Negociando a Salvação

A salvação e a comunhão com Deus são tratadas, na Bíblia, a partir da perspectiva da dádiva: um presente de Deus que convida à reciprocidade por parte da pessoa humana, numa troca livre, diferente de uma compra.

No entanto, numa medida muito menor, a imagem da compra também é usada, e prepara o caminho para ela de várias maneiras. O Antigo Testamento já conhece a responsabilidade que Deus assume pelos pobres (Pv 19:17), raiz da noção judaica antiga de “tesouro no céu”. Nesse caso, ao assumir a dívida (de gratidão) dos pobres, a reciprocidade ganha um tom próximo ao da compra, porque Deus não falha na retribuição.

A imagem plena da compra aparece particularmente em dois lugares do Novo Testamento:

☩ Mateus 13:45–46 – “O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra.”

☩ Apocalipse 3:18 – “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.”

No primeiro caso, o próprio “reino dos céus” é comprado pelo negociante. No segundo, compra-se de Cristo “ouro refinado” (riqueza espiritual), “vestiduras brancas” (identidade espiritual) e “colírio” (visão espiritual). Essas coisas são negociadas ou compradas de Deus ou de Cristo, não simplesmente recebidas como presentes.

Tudo isso se insere muito bem na imagem do “tesouro celestial”, que é adquirido (por exemplo) através das obras de misericórdia. Há um tesouro a ser alcançado pelos cristãos renunciando a coisas desta vida, e esse tesouro é distinto do tesouro terreno. Os pobres do mundo são ricos a fé (Tg 2:5). Os que parecem ser ricos são pobres e os que parecem ser pobre são ricos (Ap 2:9; 3:17; cf. 2Co 8:2). Há uma inversão entre riqueza e pobreza, e portanto uma possibilidade de conversão de uma riqueza na outra.

É importante que essa não se torne a maneira dominante pela qual nossa santificação e progresso na fé sejam tratadas, para que não se perca de vista a gratuidade e generosidade divinas, mas também é necessário que ela tenha um lugar, que nos relembre da necessidade de nosso próprio empenho.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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