Apego não é idolatria

Uma pessoa que queira manter a sanidade mental e crescer no autoconhecimento, e entender seus próprios pecados e fraquezas, deve se manter protegida contra o pensamento de que o coração é uma fábrica de ídolos, e contra a obsessão de tratar todo excesso como idolatria.

Inspiradas por esse tipo de pensamento, muitas pessoas acabam presas numa introspecção mórbida, tentando encontrar a raiz de idolatria por trás de cada pensamento ou hábito que lhes pareça exagerado. Um dos alvos mais frequentes é o apego a outras pessoas, o que frequentemente provoca crises emocionais inteiramente desnecessárias.

A ideia parece ser a seguinte: se você dá às outras pessoas uma atenção que deveria ser dada a Deus, isso se constitui idolatria. Essa maneira (não bíblica e muito geral) de “definir” a idolatria leva a muitos problemas. Quando o apóstolo Paulo fala de como o solteiro pode se dedicar inteiramente às “coisas do Senhor” e o casado deve se dedicar às “coisas do mundo”, basicamente ele trata da situação de uma pessoa que, ao casar, escolhe, com isso, dar menos atenção a Deus. Surpresa: Paulo não trata isso como idolatria. Essa pessoa que, na descrição de Paulo, está “dividida” entre as coisas do Senhor e as coisas do mundo não comete idolatria. Ela casou porque precisava casar, por conta de suas fraquezas e necessidades, e deve fazê-lo sem peso na consciência.

A idolatria deve ser bem definida: idolatria é uma forma de culto, de adoração. Nem toda dedicação é culto. Nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é culto. Então nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é idolatria. Lembremos: nem toda dedicação é excessiva. Não há necessidade de ficar caçando idolatria.

Uma coisa que, certamente, não é idolatria é apego a outras pessoas. Existe apego excessivo, mas a Bíblia é até extravagante na maneira como descreve o apego lícito, natural e saudável, tratado como “amor ardente” (1Pe 1:22; 4:8). É esse amor ardente que leva ao pranto contínuo de Ana por um filho que ela (ainda) não teve, ou ao pranto pela morte de Estevão, ou o imenso cortejo e lamento na morte de Jacó, ou pela partida de Paulo. Essas demonstrações emocionais nunca são tratadas como exageradas. Não é difícil colecionar exemplos de pessoas com apego muito intenso a outras pessoas, que jamais são repreendidas pelas Escrituras, antes são colocadas como modelos:

“Então levantaram a sua voz, e tornaram a chorar; e Orfa beijou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Por isso disse Noemi: Eis que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses; volta tu também após tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;” Rt 1:14–16

“Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer.“ Sl 16:3

“Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia.” 2Co 2:12–13

“Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos.” 1Ts 2:8

Rev. Gyordano M. Brasilino

Divórcio e Segundo Matrimônio: Minha Posição

De vez em quando alguém me pede para falar desse assunto. Confesso um certo receio de tratar de um tema que envolve tantas situações diferentes, que toca nas dores e nos sofrimentos de muita gente, cujas condições não podem ser adequadamente abordadas em um texto que queira ser simples. Seis considerações são necessárias:

(1) Pessoas casadas considerando o divórcio ou segundo matrimônio como uma possibilidade devem ser aconselhados pastoralmente, em suas igrejas, e não simplesmente se guiar por algum texto que encontraram na Internet. O propósito deste texto não é dar orientações pastorais, é ajudar a entender como a Igreja deve lidar com esse assunto, e mostrar um pouco de como eu lido com essa questão. Este texto provavelmente só será útil em igrejas que sigam a mesma perspectiva, como esclarecimento dela.

(2) É possível que minha posição seja vista, por um “tradicionalista” — como os católicos romanos e reformados que defendem indissolubilidade absoluta —, como uma abertura exagerada e incontrolável que levará (ou já levou) ao caos matrimonial. A mesma posição talvez seja vista, pelo partido oposto, talvez mais “progressista”, como rigorosa, retrógrada, incompassiva, reacionária, incoerente. Aconteça o que acontecer, minha posição não será “em cima do muro”. Direi exatamente o que penso sobre assunto.

(3) É importante notar que, como consideraremos a interpretação de textos bíblicos, devemos fazê-lo sem impor a linguagem histórica com a qual, séculos depois, os cristãos passaram a tratar do assunto: distinções entre “anulação”, “divórcio” e “separação”, ou entre “matrimônio sacramental” e “casamento natural”. Essas distinções são importantes e úteis e devem fazer parte da discussão, mas devemos tomar cuidado na maneira como nós as vemos nos textos. As tradução que há se veem forçadas a escolher traduzir por “divórcio” ou “separação” textos que, no grego, usam a mesma palavra. Sem detrimento do mérito dos tradutores, não devemos colocar peso demais quando as encontramos num dado texto. Essas distinções têm uma história, e em alguns momentos elas simplesmente não existiam. Os cristãos de hoje talvez ficassem chocados com a maneira como, na época dos Pais da Igreja, os cristãos eram tolerantes com o concubinato (e como as pessoas em concubinato comungavam na Igreja).

(4) Não devemos temer que o ensinamento de Cristo seja visto como rigoroso (desde que não desumano). Ele disse: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20). O ensinamento de Cristo sobre o divórcio e segundo matrimônio foi, em particular, visto como difícil pelos seus discípulos (Mt 19:10). Um ensinamento que nos pareça muito fácil talvez seja uma construção de nossa própria imaginação.

(5) Não imaginei este texto como um ataque a nenhuma posição diferente da minha, ou a pessoas cujas condições de vida estejam (aparentemente) desalinhadas para com o que eu digo aqui. Pessoas divorciadas não devem ser destratadas ou desprezadas, muito pelo contrário; a Igreja deve sempre procurar uma maneira de reintegrá-las, e não simplesmente puni-las eternamente. Os divórcios já acarretam danos enormes sobre os casais e sobre os filhos, a Igreja não deve contribuir com isso, mas ser um lugar de cura.

(6) Eu creio que o ensinamento de Cristo sobre esse assunto é perene, é permanente, e deve ser seguido por nós até o fim dos tempos. Existem mudanças na cultura, e essas mudanças na cultura nos levam a considerar de maneira diferente certos fatores que serão mencionados abaixo. Mas, aconteça o que acontecer, eles não devem mudar os mandamentos de Jesus.

Pois bem, o tema do divórcio e a possibilidade (ou não) de segundo matrimônio é um dos assuntos mais difíceis para os cristãos. Nós convivemos num mundo em que o casamento é tratado como uma forma de satisfação pessoal, podendo ser permanente ou provisório a depender da vontade das partes; é reduzido a um contrato. Ao tocarmos nesse assunto, tocamos na maneira como as pessoas planejam suas próprias vidas, e a coisa mais comum é que as pessoas que se tornam cristãs ou retornam à igreja carreguem consigo bastante da mentalidade da cultura em redor. Numa época em que tudo é descartável, por que o casamento não poderia ser também?

Mas como comparar a situação de um casal que simplesmente desiste da convivência porque idealiza um romance melhor àquela de uma mulher violentada (física e psicologicamente) pelo esposo narcisista?

O primeiro fator a considerar, na construção desse assunto, é o que eu chamarei “a Regra”. Essa regra aparece tanto na epístolas de São Paulo quanto, depois, nos evangelhos sinóticos. Ela pode ser descrita assim:

“Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal. De sorte que será considerada adúltera se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro homem; porém, se morrer o marido, estará livre da lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.” (Romanos 7:2-3)

“Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher… A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor.” (1 Coríntios 7:10-11,39)

Essas palavras estão em contextos bem diferentes. Enquanto a primeira é parte de uma discussão sobre a lei, na qual o casamento aparece como uma analogia incidental para o ensinamento de Paulo, a segunda é parte de uma discussão mais ampla sobre o casamento em si, assim como sobre celibato e viuvez. Apesar dessas diferenças de contexto, os dois trechos, além de concordarem na doutrina, têm duas semelhanças: em primeiro lugar, a linguagem assimétrica (falam mais da mulher); em segundo lugar, têm um fraseado muito semelhante: a mulher está ligada ao marido enquanto ele vive, ficando livre/desobrigada caso ele morra. O trecho de Romanos 7 acrescenta o pecado do adultério para a mulher que se unir a outro esposo enquanto o primeiro vive.

No contexto de 1Coríntios 7, Paulo discute várias situações diferentes e usa as palavras de Cristo e sua sabedoria pastoral para orientar os casados. Nos versículos citados, ele é claro em dizer que não se trata de uma ideia sua, mas uma ordem do Senhor. Essa “ordem” do Senhor é retratada também no evangelho canônico julgado o mais antigo, o de São Marcos, no qual foi registrado o célebre diálogo de Cristo com os fariseus acerca da aplicação da lei mosaica do divórcio. Segundo Cristo, a possibilidade de divórcio que havia na lei era uma concessão mosaica à “dureza de coração” dos homens. A lei permitia a carta de divórcio, mas Cristo toma uma postura diferente. Ele resume seu ensinamento sobre isso dizendo:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem [anthrōpos]… Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera.” (Marcos 10:9,11-12)

Essas palavra concordam, em essência, com o que foi escrito por Paulo num contexto diferente, e elas não fazem nenhuma restrição a um caso específico. As palavras são colocadas de maneira bem genérica, e se pautam na essência da relação matrimonial: se Deus uniu o homem e a mulher, não devemos separá-los. Eu concordo, em parte, com aqueles que dizem que a preocupação de Cristo aqui é em proteger a mulher da arbitrariedade do marido, pois ela seria lançada à miséria caso ele se divorciasse dela. Sim, certamente a compaixão era um dos fatores principais na pregação e doutrina moral de Cristo. Mas o texto não nos dá indicação de se limitar a essa situação; Cristo radica o caso “no princípio”, na ligação entre homem e mulher. Cristo deixa a coisa em termos bem gerais.

Essa ligação entre os cônjuges é fortalecida por vários fatores de origem bíblica, como a relação “matrimonial” entre Cristo e a Igreja (Ef 5) ou os ensinos de Cristo sobre perdão. Muito pode ser dito em favor disso, particularmente quando vemos o que vários pais da Igreja (como Santo Agostinho) disseram sobre esse assunto. Essa regra rigorosa só é compreensível à luz do ensinamento, visto tanto em Cristo quanto (principalmente) em Paulo, que valoriza o celibato acima do matrimônio. Quando entendemos que o matrimônio não é a finalidade de nossa vida terrena, torna-se um pouco mais fácil entender por que a existência fora do matrimônio (para alguém que tenha se separado do cônjuge) não é uma punição, mas o retorno à condição maior.

De todo modo, tomando por base os textos bíblicos lidos até aqui, a Regra é aquela vista amiúde nos votos matrimonias: “até que a morte nos separe”. Aparentemente não deve haver segundo matrimônio quando haja um primeiro matrimônio válido. Essa é a Regra.

Agora, a boa hermenêutica nos pede que nos perguntemos: há algo mais, nas palavras de Jesus e nos ensinos dos apóstolos, ou na Bíblia como um todo, que indiquem uma direção distinta sobre esse assunto? Há algum outro princípio a considerar, na aplicação da lei? Essa pergunta é necessária porque é muito comum, na discussão de qualquer assunto moral, que nós tenhamos, na Escritura, testemunhos em direções diferentes, e o entendimento mais completo do assunto exige que nós levemos em conta todos os fatores. Mesmo princípios como misericórdia e compaixão devem ser levados em conta. Todas as cartas devem estar na mesa.

Nesse sentido, há duas circunstâncias que, creio, ajudam bastante na lida com pessoas com certos problemas matrimoniais. A primeira circunstância é desconsiderar o casamento civil. Diversas pessoas estão casadas civilmente, se divorciam civilmente e, por ignorância sobre o assunto, pensam que não podem casar “novamente”. Ocorre que o casamento civil é uma instituição relativamente recente, e, diferentemente do matrimônio cristão, não indica intenção de perpetuidade. Não se faz votos “até que a morte nos separe”. Então, em tese, uma pessoa que contraiu apenas o casamento civil não estaria impedida. Não se trata de desconsiderar totalmente o casamento civil, pois ele tem uma importância legal e social, e a ausência do casamento civil pode indicar desinteresse matrimonial (embora a presença não indique automaticamente interesse). Todos os casais devem contrair, além do matrimônio cristão, o casamento civil. Isso não é o mesmo que dizer que pessoas civilmente casadas devam ser encorajadas a se separar; elas devem ser encorajadas a fazer os votos do matrimônio cristão. No entanto, em situações particularmente difíceis, esse fardo não precisa ser suportado e o casamento civil pode ser desfeito em benefício de um novo relacionamento. (As pessoas que querem tratar o casamento civil como igual ao matrimônio cristão só aumentam o problema.)

Nessa circunstância está o caso de pessoas que se divorciaram antes de se tornarem cristãs. (Note bem: cristãs, não evangélicas ou participantes da igreja A ou B.) É um dos casos mencionados por Paulo em 1Co 7:24-28, sobre os quais ele diz “se te casares, não pecas”. É um divórcio prévio. Semelhante também é o caso de 1Co 7:12-16, quando, num casamento entre dois pagãos, um deles se converte à fé cristã e o outro o abandona.

A segunda circunstância é o erro em relação à pessoa. Nós fazemos os votos matrimoniais não apenas para com o rosto que está diante dos nossos olhos, ou para com o nome que está no papel, mas para com a totalidade da pessoa. Isso significa que, para assumirmos o matrimônio, nós precisamos estar suficientemente informados de quem seja a pessoa com quem casamos. Isso não significa conhecer profundamente os segredos e meandros do coração; significa saber o que se precisa saber para casar. Em alguns casos, as pessoas casam enganadas, porque seus cônjuges fingiram algo que não eram. Não se trata, mais uma vez, de alguém que mudou com o tempo, mas de alguém que não tinha interesse real de casar. Embora nos votos façamos compromissos sérios e isso envolva uma certa “aposta” de que a outra pessoa será boa, essa aposta não inclui casar com um psicopata, por exemplo. Então, se uma pessoa casa com alguém assim, ela pode, dentro de um contexto eclesiástico que o permita, ter o seu “vínculo” matrimonial terminado (o que alguns chamarão de “anulação”, não “divórcio”). Considerando a maneira como as pessoas se casam hoje, isso é algo bem comum.

Levando isso esses fatores, há uma última situação, a chamada “cláusula fornicationem“, que aparece no Evangelho de São Mateus:

“Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus 5:32)

Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério].” (Mateus 19:9)

A leitura mais natural desses textos é de que, se uma pessoa se divorcia, por motivo de relações sexuais ilícitas, e casa com outra não comete adultério. Ou seja, esses textos parecem colocar uma exceção na Regra. Não é difícil mostrar que houve ampla repercussão dessa clásusula na Tradição cristã durante séculos, não só entre os Pai da Igreja — que não eram unânimes nesse assunto —, mas principalmente na vida da Igreja através dos cânones conciliares. Para exemplos fáceis (em inglês), veja aqui, aqui e aqui. É muito comum que as pessoas que defendem a indissolubilidade absoluta ignorem essa história de séculos. Vários dos exemplos repetem a clásulula fornicationem e lhe dão a interpretação mais natural. Existem outras leituras desse texto, mas normalmente elas são tão constrangedoras que o próprio proponente parece perceber que força a barra.

É importante dizer: essa cláusula não derroga o caráter sacramental do matrimônio. O matrimônio é, essencialmente, finito e limitado: ninguém estará casado para sempre, na eternidade, antes o matrimônio tem fim com a morte. O que se considera é que haja outras situações, além da morte, que rompam o vínculo. (Sobre a cláusula em particular, considero boa a consideração de que, sendo a fornicação pecado mortal, ela legalmente levaria à morte do cônjuge, naqueles tempos.)

Diante disso, minha posição é de que, considerados todos os fatores acima (a restrição ao matrimônio cristão, o erro de pessoa, a cláusula fornicationem), provavelmente na maioria dos casos as pessoas não deveriam procurar um novo matrimônio. Primeiramente, ninguém deve se divorciar apenas porque quer; caso se separe, não deve casar novamente de maneira nenhuma, em tempo nenhum, enquanto o primeiro cônjuge viver, ou caso não se evidenciem as situações acima. A subjetividade dos envolvidos não deve ser desconsiderada, mas as circunstâncias e exceções colocadas não devem ser julgadas apenas subjetivamente. Ademais, a ideia de que um segundo matrimônio simplesmente salvará aquela pessoa do sofrimento do primeiro é loucura.

Caso a convivência no primeiro matrimônio seja impossível ou até perigosa, devem se distanciar os seus cônjuges, mas não procurar um novo matrimônio, e sim viverem o ideal da fé cristã, que é a dedicação total a Cristo e o casamento com ele. Nesse caso, é inteira responsabilidade da Igreja lutar pela reconciliação sempre que é possível, e lutar pela pessoa caso não seja possível. Existem situações em que a reconciliação não é possível. É uma imensa irresponsabilidade e até crueldade enviar para junto do seu esposo a mulher que foi violentada por ele. Mas nos dois casos a Igreja deve lutar pelas pessoas e apoiá-las. Se alguém não encontra apoio e amparo da Igreja e faz o contrário do que Cristo diz, em grande parte a Igreja é responsável. É muito fácil colocar na conta de Jesus. A lei do amor ainda é a maior de todas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo pôs fim à limitação dos sacrifícios?

Existe uma maneira incorreta de contar a história do Antigo Testamento ao Novo, quanto ao tema do sacrifício. Algumas pessoas pensam a coisa assim: no Antigo Testamento havia os sacrifícios de animais, como maneira de receber o perdão de Deus, e o Novo Testamento veio e aboliu a coisa com o sacrifício de Jesus.

Esse equívoco é comum em pessoas que só leem a Bíblia e o fazem de uma maneira mais desatenta e particularmente “pactual”. (Não me refiro à “teologia do pacto” reformada.) É como se o sacrifício de animais fosse a maneira única de receber perdão na Antiga Aliança e isso termina com o sacrifício de Cristo. Isso leva a vários enganos tanto no entendimento da natureza dos antigos sacrifícios quanto na da obra da Redenção.

É verdade que, de uma perspectiva cristã, o sacrifício de Cristo torna sem sentido os antigos sacrifícios (como em Hebreus). Mas uma coisa é explicar uma relação teológica e simbólica, outra coisa é contar uma história. No mundo concreto dos fatos humanos, há sempre uma imensidão de fatores em jogo. A história não é tão simples.

Na verdade, os sacrifícios continuaram sendo realizados depois que Cristo morreu — e os apóstolos aparentemente continuaram envolvidos nesse sistema simbólico por um tempo —, e muito antes dele nascer as pessoas já sabiam que os sacrifícios não eram a única maneira de receber perdão. Outras ações eram equiparadas.

Quando a maior parte do Antigo Testamento foi escrita, várias religiões do mundo antigo (inclusive a israelita) haviam passado por um processo de espiritualização e interiorização do sacrifício: o rito exterior passou a ser visto como uma “corporificação” (em forma de dom) das intenções interiores dos adoradores, assim como uma maneira de tornar visíveis a comunhão entre os adoradores e (no caso dos sacrifícios expiatórios) o perdão divino. Embora a ideia já tenha sido criticada sob várias frentes, e muitas vezes a crítica seja legítima, ela continua existindo nos estudos da área, sob o nome, popularizado por Jaspers, de “Era Axial”.

Ademais, por fatores de sua própria história, a religião oficial passou por um tempo sem seu próprio Templo. Assim como no judaísmo contemporâneo, que encontra perdão sem o oferecimento de animais, assim também foi em tempos anteriores. Por isso, nós nos deparamos, tanto em trechos do Antigo Testamento e na literatura posterior, a equiparação de várias ações religiosas não-sacrificiais ao sacrifício. Por exemplo:

• O sacrifício agradável a Deus é o do coração (Sl 51:16-17).

• Diversas ações são tratadas como sacrificiais (Sir 35:1-5).

• Pede-se que a oração seja tratada como incenso e sacrifício (Sl 141:2; cf. Pv 15:8). Assim também o cântico (Sl 27:6; 50:14,23; 54:6; 107:22; 116:17).

• O temor é maior que os sacrifícios (Jud 16:16).

• A esmola e misericórdia expia pecados (Pv 10:2; 11:4; 16:6; 21:3; Tob 4:7-11; 12:8-9; Sir 3:33; cf. Os 6:6).

• A honra aos pais expia pecados (Sir 3:3,14).

• Mudança das más obras para as boas, na prática da justiça, é suficiente (Ez 18).

• Os mártires faziam expiação pelos pecados da nação (Dn 3:40 LXX; 2Mc; 4Mc).

Por isso, quando Hebreus 13 fala do sacrifício da beneficência e do louvor, ou quando Romanos 12 fala do sacrifício dos nossos corpos, não diz coisa nova. Essa doutrina cristã já estava lá, bem assentada, no Antigo Testamento e nas religiões próximas. Afinal, ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”, Cristo citou o Antigo Testamento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Mártires Expiadores

A chamada “teologia dos mártires” é um dos elementos do judaísmo do Segundo Templo que provavelmente influenciaram o cristianismo. Em síntese, essa doutrina ensina que aqueles que morriam zelosos da Lei, num tempo em que Israel estava sob a ira divina pela desobediência à Lei, por sua obediência extraordinária de entregar a própria vida, expiavam o pecado da nação.

A lógica às vezes parece ser de que, quando o castigo nacional e coletivo (a opressão pagã e idólatra) recai sobre os mártires inocentes, sua condição suscita a compaixão divina, seguindo aquela lógica, bem assentada no Antigo Testamento, de que nosso sofrimentos são instrumentais na misericórdia de Deus (“Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa todos os meus pecados.“, Sl 25:18), mas agora segundo uma aplicação nacional. Assim como a punição da nação recai sobre eles, a misericórdia lançada sobre eles cobre a nação. Assim também, a nação estrangeira, ao se exceder na execução do juízo divino, atrai para si esse juízo.

2 Macabeus 7:30-38 | 30 …Eu não obedeço ao mandamento do rei! Ao mandamento da Lei, porém, que foi dada aos nossos pais por meio de Moisés, a esse eu obedeço. 31 Quanto a ti, que te fizeste o inventor de toda a maldade que se abate sobre os hebreus, não escaparás às mãos de Deus. 32 Porquanto nós, é por causa dos nossos pecados que padecemos. 33 E se agora, a escopo de castigo e correção, o Senhor, que vive, está momentaneamente irritado contra nós, ele novamente se reconciliará com os seus servos. 34 Mas tu, ó ímpio e mais celerado de todos os homens, não te eleves estultamente, agitando-te em vãs esperanças, enquanto levantas a mão contra os seus servos, 35 pois ainda não escapaste ao julgamento de Deus todo-poderoso, que tudo vê. 36 Nossos irmãos, agora, depois de terem suportado uma aflição momentânea por uma vida imperecível, morreram pela Aliança de Deus. Tu, porém, pelo julgamento de Deus, hás de receber os justos castigos por tua soberba. 37 Quanto a mim, como meus irmãos, entrego o corpo e a vida pelas leis de nossos pais, suplicando a Deus que se mostre logo misericordioso para com a nação e que, mediante provas e flagelos, te obrigue a reconhecer que só ele é Deus. 38 Possa afinal deter-se, em mim e nos meus irmãos, a ira do Todo-poderoso, que se abateu com justiça por sobre todo o nosso povo!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Contemptus mundi: o que significa carregar a Cruz?

Uma pessoa perguntou o que significa tomar diariamente a cruz.

Uma porta para entender esse significado é saber o que a cruz representava na época de Jesus. Era um instrumento de morte do Império Romano, com o propósito de ser público, doloroso e humilhante, castigo exemplar que convidava à execração. Era símbolo punitivo do poder imperial.

Num primeiro nível, carregar a cruz significa estar pronto a aceitar sofrimentos públicos, dolorosos e humilhantes, como os de Jesus, como consequência de o seguirmos num mundo que o odeia. Devemos sofrer com alegria, como os apóstolos de Jesus, que se sentiam alegres em serem perseguidos, aceitando rejeições sem reclamar, antes com gratidão.

Essa dimensão de carregar a cruz naturalmente se abre para um universo mais amplo, pois a única maneira de aceitarmos esses sofrimentos e rejeição é se a nossa vida interior estiver arraigada numa alegria celestial, e não naquilo que diabo e o mundo oferecem em termos de prazer e aceitação.

Então essa aceitação de sofrimento imperial cede muito facilmente àquela ampliação pela qual, aparentemente, o responsável foi São Paulo. Pois nele vemos não apenas um crucicentrismo insistente, mas uma imagem da transfiguração cristã como repetição da vida de Cristo: padecemos com ele, morremos com ele, somos sepultados com ele, revivemos com ele.

Então, para Paulo, estar crucificado significa morrer para o pecado (Rm 6:6), para as paixões (Gl 5:24) e para o mundo (Gl 6:14), três esferas interligadas pela doutrina apocalíptica. Cristo se entregou (na cruz) para nos livrar do presente século mau.

Isso se liga à imagem mais ampla do “mundo” no Novo Testamento, enquanto uma era maligna. Morrer para o mundo significa não ser guiado pelas preocupações e promessas do mundo, como a fama, a glória do mundo, a riqueza do mundo. Os discípulos de Jesus não pertencem ao mundo e não devem amar o mundo ou ser amigos dele, ou conformados a ele.

O mundo é a esfera de atuação diabólica. Satanás “engana todo o mundo”, é o “príncipe deste mundo”. O mundo “jaz no maligno”. Os que andam segundo o curso do mundo andam debaixo desses poderes espirituais tenebrosos e enganadores, as forças espirituais da maldade.

Em razão disso, o mundo envolve ilusões que nos prendem aos pecados: cuidados, enganos, ambições, corrupção, paixões, soberba, ódio. A única maneira de se livrar delas é não seguir “o curso do mundo”, antes desprezá-lo, por amor a Cristo.

O mundo é, em suma, a cidade dos homens, que vive para si mesma, para este tempo, para glórias passageiras. Mas a aparência do mundo passa, o mundo passa, e nossos pensamentos devem se dirigir às realidades celestiais e eternas. Tudo o que é o que é passageiro deve ser visto à luz do eterno. O mundo é a criação sujeita à vaidade, ao amor àquilo que não é importante. Santo Agostinho é, nisso, filho de São Paulo e dos apocalipses.

Embora o desprezo pelo mundo (contemptus mundi) seja costumeiramente associado aos celibatários e monásticos, que, por um cumprimento estrito das palavras paulinas, evitam se prender às “coisas do mundo” para se dedicarem às “coisas do Senhor” — significando, portanto, que à maioria dos cristãos é necessária certa lida com o mundo (tolerada ou aceita?) —, o fato é que, no sentido apocalíptico, nenhum cristão deve amar o mundo. E carregar a cruz é sofrer as consequências de não amar o mundo.

Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?” (Marcos 8:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que sermão temático é melhor?

A centralidade da pregação temática, quando comparada a outras abordagens homiléticas, não deriva apenas do fato de ela ser, tanto quanto se sabe, o modelo apostólico de pregação, aquele usado por Jesus e pelos apóstolos nos sermões do Novo Testamento. Isso, por si só, só indicaria que alguma forma de pregação temática é correta e que devemos atentar para ela. A ausência de pregação expositiva entre os sermões apostólicos conhecidos, por exemplo, não significa que essa forma seja errada; o silêncio da Bíblia sobre um assunto não é reprovação, porque a Bíblia não foi escrita para ser suficiente sobre tudo.

Mais do que isso, a importância do sermão temático emerge de uma maneira de ver o Culto Divino, de ver a Santa Igreja e de ver as próprias Escrituras Sagradas. Essas coisas favorecem sempre a capacidade de ver a totalidade da Palavra, mais do que a atenção minuciosa para a explicação das palavras.

Quando um sermão é parte de uma celebração cristã, ele não cumpre um papel independente, autônomo. O ensino e instrução que houver devem se inserir dentro do propósito devocional de toda celebração cristã, portanto deve orientar os corações para o maior amor ao Senhor e ao próximo, e não satisfazer curiosidades intelectuais.

Quando isso ocorre segundo os padrões litúrgicos herdados na tradição cristã, a pregação da Igreja é naturalmente ordenada por um caminho narrativo: da Anunciação do Senhor ao Pentecostes, passando pela Natividade, pela Páscoa e por tantas outras festas. Nesse processo, qualquer explicação de qualquer texto bíblico só pode ser coerente com o tempo se o for através do tema que une o texto ao tempo e que propõe, no tempo, o texto. Como esse percurso litúrgico é sempre hipertextual, há sempre uma conexão proposta entre os escritos dos profetas e o Cristo vivo, entre a parênese apostólica e o cântico do Saltério, portanto sempre uma variedade de textos bíblicos exigindo nossa atenção (não meticulosa, mas devota).

Ocorre que a própria Escritura Sagrada, enquanto artefato da Igreja, não existe como mero amontoado de dizeres escritos. A Escritura não está, principalmente, nas palavras, mas no sentido por trás delas (non in legendo sed in intelligendo). O texto é uma representação física de certas chaves para certa orientação do espírito (o que inclui a reprodução pessoal e comunitária de certas experiências) — instrução, exultação, lamento, perplexidade, fascínio, êxtase, sentença, ameaça, promessa, gratidão, oração.

O sentido do texto não existe independentemente do seu modo próprio de uso (legítimo ou imposto) e do seu universo simbólico. Assim, a coisa principal, na lida com a Escritura, não é entender “os textos” — que estarão sempre sujeitos a um bom número de interpretações ortodoxas sobrepostas —, mas entender o panorama, agarrar o seu mundo de sentido. Daí a importância do Credo Apostólico como símbolo (trinitário e “dogmático”) da totalidade da Escritura.

É o que Santo Estêvão faz, quando narra parte da história da apostasia de Israel através do Antigo Testamento, ou quando a Carta aos Hebreus (ela mesma um sermão) faz breve relato dos registros antigos sobre o “descanso” (do repouso criacional e sabático à paz nas fronteiras de Israel), ou quando Pedro aduz textos, também do Antigo Testamento, para explicar a Ressurreição de Cristo, sua Ascensão e o envio do Espírito Santo como cumprimento das esperanças de Israel. De fato, o Novo Testamento dá muita evidência de que essa era a maneira como a “catequese bíblica” funcionava entre os primeiros cristãos: através de coleções (catenas) de textos bíblicos em que determinado tema ou expressão se repete.

A Páscoa livra do medo

Algumas pessoas têm um medo profundo da Sexta-Feira Santa e do Sábado Santo. Têm medo do Cristo Crucificado e Sepultado. Elas se sentem profundamente aflitas com esses momentos, e sentem a necessidade de falar logo da Ressurreição. Sentem a necessidade de se livrar do pesar da Cruz, do peso do luto, que sempre iluminou e inspirou a espiritualidade dos cristãos.

Não é de hoje. Poucos foram os discípulos aos pés do Crucificado.

Em alguns casos, o motivo é que elas veem a Paixão e Morte como algo que Cristo passou no lugar delas, e não com elas e por elas. É algo de que Deus as livrou — Deus nos livrou de si mesmo, dizem —, então não veem sentido em abraçar e participar do sofrimento de Cristo. Não entendem que devemos, sim, beber do amargo cálice da Paixão. Isso empobrece a vida de discípulo, que é carregar a Cruz com Jesus. Com Jesus! Com Jesus.

Amaldiçoar o Crucificado dos nossos corações é negligenciar nossa própria santificação. É o gérmen de uma espiritualidade burguesa e amante da comodidade, e que vê Deus como provedor da nossa comodidade. São Paulo ensina, com todo o Novo Testamento: preciso participar dos seus sofrimentos para participar da sua Ressureição. A fraqueza leva ao maior poder. Por isso aprendemos durante toda a Quaresma: o amor da comodidade é um grande engano. O deserto nos prepara para a Paixão.

Assim como o Crucificado venceu o Pecado, o Sepultado levou o Evangelho até a profundidade do Cativeiro humano, espoliando o forte pela força maior da sua Graça.

Mas é sofrer com Jesus na Sexta e no Sábado o que prepara o nosso coração para a alegria do Domingo de Páscoa, para a exultação do Senhor Triunfante que rompeu os grilhões da morte e aniquilou a força do Inimigo. Hoje não é dia de luto, mas de alegria, de júbilo, de cânticos alegres nos céus e na terra.

Não tenham medo da Sexta-Feira e do Sábado, da Paixão e do Sepultamento. Deus não é o Inimigo. Ele é o teu Libertador. Ele te faz vencer o medo. Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Lava-Pés: Quatro Sentidos

Podemos ver quatro sentidos (não exaustivos e não exclusivos) no ato de Cristo de lavar os pés dos seus discípulos.

☩ Sentido Literal: Ao lavar os pés dos discípulos, Cristo coloca diante deles um exemplo a ser seguido. Eles deveriam estar dispostos a ter seus pés lavados e lavar os pés mutuamente, mostrando, com isso, um compromisso de humildade, serviço, reciprocidade, fidelidade a Cristo. No ambiente semítico e oriental de Jesus, o gesto de lavar os pés de outra pessoa era desonroso e inaceitável, que dirá se feito por um mestre, mas esse amor extremo de Jesus deve iluminar todas as nossas práticas e toda a nossa vida.

☩ Sentido Alegórico: O lava-pés é um ato profético (“compreendê-lo-ás depois”) que aponta, no contexto do Quarto Evangelho, para a missão do próprio Cristo, que foi despido em sua Paixão e verteu água quando ferido. Seu sacrifício traz transformação e pureza para os seus discípulos, uma pureza da qual eles precisam continuamente se limpar. Eles devem confiar em Jesus, e confiar que a humildade dele na cruz não é uma derrota, mas o meio pelo qual ele os purificaria. Ao dizer “Se eu não te lavar, não tens parte comigo“, Cristo mostra que não há salvação fora do seu sacrifício. Pedro, resistente à mensagem, representa aqui a Igreja na sua dimensão mais humana, frágil, que tantas vezes resiste ao plano do Senhor. Os discípulos, seguindo o modelo de Jesus, levam a pureza de Jesus para outras pessoas; eles limpam outras pessoas com a graça de Jesus, mas só o fazem plenamente se eles mesmos tiverem sido limpos.

☩ Sentido Moral: O texto aponta para duas dimensões da nossa alma, aquela que mais profundamente está ligada a Jesus (e portanto já está limpa) e aquela mais baixa, que continuamente se suja pelo contato com o mundo. Embora já tenhamos sido purificados por Jesus uma vez, não temos parte com ele a menos que ele limpe os nossos pés. Por isso, para termos plena comunhão com ele, precisamos de que ele nos limpe. A graça de Cristo nos livra mais facilmente dos pecados maiores e visíveis, mas há sempre uma sujeira por baixo que necessita de purificação. “Já lavei os pés, tornarei a sujá-los?” (Cânticos 5:3)

☩ Sentido Anagógico: Esse texto aponta para a pureza plena e definitiva que Cristo trará a nós e a este mundo. Embora ainda enfrentemos o pecado, um dia ele nos purificará por completo, limpará os nossos pés para que estejamos com ele para sempre em Terra Santa, na Nova Jerusalém. Ficarão de fora os impuros, mas, se já tivermos sido purificados pela lavagem do corpo, restará apenas uma limpeza menor, que ele fará por sua graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Moisés, o deus de Arão

Em dois textos bíblicos, Deus diz que Moisés é o Deus de Arão, e que Arão é o seu profeta. Os textos são:

☩ Êxodo 4:16
“Ele falará por ti ao povo;
ele te será por boca,
e tu lhe serás por Deus
[ĕlōhîm].”

☩ Êxodo 7:1
Então, disse o Senhor a Moisés:
Vê que te constituí como Deus
[ĕlōhîm] sobre Faraó,
e Arão, teu irmão, será teu profeta.

Quando lemos textos assim, nossa pergunta não deve ser apenas o pelo que as palavras significam imediatamente, mas também pelo mundo de significado ao qual elas pertencem. Nesses dois textos, temos parte da explicação da função do profeta, mas, indo além disso, temos a explicação de uma hierarquia funcional entre dois profetas, Moisés e Arão.

No primeiro caso, Moisés alega ser “pesado de língua”. Deus poderia ter escolhido, então, a Arão em seu lugar, mas ele coloca Arão como o profeta de Moisés, como alguém que o complementa em sua missão, falando às pessoas em seu lugar. Arão é o representante de Moisés, assim como Moisés é o representante de Deus. Assim como Deus é o Deus de Moisés, Moisés é o Deus de Arão.

A tradição eloísta, da qual esses textos participam, retrata Deus como distante, sem contato direto com os homens, aparecendo através de figuras que o simbolizam, como profetas e anjos, além de outros sinais. Deus está acima e além. É interessante que, nesse contexto, Moisés não seja representante de Deus apenas no que Deus fala, mas também em como Deus se comporta. Deus é difícil — a palavra para “pesado” (kāvēḏ) é da mesma raiz da palavra “glória” (kāvôḏ) —, então Moisés é difícil também, e é preciso um segundo profeta, um segundo intérprete, o sacerdote Arão. O profeta e o sacerdote são representantes-intérpretes, mas o profeta está mais perto de Deus, e o sacerdote, mais perto dos homens, numa relação fractal. Isso é consistente com a função do sacerdote de ser mensageiro de Javé (Ml 2:7). A “língua pesada” de Moisés não é gratuita, mas desempenha um papel simbólico no texto.

A subida ontológica têm seus ruídos, e o profeta o condutor.

Aí está uma cosmologia hierarquizada, na qual as ordens superiores são representadas pelas inferiores, pouco explorada explicitamente no Antigo Testamento, mas garantida em toda parte. Nesse sentido, Moisés é o ícone de Deus, e é assim também que depois o tema da representação reaparece no Novo Testamento, particularmente em Paulo, na literatura joanina e em Hebreus.

Em 2Co 3, em particular, essa relação é posta explicitamente com todo vigor: o apóstolo é o representante-intérprete que, por ter contato com a face de Cristo, resplandece a sua glória para os homens: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2 Coríntios 3:18)

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Caminho do Meio

O diabo é tanto acusador quanto tentador, e nossas lutas com ele devem levar isso em conta. Ele não só nos oferece liberdade para pecar, mas também usa a condenação da lei para nos enfraquecer. Ele nos seduz a cair e nos prende quando caímos.

Ele trabalha nos extremos e nos confunde sobre eles. Quando alguém deixa um extremo, ele trabalha para que aceleremos na direção contrária. Para ele, estarmos tristes demais ou alegres demais são tentações igualmente úteis, ambas capazes de nos cegar. Libertinos e legalistas, o diabo os ama.

Devemos trilhar o caminho do meio com confiança, não ouvindo as vozes de quem nos oferece uma fé mais radical — seja mais radical na liberdade ou no rigor. Liberdade e rigor só fazem sentido em função do amor, da caridade derramada pelo Espírito Santo, na unidade do Corpo de Cristo.

Para quem está com o coração em Deus, até as porretadas do diabo, de um lado e de outro, santificam. Por isso também, como ensina São Gregório Magno, grande parte do ministério pastoral é oferecer o remédio suficiente para levar ao equilíbrio.

Rev. Gyordano M. Brasilino