A Quaresma não é um produto

“…esta noite te pedirão a tua alma…” Lc 12:20

Uma tentação constante, para os cristãos da nossa época, é a de tratar a igreja e a vida cristã como um lugar que nos livra dos nossos problemas. Nossa cultura incentiva essa maneira de viver, e muitos cristãos são tentados até mesmo a apresentar o evangelho assim. Em alguns casos, tentam mostrar a sua religião como uma solução para problemas que as pessoas enfrentam; em outro, tentam apresentar às pessoas problemas que elas nem imaginam que têm (“o pecado”) para em seguida mostrarem a solução.

Nem tudo isso é necessariamente errado. Não me levem a mal: os sofrimentos que há no mundo são sérios, e a Igreja tem sim responsabilidade de mostrar onde encontrar alívio e inclusive de mudar o que precisa e pode ser mudado. Nossas vida são todas entrelaçadas, não podemos nos fechar em nossa tendas na montanha. Devemos descer a montanha para enfrentar os demônios que oprimem outras pessoas.

No entanto, e talvez por isso mesmo, a Igreja também nos chama a sofrimentos, porque Deus também nos chama a sofrimentos. Cristo era muito direto: quem quiser me seguir, carregue sua cruz, e eu não ofereço travesseiro. Esses sofrimentos do evangelho não são buscados como fins em si mesmos — não há um amor à dor —, mas eles são parte de um processo pelo qual nós nos tornamos como Cristo. A Quaresma não é um solução para os nossos problemas, ela é um problema para as nossas soluções, um pequeno incômodo para quem está cômodo.

O projeto de vida de de algumas pessoas é alcançar algum tipo de comodidade. Mas a terra que mana leite e mel não é um destino último, é o ponto de partida para uma missão ao mundo inteiro.

A Quaresma é a lembrança de que somos chamados ao sofrimento, a abraçar o deserto, a participar do sofrimento do mundo, e não apenas combatê-lo. Oramos em silêncio e em segredo, nós nos abstemos de comer e doamos o que é nosso — esses desafios que o Senhor coloca diante de nós são parte do processo de colocar a nossa dependência no lugar certo. Estar no deserto é se libertar da cultura de consumo que nos anestesia contra a realidade do sofrimento no mundo.

Então a Quaresma não é mais um produto para solucionar nossos problemas momentâneos. Ela é um problema. Ela é o reconhecimento de um problema que está aí, em primeiro lugar. Ela é a aceitação da realidade. Ela é o convite para aqueles que estão, como Jesus, cheios do Espírito Santo (ou ao menos acham que estão), para entrar no sofrimento.

Não há maturidade enquanto queremos que tudo seja cômodo, que tudo seja muito “à vontade”. Por isso, a Quaresma é um chamado ao amadurecimento, à responsabilidade. A cada ano, a cada Quaresma, é uma oportunidade de amadurecer um pouco mais e assumir responsabilidades mais profundas.

A lógica do produto é gerar comodidade de algum tipo. A Quaresma nos tira da comodidade momentânea. Frequentemente a vida se enche de comodidades, de conforto que toma nossa atenção, nos cega e nos torna dependentes. Nós não somos feitos para desfrutar de comodidade neste mundo. Estamos cada vez mais cercados de coisas que atraem nossa atenção com maior força e, ao mesmo tempo, merecem cada vez menos atenção, uma superficialidade cada vez mais poderosa.

Ao reduzir o consumo e aumentar a partilha, pedimos que o Senhor transforme nosso desejo em amor. O deserto rompe vínculos, muda o foco da nossa atenção, muda a velocidade do tempo, muda o tempo do tempo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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