Sacrifício, Violência, Dom

O Novo Testamento apresenta a Igreja como “casa espiritual” para “oferecer sacrifícios espirituais”. Em razão disso, não é possível entender a essência e a missão da Igreja sem entender o que é um sacrifício. Uma eclesiologia sacrificial é necessária.

Na linguagem corrente, usamos a palavra “sacrifício” num sentido negativo: sacrificar é eliminar, é destruir, é negar, ou, ao menos, realizar algo através de algum tipo de dor pessoal que seja, em algum sentido, também destruição. O sacrifício envolve alguma forma de violência, e a Igreja, particularmente na forma da comunidade concreta, passa a ser um lugar de violência sublimada — um lugar de violência simbólica. Embora Girard veja no sacrifício de Cristo o fim de uma história terrível, no fim das contas a narrativa padece desse mesmo preconceito antissacrificial, e nos deixa a ver navios quanto ao propósito da Igreja enquanto continuidade da prática sacrificial.

Esse é um dos motivos pelos quais eu creio que a heresia kenótica tenha certo apelo entre os diletantes modernos da cristologia. Se eu entendo que sacrificar é deixar para trás, é concebível, para os sequazes de uma antimetafísica obstinada, que a obra de Cristo consista, em parte, no abandono (temporário) da sua divindade. Se sacrificar é negar, há algum sentido nisso. (Bem pouco, sinceramente.)

Mas não é bem esse o sentido que a palavra “sacrifício” tem na tradição cristã e, francamente, também na própria Bíblia. Embora isso seja muito claro em Santo Agostinho — para quem o sacrifício é uma forma de unir, não uma forma de destruir, uma forma de afirmar, não uma forma de negar —, acho que a primeira pessoa que realmente chamou minha atenção para isso tenha sido Robert Daly, há poucos anos. O fogo do amor não destrói a oferta, antes a eleva às regiões superiores; isso é realmente “sacri-ficar”, tornar sagrado.

Um sacrifício é uma forma de presente, de entrega, de dom. Na raiz das mais diversas religiões, está a noção de que o sacrifício é uma forma de alimentar a divindade, coisa que, óbvio, se torna supérflua a partir do momento em que a divindade é tratada em termos propriamente absolutos. Por isso também, a forma de sacrificar é mudada. Santo Agostinho diz, de modo interessante, na Cidade de Deus: “E a razão por que aqueles sacrifícios [da lei] tiveram de ser mudados, no momento oportuno e pré-estabelecido, foi precisamente para impedir que as pessoas acreditassem que os sacrifícios em si mesmos, em vez das coisas significadas por eles, eram desejadas por Deus ou ao menos aceitáveis em nós.” (X, 5)

De todo modo, o que está em jogo não é a morte — que só acontece em alguns tipos de sacrifícios —, mas o oferecimento do presente. Não é à toa que os sacrifícios sejam chamados de “dons” (gr. dōra). Sacrificar é presentear, e, por isso, é uma forma de transitar (inaugurar, restaurar, fortalecer) numa dinâmica de amizade, agradecimento e reciprocidade para com os poderes superiores. O Antigo Testamento tem alguns resquícios simbólicos da ideia de alimentar a divindade, mas o rejeita frontalmente, particularmente no discurso dos profetas, para quem o melhor sacrifício a se oferecer a Deus é a justiça compassiva para com o próximo e o culto do coração a Deus. São Tomás nos lembra de que o nosso principal sacrifício é a devoção, e isso tudo é parte de um processo de quase três milênios, que ainda não acabou, no qual temos ressignificado (espiritualizado) o sacrifício.

Tudo isso é muito óbvio para quem tenha refletido acerca da noção de Sacrifício Eucarístico. Na Eucaristia, não eliminamos ou destruímos nada de Cristo, muito pelo contrário. O sacramento não destrói, somente “acrescenta”. Embora possamos falar de um investimento de recursos, tempo, atenção e tantas outras coisas que a celebração do sacramento possa envolver, no fundo, o nosso próprio oferecimento só é pleno quando todas essas coisas forem vistas como formas de ganhar, não como formas de perder. Tratar o sacrifício como eliminação é impiedade. Todas as vezes em que sacrificamos, seja na Eucaristia, seja em qualquer outra coisa, nós somos os beneficiários.

O sacrifício não é parte de um jogo de soma zero, mas sim de uma uma dinâmica simbólica criativa, um de aprofundamento ontológico. Por isso, ao dizer “não tenho minha vida por preciosa”, Paulo tornou sua vida sumamente preciosa. Inversamente, ao dizer “não darei ao Senhor sacrifícios que não me custem nada”, Davi tornou em nada o valor que ele ofereceu a Deus. No sacrifício, damos a Deus tudo como se não fosse nada, e é assim que nada se torna tudo. Sacrificar é dizer: nossa amizade, nossa comunhão, é mais importante do que tudo o que esteja em minhas mãos, por isso, com desapego, eu te dou. O apego destrói o valor; a entrega o multiplica.

Por isso, não há qualquer oposição ou contradição entre a Eucaristia como sacrifício e a Eucaristia como banquete — nós comemos entregando e entregamos comendo; tanto sacrifício quanto banquete são formas de dizer: união com Deus. Se essas duas coisas forem bem entendidas, não há sequer como enfatizar uma sem que a outra seja igualmente enfatizada.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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