Por que sermão temático é melhor?

A centralidade da pregação temática, quando comparada a outras abordagens homiléticas, não deriva apenas do fato de ela ser, tanto quanto se sabe, o modelo apostólico de pregação, aquele usado por Jesus e pelos apóstolos nos sermões do Novo Testamento. Isso, por si só, só indicaria que alguma forma de pregação temática é correta e que devemos atentar para ela. A ausência de pregação expositiva entre os sermões apostólicos conhecidos, por exemplo, não significa que essa forma seja errada; o silêncio da Bíblia sobre um assunto não é reprovação, porque a Bíblia não foi escrita para ser suficiente sobre tudo.

Mais do que isso, a importância do sermão temático emerge de uma maneira de ver o Culto Divino, de ver a Santa Igreja e de ver as próprias Escrituras Sagradas. Essas coisas favorecem sempre a capacidade de ver a totalidade da Palavra, mais do que a atenção minuciosa para a explicação das palavras.

Quando um sermão é parte de uma celebração cristã, ele não cumpre um papel independente, autônomo. O ensino e instrução que houver devem se inserir dentro do propósito devocional de toda celebração cristã, portanto deve orientar os corações para o maior amor ao Senhor e ao próximo, e não satisfazer curiosidades intelectuais.

Quando isso ocorre segundo os padrões litúrgicos herdados na tradição cristã, a pregação da Igreja é naturalmente ordenada por um caminho narrativo: da Anunciação do Senhor ao Pentecostes, passando pela Natividade, pela Páscoa e por tantas outras festas. Nesse processo, qualquer explicação de qualquer texto bíblico só pode ser coerente com o tempo se o for através do tema que une o texto ao tempo e que propõe, no tempo, o texto. Como esse percurso litúrgico é sempre hipertextual, há sempre uma conexão proposta entre os escritos dos profetas e o Cristo vivo, entre a parênese apostólica e o cântico do Saltério, portanto sempre uma variedade de textos bíblicos exigindo nossa atenção (não meticulosa, mas devota).

Ocorre que a própria Escritura Sagrada, enquanto artefato da Igreja, não existe como mero amontoado de dizeres escritos. A Escritura não está, principalmente, nas palavras, mas no sentido por trás delas (non in legendo sed in intelligendo). O texto é uma representação física de certas chaves para certa orientação do espírito (o que inclui a reprodução pessoal e comunitária de certas experiências) — instrução, exultação, lamento, perplexidade, fascínio, êxtase, sentença, ameaça, promessa, gratidão, oração.

O sentido do texto não existe independentemente do seu modo próprio de uso (legítimo ou imposto) e do seu universo simbólico. Assim, a coisa principal, na lida com a Escritura, não é entender “os textos” — que estarão sempre sujeitos a um bom número de interpretações ortodoxas sobrepostas —, mas entender o panorama, agarrar o seu mundo de sentido. Daí a importância do Credo Apostólico como símbolo (trinitário e “dogmático”) da totalidade da Escritura.

É o que Santo Estêvão faz, quando narra parte da história da apostasia de Israel através do Antigo Testamento, ou quando a Carta aos Hebreus (ela mesma um sermão) faz breve relato dos registros antigos sobre o “descanso” (do repouso criacional e sabático à paz nas fronteiras de Israel), ou quando Pedro aduz textos, também do Antigo Testamento, para explicar a Ressurreição de Cristo, sua Ascensão e o envio do Espírito Santo como cumprimento das esperanças de Israel. De fato, o Novo Testamento dá muita evidência de que essa era a maneira como a “catequese bíblica” funcionava entre os primeiros cristãos: através de coleções (catenas) de textos bíblicos em que determinado tema ou expressão se repete.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s