Por que eu não acredito em Cosmovisão Cristã?

Não sei se é só impressão pessoal ou ilusão da bolha, mas parece que de um tempo para cá esse papo de “cosmovisão cristã” perdeu um pouco de força. Em algum momento as pessoas iriam cansar, é claro, e ouvi dizer quer algumas vozes do movimento mudaram de foco. Isso é bastante positivo.

Os motivos pelos quais eu não acredito nessa ideia são principalmente três, e acho que eles ditam, em parte, os motivos do cansaço (atual ou futuro).

1. Em geral, são calvinistas aplicando o calvinismo (de certo tipo) a todas as esferas da cultura e do pensamento. Isso lhes traz o benefício de escreverem algo extremamente relevante para o grupo e profundamente irrelevante para os cristãos que não tenham essa “cosmovisão cristã”, assim como para os não-cristãos. (Além de ser mais fácil de atrair jovens em busca de intelectualidade, pois é o caminho fácil para se sentir mais douto que Aristóteles.) Então pode haver interação com os de fora, leitura, releitura, mas não diálogo no sentido estrito. Há sempre uma contaminação presumida no pensamento exterior. Por isso, é um movimento que só pode crescer de fato até atingir a pequena parcela dos correligionários; depois, como qualquer império, cansa.

2. Eu não acredito que essa coisa de “cosmovisão cristã” exista. Cristãos de culturas, eras e lugares sociais diferentes não têm a mesma cosmovisão, e a Bíblia não é suficiente para gerar uma cosmovisão, além de que seria impossível demonstrar que os escritores sagrados tinham a mesma cosmovisão. A Bíblia nos fornece uma janela para uma cosmologia, uma doutrina sobre o mundo, mas essa cosmologia não é exclusivamente cristã — ela está presente em outras religiões e deve muito à cultura helenística mediterrânea — e não é completa. Custa usar a Bíblia para o propósito pelo qual ela foi escrita e reunida?

3. Essa proposta, como várias outras, parece presumir um relativismo de fundo: se não for pelo meio “A“, resta apenas a relatividade total, o caos do pensmento. Todo mundo sabe como é ridículo quando algum apologista católico de internet vem com aquele papo de “ou o Papa, ou não tem doutrina certa”, como se essa autoridade fosse a única via de acesso à verdade. Não são fideístas, mas agem como se fossem. O caso dos cosmovisionários é que eles parecem ser mesmo fideístas. A ausência de fontes múltiplas do saber, naturalmente acessíveis para cristãos e não cristãos, tende a formar um pensmento único que é facilmente instrumentalizado na política.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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