A Mediação Angélica da Lei

Alguém perguntou sobre os textos bíblicos que falam da lei de Moisés como sendo entregue “através de anjos”. O Pentateuco não nos diz ensina que anjos entregaram a Lei, então de onde vem essa ideia? Os textos do NT são estes:

☩ Atos 7:38,53 “É este Moisés quem esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai e com os nossos pais; o qual recebeu palavras vivas para no-las transmitir… vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes.”

☩ Gálatas 3:19 “Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa, e foi promulgada por meio de anjos [δι’ἀγγέλων], pela mão de um mediador.”

☩ Hebreus 2:2 “Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos [δι’ἀγγέλων], e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo,”

Esse é um dentre tantos exemplos de conceitos e ideias presentes no Novo Testamento para os quais não se pode mostrar uma origem clara no Antigo Testamento, mas sim no judaísmo do Segundo Templo e, em particular, na sua vertente apocalíptica, assim como, de modo mais amplo, no simbolismo religioso do Antigo Oriente Médio.

A imaginação apocalíptica estava impregnada de uma cosmologia hierárquica na qual as realidades inferiores recebem das superiores sem saltos, de modo que tudo transcorra por mediação. Por isso, o que Deus quer revelar ao povo, ele o faz através de um anjo, que comunica a um vidente, o qual registra o que é dito. Essa mentalidade foi compartilhada (e adaptada de maneiras diferentes) por judeus, cristãos e gnósticos. O comentário judaico do Cântico dos Cânticos (Shir haShirim Rabbah) menciona a mediação angélica da lei quando comenta Ct 1:2.

Os gnósticos, por exemplo, usaram a ideia justamente para rechaçar o Antigo Testamento. Os cristãos seguiram uma rota mais sutil, não desprezando o Antigo Testamento mas exaltando o que veio depois (a palavra de Cristo). Os trechos do NT parecem presumir uma polêmica com judeus ou cristãos judaicos. No caso de Gl 3, em particular, o papel da lei é o de um “guardião” (paidagōgos) temporário que reduz os filhos à condição de escravos. Por isso era importante, para Hebreus, assinalar a superioridade de Cristo em relação aos anjos e, portanto, a superioridade da sua palavra dentro de um esquema cosmológico ordenado. Então essa imagem da outorga da lei, embora sinalize dentro da narrativa cristã uma origem positiva (distinta do que ocorre na gnose), também mostra uma tensão com a lei. Isso pode estar por trás de polêmicas como Gl 1:8 e Cl 2:18-19, nas quais as figuras angélicas putativas aparecem em favor .

Ademais, a mediação angélica é uma forma de conciliar narrativas díspares do Pentateuco: em alguns textos, parece que Deus falava diretamente a face a face com Moisés (cf. Nm 12:8); em outros, parece que Deus só lhe revelava obliquamente a sua glória, e o Nome Divino era portado pelo “anjo da presença” (Êx 23:20-22).

Em razão das complicações da interpretação de Dt 33:2 (tanto em hebraico como em grego), a referência israelita mais antiga à mediação angélica da lei está no Livro dos Jubileus, apócrifo por volta do século II a.C. que reconta o livro do Gênesis. Esse livro foi bastante influente entre judeus (e cristãos), sendo usado na comunidade de Qumran (como base para o Rolo do Templo). A mentalidade da mediação angélica da lei era plenamente coerente com as doutrinas de Qumran; nos seus cânticos, os anjos eram chamados de “deuses do conhecimento”.

Há várias referências explícitas à mediação angélica da Lei no Livro dos Jubileus. Por exemplo:

“E o anjo da presença falou a Moisés de acordo com a palavra do Senhor, dizendo: Escreve uma história completa da criação, como em seis dias o Senhor Deus acamou todas as suas obras e tudo o que ele criou, e guardou o Sábado no sétimo dia e o santificou para todas as eras, e o indicou como sinal de todas as suas obras.” (Jb 2:1)

Num trecho ambíguo, Josefo (contemporâneo do NT) registra palavras de Herodes:

“E nós a prendemos as melhores das nossas doutrinas e as partes mais santas das nossas leis através de anjos [δι’ἀγγέλων] enviados por Deus.” (Antiguidades Judaicas XV, 156). Essa expressão pode indicar os profetas e figuras semelhantes, então não é segura, mas é relevante que seja a mesma expressão grega de Gl 3:19 e Hb 2:2.

Um trecho de Fílon, que certamente fala de anjos, pode se referir também a essa noção:

“Ora, os filósofos em geral tendem a chamá-los de demônios, mas a Sagrada Escritura os chama de anjos, usando um nome mais concorde com a natureza. Pois de fato eles são mensageiros das injunções do pai para os seus filhos, e das necessidades dos filhos para o pai. E é em referência a esse seu emprego que a Santa Escritura os representou subindo e descendo, não porque Deus, que sabe de tudo antes de qualquer um, tenha necessidade de intérpretes; mas porque é a nossa sorte, como miseráveis mortais, a de usar a fala como mediadora e intercessora, por estarmos em tremor e temor do Governante do universo, e do poder onipotente da sua autoridade;” (De somnis I, 141-142)

Rev. Gyordano M. Brasilino

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