Dez coisas a corrigir na evangelização evangélica

Nós costumamos de chamar “evangelização” a maneira como pregamos o “evangelho” ao mundo, especialmente entre as pessoas que não o abraçaram ainda. O modo como nós o fazemos, em nossa própria realidade brasileira, a depender da vertente da qual fazemos parte, pode padecer de certos vícios históricos. Aqui eu listo dez deles que eu considero relevantes. Falo disso como pastor, portanto como uma pessoa envolvida na missão da Igreja, e como alguém que já participou de evangelização em vários ambientes diferentes. O propósito é mostrar que nós podemos fazer melhor do que geralmente fazemos, quanto aos métodos e propósitos.

1. A ideia de que evangelizar signifique tirar pessoas do catolicismo para colocá-las em igrejas evangélicas.

Muitos evangélicos ainda reproduzem aquilo que era a realidade das igrejas há várias décadas, quando o catolicismo era a imensa maioria dos brasileiros, e crescer significava, portanto, converter católicos. A ideia é, basicamente, de que quem está no catolicismo está perdido e de que essas pessoas precisam ser salvas, e que isso significa que elas devem se tornar evangélicas, devem “aceitar Jesus” do jeito evangélico, como significando que os católicos não “aceitam Jesus”.

Dentro dessa mentalidade, alguns evangélicos fazem o que eu chamo de “contra-calendário”: adotam como estratégia (de evangelização) fazer o contrário do que o catolicismo e o resto do “mundo” fizerem. Se os católicos observam o dia de finados, evangélicos saem para falar de vida; se os católicos estão no Sábado Santo, quando Cristo está morto e sepultado, evangélicos saem a dizer a grande “novidade” de que ele já ressuscitou; se estamos na Quaresma a falar de jejum e penitência, falam de liberdade. A ideia é sobressair pela oposição.

Independentemente do fato de que muitos católicos não tenham tido uma relação sólida com sua própria religião — vista muito mais em termos do cumprimento de deveres e expectativas sociais ou, quando muito, da satisfação da afetividade das devoções santorais populares, do que propriamente de discipulado e amor a Cristo —, na realidade, hoje vivemos numa sociedade com parcela considerável sem qualquer filiação religiosa. Essas pessoas, e não a polêmica com o catolicismo, são nossa prioridade.

2. A ideia de que evangelização não tem relação com “ação social”.

Isso tem vários níveis. O mais básico e óbvio é o de que ninguém presta atenção às necessidades mais elevadas (“espirituais”) enquanto as mais básicas não forem atendidas (“corporais”), e de que nossa mensagem não é crível se não nos importamos com o que as pessoas enfrentam — de que elas não são apenas objetos do nosso projeto de expansão.

Ação social não é, é claro, feita apenas no sentido de converter pessoas ou colocá-las na sua igreja, mas por real amor e compaixão pelas pessoas nas condições reais em que se encontram. O fato é que, se entendemos que a Igreja é uma casa espiritual para oferecer sacrifícios espirituais (1Pe 2:5,9) — e que o serviço pelo próximo é sacrifício a Deus—, aquilo que fazemos pelas pessoas ao nosso redor não pode atentar para apenas parte de suas necessidades, mas para a totalidade delas, naquilo em que está em nosso poder. A Igreja de Cristo é um reino e, como tal, tem poder para transformar realidades sociais.

3. A ideia de que evangelização se dirige apenas aos “de fora” — de que os “de dentro” já foram evangelizados e não precisam sê-lo novamente.

Existe um erro muito frequentemente na maneira como grande parte do evangelicalismo popular usa a palavra a palavra “já”. Se algo “já” aconteceu, não deve acontecer de novo. Fulano é abençoado, então não faz sentido dizer “Deus te abençoe”, mas “Deus continue te abençoando” — contrariando a Bíblia. Cristo sofreu por mim, então eu não preciso sofrer. Existem mil exemplos disso. O problema não é a palavra em si, mas a maneira como ela revela certa maneira simplista de pensar as coisas.

O evangelho, no entanto, não é só uma mensagem sobre o que devemos crer — é também uma mensagem sobre o que devemos esperar e como devemos amar. Por isso, é uma mensagem que devemos sempre aprofundar em nossas próprias vidas, para uma maior conversão a Cristo. Se o tipo de mensagem que evangelizamos só faz sentido para os de fora, das duas uma: ou a mensagem está com algum problema, ou os de dentro estão. Provavelmente os dois.

4. A ideia de que conversão acontece apenas uma vez.

Isso tem a ver com o tópico anterior, e é uma das premissas por trás do programa de fazer pessoas “aceitarem Jesus”. Na Bíblia, se converter-se é se converter “dos maus caminhos”. Por isso, conversão é algo que acontece várias vezes, não só uma. Então a evangelização não pode se dirigir apenas àqueles que nunca ouviram a “mensagem”. Ela deve ser uma voz constante e profética chamando os homens à fé no evangelho, à esperança do evangelho e amor ensinado no evangelho — à vida plena com Deus —, coisa de que cada um de nós necessita repetidas vezes .

5. A ideia de que evangelização se dá apenas através de palavras, e não também através de práticas, artes, símbolos e presença física.

Isso exige mais paciência e maior abertura à cultura. Chamamos as pessoas a serem não apenas adoradoras, mas parte de uma comunidade de adoradores, a se engajarem em práticas coletivas de adoração. A vida de uma comunidade inevitavelmente transforma o espaço, e pode fazê-lo da melhor maneira, como um lugar de beleza que dirija o pensamento às realidades mais elevadas, que facilite a elevação do coração a Deus como satisfação de todos os nossos desejos. Não há uma inimizade ou oposição real entre isso e a pregação do evangelho fora dos espaços que não sejam explicitamente eclesiásticos. Assim, a ideia do espaço sagrado não é inimiga nem limitadora da evangelização; ao contrário, a evangelização é justamente o convite ao banquete, um chamado universal à casa de oração de todas as nações.

6. A ideia de que evangelização é, necessariamente, mostrar que as pessoas são pecadoras e precisam encontrar a solução do jeito que a igreja oferece — ou seja, de que evangelizar se limita a esse discurso.

Para algumas pessoas, isso é “o evangelho”, ou seja, apresentar a condenação e a saída — basicamente salvar as pessoas do Deus que as condenaria. Nessa lógica, Deus prometeu salvar os crentes e condenar os ímpios, e enviou os cristãos pelo mundo para garantir que o máximo de pessoas (ou os eleitos) estejam na condição certa. Então o discurso acaba sendo o de queda e redenção, como a única possibilidade.

Quando vemos a maneira como os cristãos “evangelizavam” nos Atos dos Apóstolos, e a maneira como eles o fizeram ao longo dos séculos, especialmente em missões em novos povos, encontramos muita variedade na abordagem. A apresentação do “querigma” fundamental, embora gire em torno daquilo que está no Credo Apostólico, varia muito de contexto a contexto. Não há qualquer necessidade de pensar que a pregação do evangelho pelo mundo seja necessariamente algo como mostrar o Inferno e depois a alternativa do Céu — não há indícios sólidos de que os apóstolos de Cristo tenham pregado assim, e não há qualquer garantia de que essa seja a melhor abordagem em todas as situações.

Em muitas situações, o problema do “pecado” é um que simplesmente não faz sentido para as pessoas. Elas não se veem naturalmente a partir de um prisma “legal”, como absolvidas pela lei ou condenadas pela lei. As pessoas do nosso tempo às vezes entendem melhor outros problemas: a solidão, o tédio, a necessidade de pertencimento, a volatilidade dos relacionamentos, a falta de uma âncora no coração, a perda de sentido para a vida e de esperança, a opressividade da cultura, a necessidade de forças para lutar por mudança, a insatisfação diante das comodidades que o mundo oferece, e outras coisas. Nós sabemos que tudo isso só encontra sentido em Cristo, e apresentar Cristo como o manancial de águas que sacia a nossa sede, costuma ser mais eficaz do que um discurso caricaturado sobre como podemos ser salvos da ira de Deus.

Alguns cristãos evangélicos estão tão presos a essa abordagem evangelística (como a das “Quatro Leis Espirituais”) que a mera sugestão de que se possa evangelizar de outras maneiras pode ser um choque, mesmo que, na prática, isso aconteça em todas as igrejas.

A maioria das pessoas abraça a fé cristã mais através de relacionamentos (inspiradores, amorosos, fiéis, atentos) do que por terem ouvido algum tipo de solução para o problema do pecado e da condenação. Por isso, contar nossa própria história, nosso “testemunho”, como uma maneira de conectar a mensagem à nossa própria experiência, sempre foi uma boa maneira de mostrar que aquilo que é pregado não é só mais um discurso — de que somos parte de uma história ainda se desenrolando.

De fato, há um problema sério vemos as pessoas “de fora” principalmente como “pecadoras” — quando o traço principal a defini-las é a de pessoas erradas.

7. A ideia de que evangelizar não tem a ver com colocar as pessoas na Igreja, mas apenas com a aceitação de uma “mensagem”.

Isso tem muito a ver com um equívoco sobre qual é a “mensagem” que a Igreja prega. Em muitos ambientes, a expectativa é pregar uma mensagem que leve as pessoas a “acejtar Jesus” — pois a salvação consistiria, em tese, de uma fé nessa mensagem, sem a necessidade de boas obras. Geralmente esse é um erro cometido por pessoas mais jovens, que às vezes perdem de vista a necessidade de conectar a evangelização ao discipulado — dentro de um processo de salvação — e, portanto, perdem de vista a necessidade da Igreja para a salvação.

O evangelho não só salva almas individuais, mas forma comunidades tocadas pela graça de Cristo, constituídas como ambientes de cura, restauração, reconciliação, serviço e esperança, como casas de adoração ao Deus Trino. A comunidade não é desnecessária. Como dito acima, o evangelho não é só uma mensagem sobre o que devemos crer, mas também uma mensagem sobre o que devemos esperar e como devemos amar.

8. A ideia de que evangelização pode dispensar os sinais do Reino de Deus, como milagres e libertação espiritual.

A maneira como Cristo e os apóstolos pregavam envolve um “evangelho de poder”. Eles sabiam que a pregação do evangelho, se acompanhada de milagres e sinais, dirigia a conversão a se fundamentar menos nas palavras de sabedoria humana e mais no poder divino. Por isso, a melhor evangelização é aquela em que há consciência da batalha espiritual, de que estamos envolvidos num conflito com as forças das trevas e sua ação opressora. Devemos abandonar a mentalidade burguesa que exige que tudo aconteça de modo muito comportado, fino, limpinho e respeitável — sem “coisas estranhas”. Isso é engano diabólico. A vitória na batalha começa com a expectativa certa e com a fé certa.

9. A ideia de que a evangelização não precisa de um envio e de uma conexão com a autoridade eclesiástica, já que supostamente todos são automaticamente enviados.

Embora o silêncio seja um testemunho melhor do que o erro, é muito melhor uma igreja que evangeliza, mesmo que às vezes falte sabedoria, do que uma absolutamente calada, que nunca compartilhe de sua fé e que queira apenas ficar fechada no conforto de sua tenda na montanha.

No entanto, existe algo ainda melhor. Alguns cristãos, lendo de maneira individual e unilateral os ensinamentos bíblicos sobre evangelização, se consideram automaticamente enviados por Deus, como se cada cristão tivesse autorização celestial para conduzir um trabalho de evangelização. Isso envolve uma maneira incorreta de ler a “Grande Comissão”, como se ela fosse simultaneamente (1) uma explicação completa ou resumo da missão da Igreja, (2) uma explicação da missão de cada cristão individualmente (generalização). As duas coisas são falsas.

Cada um de de nós pode e deve evangelizar no sentido de compartilhar sua fé com as pessoas ao nosso redor, mas deve fazê-lo sempre em comunhão e consonância com o trabalho que nossa própria comunidade desenvolve, nunca com independência. O evangelho só é correto se ele envolve a vida de discipulado, como disse acima — ora, isso necessita da comunidade concreta.

10. A ideia de que a evangelização pode evitar conflitos e confronto.

Aprendemos, nas Escrituras Apostólicas, que devemos ser sábios na maneira como tratamos os “de fora”, fazendo o possível para termos paz com todos, sem escândalos para gregos e judeus. Devemos, por isso, ter muita paciência e ser inimigos das contendas inúteis. Nós evangelizamos muito melhor quando nosso caráter manso, pacífico e temperante corroboram e exemplificam o poder do Espírito Santo que nos unge para testemunhar sobre Cristo. Em vários momentos das Escrituras, vemos Cristo e os apóstolos sendo respeitados e aprovados pelas pessoas da fora.

No entanto, não é possível fugir da hostilidade — todos os que forem fiéis a Cristo parecerão “perseguições” (mais ou menos intensas). Algo muito ruim acontece com a nossa mensagem quando tentamos, a todo custo, ser aprovados pelas pessoas — Deus abomina o que é aprovado pelos homens. Ai de nós quando falarem de nós apenas o bem. Por isso, vemos que os apóstolos inclusive usavam a argumentação e o debate como estratégias para converter pessoas. Não devemos impor a obediência ao evangelho, mas a lealdade ao nosso mandato missionário implica que, em alguns momentos, enfrentaremos hostilidades. Deus nos conceda a graça de o fazermos sempre em amor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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