Como lidar com o Problema do Sofrimento?

1200–1600 - National Gallery of Slovenia
Pietà (c. 1420), provavelmente de Salzburgo

Como lidar com o Problema do Sofrimento?

O problema do sofrimento não é uma questão puramente teórica. Não é só um argumento usado por céticos para desacreditar a bondade ou existência de Deus. A questão do sofrimento é aquilo que enfrentamos todos os dias, pois todos os dias nós sofremos. Se um de nós se vê livre do sofrimento por um momento, não pode ignorar o sofrimento dos que estão ao seu redor. Portanto, viver inclui saber lidar com o sofrimento.

O sofrimento está no centro da história mais importante contada pela fé cristã: Cristo, o Deus encarnado, sofreu injusta e cruelmente. Aos pés da cruz, sua mãe e alguns dos seus discípulos, impotentes diante do mal praticado. Quando um cristão contempla um crucifixo ou um ícone da Paixão, ou reconta, em um sermão, aquele acontecimento, ele vê o seu Deus sofrer e vê nesse mistério a sua salvação. Então Deus não apenas contempla o sofrimento da criação desde o trono celestial; ele não deixou sofrer sozinho o mundo que criou. Ele mesmo sofreu, envolvendo-se na nossa sina. Ele suportou, juntamente conosco, o peso da criação.

Essas considerações amiúde levantam a pergunta sobre o propósito do sofrimento no plano divino, e às vezes nós oferecemos soluções que são ingênuas ou até profundamente cínicas. Dizemos, por exemplo, que o sofrimento nos ensina algo e nos torna pessoas melhores. Mas, diante do sofrimento brutal pelo qual criancinhas passam, sofrimentos que terminam em sua morte, como podemos que o propósito do sofrimento é ensinar algo? Isso pode vale para alguns sofrimentos, mas só para alguns.

O fato é que o sofrimento pode ter vários propósitos e pode não ter propósito nenhum, e nem sempre somos capazes de diferenciar as coisas. É preciso resistir à tentativa de dar um propósito único a todo o sofrimento, pois isso acabará por justificar o mal e nos deixar insensíveis. Cristo não exige que expliquemos o sofrimento, mas que choremos com os que choram e defendamos os oprimidos. Ele está ao nosso lado contra o sofrimento, compadecido de nossas dores. Devemos combater o mal como coisa desnecessária, que não deveria ser. Chorar com os que choram não significa ficar imóvel diante do mal, reduzido ao lamento, mas assumir certo pathos, certo sentimento, deixando correr livre o direito como um rio caudaloso e a justiça como um ribeiro eterno.

Às vezes, uma explicação pode trazer certa ordem a um coração confuso; mas, na maior parte do tempo, o que queremos não é explicação, mas cura. Nós participamos disso quando temos compaixão. De fato, somente num mundo em que há sofrimento pode haver perdão e compaixão. Assim, somente num mundo em que há sofrimento (temporariamente) o Amor pode revelar sua profundidade.

Há vários motivos pelos quais nós passamos por sofrimentos. Esses motivos não são soluções para o problema do sofrimento. São questões nas quais devemos meditar quando padecemos como cristãos, e que só têm razão de ser quando nos ajudam concretamente. Vivendo a nossa fé, podemos encontrar ao menos nove motivos para o sofrimento:

A culpa própria. Essa é a explicação mais óbvia do sofrimento, a explicação retributiva. Não devemos ser ingênuos em pensar que todo cristão é um santo inocente. Muitos dos nossos sofrimentos não são grandes provações da nossa fé heroica, mas resultados dos nossos pecados ou da nossa ignorância. Deus nos visita e disciplina para nos tornar participantes da sua santidade. Muitos de nós precisam entender que têm responsabilidade por suas ações, sem precisar transferir isso aos demais. Mas é preciso tomar cuidado com os que se culpam demais.

A humildade e a compaixão. Embora os filhos de Deus desfrutem de um cuidado especial, nós somos homens sujeitos às mesmas condições de vida que o restante da humanidade. Através do sofrimento, aprendemos a ser mais humildes e reconhecer nossa condição comum, levando-nos à compaixão para com os nossos semelhantes. Quem não sofre tem dificuldade de perceber o sofrimento alheio.

A unidade dos cristãos. Através dessa compaixão, carregamos os fardos uns dos outros e fortalecemos nossa unidade para com os nossos irmãos. Isso vale especialmente para com nossos irmãos nos países onde há maior sofrimento cristão, e com isso percebemos a importância da unidade maior que nossas diferenças, pois o Espírito do Senhor está sobre aqueles que sofrem pelo Evangelho.

O ódio do mundo a Cristo. Um ataque a um cristão é, no fundo, um ataque ao Cristo que nele vive. Se o Senhor sofreu, como nós não sofreríamos também? Por isso, quando Paulo perseguia os cristãos, o Senhor lhe perguntou: “Saulo, por que me persegues?”. Carregar a cruz e sofrer com o Senhor com paciência, passando vergonha e rejeição, nos leva a uma imitação mais profunda do nosso Senhor crucificado.

A plenitude dos sofrimentos de Cristo. Cristo permite que cada um de nós participe do seu sacrifício único através dos sofrimentos, completando as aflições messiânicas que instauram seu reino. Através disso, e em continuidade com a razão anterior, cada cristão se torna um ícone do Senhor, um santo, inspirando a conversão e santificação de outras pessoas.

A provação da nossa fé. A provação não é só um teste, como se Deus não soubesse dos nossos limites, mas uma forma de sermos purificados por ele, em meio às tentações. Isso é importante para nós mesmos, quando vemos como a graça do Senhor nos permitiu resistir às tentações, motivo de grande alegria. Aquele que vence a provação recebe a coroa da vida; nossa tribulação momentânea produz peso de glória. Isso é um sinal de eleição.

O exercício do perdão. Só há perdão onde também houve sofrimento. Quando padecemos, Deus nos concede uma oportunidade de exercer seu Amor soberano. Deus quer nos santificar perdoando os que nos fizeram mal.

A seriedade da vida. Através do sofrimento, entendemos o nosso fim, levamos a vida — a nossa e a dos nossos semelhantes — com mais seriedade, percebendo o real valor eterno de cada um que nos deixa. Percebemos

A dependência. O sofrimento nos relembra de como somos necessitados da graça e do auxílio do Senhor, para o buscarmos em oração.

Mais uma vez: essas coisas não são exatamente explicações que devemos dar, mas reflexões que devemos fazer, maneiras pelas quais pode adquirir sentido aquilo que para nós não tem sentido nenhum. Se, em algum momento, elas não nos ajudam, que sejam abandonadas.

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.” Eclesiastes 7:2

“Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” Apocalipse 21:3,4

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Litúrgico e o Contemporâneo

Eu sei, esses nomes são ruins. Todo culto é litúrgico, toda forma de adoração, especialmente adoração em comunidade, envolve liturgia. Assim também, todo culto que é feito hoje é contemporâneo. Ninguém está livre de tradições e ninguém simplesmente vive o passado.

Mas claramente há dois “estilos” que marcam ramos diferentes da fé cristã, que se identificam através de conceitos como esses. Valores diferentes estão em circulação, maneiras diferentes de medir se o culto cristão cumpre o seu papel ou não.

São estilos muito diferentes, de fato, de modo que aqueles que se identificam com um estilo podem ter, para dizer o mínimo, certa antipatia pelo outro. Como alguém que transita bem entre estilos diferentes e que, na verdade, foca em outras coisas, eu vejo que esses dois estilos têm, em meio às muitas diferenças, certas semelhanças conceituais. Há algumas coisas que são buscadas em comum, e que servem de ponte para quem faz a travessia de um tipo para o outro. Servem de ponte também para quem, ingressando na fé cristã, vem de uma cultura pós-moderna que valoriza algumas dessas mesmas coisas.

Alguns exemplos que podem ser encontrados em comunidades com esses estilos:

1. O USO DA ESCRITURA. Um traço comum mais óbvio é que os praticantes desses estilos de adoração, embora usem as Escrituras Sagradas, e não se vejam como as contradizendo, geralmente também não as usam como se fossem manuais completos e suficientes de liturgia e culto — não esperam estar limitados àquilo que as Escrituras prescrevem. Aquilo que há nelas em termos de exemplos e valores é incorporado na vida da comunidade de maneira mais criativa.

2. O GUIAMENTO DO ESPÍRITO. Os praticantes desses estilos, embora não limitem o culto às prescrições das Escrituras, não obstante veem suas celebrações como sendo guiadas pelo Espírito Santo, num tipo de ordem que transcende a capacidade imaginativa meramente humana. De um lado, esse guiamento é visto no cuidado histórico que o Espírito Santo teve para com a Igreja. Do outro, ele aparece na orientação do Espírito aqui e agora. Mas, nos dois casos, a convicção de que, embora o conteúdo substancial da Revelação esteja completo no testemunho dos primeiros apóstolos e cristãos (“depósito da fé”), ainda assim o Espírito continua ativo para conduzir, ordenar e orientar a Igreja hoje.

3. A PRESENÇA DIVINA. Por isso mesmo, os dois estilos de adoração veem a celebração cristã como uma coisa sobrenatural. Não é apenas uma palestra de um bom professor bem preparado, ou música bem ensaiada. Existe um desejo místico pela Presença Divina. Seja através de sacramentos e cerimônias, seja unções e palavras proféticas, o milagre é central nesses dois estilos. A depender da comunidade, nos dois casos pode haver ênfase na presença de anjos e na batalha espiritual. Embora ambos os estilos tenham grandes pregadores, se pode dizer que em nenhum deles a pregação é um fim em so, mas um meio para a Presença — embora provavelmente os litúrgicos sejam mais rápidos em reconhecê-lo. A ênfase não está na formação doutrinal.

4. ADORAÇÃO HOLÍSTICA. Em conexão com essas coisas, ambos os estilos são fortemente imagéticos — você o vê pelo modo como ambos fazem uso da fotografia. Neles há uma clara preocupação com a imagem, com o movimento e com a beleza. Seja com incenso ou gelo seco, velas ou LED, os responsáveis por esses estilos têm um senso nítido de que ajudam as pessoas a participarem se houver o “clima” adequado — de que nossa vida interior não está desligada dessas coisas, não é independente. Por isso, não são estilos tão fáceis de reproduzir bem em qualquer ambiente. Eles têm um custo, um “equipamento”. O culto envolve a pessoa por completo, inclusive seus olhos e narizes, mãos e joelhos. São celebrações que movem os afetos e os corpos, numa dada direção.

Nessas quatro dimensões, ambos os estilos têm consciência de que Deus transcende nossas capacidades racionais, e de que o nosso culto deve levar essas coisas em conta. Esse terreno comum se fortalece ainda mais quando essas comunidades têm uma vida carismática mais intensa.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Oração por pecados alheios

The Martyrdom of St. Stephen is a Perfect Reminder of Why Jesus Came -  LifeTeen.com for Catholic Youth

Eu sempre me surpreendo com o fato de que há cristãos que acham que só podem pedir perdão pelos seus próprios pecados, que não podem ou não devem interceder pelos pecados de outras pessoas. Lembro que, há alguns anos, quando participava de uma aula noutra igreja, um aluno reclamou porque um pastor de sua igreja havia orado pelos pecados das pessoas presentes “como se fosse um sacerdote”. (O argumento é estranho, porque se você acredita que todo cristão é sacerdote, então todo cristão deveria fazer isso, não só o pastor.)

A Bíblia tem vários exemplos interessantes. O caso de mais importante é o do Senhor na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34). No Entanto, além desse dito ser contestado na crítica textual, sempre terá alguém para dizer que Jesus pode porque é Jesus. Mas o Primeiro Mártir seguiu o exemplo: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” (Atos 7:60). Claro e simples: S. Estêvão pediu que aquele pecado não fosse contado.

Um exemplo clássico é o de Moisés (Êx 32:11-14) e sua penitência de quarenta dias (Dt 9:18,25). Sobre isso, lemos: “Deus os teria exterminado, como tinha dito, se Moisés, seu escolhido, não se houvesse intercedido, impedindo que o seu furor os destruísse.” (Sl 106:23)

A prática de orar e interceder pelos pecados de outras pessoas aparece em outros textos bíblicos, e Deus espera que isso aconteça:

“Busquei entre eles um homem que tapasse o muro e se colocasse na brecha perante mim, a favor desta terra, para que eu não a destruísse; mas a ninguém achei.” (Ezequiel 22:30)

“Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte.” (1 João 5:16a)

O exemplo máximo, dentre as orações cristãs, é o Pai Nosso, pois nele não pedimos perdão, cada um, por suas dívidas, mas cada um pelas dívidas de todos: “Perdoa as nossas dívidas…”. É natural que seja assim, já que, na Igreja, as honras e sofrimentos são compartilhados por todos (1Co 12:26). Aproveite e ore por este pecador.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Notas sobre o Pai Nosso

Pode ser uma imagem de texto que diz "Pai Nosso: Entrada no Templo, Esperança do Fim"

A Oração do Senhor incorpora, ao mesmo tempo, duas linguagens das Escrituras e do judaísmo antigo: o misticismo do templo e a expectativa apocalíptica. Isso se dá de maneira mais clara na versão maior (a de Mateus 6), que elabora o sentido da versão menor (a de Lucas 11).

Pai nosso nos céus,
Seja santificado o teu Nome,
(I)
Venha o teu Reino, (II)
Aconteça a tua vontade, como no céu, também na terra. (III)

Na primeira petição, há mais do que pode parecer à primeira vista. No Antigo Testamento, o Deus criador, que habita nos céus, se manifesta neste mundo através do Nome (HaShem). O Anjo da Presença, enviado por Deus, carrega este nome (Êx 23:20-21); este nome está no templo (Dt 12:5); particularmente, o sumo-sacerdote, o único que podia adentrar à Divina Presença no Lugar Santíssimo, fazendo as vezes do Anjo da Presença e realmente vestido de anjo (linho fino), carrega simbolicamente, em sua coroa sagrada, o Nome: “Santidade a Yahweh” (Êx 39:30; cf. Ap 14:1; 22:4), e podia invocar o Nome para abençoar o povo (Nm 6:27). Assim, o Nome é a manifestação terrena do Eterno. Ao dizer “seja santificado o teu Nome”, a referência à coroa é óbvia.

Coroa nos lembra de reino. Essa ligação entre o celeste e o terrestre reaparece nas duas petições seguintes. O reino é o domínio que Yahweh exerce a partir do trono do seu santuário (Sl 11:4; 45:6; 47:8; 96:9-10; 103:19; Is 66:1; Jr 3:17; 17:12 etc.). O santuário liga os céus e a terra. Ora-se, na segunda petição do Pai Nosso, pelo estabelecimento escatológico definitivo desse Reino (Dn 7:27). Olhando para isso, o vidente de Patmos contempla uma realidade na qual não mais haverá santuário (uma porta para os céus), porque os céus estarão na terra (Ap 22:3,22).

A terceira petição (que não existe na versão lucana) vai na mesma direção, mas de uma perspectiva diferente: ela enfoca a obediência angélica como um modelo para a obediência terrestre. Embora frequentemente se veja aí uma aceitação dos fardos da vida, o que é verdadeiro (Mt 26:42), a oração tem um conteúdo positivo, já que a obediência celestial é tomada como referência. Existe, portanto, em segundo lugar, um desejo de realizar essa obediência celestial, através da adoração celestial (Sl 103:19-21; cf. Ne 9:6). Essa obediência à vontade do Pai Celestial é o que constitui a família de Cristo (Mt 12:50) e nos dá entrada no Reino (Mt 7:21). Mas existe também um apressamento do momento escatológico, no espírito de “maranatha”, realizando a plena obediência na terra e eliminando todos os poderes contrários: vem, Senhor.

Assim, as primeiras três petições do Pai Nosso (o Nome, o Reino, a Vontade) contém as noções da teologia do templo: os a habitação dos céus, a santidade, o Nome, o Reino (vindouro), a obediência e adoração celestes imitadas na terra (em comunhão). Em suma: o Nome, o Reino, a Vontade (Torá), três aspectos de Jesus. Assim como na invocação (Pai nosso), as demais petições, que dizem respeito às nossas necessidades presentes e escatológicas (não é preciso escolher entre as diferentes interpretações), fazem todas referência à pluralidade dos discípulos (pão nosso, nossas dívidas, nossos devedores, não cairmos em tentação, nosso livramento do mal/Maligno), visualizados como o templo no qual habita o Nome.

O Batismo com o Espírito Santo no livro de Atos — O que eu penso disso?

Antes de tudo, devo dizer que acredito na experiência pentecostal. Assim como diversos teólogos, minhas dúvidas não são sobre a experiência, mas sobre a descrição teológica dela, isto é, no modo como a experiência pentecostal é ligada a conceitos bíblicos ou quase-bíblicos como “batismo no Espírito Santo”, “falar línguas”, “enchimento” e “plenitude” do Espírito, e coisas semelhantes, o que gera consequências para o sentido que essa experiência tem, deve der ou poder ter na comunidade cristã. Acredito que posição que eu defendo não descarta, antes amplia o pensamento pentecostal nesse assunto.

Acredito que a interpretação pentecostal é melhor que a leitura reformada do “batismo no Espírito Santo” no livro de Atos dos Apóstolos. Enquanto a leitura pentecostal simplesmente aceita a “estranheza” dos textos, sem tentar forçar uma pneumatologia alheia a ela, me parece que a leitura reformada procura forçar o texto a enquadrar-se na situação vivenciada pelos próprios reformados e suas igrejas, onde essas coisas estranhas não costumam acontecer, assim como em sua teologia da “regeneração”. Isso não significa que a leitura reformada não seja capaz de fornecer observações pertinentes, nem significa que qualquer dois dos grupos seja monolítico na interpretação de todos os textos relevantes.

Porém acredito que, em razão do anti-sacramentalismo comum entre os pentecostais, algumas conexões presentes nos textos lhes escapam. Além disso me parece o que os pentecostais procuram estabelecer, através das experiências diferentes no livro de Atos, uma regra facilmente aplicável a hoje. Penso que não haja uma regra, ou que a regra, na verdade, seja mais ampla do que imaginam. Essa hermenêutica anti-sacramental afeta principalmente a interpretação dos capítulos 2 (Pentecostes), 10 (Cornélio) e 19 (Discípulos em Éfeso) do livro de Atos dos Apóstolos, precisamente os três textos em que aparece o “falar em línguas” conectado à experiência de recebimento do Espírito Santo, além de traços relevantes dos capítulos 8 (Samaria) e 9 (Paulo). Quando deixamos de lado o viés anti-sacramental, fica mais nítida a regra que devemos observar para a recepção e vivência do Espírito Santo.

Alguns fatores a considerar: (1) o Espírito Santo é concedido, no livro de Atos, principalmente e presumivelmente através do batismo (2:38; 9:17-18) e da imposição de mãos (8:15-20; 19:5-6), dois atos eclesiásticos que ocorrem sempre na mesma sequência, isto é, primeiro o batismo e depois a imposição de mãos; (2) o livro de Atos descreve a experiência nesses momentos como “receber” o Espírito Santo (1:8; 2:38; 8:115,17,19; 10:47; 19:2), o “dom do Espírito” (At 2:38; 8:20; 11:17), dizendo que foram “cheios” do Espírito Santo (2:4; 9:17) ou que o Espírito “caiu” ou “desceu” sobre eles (8:16; 10:44; 11:15); não se diz que os personagens bíblicos foram “batizados” no Espírito Santo, embora a promessa do Batismo seja invocada na explicação do Pentecostes e no incidente da casa de Cornélio (1:5; 11:16).

Os cinco textos mais relevantes, no livro de Atos, para entender essa questão são os capítulos 2 (Pentecostes, Jerusalém), 8 (Samaria), 9 (Paulo, Damasco), 10 (Cornélio, Cesareia) e 19 (Éfeso). Esses textos mais ou menos acompanham a expansão da Igreja tanto de modo geográfico (Jerusalém, Samaria, Damasco, Éfeso) como étnico (judeus, samaritanos, gentios).

No primeiro caso, no dia de Pentecostes, o mais importante, a “descida” do Espírito Santo sobre a comunidade certamente é precedida de orações comunitárias de conteúdo desconhecido (1:14), mas acontece de modo “a-sacramental”. No entanto, após interpretar o evento ligando ao envio da “promessa do Espírito Santo” por Cristo (2:33) e ao seu senhorio (2:36), Pedro diz aos ouvintes que, caso se arrependam e sejam batizados para remissão de pecados, receberão “o dom [dōreá] do Espírito Santo” (2:38), fazendo referência à mesma “promessa” (2:39). A promessa é aquela de Atos 1:5,8: “sereis batizados com o Espírito Santo”. Assim, Pedro oferece aos presentes aquele dom através (também) do Batismo. Não se fala de imposição de mãos ou outra coisa, embora o texto seja demasiado compacto para que se tire muitas conclusões. Esse é um dos três textos em que se fala de “línguas” no recebimento do Espírito Santo.

No segundo caso, em Samaria, os samaritanos evangelizados já haviam recebido o batismo sacramental e crido na pregação apostólica, através do ministério de Filipe (provavelmente o helenista de Atos 6), mas ainda não haviam recebido o Espírito Santo. Dois apóstolos, Pedro e João, descem a Samaria para orar e impor as mãos sobre os samaritanos, para que recebam também o Espírito Santo. O Batismo está, nesse texto, bem claramente atrelado à Imposição de Mãos, e a linguagem empregada é “descida” (8:16), “recebimento” (8:15,19) ou “concessão” do Espírito Santo (8:17). O texto não menciona “línguas”, “profecia” ou outros sinais ligados ao recebimento do Espírito Santo.

No terceiro caso, o de Paulo, não temos uma comunidade, mas um indivíduo, que recebe a ministração de outro: Ananias, que, embora não seja explicitamente contado como apóstolo, é mencionado como um “discípulo” (9:10) observante da Torá (22:12). Ele é enviado pessoalmente por Jesus através de uma visão (9:10-16), não por algum dos apóstolos, e chega três dias depois de Paulo ter tido a visão com Jesus. Ananias lhe descreve o propósito de sua vinda nos seguintes termos: “…para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo” (v. 17), ou seja, cura e enchimento do Espírito. O texto descreve como isso aconteceu: “Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado.” (v. 18). Sabemos que a cura aconteceu por imposição de mãos (9:12), mas enchimento do Espírito Santo corresponde ao “e foi batizado”. Esse batismo é o sacramento, como nos certifica outra versão da mesma história, que segue a mesma sequência: cura e depois batismo sacramental (22:13-16). Nenhuma das duas versões menciona fenômenos carismáticos como línguas ou profecias.

No quarto caso, o da casa de Cornélio, uma família inteira recebe o Espírito Santo: “caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra” (10:44; cf. 11:15), “maravilharam-se de que o dom [dōreá] do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios” (10:45), “receberam como nós o Espírito Santo” (10:47), o que é sinalizado através do “falar em línguas”. Àquelas pessoas, Deus “concedeu o mesmo dom [dōreá]” que aos apóstolos (11:17). Logo em seguida, eles são batizados sacramentalmente; para Pedro, não faria sentido impedir de batizar. Assim, embora o recebimento do Espírito ocorra logo antes do batismo sacramental, Pedro vislumbra uma conexão clara entre as duas coisas. Além disso, na verdade, Pedro estava justamente falando sobre o Batismo: “todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome.” (10:43). Pedro não disse aí que todos os que creem receberão o perdão porque creem, mas que todos os que creem receberão o perdão “pelo seu nome” (dia tou onomatos autou), isto é, através do seu nome. Essa é a linguagem dos textos batismais de Atos (2:38; 22:16). Essa é a fórmula empregada para atos de poder realizados no nome de Jesus, como cura e exorcismo (At 3:6; 4:7,10,30; 9:14,21; 16:18; 19:13); o Batismo aparece aí como um desses atos de poder realizados “em nome do Senhor Jesus”. Tanto em Atos 8 como em Atos 10, o recebimento do Espírito Santo, embora tenha conotações proféticas e esteja, aqui, ligado à adoração a Deus, não se tem em vista uma preparação ministerial. Tanto no acontecimento em At 10 quanto em sua explicação no capítulo seguinte, tem-se em vista a salvação.

No quinto caso e último caso, o dos doze discípulos em Éfeso, aparece toda a sequência: Batismo (sacramento), Imposição de mãos, línguas, profecia. A linguagem usada é “veio sobre eles o Espírito Santo” (19:6), o que ocorre a partir da pergunta de Paulo sobre se “Recebestes… o Espírito Santo” (19:2).

Esses textos não indicam uma “segunda bênção”, mas uma única bênção, que às vezes é recebida tempos depois do batismo sacramental, ou um pouco antes. Ao visualizar uma só bênção, os reformados se aproximam da verdade, mas essa “bênção única” não é a “regeneração” da qual eles falam; é algo posterior ao arrependimento e à fé, às vezes posterior ao Batismo. Se há uma indicação de uma lógica de duas bênçãos, ela está justamente nos dois atos eclesiásticos: Batismo e Imposição de Mãos, embora eles não sejam tratados como os meios exclusivos, e sim os meios ordinariamente esperados da dação do Espírito Santo. Por isso, a leitura histórica mais tradicional desses atos eclesiásticos é: o Batismo e a Imposição de Mãos de fato conferem duas “bênçãos” distintas ambas no entanto, ligadas à dotação do Espírito Santo, uma em continuidade com a outra, às vezes uma sendo vista como aprofundamento e “conclusão” da outra. Assim, uma raiz da noção de segunda benção está plenamente lá na tradição, mas como uma segunda bênção sacramental. No modus operandi divino, no livro de Atos, não há duas bênção, mas uma mesma doação do Espírito divino.

Como existe uma correlação entre os atos eclesiásticos sacramentais e adaptação do Espírito, a expectativa não é de que a infusão do Espírito ocorra através de orações e de buscas do batismo no Espírito Santo (a menos que isso se referia à oração sacramental, como em At 8:15); espera-se que ocorram nos próprios atos sacramentais. Não existe uma noção de “busca” do Batismo no Espírito Santo no livro de Atos. Saindo do livro de Atos, podemos falar de uma busca do “enchimento” do Espírito Santo e de uma “vida no Espírito”, nas cartas paulinas.

Não é difícil perceber que, no livro de Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo é dado como “poder” missionário e profético, como um “capacitador” da igreja para sua missão e ministério particularmente dos apóstolos, como testemunhas poderosas da Ressurreição. A caracterização do Espírito Santo como Espírito Profético aparece tanto na promessa de Jesus (At 1:8) quanto na interpretação dada por Pedro no próprio Pentecostes (2:17-18). No entanto, o caso dos samaritanos e o de Cornélio são diferentes, tendo em vista principalmente a salvação, assim como é diferente a ligação do Espírito Santo com batismo em Gálatas 3 em termos soteriológicos, não apenas ministeriais, então não se pode fazer uma separação muito radical entre pneumatologia paulina e pneumatologia lucana.

Diante dessas considerações, minha posição é a de que o batismo no Espírito Santo é a benção prometida e selada no sacramento do Batismo (I), aprofundada apostolicamente na imposição de mãos (II) e renovada, pela fé, muitas vezes ao longo de nossa vida, particularmente através dos dons espirituais (III). Em outras palavras, o batismo no Espírito Santo é a vida cristã. É a dimensão da vida cristã ligada a um poder profético, não como o ministério de uma elite espiritual, mas disseminado em toda a comunidade messiânica. Aquilo que é prometido no Batismo e aprofundado na imposição de mãos pode ser vivido imediatamente, mas frequentemente os cristãos levam anos para “acessarem” ou “ativarem” as promessas recebidas. Com isso, quero dizer que há “um só batismo” (Ef 4:5), o sacramento, um mistério único que contém compactamente e assinala profeticamente todo o nosso percurso no caminho de Jesus.

Nesse sentido, o momento em que recebemos o sacramento do Batismo não indica necessariamente o primeiro momento em que desfrutamos plenamente da benção profética ali ministrada. O mesmo se dá com a Imposição de Mãos. Em analogia com essas coisas, podemos colocar a oração: se eu oro hoje pela cura de um enfermo, desejo que sua cura aconteça hoje, devo orar para que ela aconteça agora, devo esperar a intervenção de Deus para o presente momento, mas não sou o dono da realização dos seus efeitos, pois eles pertencem a Deus, e por isso podem se realizar algumas horas depois ou amanhã, quando a pessoa que recebeu a oração hoje desfrutará então da cura impetrada. Ou seja, o momento em que a oração é feita e o momento em que a resposta é recebida podem ter um intervalo de bastante tempo.

Assim também, a experiência de enchimento do Espírito Santo, que deve ser esperada para o sacramento ou sinal sacramental, talvez só seja ativado tempos depois. Do mesmo modo, assim como há muitas maneiras pelas quais Deus curou e cura (simples oração individual, intercessão, imposição de mãos, unção com óleo, banho “profético”, cuspe…), Deus pode ministrar seu Espírito de vários modos. Não precisamos estabelecer uma regra para Deus, mas apenas para nós mesmos. Não precisamos crer em duas bênçãos ou em três bênçãos. Podemos acreditar em infinitas bênçãos como infinitas manifestações do Espírito. O Espírito Santo sempre tem mais. Mas é sempre também o mesmo Espírito Santo, a mesma bênção indivisa, o mesmo mistério inesgotável.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Entrada Triunfal, Adoração Celestial

Meditate on Christ's Triumphal Entry into Jerusalem, with a 15th century  Icon

Os Evangelhos estão cheios de mistérios que nunca descobriremos se nos limitarmos a simplesmente olhar suas páginas, sem comparar e ligar uma parte a outra. Um caso é a Entrada Triunfal de Cristo em Jerusalém, na versão do Evangelho de Lucas.

Os peregrinos que seguem com Cristo para Jerusalém entoavam, em sua honra, a aclamação do Salmo 118, cântico de romagem. (O evento também ecoa outros salmos, como o 122.) Dentre as várias diferenças, os quatro evangelhos registram uma mesma frase: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (heb. bārûḵ habbaʾ bšem ʾadonāy), reconhecendo Cristo como aquele que haveria de vir, o esperado (gr. ho erchomenos).

Mas enquanto Mateus seguiu a aclamação registrada por Marcos, só acrescentando uma expressão, Lucas modifica bastante o texto e basicamente produz algo estruturalmente novo. Isso é intencional, e não é a primeira vez que Lucas usa essas palavras. Noutro momento de aclamação, em Lc 2:13-14 (feita pelos anjos), vemos que Lucas usa a mesma linguagem doxológica:

“E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade.”
Lucas 2:13-14

“E, quando se aproximava da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos passou, jubilosa, a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinham visto, dizendo: Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!”
Lucas 19:37-38

Nos dois casos, há uma multidão (plēros) que aclama a Cristo, por milagres, fala sobre paz e usa fórmula “glória nas maiores alturas” (doxa en hypsistois). A aclamação da Entrada Triunfal tem uma frase a mais, justamente a do Salmo 118, e a sequência entre “paz” e “glória” está invertida. O motivo disso aparece quando justapomos os dois cânticos. Na verdade, eles são um mesmo cântico, em quiasmo:

[A] Glória [a Deus] nas maiores alturas,
[B] e paz na terra [aos homens de boa vontade].
[C] Bendito é o [Rei] que vem em nome do Senhor!
[B’] Paz no céu
[A’] e glória nas maiores alturas!

Essa canção se insere na tradição bíblica do Cântico Novo: diante de um ato salvador divino, uma canção nova é entoada. É um cântico responsivo, no qual os homens, na terra, respondem aos anjos, no céu. Como no livro do Apocalipse, a adoração terrestre é consequência e “responso” da adoração celeste (cf. Ap 5:8-14; 19:1-8). Ambos convocam os céus a adorarem a Deus, evocando a linguagem de vários salmos em que os anjos são, no templo, chamados pelos homens à adoração: 29:1-2,9-11 (“glória”, “templo”, “rei”, “paz”), 103:20-21 (“bendizer”, heb. bāraḵ, e o exército angélico) e 148:1-2 (com as “alturas”, LXX en tois hypsistois, e o exército angélico).

Complementando-se, os anjos (saindo da Jerusalém celeste) proclamam “paz na terra” e os homens (entrando na Jerusalém terrestre) proclamam “paz no céu”. Talvez devamos imaginar os céus e a terra se saudando com a paz, shalom, isto é, abençoando-se mutuamente, intercedendo pela paz uns dos outros. As duas cidades, a terrestre e a celeste, comungam da mesma adoração a Deus, adoram juntamente a Deus.

As expressões usadas (“paz na terra”, “paz no céu”) também evocam textos do Antigo Testamento. Dentre as bênçãos que Deus havia prometido ao povo de Israel, quando obedecesse à Torá, estava “paz na terra” (Lv 26:6), assim como ele estabeleceria seu tabernáculo entre os homens, andando entre eles (vv. 11-12), numa promessa de libertação em relação à escravidão (v. 13) que tinha tudo a ver com o momento político de Israel. Em Jó 25:2-3, fala-se de como Deus faz “reinar a paz nas alturas celestes” (LXX “en hypsistō“), mencionando também os exércitos angélicos. Embora possa parecer estranho que os homens desejem “paz no céu”, que sempre evocam o sentimento da máxima paz, na verdade as Escrituras nos falam de como as realidades celestiais podem ser conflituosas (cf. Is 24:21; Dn 10:1; Lc 21:26; Ef 6:12).

Esse cântico é simplesmente uma obra de arte em termos de alusões bíblicas.

De fato, a Entrada Triunfal é o momento propício para falar de paz, já que a profecia que ela cumpre, em Zacarias, fala da cessação messiânica das guerras e o estabelecimento da paz (Zc 9:9-10; cf. Is 2:1-5; 9:6-7; 11:6-9; 32:18; 60:17-18; Mq 4:2-4; Os 2:18). A paz é um tema importante para Lucas. Ele nos fala do “caminho da paz” (Lucas 1:79) e do “evangelho da paz” (At 10:36). A procissão de Cristo a Jerusalém se dá montada num animal inofensivo, não num cavalo de guerra, como César.

O cântico unido presume uma correspondência cósmica entre o céu e a terra — tanto na paz quanto na guerra (cf. Jz 5:19-20; Is 24:21; Lc 21:24-26) —, entre o reino no céu e o reino da terra, entre a Jerusalém terrestre e a celeste; presume uma imitação do céu na terra, realizando o que se pede no Pai Nosso: Deus é adorado, assim na terra como no céu.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Parábola Mais Difícil da Bíblia (Explicada)

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A Parábola do Administrador Infiel é provavelmente a mais difícil de toda a Bíblia. Ela contrasta fortemente com a maioria das parábolas, geralmente fáceis de entender, ao menos para quem já é cristão. Sua dificuldade não reside numa dificuldade de tradução, num contexto ininteligível, numa gramática truncada ou num uso de conceitos estranhos. De fato, penso que não haja nada de ambíguo na parábola. Pelo contrário, sua dificuldade reside precisamente no fato de que, mesmo parecendo ser muito clara, ela coloca diante de nós uma linguagem realmente chocante. Como Cristo pode ter louvado um ato de desonestidade, particularmente quando quem o realiza pensa apenas em si mesmo? O que Cristo espera que nós façamos diante disso? Essas são as duas perguntas principais a se fazer. Parece que algo não faz sentido; parece que falta algo.

Pretendo dar ao leitor um vislumbre do que eu penso ser a leitura correta do propósito dessa parábola. Como se verá, a proposta dessa parábola não é coisa totalmente nova na Bíblia.

A maneira como eu imagino a “cena” da parábola é semelhante à famosa interpretação de Kenneth Bailey. O administrador de um senhor de terras (“um homem rico”) é acusado (diaballein) de defraudar seus bens e, por isso, será demitido. Exige-se que preste contas de sua administração. O drama gira em torno do que esse administrador fará para sobreviver depois que for posto para fora. Ainda de posse dos livros de contas, ele manda chamar os arrendatários das terras, que deveriam pagar àquele senhor certos valores em azeite e trigo. Então ele os faz adulterar os números das contas, diminuindo suas próprias dívidas. Se esse administrador reduz as contas, sua situação fica ainda pior; muito maior razão ele dá para ser demitido. Mas, como a demissão já é certa, não importa. Ele não pretende se defender. Ele precisa arriscar tudo. Então ele usa a situação em seu próprio favor. Os devedores do senhor agora devem, em segredo, um favor ao administrador; em público, o dono da propriedade aparece como um grande misericordioso. Quando o administrador for demitido, os devedores o receberão em suas próprias casas. Aquele “administrador infiel” ou “administrador de impiedade” (ho oikonomos tēs adikias) é louvado por ter usado de astúcia.

Logo após essa parábola, há alguns comentários importantes, que nos ajudam na interpretação. Essa parábola tem a ver com:

  1. Usar injustamente as riquezas (v. 10).
  2. Usa das “riquezas injustas” [en tō adikō mamōna] (v. 11), [ek tou mamōna tēs adikias] (v. 9).
  3. Receber a verdadeira riqueza [to alēthinon] (v. 11.). Isso corresponde a ser recebido “nos tabernáculos eternos” (v. 9). Os amigos feitos através das riquezas nos recebem nos tabernáculos eternos. Há aqui uma referência escatológica.
  4. Ser fiel no uso do que é alheio (v. 12).
  5. Servir apenas a Deus, não às riquezas (v. 13).
  6. A avareza dos fariseus (v. 14), pois “aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus” (v. 15).

Para entender a parábola, há dois requisitos. O primeiro é uma teologia correta da riqueza e da esmola, para além de qualquer convivência cômoda com as riquezas. O segundo é eliminar interpretações radicais do princípio “sola fide”; essa parábola não é compatível com elas. Uma lição da parábola é sobre fazer amigos para herdar a vida eterna.

O primeiro problema com o que nos deparamos diz respeito à desonestidade. Poderia Cristo usar um desonesto como exemplo? Existe uma discussão sobre se a palavra “senhor” em Lc 16:8 deve ser traduzida e entendida como o “senhor [da terra]” ou como o “Senhor” (Cristo). Para efeitos do problema da desonestidade, não faz diferença, pois, nas falas seguintes, Cristo toma o caso como exemplar.

Na verdade, o que ocorre é que nem sempre as parábolas têm o propósito de refletir a natureza divina. Na Parábola da Viúva Importuna (Lc 18:1-8), o lugar que deveria ser o de Deus é ocupado por um juíz iníquo. A perseverança na oração é exemplificada em uma viúva que insiste à porta de um juíz mau e finalmente é atendida. É preciso entender que, embora algumas parábola sejam alegorias, essas parábolas com as quais lidamos não o são. São exemplos vivos retirados da vida humana. Assim, nem todos os detalhes da parábola são aplicáveis para nós, inclusive a “desonestidade”. Há algo que Cristo quer que façamos, seguindo o exemplo do administrador desonesto. Cristo vê uma certa inteligência no modo como os filhos das trevas lidam entre si, e ele quer que seu discípulos aprendam isso (v. 8). Ou seja, Cristo que que seus discípulos (filhos da luz) aprendam a usar o que está em suas mãos para se safarem do que virá. Eles devem ser intencionais.

Mas como assim? O que está nas mãos dos discípulos? O que virá?

Essa parábola, como várias outras (inclusive a próxima parábola no mesmo capítulo), lida com o juízo final, com o destino dos homens. Noutra parábola lucana, Cristo trata seus discípulos como administradores no contexto da Parusia (Lc 12:42-48). A própria ideia de um acerto de contas é uma metáfora escatológica de juízo (Mt 12:36; 18:23; 25:19; Rm 14:12; Hb 13:17; 1Pe 4:5). Seremos julgados pelo modo como tratamos o que temos (como na parábola das minas/talentos). No caso do administrador injusto, ele já começa a história condenado, mas deve encontrar um jeito de se safar. O momento da demissão está perto de chegar; enquanto ainda é administrador, aproveita o tempo que tem para usar os “recursos” que tem em seu próprio benefício. Nós, como administradores das riquezas, sabemos que as perderemos um dia, isto é, elas faltarão (Lc 16:9). Mamom é passageiro (Mt 6:24 // Lc 16:13 [Q]). Como a tradição profética do Antigo Testamento assinala, nossas riquezas não nos livrarão no dia da ira (Pv 11:4; Ez 7:19; Sf 1:18).

O “susto” que o administrador tem diante da demissão que vem e do pouco tempo que resta coloca diante de nós a dimensão escatológica da conversão. Enquanto podia viver sem se preocupar com o amanhã, aquele homem foi um mau administrador. Mas sabendo que o dia do seu juízo chegaria, ele agiu, inclusive apressando os devedores. Ao fazê-lo, ele será recebido em suas casas. Nós, ao fazermos amigos usando das “riquezas da injustiça”, seremos recebidos nos “tabernáculos eternos” (linguagem escatológica, cf. 2Co 5:1).

Mas que relação há entre uma coisa e outra? Como ligar riquezas, amigos e vida eterna?

Essa é uma das parábolas exclusivas do Evangelho de Lucas. Lucas tem uma preocupação particular com a pobreza e com a esmola, desprezando as riquezas passageiras. Embora coisas assim sejam achadas nos demais evangelhos sinóticos, essa é uma ênfase particular de Lucas, é parte do seu traço redacional. Várias das parábolas exclusivas de Lucas lidam especificamente com a misericórdia. De fato, a parábola seguinte lida ainda com riqueza e pobreza (o Rico e Lázaro); ambas iniciam falando de um “homem rico” (Lc 16:1; 18:19). A tradição sinótica registra bem o dito de Cristo sobre a impossibilidade da salvação do rico (Mc 10:25 par.), diante do que Cristo assinala a possibilidade de salvação do rico. É possível para o rico, mas como? Penso que o propósito dessa parábola é, ao menos em parte, explicar como.

Se usamos riquezas para fazer amigos, é natural que esses amigos sejam pessoas necessitadas de dinheiro, os pobres tão enfatizados por Lucas, os miseráveis. A parábola lida com o modo como herdamos a vida eterna (somos recebidos nos tabernáculos eternos) ajudando os pobres. Não apenas entramos nos tabernáculos eternos em razão deles; eles nos recebem nos tabernáculos eternos. O Antigo Testamento conhece a intercessão (bênção) ou imprecação (maldição) do pobre em relação a quem lhe dá ou recusa socorro; isso aparece especialmente nas obras (como Deuteronômio e Provérbios) em que o cuidado com os pobres é mais acentuado. Por exemplo:

Êxodo 22:26,27 : “Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha restituirás antes do pôr do sol; porque é com ela que se cobre, é a veste do seu corpo; em que se deitaria? Será, pois, que, quando clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.”

Deuteronômio 15:9,10 : “Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado. Livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres; pois, por isso, te abençoará o Senhor, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes.”

Deuteronômio 24:12-15 : “Porém, se for homem pobre, não usarás de noite o seu penhor; em se pondo o sol, restituir-lhe-ás, sem falta, o penhor para que durma no seu manto e te abençoe; isto te será justiça diante do Senhor, teu Deus. Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou estrangeiro que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia, lhe darás o seu salário, antes do pôr do sol, porquanto é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”

Jó 29:11-13 : “Ouvindo-me algum ouvido, esse me chamava feliz; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim; porque eu livrava os pobres que clamavam e também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.”

Jó 31:16-22 : “Se retive o que os pobres desejavam ou fiz desfalecer os olhos da viúva; ou, se sozinho comi o meu bocado, e o órfão dele não participou (Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como se eu lhe fora o pai, e desde o ventre da minha mãe fui o guia da viúva.); se a alguém vi perecer por falta de roupa e ao necessitado, por não ter coberta; se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com a lã dos meus cordeiros; se eu levantei a mão contra o órfão, por me ver apoiado pelos juízes da porta, então, caia a omoplata do meu ombro, e seja arrancado o meu braço da articulação.

Esses textos aludem ao hábito imemorial de que o pedinte socorrido abençoe o que o ajuda. Deus é o defensor e vingador da causa do pobre (Pv 22:22-23; 23:10-11). Como Ben Sira evidencia, essa tradição de valorizar a oração do pobre continuou a existir (cf. Ecclo 4:1-1; 21:6). É relevante que essa ideia do clamor do pobre seja repetida, no Novo Testamento, por Tiago, que conhecia a tradição sinótica (Tg 5:4; cf. Ap Ap 6:9-10). Aí aparece uma linguagem de “justiça” como sendo um “crédito” que se tem com Deus através da obediência (cf. Dt 6:25). Assim, lemos em Pv 10:2; 11:4:

Provérbios 10:2 : “Os tesouros da impiedade de nada aproveitam, mas a justiça livra da morte.”

Provérbios 11:4 “As riquezas de nada aproveitam no dia da ira, mas a justiça livra da morte.”

A justiça livra da morte. Essa justiça (ṣᵊḏāqâ, LXX dikaiosynē), interpretada no contexto judaico como “esmola” (daí Mt 6:1-2), livra da morte. Por isso, textos como Pv 10:2; 11:4 foram interpretados, no judaísmo, como significando que a esmola livra da morte e leva à vida eterna (cf. Tb 12:8-9). O texto de Prv 10:2, em particular, se conecta de modo interessante a Lc 16:9, porque vemos falar aqui dos “tesouros da impiedade” assim como ali se fala das “riquezas da injustiça”. O que esses textos nos ensinam é a doar o que temos, e não reter. Cristo havia condenado o que ajunta tesouros para si e não é rico para com Deus (cf. Lc 12:21,33). Assim, uma riqueza que guardamos para nós mesmos é, naturalmente, uma riqueza injusta.

Em suma, a lição da parábola é fundamentalmente sobre ser misericordioso para alcançar misericórdia. O administrador iníquo foi “misericordioso” (com intenção desonesta) para com os devedores, e por isso eles lhe retribuíram. Assim também, devemos fazer amigos com nossas riquezas, com a boa intenção de que eles nos ajudem no caminho que precisamos seguir. Os misericordiosos alcançarão misericórdia. A retribuição iníqua se torna aí exemplo de como nós, filho da luz, devemos buscar uma retribuição benigna. Algumas pessoas têm dificuldade com a ideia de recompensa que Cristo liga à esmola (Mt 6), porque, pensam, tudo deve ser gracioso. A grande verdade é que mesmo essa retribuição é fruto da graça divina. A fato de que ela se dá através do clamor do pobre, e não por um merecimento nosso, é determinante. De fato, a esmola é um grande ato de fé. É confiança na retribuição divina futura.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que eu amo a Quaresma?

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A Quaresma é o período do ano cristão que eu mais amo. Geralmente as pessoas amam o Natal, pela beleza que traz ao mundo, pela celebração da Encarnação, pela alegria do nascimento do Deus menino. Amam a Páscoa, pelo sacrifício de amor, pela vitória sobre a morte, pelo chocolate. Amam o Pentecostes, pelo derramamento do Espírito, pelo envio da Igreja, pelo crescimento do Reino de Deus.

Eu amo essas festas também, elas são a coisa principal. Mas eu amo a Quaresma. A Quaresma é um período de espera pela Páscoa, mas eu espero pela Quaresma. Na verdade, para mim a Quaresma é uma grande oportunidade de fazer coisas estranhas, de abrir mão de várias coisas, com a desculpa de que estamos na Quaresma. Eu não pretendo passar a vida inteira sem comer carne vermelha, ou fazer uma série de outras coisas, especialmente quando estou na residência de outras pessoas; mas, enquanto, noutros tempos, pode ser até falta de educação rejeitar algumas coisas, na Quaresma eu tenho uma boa desculpa para me privar dessas coisas sem precisar ser chato, já que não é puramente decisão minha. É um costume da Igreja. Isso vale para muitas outros votos e abstinências durante esse período do ano. Esse é o primeiro motivo pelo qual eu amo a Quaresma.

O segundo motivo pelo qual eu amo a Quaresma está nos benefícios que ela traz. Ela é uma disciplina obrigatória, e seu maior benefício tem a ver com isso. É um jejum proclamado pela autoridade do povo, como vemos nas Escrituras (2Cr 20:3; Ed 8:21-23; Jr 36:9; Jl 1:14; 2:1; 2:15). Ela coloca diante da fraqueza de nossa carne uma grande seriedade. O jejum individual, feito por minha própria escolha, é uma disciplina importante, mas é algo submetido à minha própria decisão. O jejum apregoado pela autoridade excede minha escolha e me coloca diante de algo muito maior. É normal que membros de comunidades que não jejuam coletivamente também não jejuem individualmente. Falta o estímulo e o desenvolvimento do hábito.

Na verdade, sem uma disciplina de abstinência, oscilamos, ao longo da vida, entre a moderação justa e o excesso. Com o jejum, nossa oscilação se dá entre a abstinência e o excesso, centrada na moderação justa. Nesse tempo, podemos nos forçar a ver que não dependemos dos nossos desejos por dinheiro (através da esmola), por comida (através do jejum) e por tempo livre (através da oração). Isso nos faz um profundo bem, porque nos livramos de coisas que trazem preocupações tremendas, como os três espinhos que nos impedem de ser frutíferos (Lc 8:14): os cuidados (através da oração), as riquezas (através da esmola), os deleites da vida (através do jejum). Essas três disciplinas espirituais regulam nossos amores: a Deus (através da oração), ao próximo (através da esmola), a nós mesmos (através do jejum). As três disciplinas espirituais aparecem juntas em textos como Mt 6 e em At 10; no judaísmo da época, estavam conectadas (cf. Tb 12:8), e isso tem raízes profundas na religião israelita (cf. Is 58).

O terceiro motivo pelo qual eu amo a Quaresma é o de entender como ela é bíblica e como ela me conecta, juntamente com toda a história da Igreja, a certos temas das Escrituras Sagradas. Toda uma herança, todo um tesouro é colocado diante de mim, toda uma nuvem de testemunhas ao longo dos séculos, que celebraram esse tempo litúrgico. Para algumas pessoas, perguntar se a Quaresma é bíblica é perguntar se a Bíblia manda guardar a Quaresma (ou a proíbe). Mas esse tipo de pergunta não nos leva a lugar nenhum, porque a Bíblia não trata dessa questão diretamente. Para ver a Quaresma na Bíblia, é preciso fazer as perguntas certas, e não apenas ler a Bíblia, mas lê-la com a mentalidade bíblica.

Como isso funciona? A direção nos é indicada pelo apóstolo Paulo. Quando ele escreveu a Primeira Carta aos Coríntios, estava antes da festa anual de Pentecostes (1Co 16:8; cf. At 20:16). A grande festa que antecede o Pentecostes é a Páscoa. A esse respeito, sem mais nem menos, Paulo escreve, tratando no contexto de disciplina e impureza na Igreja, que:

“Joguem fora o velho fermento, para que vocês sejam nova massa, como, de fato, já são, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento do mal e da maldade, mas com o pão sem fermento, o pão da sinceridade e da verdade.” (1 Coríntios 5:7-8)

Paulo quer que os coríntios celebrem a festa (heortázōmen) pascal centrada em Cristo, o cordeiro imolado, e para fazê-lo devem se abster do fermento, isto é, das impurezas no meio da igreja, dos ímpios que se fazem de cristãos. Somente purificados podemos participar desse momento. Paulo usa aqui uma leitura alegórica do rito pascal israelita, que determinava retirar o fermento dos pães (Êx 12:15). O pão eclesiástico deve ser um pão sem fermento, isto é, sem a mistura do pecado. A Páscoa é festa dos puros, dos libertos, é festa do Êxodo. Já no Antigo Testamento, havia uma abstinência: o pão fermentado. Um Êxodo espiritual (não mais terreno) indicará uma vitória espiritual, uma libertação espiritual em relação aos poderes dominadores das trevas, o que nos levará aos 40 dias de Cristo no deserto.

Essa leitura alegórica de Paulo parte de uma teologia da preparação, muito comum em toda a Bíblia, e que pode ser resumida nas palavras de Js 3:5: “Santifiquem-se, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vocês.”. Esse tipo de preparação exige tirar do meio do povo de Deus os anátemas (Js 7:13) e envolve todo o povo (Jl 2:16). É assim antes de participar de um sacrifício (1Sm 16:5). Deus mesmo exige essa preparação (Êx 19:10-11). Por vezes, essa preparação inclui abstinência sexual (Êx 19:15; 1Sm 21:4; 1Co 7:5). Os apóstolos jejuavam antes de ordenar pessoas (At 13:2-3; 14:23). Purificação e preparação estão ligadas em 2Tm 2:21. O ministério de João Batista consistiu em conduzir o povo a preparar o caminho do Senhor através do arrependimento. Se eu entendo que amanhã Deus fará grandes coisas, devo estar pronto hoje. Não posso tratar as coisas de Deus de todo modo.

Essa teologia da preparação é fundamental para entender a Quaresma. Os primeiros cristãos sabiam perfeitamente da necessidade de preparação. Assim, houve, desde muito cedo, um período de preparação em jejum para o Batismo, como evidencia a Didaquê, e tudo isso seguindo a direção que Paulo indicou. Assim, quando os primeiros cristãos olhavam para a festa da Páscoa, deveriam pensar: como podemos nos preparar para esse momento tão importante, para a festa que celebra o Senhor Ressuscitado e, com isso, toda a nossa Redenção? Essa é a primeira pergunta bíblica para fazer. A resposta começou a ser dada por Paulo: removendo as impurezas. No contexto de 1Co 5, essas impurezas eram os devassos, avarentos, idólatras, maldizentes, bêbados, ladrões (v. 11).

Então se celebraremos a Páscoa, a próxima pergunta que temos de nos fazer é: eu sou alguma dessas coisas? Sou devasso, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou ladrão? Há em mim alguma dessas impurezas? Se sim, como deixar essas coisas? Uma reflexão sobre nossa própria condição é necessária, e cada um de nós descobrirá que há ainda pecados e impurezas em sua própria vida, dos quais deve se purificar pela graça de Deus (2Co 7:1; 2Tm 2:21; Tg 4:6-10). É aqui que começa a Quaresma.

A resposta bíblica que esses primeiros cristãos encontraram foi imitar o exemplo de Cristo e de outras figuras bíblicas, que prepararam-se através do jejum. Em primeiro lugar, o jejum é um modo típico de arrependimento penitencial bíblico, como forma de “humilhação” (1Rs 21:27; Ne 1:4; 9:1; Dn 9:3; Jl 2:12; Jn 3:5-10). O jejum era uma forma de castigar a própria alma (Sl 69:10). O jejum é uma abstinência de alimentos (e outros prazeres) durante um tempo (cf. Dn 10:3). Ele provoca em nós uma tristeza que é benéfica (cf. Ec 7:3; 2Co 7:10), e, como abstinência, é coerente com quem quer vencer a corrida (1Co 9:25-27). Isso, na linguagem cristã, é indicado por uma palavra: mortificação, subjugação do corpo (Rm 8:13; Gl 6:8; Cl 3:5). O resultado da mortificação é manifestar Cristo em nosso próprio corpo (2Co 4:10).

Ora, se o jejum é uma forma tão propícia de preparação, arrependimento e purificação, a próxima pergunta bíblica a fazer é: por quanto tempo devemos jejuar?

O número dos 40 dias naturalmente aparece como referência bíblica. Esse número está ligado ao Êxodo pascal: o povo israelita passou quarenta anos no deserto antes de chegar à Terra Santa (Êx 16:35). Era o tempo necessário para morrer a geração ímpia (que não poderia entrar na Terra); isso corresponde aos quarenta dias em que eles espiaram a terra prometida (Nm 14:34-35; cf. Ez 4:6). Durante esse tempo, “conhecereis o meu afastamento” (Nm 14:34), num curioso paradoxo com a promessa de que Deus não se afastaria daquele povo durante os quarenta anos (Dt 2:7). Os quarenta anos eram um tempo de afastamento, provação e humilhação, mas também de suficiência, cuidado e provisão (Dt 8:2-4).

O próprio Moisés havia, em dois momentos, jejuado por quarenta dias em preparação para receber a Lei (Êx 24:18; 34:28; Dt 9:9-11,18,25), e, durante o segundo tempo, ele intercede penitencialmente pelo povo (Dt 9:25; 10:10). Seguindo o mesmo modelo, Elias jejuou quarenta dias a caminho de Horebe (1Rs 19:8). Assim, há duas referências importantes aqui: Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas).

Na Bíblia, quarenta dias são o tempo de chuva do dilúvio (Gn 7:4,12,17), isto é, o tempo em que o antigo mundo morre para surgir o novo mundo. Quarenta anos era a idade dos gêmeos Isaque e Esaú quando se casaram com suas respectivas esposas, a arameia Rebeca e a hitita Judite (Gn 25:20; 26:34). Quarenta era o limite de açoites que se julgava que uma pessoa poderia suportar antes da desumanização (Dt 25:3). Quarenta dias foi o tempo em que Golias afrontou os israelitas (1Sm 17:16). Quarenta anos, representados por quarenta anos foi o tempo de juízo prometido ao Egito (Ez 29:11-13). O juízo foi prometido aos ninivitas dentro de quarenta dias (Jn 3:4).

Sem entrar em muitos detalhes, podemos observar que a história de Israel tem ciclos de quarenta anos, exemplificados por vários períodos de paz de quarenta anos (Jz 3:11; 5:32; 8:28), ou quarenta anos de punição (13:1), os quarenta anos de ministério de Eli (1Sm 4:18), quarenta anos do reinado de Davi (2Sm 5:4; 1Rs 2:11), do de Salomão (1Rs 11:42), do de Joás (2Rs 12:1).

Assim, quando Cristo jejuou por quarenta dias no deserto em preparação para o seu ministério (Mt 4:2; Mc 1:13; Lc 4:2), vindo depois a passar 40 dias de preparação para a Ascensão (At 1:13), havia um grande precedente para a importância desse número. Cristo é um novo Moisés, um novo Elias, o novo rei de Israel, o novo Êxodo, o novo espia (primeiro a entrar) da Terra Prometida, ele suporta o Exílio pelo seu povo (num novo Êxodo), ele enfrenta por quarenta dias o Golias espiritual (Satanás), ele é quem prepara a “nova terra” pós o “Dilúvio”, ele se prepara para o casamento com sua noiva.

Então, quando alguns dos primeiros cristãos se perguntaram por quanto tempo jejuariam para a Páscoa, a resposta veio facilmente: imitaremos Cristo, jejuaremos por quarenta dias em preparação para a Páscoa. Nesse sentido, a prática do jejum da Quaresma surge muito tranquilamente ao fazer as perguntas certas à Escritura, numa mentalidade bíblica. Isso não significa que essas perguntas tenham sido todas feitas simultaneamente; levou um tempo para que o atual costume eclesiástico se transformasse de uma pequena semente numa grande árvore, seguindo uma lógica apostólica.

Uma narrativa comum e muito coerente é a de que o jejum da Quaresma é um desenvolvimento do antiquíssimo jejum pré-Batismo, já que o Batismo era feito comumente na Páscoa. Mas não é impossível que a ordem tenha sido inversa, e que dois costumes de origens diferentes tenham se unido. Os teólogos anglicanos, conhecendo as diferentes referências patrísticas nessa área, atribuem o jejum da Quaresma a uma tradição apostólica e, ao mesmo tempo, sabem que houve um desenvolvimento do costume, preservando uma raiz apostólica. O Revmo. John Bramhall (1594–1663), arcebispo anglicano, escreveu:

“Não recebemos vossas tradições espúrias inovadoras, nem fundamentos não escritos; mas admitimos as Tradições genuínas, universais e apostólicas, como o Credo dos Apóstolos, a Perpétua Virgindade da Mãe de Deus, os festivais anuais da Igreja, o Jejum Quaresmal. Ainda que saibamos que tanto a duração quanto a maneira de observá-lo era bem diferente nos primeiros tempos.”

Answer to de la Militière

“Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias.” Marcos 2:20

Rev. Gyordano M. Brasilino

Santo Agostinho sobre o Júbilo

St. Augustine of Hippo – Mariners' Church of Detroit

Canta com júbilo. Isto é cantar bem a Deus, cantar com júbilo. O que é cantar com júbilo? Entender, não podendo explicar com palavras o que canta o coração. De fato, aqueles que cantam, seja na messe, seja na vinha, seja em qualquer outro trabalho com fervor, quando começam exultar de alegria nas palavras dos cânticos, ficam como cheios de tanta alegria a ponto de não poderem se expressar por palavras, se apartam das sílabas das palavras e se entregam ao som de júbilo. O júbilo é como um som que significa o coração parindo aquilo que não é capaz de dizer. E a quem agrada esse júbilo, senão ao Deus inefável?
De fato, é inefável o que não pode dizer; e se não podes dizê-lo, e não te podes calar, que resta senão que tu jubiles, para que te alegre o teu coração sem palavras, e a amplitude imensa das alegrias não se limite pelas sílabas?”
—  Enarrationes in Psalmos, In Eumdem Psalmum 32, Enarratio II

“Quem jubila não diz diz palavras, mas sons de alegria sem palavras. Essa é a voz de uma alma inundada de alegria, que exprime, como pode, o seu sentimento, não compreendendo o significado. Alegrando-se o homem em sua exultação, por certas palavras que não pode explicar e compreender, irrompe em sons de exultação sem palavras.”
— Enarrationes in Psalmos, In Psalmum 99

“Então, da boca de homens e mulheres brotou explosão de júbilo, e suas vozes, metade contentamento, metade lágrimas, prolongaram-se indefinidamente. (…) Gritavam em louvor a Deus não palavras, mas vozes sem sentido, tão fortes, que nossos ouvidos mal podiam aguentá-las.”
— Cidade de Deus, XXII, VIII, 22

Fundamentos bíblicos da oração pelos mortos

The Victorian Era & the Art of Mourning - SevenPonds BlogSevenPonds Blog

“Eu acredito que a oração pelos Fiéis Falecidos
é um dever a se observar.” John Wesley

Há um grande mistério da morte. Ela se levanta contra nós com um poder terrível e incontrolável. Pessoas que amamos nos deixam, colocando-se além de nossas forças. A mortalha se coloca entre nós e os que partiram, levando algo de nós mesmos, de nossos pensamentos, lembranças, sentimentos.

Parte desses sentimentos inclui o de que os falecidos estejam bem, estejam em paz, desfrutem da luz divina. Não sabemos como eles estão, mas só desejamos que estejam melhor do que nós. É nesse amor pelos falecidos (amor que nunca falha), que o bispo Aulén encontra o fundamento para a oração pelos mortos. O amor espera além de toda esperança.

Com toda a evidência, desde muito cedo os cristãos oraram pelos mortos, como exemplificam a Inscrição de Abércio (séc. II) e as referências de Tertuliano (séc. III). As indicações que temos são também de que os judeus do período do Segundo Templo oravam pelos mortos e de que ele necessitavam de expiação (2Mc 12:44-45; Testamento de Abraão 15; Sifre Deverarim 210 etc.). Então a fé cristã se desenvolveu num ambiente em que a oração pelos mortos era uma prática aceitável, não rejeitada.

A prática de interceder pelos cristãos falecidos, durante a liturgia eucarística, é unânime nas liturgias antigas, dos mais diversos lugares, e abundam as referências patrísticas em seu favor. Mas os desenvolvimentos da Reforma Protestante, especialmente na tendência calvinista, levaram a uma rejeição da oração pelos mortos. Ainda assim, vemos a oração pelos mortos ser aprovada e, às vezes, ensinada e praticada por figuras como Lutero, Zuínglio, além de anglicanos como Lancelot Andrewes, John Cosin e John Wesley.

Como uma prática assim pode ter se tornado tão universal até o período da Reforma? Há um fundamento bíblico para ela? Há uma utilidade?

A intercessão pelos mortos é bíblica?

É importante dizer primeiramente que, para que uma prática seja aceita na fé cristã, não é necessário ela seja exigida, exemplificada, ensinada ou autorizada nas Escrituras Sagradas. Nada do que fazemos pode contradizer as Santas Palavras, mas nenhum texto da Escritura jamais foi escrito com o propósito de elencar tudo o que podemos fazer na religião cristã.

A suficiência da Escritura não diz respeito à liturgia, por exemplo. Ninguém pergunta se pode orar por emprego, por exemplo, mesmo que não haja nenhuma oração por emprego na Bíblia. O que perguntamos não é se a Bíblia autoriza a orar por emprego, mas se esse tipo de oração é compatível com os princípios que vemos nas Escrituras. Felizmente, a Escritura nos dá mais do que apenas princípios, como veremos.

Vemos ao longo das Escrituras um costume universal: o luto através do pranto e jejum (de vários dias) pelos falecidos, como por Arão, Moisés, Saul e seus filhos, por Estêvão e tantos outros, mas são o ambiente adequado em que essas orações podem começar a surgir, dados os bons desejos dos vivos pelos mortos.

Primeiramente, sabemos que a Escritura nos ensina a orar “por todos os homens” (1Tm 2:1) e “por todos os santos” (Ef 6:18), isto é, por todos os cristãos. Os contextos jamais limitam essas obrigações aos vivos. Em ambos os casos, há referência a pessoas vivas em redor, mas isso não constitui uma limitação. Afinal, se devemos orar por todos, obviamente os vivos são incluídos! O que procuramos não é uma referência aos vivos, mas uma exclusão dos mortos. Não encontramos essa exclusão, e isso, recordemos, num ambiente judaico e pagão em que a oração pelos mortos era conhecida e aceita. A responsabilidade de não apenas alegar, mas provar que esses “todos os homens” não incluem todos, mas apenas os vivos, é de quem é acredita nessa limitação. Do jeito que está, lido da maneira mais natural, o texto inclui mesmo a todos. A única coisa que impede de perceber essa leitura natural é o preconceito do leitor contra a oração pelos mortos.

Segundamente, vemos que a intercessão pelos mortos era bem conhecida de Paulo e dos cristãos de Corinto. O texto de 1Co 15:29 faz referência a um tipo de intercessão pelos mortos:

Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?

1 Coríntios 15:29

Nesse trecho de difícil interpretação, Paulo usa o “batizar-se” pelos mortos como um argumento em favor da ressurreição, como indicando que, de algum modo, a premissa por trás dessa prática é a de que os mortos seria, de algum modo, beneficiados por essa intercessão quando ressuscitassem. Não é possível decidir com segurança o que seria esse batismo pelos mortos, mas sem dúvida era uma prática intercessória, que beneficiaria os mortos. O fato de que Paulo usa a prática como argumento, sem condená-la, mostra que ele via a intercessão pelos mortos como, no mínimo, possível. De modo interessante, vemos nesse texto, assim como em 2Mc 12:40-46 (texto desconsiderado pela maioria dos protestantes), a intercessão pelos mortos aparecer na perspectiva da ressurreição.

Terceiramente, Paulo intercedeu por misericórdia sobre Onesíforo no dia do juízo.

Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas; antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou solicitamente até me encontrar. O Senhor lhe conceda, naquele Dia, achar misericórdia da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

2 Timóteo 1:16-18

Esse texto nos ensina algo muito importante, que afeta diretamente o modo como vemos a oração pelos mortos. Paulo ora por misericórdia do Senhor sobre Onesíforo, no dia do juízo (“naquele Dia”). Com isso, aprendemos com muita naturalidade que podemos orar por misericórdia no juízo final, que é possível Deus realizar misericórdia (cf. Tg 2:13). Isso, por si só, já justifica a oração pelos mortos, uma vez que podemos orar por um dia que chegará quando a maioria de nós já estivermos mortos.

Mas o argumento vai além: Onesíforo provavelmente já havia falecido quando Paulo fez essa oração. O texto faz pouco sentido se Onesíforo ainda estivesse vivo. Os motivos são simples: 1. Paulo pede misericórdia pela família de Onesíforo, mas por Onesíforo ele pede misericórdia apenas no dia do juízo; 2. Onesíforo é mencionado no passado, pelo que fez anteriormente; 3. Em 2Tm 4:19, a família de Onesíforo é mencionava novamente, num contexto de saudação a diversos indivíduos, e essa família recebe uma saudação, mas Onesíforo não recebe diretamente. Assim, os indícios apontam na direção de que esse texto de 2Tm 1:18 seja uma oração pelos mortos. Bem no Novo Testamento.

Por fim, há o exemplo já mencionado de 2Mc 12:40-46. Esse texto não é usado como referência pela maioria dos protestantes, embora faça parte da tradição anglicana (e luterana), não sendo usado para estabelecer uma doutrina, mas apenas para instrução, significando que seu ensinamento não é herético.

Do que foi dito, se segue que: 1. é nosso dever orar por todos os homens, sem distinção (portanto também pelos mortos); 2. a intercessão pelos mortos era conhecida dos primeiros cristãos, não sendo condenada; 3. é possível interceder por misericórdia de Deus no juízo final, independentemente de se estar morto ou não. Assim, no fim das contas, há muito mais fundamento nas Escrituras para orar pelos mortos do que pelos desempregados.

A intercessão pelos mortos é útil?

Que utilidade pode haver na oração pelos mortos? Esse é o questionamento natural de quem não estudou a questão, especialmente se criado num ambiente em que essas orações não existem ou são condenadas. Para quem não refletiu sobre nossa condição após a morte, realmente não há como vislumbrar utilidade nessas orações.

No nosso ambiente ocidental, as orações pelos mortos frequentemente são tratadas em termos de Purgatório, como se dependessem dele. Mas é fato que as primeiras orações pelos mortos que conhecemos apareceram antes do surgimento e popularização da teologia so Purgatório. Até hoje, as comunidades orientais que não acreditam em Purgatório (como ortodoxos e miafisitas) oram pelos mortos. Primeiro vieram as orações pelos mortos; só depois, uma concepção de Purgatório. As explicações dadas aqui são independentes dessa noção.

Já vimos uma das utilidades que a oração pelos mortos tem: misericórdia no juízo. Nós somos julgados por Deus por tudo o que fizemos nesta vida (2Co 5:4), e cabe a Deus realizar a misericórdia pela qual Paulo orou. Essa misericórdia no juízo se enquadra perfeitamente bem na intercessão pelos mortos vista em 1Co 15:29, que diz respeito à ressurreição. É particularmente importante lembrar que nós também somos julgados por Deus após a morte (Hb 9:27), sendo essa outra possibilidade de misericórdia no juízo divino.

O que essa misericórdia significa? No caso de Onesíforo, falamos de uma oração feita em favor de um (provável) cristão, de alguém que pode ter morrido em plena comunhão com a Igreja. Nesse sentido, essa oração se pareceria com as que aparecem nas liturgias antigas. Não se trata de uma oração por alguém sem fé, mas, possivelmente, com fé, ainda que seja uma fé que não se sabe se é totalmente viva. A questão da oração por um “incrédulo” (ninguém é incrédulo depois da morte) seria mais complicada, mas, de toda forma, como há diferentes graus de condenação, a misericórdia ainda seria possível, mas parece desrecomendada (1Jo 5:16-17). Como não sabemos o destino de ninguém, podemos orar. Nada está perdido, porque Deus atende nossas orações desde a eternidade, e não limitado ao momento em que oramos.

Mas há algo mais, além disso. Pois, mesmo os salvos que já estão na luz divina, em Cristo, ainda podem crescer infinitamente no conhecimento e no amor (epektasis), portanto também na felicidade, mesmo depois que o pecado for completamente extirpado. Assim como, oramos pelos que estão vivos, para sua santificação e crescimento em Deus, oramos pelos que faleceram, para que cresçam cada vez mais em Deus, porque para Deus nada é impossível. Nossas orações são meios pelos quais Deus cumpre seus propósitos eternos.

Rev. Gyordano M. Brasilino