Um Credo Contra Mamom

O Novo Testamento ensina que os pobres são bem-aventurados, mas ai dos ricos.

O Novo Testamento condena a ganância.

O Novo Testamento nos ensina a não desejar ser ricos, pois quem o deseja cai em tentação e laço.

O Novo Testamento nos ensina a não ter ansiedade com o que comeremos ou vestiremos, mas a estarmos satisfeitos com o que temos e em acreditar que Deus nos proverá para todas as necessidades.

O Novo Testamento retrata Cristo como alguém que se fez pobre por nós. Inclusive literalmente pobre, “escravo”, pedreiro, estrangeiro, sem cidadania, preso.

O Novo Testamento ensina que é difícil um rico entrar no reino dos céus.

O Novo Testamento ensina que é impossível um acordo entre Deus e ”mamom” — não e possível servir a Deus e ao dinheiro.

O Novo Testamento louva os primeiros cristãos por doarem tudo o que tinham e colocarem aos pés dos apóstolos, de modo que cada um recebesse conforme as suas necessidades.

O Novo Testamento nos encoraja a abrir mão do que temos em favor de outras pessoas.

O Novo Teamento conta que a pessoa mais próxima a Jesus, sua Mãe, celebrou o seu advento com estas palavras:

Derribou do seu trono os poderosos
e exaltou os humildes.
Encheu de bens os famintos
e despediu vazios os ricos.”

Senhor, dá-nos a graça de acreditar no Novo Testemento. Dá-nos a graça de crer no Evangelho do Reino. Amém.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Oração é Coração

Oração não é falatório, mas alinhamento entre o coração e Deus.

Isso revela um dos perigos de achar que o mais importante na oração é usar palavras espontâneas, falar do seu jeito, pois você acaba tratando a oração como um falar com Deus, conversar com ele, dizer coisas a ele. Isso é parte da oração, mas há algo mais fundamental.

Quando dizemos “Santificado seja o teu nome”, como Cristo ensinou, o que estamos fazendo?

O nome de Deus já é santo, e não estamos simplesmente pedindo a Deus para que continue sendo assim ou que isso seja reconhecido por outras pessoas. O que fazemos, ao pronunciar essas palavras, é posicionar nosso coração do melhor jeito. Cristo nos dá as palavras certas, nas quais podemos meditar, para que possamos estar com Deus. São palavras que nos ajudam a preparar o coração para a graça.

Sem proibir outras formas, Cristo nos ensinou a invocar a Deus dizendo “Pai” ou “Abá”. Essas palavras não têm efeito sobre Deus (ele já sabe que é Pai e não esquece disso), mas sobre nós mesmos, quando as pronunciamos de maneira significativa. Nossa fragilidade se esquece ou desacredita da filiação. As palavras certas, na oração, ativam na nossa fé certa dimensão de honra, proximidade e (lateralmente) fraternidade.

Não sentimos a mesma coisa quando dizemos “O Senhor é meu pastor, e nada me faltará”? Não nos recordamos do seu cuidado? Não reafirmamos nossa fé em sua bondade? As palavras da oração reposicionam o coração.

Tudo isso se perde ou se enfraquece quando eu trato a oração como se fosse apenas dizer coisas a Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Casa do Morto (Dt 26:14)

Eu gosto bastante das Bíblias Almeida Revista e Atualizada (ARA) e Nova Almeida Atualizada (NAA). São as que eu mais uso no dia a dia. Mas, sempre que alguém me pergunta sobre elas, eu aponto um defeito: elas são as únicas traduções obcecadas em deixar claro que são evangélicas. (A NVT faz isso com os sacramentos, mas no geral é bem menos.)

Eu já mencionei aqui o caso de Gl 3 e 1Pe 2, em que uma delas ou ambas mudam “por nós” para “em nosso lugar”. Outro caso engraçado é Tg 2:14, em que elas mudam a pergunta “Pode a fé salvá-lo?” para “Pode semelhante (ou essa) fé salvá-lo?”. Não está errado em termos de doutrina, mas a pergunta literal é um pouco mais contundente. É totalmente desnecessário, mas elas querem fechar qualquer brecha para leitura diferente do texto.

Hoje eu percebi um outro caso, que é Dt 26:14. O contexto é a entrega dos dízimos do terceiro ano, que eram dados aos levitas e aos pobres. O texto orienta se fazer uma oração na qual, dentre outras coisas, o israelita afirma, diante de Deus, que não desviou o uso dos dízimos e, com base nisso, suplica a bênção de Javé.

O problema está em uma das sentenças. Veja várias traduções:

“nem disso dei para algum morto” (ARC)

“nem delas dei para os mortos” (ACF)

“dela não ofereci nada aos mortos” (NVI

• “não ofereci coisa alguma dela aos mortos” (NVT)

“nem dei nenhuma parte como oferta pelos mortos” (NTLH)

“dele nada ofereci por um morto” (BJ)

“nada ofereci por um morto” (EP)

“delas nada dei a um morto” (AM)

Variação nas palavras, mas todas com basicamente o mesmo sentido (explico abaixo). Agora segura essa:

“nem deles dei para a casa de algum morto” (ARA/NAA)

A casa de algum morto? Como assim? Todas as outras versões evidenciam algum tipo de crença na possibilidade de interceder pelos mortos, seja indiretamente (levando comida ao sepulcro do morto), seja indiretamente (oferecendo comida a Deus em favor do morto). Ambos os tipos de crença e prática são bem atestados no mundo antigo, e ambos são traduções possíveis da expressão hebraica: ləmeṯ (לְמֵת) pode ser vertido tanto como “por um morto” como “a um morto”.

O texto em si é muito sutil para servir de argumento em favor da intercessão pelos mortos; afinal, é uma sentença negativa, num contexto bastante restrito. Serve apenas para mostrar que essa era uma prática conhecida.

No entanto, nem isso a ARA e a NAA toleraram. Inseriram a “casa de algum morto”, como se fosse um tipo de doação para uma família pobre cujo provedor morreu. Isso não funciona, porque o sentido daquele dízimo é justamente ajudar (também) os pobres, então não seria desvio. Essas traduções aproveitaram uma situação totalmente aleatória para reafirmar a ideia de que seus leitores não acreditam em intercessão pelos mortos.

Perdem, com isso, um indício bem primitivo da crença na “vida após a morte” entre os antigos israelitas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

“Soli Deo Gloria” serve para quê?


O princípio “Soli Deo Gloria” é um princípio plenamente bíblico. Afinal, Deus diz, na voz do profeta: “…a minha glória, pois, a outrem não darei…” (Is 42:8; 48:11). Uma vez que que todas as coisas são dele, por ele e para ele, a glória deve ser dada a ele eternamente (Rm 11:36). As doxologias do Apocalipse e do restante do Novo Testamento carregam o mesmo sentimento. Fomos criados para a glória de Deus (Is 43:6-7). Por isso, a glória dada a Deus deve permear nosso comportamento (1Co 10:31).

Essa glória certamente é exclusiva. Mas o que isso significa? Se ela é exclusiva, a quem ela exclui? Na Bíblia, ela exclui o culto aos deuses. O contexto do Segundo Isaías, no qual aparecem as sentenças mencionadas acima, é o do conflito de Javé com um povo que havia se acostumado a cultuar divindades pagãs no Exílio. Deus não divide sua glória com os deuses e ídolos das nações.

Por outro lado, essa glória não exclui o povo de Deus. Num outro momento, a mesma literatura profética fala do destino da Jerusalém redimida: “…sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti… eu tornarei mais gloriosa a casa da minha glória…” (Is 60:2,7). O Templo é a casa da glória divina, o lugar em que essa glória reside. Deus visualiza sua própria glória entre o seu povo.

Numa leitura cristã, na qual a Igreja é o Templo de Deus, isso significa que Deus coloca sua glória e resplendor nos seus santos. Assim, é natural que o Novo Testamento veja os cristãos como “participantes” da glória de Deus (1Pe 5:1), que veja os redimidos como glorificados por Deus (Rm 8:30), que trate o crescimento dos apóstolos como um resplandecer de Cristo “de glória em glória” neles. Nesses casos, Deus partilha, sim, sua glória.

Por isso: “…diante de ti se prostrarão e te farão as suas súplicas, dizendo: Só contigo está Deus, e não há outro que seja Deus.” (Is 45:14); “…diante de ti se inclinarão com o rosto em terra e lamberão o pó dos teus pés…” (Is 49:23); “…prostrar-se-ão até às plantas dos teus pés… eu te constituirei glória eterna…” (Is 60:14-15); “eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.” (Ap 3:9).

Em toda essas coisas, Deus é glorificado, o único plenamente glorificado. Por isso, nesses casos, a glória de Deus não é dividida, porque os homens vivem para a glória de Deus. De fato, Deus ama dividir sua glória com quem não quer glória para si.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Em defesa do Deus das vinganças

Na experiência de Deus a partir das Escrituras Sagradas, existe um lado perturbador na representação de Deus, um lado que tremor e até certo mal-estar em quem tenha um coração mais compassivo. Esse lado evoca imagens de severidade e indignação.

O Salmo 94 celebra o Senhor como o “Deus das vinganças” (‘ēl-nəqāmôt).

É importante não procurar eliminar esse lado. É claro que essa não deve ser nossa imagem principal de Deus — não foi ela que se mostrou a nós na face de Cristo, senão a de um Deus que assegura o perdão e a hospitalidade —, assim como não deve ser também nosso ânimo central — como Cristo advertiu a Tiago e João, desejosos de lançar fogo castigador sobre a vila samartana.

Mas essa imagem revela algo muito importante sobre nós. Ele significa que nós, aqui embaixo, não estamos perfeitamente alinhados a Ele, lá em cima, e que, por isso, Deus está comprometido com a realização da justiça. São os mártires do Apocalipse de São João que, clamando nos céus, invocam a justiça divina contra a opressora Babilônia e, com isso, provocam a conversão das nações. Deus está contra as injustiças.

Brueggemann, desde uma perspectiva progressista — e portanto tendente a revogar essa concepção pela canetada intelectual do progresso ocidental —, adverte contra o perigo de eliminar esse lado.

Essa imagem aparece no próprio Cristo quando expulsa os vendilhões do Templo de Jerusalém, que haviam profanado o culto inserirem na dinâmica do dom (dar-receber-retribuir) um caráter mercantil, um “covil de ladrões”. O Deus que se zanga com os homens é necessário porque é um Deus que não está conformado aos nossos planos.

Essa imagem, que pode ser instrumentalizado como força opressora, também é poder de libertação.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Oração Profética, Oração Mística

Entender a oração envolve duas dimensões fundamentais: uma é a dimensão profética, a outra é a dimensão mística.

A dimensão profética é aquela do clamor: o socorro implorado ao Soberano Eterno, a justiça reivindicada perante o Juiz Divino, a misericórdia suplicada ao Pai Celestial. Entramos com humildade e com ousadia perante o Trono Altíssimo, em busca do combate espiritual contra os males do mundo, particularmente aqueles que afetam a nossa própria alma e a vida das pessoas a quem amamos. Orar é buscar a compaixão divina e pelo milagre na terra.

A segunda dimensão, a dimensão mística, é a elevação do coração a Deus. É a dimensão da comunhão espiritual, e da nossa própria transformação e transfiguração nesse processo. É o encontro da alma com Deus e a consequente elevação dessa alma, que está sedenta de Deus. É subir os degraus da escada de Jacó para lá habitar, no único lugar da satisfação definitiva. Orar é buscar a reordenação do coração, dos afetos, do espírito.

A primeira dimensão é a da invocação, é pedir que Deus venha à nossa realidade, é dizer (Sl 70:1): “Praza-te, ó Deus, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” A segunda é a da ascensão, é entrar em Deus, é dizer (Sl 42:1): “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma.” A primeira dimensão olhar para o futuro que Deus cria; a segunda olha para cima, onde Deus está.

Essas não são duas formas de orar, mas duas dimensões simultâneas da oração. Embora um lado possa ser mais ressaltado numa situação — pois somos criatura temporais, nossa atenção e nossas palavras ressaltam lados diferentes em momentos diferentes —, a realidade é que esses dois lados estão sempre presentes na oração como a conhecemos, pois sempre invocamos e ascendemos.

Essa dualidade se deve particularmente à nossa condição, como finitos, como pecadores e como sofredores, ansiando por sermos “absorvidos pela vida”. Como podemos, aliás, invocar a Deus sem sermos transformados, e como podemos ser transformados sem que, no processo, percebamos ainda mais agudamente as necessidades do mundo e nossas próprias debilidades, ainda que agora com uma nova mente? Invocação e ascensão andam juntas.

A imagem do Lugar Santíssimo no Santuário une esses dois lados. O sacerdote, ao entrar nesse lugar, veste o linho dos anjos e contempla o trono de Deus, ele é “ritualmente transformado” mas o faz justamente no momento em que busca a misericórdia divina pela nação. Interceder, nesse processo, é ter comunhão com o coração de Deus e, por isso, tornar-se instrumento profético da causalidade divina, concordando intimamente com o Alfa e o Ômega.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Como orar os Salmos?

Se Deus nos deu um livro de orações canônico, os Salmos, é porque ele quer que façamos uso dele. Na verdade, desde o princípio e ao longo dos séculos os cristãos sempre usaram os salmos, enriquecendo sua vida de oração em geral.

De certo modo, a resposta é: simplesmente leia (ou recite) os salmos com fé e esperança. A oração dos Salmos não deve ser um grande desafio na vida pessoal e particular, ou também comunitária, então as orientações dadas aqui são maneiras de melhorar a leitura. No fundo, você já sabe como fazer.

O corpo: Você pode orar os salmos de várias maneiras, mas uma particularmente apropriada é de pé, com o livro em mãos. Você também pode fazê-lo de joelhos (como vários salmos convocam a fazer). Com o tempo, você vai notar a diferença que faz a posição do corpo. Pessoas desacostumadas a orar de olhos abertos, geralmente pelo hábito de se limitar à oração extemporânea (“espontânea”), encontrarão algum desafio, mas o novo hábito vence, no médio prazo.

A voz: Ore os Salmos em voz alta. Usar a sua voz é uma maneira de concentrar a atenção, e de louvor a Deus com o corpo. Não se apresse demais, “deguste” cada verso, cada sentença. (Os versos dos salmos geralmente são divididos em duas partes paralelas.) E lembre-se: seja reverente, mas mostre vigor. Os salmos são cânticos de guerra.

A história: Cada salmo tem sua história, seu processo de formação, mas colocá-los em uma coleção, dentro do cânon, é dar forma a uma nova obra. Os salmos são a história de um povo em oração. São peregrinos em busca (e com saudade) da Cidade Santa, com espírito sedento pela presença divina e pelos tabernáculos do Senhor. São soldados e generais em guerra, procurando a proteção do Senhor contra os seus inimigos. São pecadores afligidos e contritos, penitentes. São adoradores manifestando louvor alegre e convocando toda a criação, na terra e nos céus, a adorar o Senhor. É um povo sofredor com a esperança do reino universal de Deus sobre todos os povos. Ao orar os salmos, nós nos colocamos como parte dessa história. Esteja consciente disso.

O espírito: os salmos devem ser orados com espírito de devoção e fé, não de estudo. É possível estudar os salmos, é importante fazê-lo, mas orar os salmos não é ficar procurando detalhes para satisfazer a curiosidade intelectual, mas encontrar neles aquilo que enriquece a nossa fé. Deixe o estudo dos salmos para um outro momento.

A contrição: Os salmos penitenciais são os salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Esses sete salmos são particularmente importantes para confessarmos ao Senhor os nossos pecados. Quando algo que você fez lhe pesar à consciência, recite esses salmos (agora de joelhos), pedindo perdão ao Senhor. Como sempre pecados, esses salmos devem ser nossos companheiros de caminhada.

Há outros blocos que seria importante conhecer e usar em conjunto, como os salmos de entronização (especialmente 95-100) e o Halel (113 a 118), que são ótimos para adoração.

A apropriação: Como dito acima, nós somos parte dessa história que os salmos contam. Assim como Pedro em Atos 4:24-30, aproprie-se das palavras dos salmos nas suas próprias orações. O sentimento deve ser: o Deus dos salmos é o mesmo Deus que nós adoramos. Um exemplo de como fazer isso diz respeito à nossa batalha espiritual. Os salmos foram, vários deles, escritos em situação de guerra ou conflito com os inimigos. Mas, como aprendemos no Novo Testamento (Ef 6), nossos inimigos são espirituais, são os poderes das trevas, e é principalmente contra eles que devemos direcionar as armas dos Salmos. Essa batalha é mais óbvia no Salmo 91, mas os “salmos imprecatórios” devem ser usados assim também. Pense, por exemplo, nas palavras do Salmo 35:1-5, que, particularmente, me trazem bastante conforto. O Salmo 5 é uma bela oração matutina que pode ser empregada assim. Assim como os nossos maiores inimigos são espirituais, nosso maior aliado é Cristo, que ora conosco nessa batalha.

As aspirações: Versos isolados dos salmos são muito apropriados como orações breves, chamadas “aspirações”, que podem ser usadas ao longo do dia repetidas vezes, ou em momentos específicos, como no começo de alguma oração, antes da leitura da Bíblia etc. Alguns exemplos comuns:

  • “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor , rocha minha e redentor meu!” (19:14)
  • “Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.” (28:9)
  • “Praza-te, Senhor, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” (40:13)
  • “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos.” (43:3)
  • “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (51:10)
  • “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca manifestará os teus louvores.” (51:15)
  • “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.” (57:5)
  • “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, e concede-nos a tua salvação.” (85:7)
  • “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.” (119:18)

• A frequência: Use ao menos um salmo por dia, no começo. Depois que o hábito estiver firme, dois salmos (um pela manhã e outro à noite). Você pode usar o Salmo 95:1-7 (seguido do Salmo 96:9,13) pela manhã e o Salmo 141 à tarde/noite.

A constância: Use os salmos em todas as situações, mesmo quando nossos sentimentos não estão no lugar. Vários Salmos foram escritos em momento de intensa angústia (como o Salmo 88), mas eles são orações, ainda assim, e mostram como a oração deve ser feita mesmo quando não estamos em paz.

A conclusão: Costumamos terminar as orações dizendo apenas “Amém”, mas uma maneira de terminar os salmos é com alguma doxologia breve (como o “Glória ao Pai”). Uma forma fácil é, após finalizar o salmo, repetir algum verso que chame mais à sua atenção ou seja mais coerente com a sua situação. Aliás, os cinco blocos de salmos bíblicos são separados por quatro transições que são doxologias, e que podem ser usadas (de memória) quando concluímos algum salmo: Sl 41:13; 72:19; 89:52; 106:48. Depois, como sempre: Amém!

• A memorização: Todo cristão deveria conhecer alguns salmos de memória. Alguns salmos que seria interessante considerar memorizar: 23 (segurança), 24, 42-43, 46, 67, 91 (batalha espiritual), 95, 100, 113, 116 (gratidão), 130 (penitência).

• O compromisso: Os salmos apresentam uma forma de oração que não é natural para muitos cristãos, os “atos de fé”, “atos de confiança” e outros, orações geralmente breves nas quais, em vez de apenas pedir algo a Deus, nós nos posicionamos diante dele e afirmamos a nossa fé, nossa esperança, nosso amor, nossa devoção, nosso compromisso e outras coisas. Esse tipo de atitude exigirá, em algumas situações, certa ousadia, mas também serão uma forma de avivar nossa fé e reafirmar nossa lealdade ao Senhor, portanto são uma forma importante de adoração. Alguns exemplos:

  • “No tocante a mim, confio na tua graça;” (13:5a)
  • “Eu te amo, ó Senhor , força minha.” (18:1)
  • “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” (23:6)
  • Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes.” (27:13)
  • Aguardo o Senhor , a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra.” (130:5)

• A defesa: Os Salmos não são apenas deprecação, mas também defesa. Neles, não apenas afirmamos nossa culpa, mas também nossa inocência (“Lavo as minhas mãos na inocência”, 26:6), e, com isso, pedimos que Deus faça justiça diante da nossa situação (“Faze-me justiça, ó Deus”, 43:1). Essa ousadia é necessária numa vida espiritual equilibrada.

Experimente orar os salmos. Encontre nele uma história que, passando por montes e por vales, encontra ao fim sempre motivo de gratidão e para um cântico novo, um motivo para dizer: Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ainda sobre ansiedade…

Fico impressionado com quanta gente aprendeu por aí que ansiedade é pecado. Até meses atrás, eu sequer imaginava que alguém pensasse assim, acho que nunca ouvi coisa do tipo em nenhuma igreja. Ao que parece, esse tipo de pensamento é incentivado pelo pessoal do “aconselhamento bíblico”.

Isso é resultado de uma prática pastoral irresponsável, de uma hermenêutica superficial, de uma atitude humana incompassiva para com o sofrimento psíquico.

Às vezes, essa abordagem da ansiedade como pecado presta um auxílio relativo a essas pessoas, o incômodo faz com que elas se movam. Tentam enfrentar o problema “sem muletas” e às vezes conseguem, na macheza. Mas, nos casos que eu conheço, ocorre o contrário: achar que a ansiedade é pecado piora ainda mais o problema, já que acrescenta uma preocupação.

Eu não enfrento um problema muito grave com ansiedade. Na maior parte do tempo, eu tenho certa facilidade em perceber a voz da ansiedade e dizer a ela que confiarei em Deus. Para mim, isso normalmente não envolve nenhum esforço heróico, não exige a virtude da fortaleza. Mas, na prática pastoral, convivo com pessoas que não têm a mesma facilidade, se desgastam muito mais para tomarem uma decisão simples. A ansiedade lhes absorve a atenção. Sentem-se oprimidas pela retribuição do passado e pala incerteza do futuro.

A Escritura Sagrada diz, em vários lugares, que não devemos estar ansiosos:

“…não andeis ansiosos pela vossa vida…” Mt 6:25
“Não andeis ansiosos de coisa alguma…” Fp 4:6
“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade…” 1Pe 5:7

Mas o que esses textos realmente dizem? O erro mais óbvio é tratar essas coisas como mandamentos, de maneira que quebrá-los seja pecado. Não são mandamentos, mas exortações, encorajamentos. É como quando a Bíblia diz “Não temas”, “Não chores” e coisas semelhantes. São imperativos exortativos. São palavras de compaixão que procuram inspirar, não condenar, na mesma lógica de Pv 12:25: “A ansiedade no coração deixa o homem abatido, mas uma boa palavra o alegra.” Só uma hermenêutica chapada pode tratar tudo que há na Bíblia como sendo o mesmo gênero de fala.

A Bíblia não trata como pecado a ansiedade, mas o “andar ansioso”. Que atitude é condenada no contexto de Mt 6, por exemplo? Não a de quem tem o sofrimento da ansiedade, mas sim a de quem sai em busca de riquezas, acumulando tesouros para ancorar neles a sua segurança, em vez de (como nos outros textos) procurar segurança no Senhor. Esse é o “andar ansioso” condenado pela Bíblia. Essa é a pouca fé.

A ansiedade de Maria e José por Jesus (Lc 2:48) e a de Paulo pelas igrejas (2Co 11:28) não são pecaminosas, mas antes obrigatórias, porque são resultado de certas responsabilidades pessoais.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Confissão de Inocência

Em nenhum lugar a Escritura Sagrada incentiva a atitude de autoflagelação psicológica. Existe, sim, a necessidade urgente da confissão de pecados, da penitência, do arrependimento, da contrição, mas não devemos ter medo de reconhecer nossa própria inocência quando não estamos culpados. A caça pseudofreudiana por más intenções, sob pretexto de uma “depravação total”, é um veneno.

Talvez alguém seja tentado a pensar que Jó foi arrogante, ou se excedeu em alguns momentos, mas, no geral, ele estava em linha com a espiritualidade dos salmos. Alguém poderia dizer que Paulo foi arrogante no trecho abaixo?

Os meus pés seguiram as suas pisadas; guardei o seu caminho e não me desviei dele. Do mandamento de seus lábios nunca me apartei, escondi no meu íntimo as palavras da sua boca.” Jó 23:11–12

Daí retribuir-me o Senhor, segundo a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, na sua presença.” Salmo 18:24

Faze-me justiça, Senhor , pois tenho andado na minha integridade e confio no Senhor, sem vacilar. Lavo as mãos na inocência e, assim, andarei, Senhor , ao redor do teu altar,” Salmo 26:1,6

Tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança. Não tornou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos dos teus caminhos,” Salmo 44:17–18

São muitos os meus perseguidores e os meus adversários; não me desvio, porém, dos teus testemunhos.” Salmo 119:157

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar…” Salmo 131:1

Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes.” 1Tessalonicenses 2:10

Rev Gyordano M. Brasilino

Apego não é idolatria

Uma pessoa que queira manter a sanidade mental e crescer no autoconhecimento, e entender seus próprios pecados e fraquezas, deve se manter protegida contra o pensamento de que o coração é uma fábrica de ídolos, e contra a obsessão de tratar todo excesso como idolatria.

Inspiradas por esse tipo de pensamento, muitas pessoas acabam presas numa introspecção mórbida, tentando encontrar a raiz de idolatria por trás de cada pensamento ou hábito que lhes pareça exagerado. Um dos alvos mais frequentes é o apego a outras pessoas, o que frequentemente provoca crises emocionais inteiramente desnecessárias.

A ideia parece ser a seguinte: se você dá às outras pessoas uma atenção que deveria ser dada a Deus, isso se constitui idolatria. Essa maneira (não bíblica e muito geral) de “definir” a idolatria leva a muitos problemas. Quando o apóstolo Paulo fala de como o solteiro pode se dedicar inteiramente às “coisas do Senhor” e o casado deve se dedicar às “coisas do mundo”, basicamente ele trata da situação de uma pessoa que, ao casar, escolhe, com isso, dar menos atenção a Deus. Surpresa: Paulo não trata isso como idolatria. Essa pessoa que, na descrição de Paulo, está “dividida” entre as coisas do Senhor e as coisas do mundo não comete idolatria. Ela casou porque precisava casar, por conta de suas fraquezas e necessidades, e deve fazê-lo sem peso na consciência.

A idolatria deve ser bem definida: idolatria é uma forma de culto, de adoração. Nem toda dedicação é culto. Nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é culto. Então nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é idolatria. Lembremos: nem toda dedicação é excessiva. Não há necessidade de ficar caçando idolatria.

Uma coisa que, certamente, não é idolatria é apego a outras pessoas. Existe apego excessivo, mas a Bíblia é até extravagante na maneira como descreve o apego lícito, natural e saudável, tratado como “amor ardente” (1Pe 1:22; 4:8). É esse amor ardente que leva ao pranto contínuo de Ana por um filho que ela (ainda) não teve, ou ao pranto pela morte de Estevão, ou o imenso cortejo e lamento na morte de Jacó, ou pela partida de Paulo. Essas demonstrações emocionais nunca são tratadas como exageradas. Não é difícil colecionar exemplos de pessoas com apego muito intenso a outras pessoas, que jamais são repreendidas pelas Escrituras, antes são colocadas como modelos:

“Então levantaram a sua voz, e tornaram a chorar; e Orfa beijou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Por isso disse Noemi: Eis que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses; volta tu também após tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;” Rt 1:14–16

“Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer.“ Sl 16:3

“Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia.” 2Co 2:12–13

“Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos.” 1Ts 2:8

Rev. Gyordano M. Brasilino