vindouro“. Não que isso fosse segredo para os judeus, é claro.

Rev. Gyordano M. Brasilino

2 comentários em “O que é blasfêmia contra o Espírito Santo?

  1. Foi um dos textos que achei mais convincente e que fazem mais sentido de todos que já li falando sobre esse assunto. Sou cristã evangélica.

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