Apego não é idolatria

Uma pessoa que queira manter a sanidade mental e crescer no autoconhecimento, e entender seus próprios pecados e fraquezas, deve se manter protegida contra o pensamento de que o coração é uma fábrica de ídolos, e contra a obsessão de tratar todo excesso como idolatria.

Inspiradas por esse tipo de pensamento, muitas pessoas acabam presas numa introspecção mórbida, tentando encontrar a raiz de idolatria por trás de cada pensamento ou hábito que lhes pareça exagerado. Um dos alvos mais frequentes é o apego a outras pessoas, o que frequentemente provoca crises emocionais inteiramente desnecessárias.

A ideia parece ser a seguinte: se você dá às outras pessoas uma atenção que deveria ser dada a Deus, isso se constitui idolatria. Essa maneira (não bíblica e muito geral) de “definir” a idolatria leva a muitos problemas. Quando o apóstolo Paulo fala de como o solteiro pode se dedicar inteiramente às “coisas do Senhor” e o casado deve se dedicar às “coisas do mundo”, basicamente ele trata da situação de uma pessoa que, ao casar, escolhe, com isso, dar menos atenção a Deus. Surpresa: Paulo não trata isso como idolatria. Essa pessoa que, na descrição de Paulo, está “dividida” entre as coisas do Senhor e as coisas do mundo não comete idolatria. Ela casou porque precisava casar, por conta de suas fraquezas e necessidades, e deve fazê-lo sem peso na consciência.

A idolatria deve ser bem definida: idolatria é uma forma de culto, de adoração. Nem toda dedicação é culto. Nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é culto. Então nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é idolatria. Lembremos: nem toda dedicação é excessiva. Não há necessidade de ficar caçando idolatria.

Uma coisa que, certamente, não é idolatria é apego a outras pessoas. Existe apego excessivo, mas a Bíblia é até extravagante na maneira como descreve o apego lícito, natural e saudável, tratado como “amor ardente” (1Pe 1:22; 4:8). É esse amor ardente que leva ao pranto contínuo de Ana por um filho que ela (ainda) não teve, ou ao pranto pela morte de Estevão, ou o imenso cortejo e lamento na morte de Jacó, ou pela partida de Paulo. Essas demonstrações emocionais nunca são tratadas como exageradas. Não é difícil colecionar exemplos de pessoas com apego muito intenso a outras pessoas, que jamais são repreendidas pelas Escrituras, antes são colocadas como modelos:

“Então levantaram a sua voz, e tornaram a chorar; e Orfa beijou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Por isso disse Noemi: Eis que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses; volta tu também após tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;” Rt 1:14–16

“Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer.“ Sl 16:3

“Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia.” 2Co 2:12–13

“Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos.” 1Ts 2:8

Rev. Gyordano M. Brasilino

2 comentários em “Apego não é idolatria

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