A Epifania é uma mistagogia

O tempo da Epifania (Tempo Comum I), entre o Natal e a Quaresma, não é simplesmente uma zona neutra verde, como um “sorbet” para limpar o paladar. Por estar entre a Encarnação e a Ressurreição, entre a chegada do Rei e sua vitória definitiva, esse tempo nos coloca como discípulos, no meio do caminho, sendo formados por Jesus, acompanhando o seu ministério e seus atos.

Por isso, na forma atual, a Epifania começa com Cristo sendo manifestado aos três reis-magos (pagãos que chegaram a ele através da sabedoria da contemplação dos céus), a João Batista (o maior profeta dos judeus vendo o milagre descer dos céus à terra) e aos seus discípulos (através do milagre Caná provocado pelo pedido perseverante de Maria). Essa tripla epifania revela Cristo como Filho aos representantes dos três povos. “Tu és o meu Filho amado” (Lc 3:22); “manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.” (Jo 2:11).

Aos reis, ele se revela como Rei. Ao profeta, ele se revela como o Profeta. A quem ele se revela como o Sacerdote, senão àqueles que ele transforma em sacerdotes?

Neste ano C (Lucas), no meio do caminho entre a Epifania e a Transfiguração, Cristo se coloca como cumprimento das profecias antigas e é rejeitado em Nazaré. Antes mesmo de formar sua primeira comunidade, ele já diz a que veio, já coloca o programa da sua missão para os pobres e oprimidos, trazendo a justiça do Deus de Israel, tão esperada. Ele mostra, com isso, a necessidade de avançar para além da sinagoga de sua época, restrita ao ensino da Lei, e de como Deus, ao ser rejeitado, leva seus milagres aos estrangeiros e rejeitados.

Então Jesus sobe o monte, escolhe seus doze apóstolos, desce à multidão dos discípulos e, para essa nova comunidade, traz sua mensagem de esperança para os pobres, famintos, sofredores e perseguidos — a esperança do Reino de Deus, que traz reviravolta ao mundo — e, contudo, uma mensagem de amor aos inimigos, amor radical, amor reconciliador, uma mensagem de misericórdia que nos ancora na misericórdia transformadora do Pai, e que nos tira da lógica das recompensas meramente humanas e passageiras.

São os discípulos que primeiro aprenderam essas coisas que agora podem subir o monte para contemplar o Reino de Deus vindo com poder, e então descer para enfrentar os poderes das trevas que atacam os pequeninos, a confusão do mundo. Eles precisavam primeiro ter o coração purificado em sua esperança e em seu amor.

Esse tempo termina com a manifestação máxima: a Transfiguração, na qual os três discípulos de Cristo (como os três magos) têm uma visão de Cristo transfigurado em vestes brancas (as roupas místicas dos anjos e sumo-sacerdotes com acesso à Visão Divina). Repetindo a tripla Epifania, eles “viram a sua glória” (Lc 9:32) e ouviram: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi.” (Lc 9:35). Os discípulos escolhidos, o círculo íntimo, têm acesso ao Mistério, ao Segredo.

A seguir vem, então, a Quaresma, na qual saímos a enfrentar o demônio, e, tendo em nós a memória da Glória, caminhamos para carregar a Cruz. Enquanto a Epifania nos eleva, a Quaresma nos reduz.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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