O “Mistério” não salvará a Substituição Penal

Eu costumo argumentar que a ideia de Cristo ser punido no lugar da humanidade é injusta, segundo a lei divina revelada. É um defeito moral dessa teoria.

Alguém me trouxe uma resposta que eu considero a escapatória óbvia, mas que pouca gente tem coragem de apresentar, o “apelo ao mistério”, ou, mais propriamente, o “apelo à ignorância” (argumentum ad ignorantiam): não se pode dizer que punir um inocente (Cristo) seria injusto porque a justiça de Deus está além da nossa compreensão. Algo assim.

Pouca gente tem coragem porque instintivamente as pessoas sabem que é uma resposta falaciosa. Quem a apresenta comete contradição performática: diz que não entendemos a justiça de Deus, mas, ao usá-lo como argumento, age como se soubesse o que é e o que não é compatível com essa justiça, logo presumindo que entende a justiça divina.

A questão é: como podemos separar a justiça de Deus revelada daquela supostamente oculta? Como vou desprezar o revelado e fazer de conta que sei o segredo? O que está revelado é que Deus abomina mãos que derramam sangue inocente.

O “apelo ao mistério” não funciona. Uma situação pode ser incompreensível porque o número de fatores nos escapa, mas não é assim nesse assunto. A situação de Cristo tem um número muito pequeno de fatores, todos perfeitamente compreensíveis. Ninguém tem qualquer dificuldade de entender que Caifás e Pilatos cometeram uma injustiça ao punirem um inocente. Não há mistério. Não há fatores ocultos. Não há como dizer que Caifás e Pilatos, ao punirem um inocente, erravam, mas “Deus” acertaria em fazer exatamente o mesmo, como cúmplice deles.

Aliás, o próprio Cristo via que a justiça de Deus reverteria a injustiça sofrida:

“porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós… e, quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente,” (1Pedro 2:19,21,23)

Como vários outros, o defeito moral da Substituição Penal é invencível, não há resposta possível. Mas ele tem pouco poder de convencimento, porque os defensores da SP, por entenderem errado alguns textos da Bíblia, acham que a coisa realmente aconteceu (Deus puniu Cristo como substituto), então guardam uma esperança de que, de algum modo, não seja injustiça aquilo que eles sabem que é injustiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s