Lava-Pés: Quatro Sentidos

Podemos ver quatro sentidos (não exaustivos e não exclusivos) no ato de Cristo de lavar os pés dos seus discípulos.

☩ Sentido Literal: Ao lavar os pés dos discípulos, Cristo coloca diante deles um exemplo a ser seguido. Eles deveriam estar dispostos a ter seus pés lavados e lavar os pés mutuamente, mostrando, com isso, um compromisso de humildade, serviço, reciprocidade, fidelidade a Cristo. No ambiente semítico e oriental de Jesus, o gesto de lavar os pés de outra pessoa era desonroso e inaceitável, que dirá se feito por um mestre, mas esse amor extremo de Jesus deve iluminar todas as nossas práticas e toda a nossa vida.

☩ Sentido Alegórico: O lava-pés é um ato profético (“compreendê-lo-ás depois”) que aponta, no contexto do Quarto Evangelho, para a missão do próprio Cristo, que foi despido em sua Paixão e verteu água quando ferido. Seu sacrifício traz transformação e pureza para os seus discípulos, uma pureza da qual eles precisam continuamente se limpar. Eles devem confiar em Jesus, e confiar que a humildade dele na cruz não é uma derrota, mas o meio pelo qual ele os purificaria. Ao dizer “Se eu não te lavar, não tens parte comigo“, Cristo mostra que não há salvação fora do seu sacrifício. Pedro, resistente à mensagem, representa aqui a Igreja na sua dimensão mais humana, frágil, que tantas vezes resiste ao plano do Senhor. Os discípulos, seguindo o modelo de Jesus, levam a pureza de Jesus para outras pessoas; eles limpam outras pessoas com a graça de Jesus, mas só o fazem plenamente se eles mesmos tiverem sido limpos.

☩ Sentido Moral: O texto aponta para duas dimensões da nossa alma, aquela que mais profundamente está ligada a Jesus (e portanto já está limpa) e aquela mais baixa, que continuamente se suja pelo contato com o mundo. Embora já tenhamos sido purificados por Jesus uma vez, não temos parte com ele a menos que ele limpe os nossos pés. Por isso, para termos plena comunhão com ele, precisamos de que ele nos limpe. A graça de Cristo nos livra mais facilmente dos pecados maiores e visíveis, mas há sempre uma sujeira por baixo que necessita de purificação. “Já lavei os pés, tornarei a sujá-los?” (Cânticos 5:3)

☩ Sentido Anagógico: Esse texto aponta para a pureza plena e definitiva que Cristo trará a nós e a este mundo. Embora ainda enfrentemos o pecado, um dia ele nos purificará por completo, limpará os nossos pés para que estejamos com ele para sempre em Terra Santa, na Nova Jerusalém. Ficarão de fora os impuros, mas, se já tivermos sido purificados pela lavagem do corpo, restará apenas uma limpeza menor, que ele fará por sua graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Caminho do Meio

O diabo é tanto acusador quanto tentador, e nossas lutas com ele devem levar isso em conta. Ele não só nos oferece liberdade para pecar, mas também usa a condenação da lei para nos enfraquecer. Ele nos seduz a cair e nos prende quando caímos.

Ele trabalha nos extremos e nos confunde sobre eles. Quando alguém deixa um extremo, ele trabalha para que aceleremos na direção contrária. Para ele, estarmos tristes demais ou alegres demais são tentações igualmente úteis, ambas capazes de nos cegar. Libertinos e legalistas, o diabo os ama.

Devemos trilhar o caminho do meio com confiança, não ouvindo as vozes de quem nos oferece uma fé mais radical — seja mais radical na liberdade ou no rigor. Liberdade e rigor só fazem sentido em função do amor, da caridade derramada pelo Espírito Santo, na unidade do Corpo de Cristo.

Para quem está com o coração em Deus, até as porretadas do diabo, de um lado e de outro, santificam. Por isso também, como ensina São Gregório Magno, grande parte do ministério pastoral é oferecer o remédio suficiente para levar ao equilíbrio.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Igreja Anglicana é reformada?

Por algum motivo, várias pessoas diferentes me fizeram a mesma pergunta: a Igreja Anglicana não é reformada?

É preciso entender que a Igreja Anglicana não é calvinista. Quando o Arcebispo Whitgift tentou tornar certo calvinismo moderado em doutrina anglicana, nos Artigos de Lambeth (1595), eles foram rejeitados. Ou seja, a Igreja Anglicana rejeitou o calvinismo como doutrina quando a proposta foi feita. (O que não significa que não haja influências calvinistas na doutrina e liturgia anglicanas; elas existem e são bastante positivas.)

Como eu digo muitas vezes: os 39 Artigos de Religião ensinam a doutrina da eleição e rejeitam ensinamentos como expiação limitada e perseverança dos santos, além de ensinarem certa cooperação com a graça. O Livro de Homilias tem um sermão cujo propósito é ensinar o perigo de perder a salvação. Um trecho:

“Pois se Deus mostrou, a todos os que creem verdadeiramente em seu Evangelho, sua face de misericórdia em Jesus Cristo, que ilumina seus corações, para que eles (se a observarem como devem) sejam transformados em sua Imagem, sejam feitos participantes da luz celeste e do seu Espírito Santo, e sejam conformados a ele em toda a bondade exigida dos filhos de Deus; então, se posteriormente eles negligenciam tais coisas, se forem ingratos a ele, se não ordenarem suas vidas de acordo com seu exemplo e doutrina, e ao anúncio de sua glória, ele lhes tirará o seu Reino, sua santa palavra, pela qual ele reinaria neles, por eles não trazerem o fruto que deles ele buscava.” — Livro de Homilias, On Declining from God

Esse trecho não só ensina a possibilidade de perder a salvação, como o faz à luz da doutrina da dupla justificação. Não se trata da doutrina luterana — perda de salvação por perda da fé —, mas a perda da salvação por pecado.

***

Para os reformadores ingleses, era bem óbvio que a salvação podia ser perdida. Outro dia, compartilhei um trecho em que Hugh Latimer fala sobre essa possibilidade. Quem descreve esses homens como calvinistas não sabe bem o que diz. Eles acreditavam em predestinação, mas não a predestinação como posteriormente definiria Dort.

É por isso que o Art. 16 fala da possibilidade de cair da graça do Espírito Santo através do pecado, o que é óbvio para quem acredita em Regeneração Batismal. De fato, a homilia “On the Declining from God” (do Livro de Homilias da Igreja da Inglaterra), usando a famosa parábola da vinha em Isaías 5, expressa esse fato dizendo:

“…eles não mais serão do seu reino, eles não mais serão governados por seu Espírito Santo, eles serão tirados da graça e dos benefícios que tinham e que desfrutariam eternamente por Cristo, eles serão privados da luz celestial e da vida que tinham em Cristo enquanto permaneciam nele; eles serão (como um dia foram) homens sem Deus no mundo, ou até pior. Em suma, eles serão dados ao poder do diabo, que exerce domínio em todos os que são lançados de Deus, como fez com Saul e Judas (1Samuel 15:23; 16:14), e geralmente em todos quantos operam por suas próprias vontades, filhos da desconfiança e da descrença.”

A mesma homilia ensina ensina: “assim como a salvação é prometida aos fiéis em palavra e obra”.

***

Revmo. Hugh Latimer (☩1555), bispo anglicano e mártir, sobre perda da salvação:

“Então essas pessoas que ainda não vieram a Cristo, ou, se vieram a Cristo, caíram novamente dele e assim perderam sua justificação (assim como há muitos de nós que, quando caímos voluntariamente no pecado contra a consciência, perdemos o favor de Deus, nossa salvação e finalmente o Espírito Santo)…” — Sermão sobre a Epístola do Primeiro Domingo do Advento

Primeiro podemos saber que podemos estar no livro num momento e noutro momento sair dele; como parece ser com Davi, que foi inscrito no livro da vida; mas quando pecou, naquele momento ele ficou fora do livro do favor de Deus, até que se arrependeu e se entristeceu por suas faltas. Assim podemos estar no livro uma vez e, em seguida, quando esquecemos de Deus e de sua palavra e agimos impiamente, saímos do livro; isto é, saímos de Cristo, que é o livro.” — Sermão do Terceiro Domingo depois da Epifania

***

No nosso Livro de Oração Comum, a oração (coleta) desta semana é uma na qual a possibilidade de perda da salvação é apresentada:

“Ó Deus, protetor dos que em ti confiam, sem o qual nada é forte, nada é santo; acrescenta e multiplica a tua misericórdia para conosco, a fim de que, sob o teu governo e direção, vivamos esta vida de tal maneira que não percamos a vida eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.”

O trecho relevante é o que diz “vivamos esta vida de tal maneira que não percamos a vida eterna”. Essa oração está presente também na edição mais importante do LOC (1662), numa forma mais simples.

Nessa oração, vemos algo constante na Lex Orandi anglicana, particularmente nas coletas semanais: afirmamos, ao mesmo tempo, que podemos perder a vida eterna através do nosso modo de vida mau e, por outro lado, que perseveramos no caminho é graça de Deus, pelo que lhe pedimos.

O cair é do homem; o firmar é de Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Conhecendo o Anglicanismo (material gratuito)

[Vídeo] O que é o Anglicanismo? — Rev Gyordano | 8 min
https://youtu.be/nfZpiXwt26k

[Ebook] Anglicanismo — Dom Robinson
https://drive.google.com/file/d/1nyfRFy3GNQ-iFQ73Ynbtbwg-mfyTi57b/view?usp=drivesdk

[Ebook] Eclesiologia — Dom Robinson
https://drive.google.com/file/d/1ny-bkTkkKuoCPxmRPTDx3atBLe5C7dgM/view?usp=drivesdk

[Ebook] Livro de Oração Comum 2008
https://drive.google.com/file/d/1XoXpCFBde7B-9bk2cdhPEbolREJVVoR4/view?usp=drivesdk

[Vídeo] Introdução ao Anglicanismo — Douglas Araújo | 14 min
https://youtu.be/XRY_X06oct4

[Vídeo] No que os anglicanos acreditam? — Douglas Araújo | 10 min
https://youtu.be/WZJxNRNq718

[Vídeo] O que é ser anglicano? — Douglas Araújo | 13 mim
https://youtu.be/mzDqkXRM8FU

Duas maneiras de tratar a imaginação

A imaginação ou fantasia é a atividade de formação de representações no pensamento — seja de imagens “visuais”, seja também de sons, sensações, ideias, com todo o mundo afetivo em torno delas. A imaginação abre nosso pensamento para o possível, assim como para o real que transcende o corporal. Através da imaginação, podemos reorganizar nossas memórias e formar quimeras e monstros.

Ela é uma faculdade poderosa, mas não precisamos pensar muito para perceber como a imaginação pode ser muito perigosa. Afinal, imaginar envolve imaginar o mal, criar possibilidades destrutivas. O pecado é, em grande medida, sugerido pela imaginação. Nossa imaginação não se fixa naquilo que é mais racional e melhor, mas forma também possibilidades piores: ela planeja a vingança, arquiteta o crime, deleita-se previamente na crueldade, prepara a traição, fábrica a calúnia, cria o ídolo. Pensemos no quanto o pecado da curiosidade depende da imaginação. O mal que praticamos certamente emerge do nosso próprio coração (Mt 15:19). Vários textos nas Escrituras Sagradas falam de como a imaginação pode ser perversa.

Além dos pecados que praticamos intencionalmente, ao dar ouvidos às sugestões inferiores da imaginação, ela também coloca diante de nós várias prisões: ansiedades e medos se enraizam na imaginação. A imaginação não está sob o controle direto da vontade, então é possível racionalmente sugerir à imaginação alguma ideia — embora isso mesmo seja difícil quando estamos sob efeito de alguma emoção intensa —, mas é difícil simplesmente parar de imaginar alguma coisa. Não depende de um ato simples de vontade. Reordenar a nossa atenção dá trabalho.

Há duas possibilidades de enfrentamento do problema da imaginação, além de ignorá-lo. A primeira possibilidade é negar totalmente a imaginação, a iconoclastia do pensamento. Nessa possibilidade, o problema da imaginação é tratado como incurável, impossível de ser resolvido, então o que devemos fazer é fugir da imaginação tanto quanto pudermos.

Essa primeira possibilidade é irreal no objetivo e insatisfatória no processo. A imaginação não é uma coisa má, mas uma capacidade dada por Deus. Na verdade, a imaginação é fundamental para o amor e para a prática da virtude. Sem nossa capacidade de imaginar e de reconfigurar nossas experiências, somos incapazes de mostrar compaixão e empatia por pessoas diferentes de nós — pois essas coisas envolvem a capacidade de imaginar o sofrimento alheio. A ação moral não é possível sem a imaginação moral. Como vou chorar pelos que choram, sem sentir o que sentem?

Todas as nossas ações conscientes envolvem imaginação. Um missionário que sai de sua terra imagina a possibilidade de converter pessoas. Uma pessoa que inicia um trabalho social com pessoas pobres e estrangeiros imagina o bem que lhes pode ser feito. Essas pessoas imaginam fins possíveis e meios adequados para alcancá-los, assim como impedimentos previsíveis. Há sempre um “cálculo de futuro”, ou seja, imaginação.

Como escreveu Jonathan Edwards (Experiencing God), Deus nos deu a faculdade da imaginação e “nos fez de tal modo que não podemos pensar nas coisas espirituais e invisíveis sem algum exercício dessa faculdade”. Deus nos criou como seres imaginativos, e o processo de imaginação é parte da maneira como nós nos relacionamos com ele. Ele é impossível de ser imaginado, mas é impossível pensar nele sem imaginá-lo de alguma maneira, analogicamente. Isso envolve aquela realidade, ensinada pelo São Paulo, de que a natureza invisível de Deus é manifestada pelas coisas criadas (Rm 1:20). Como ensinou Calvino, Deus quer que nos demoremos nessa contemplação mediada pela criação visível.

O problema da imaginação é real, mas a solução de simplesmente suprimir a imaginação não funciona, ela vai contra o plano divino. Com o Grande Mandamento, aprendemos que Deus quer de nós, exige de nós, que o amemos com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento, com todas as forças — o que significa que não podemos simplesmente tentar suprimir uma dimensão da nossa vida interior, pois isso seria negar a Deus o que é seu. Assim como o desejo não é destruído e anulado, mas dirigido a Deus, também a cura da nossa imaginação está em se centrar nele. Nossa obediência a esse mandamento não se deve a uma necessidade de Deus, pois ele não ganha nada com nosso amor, mas a uma necessidade de nossa, à necessidade que temos de ser curados. Só no Infinito há a cura da nossa imaginação. Uma vez que os atributos divinos estão sempre acima e além de qualquer coisa que conheçamos com nossa memória, é a nossa imaginação que os torna (minimamente) inteligíveis.

Diante disso, a segunda possibilidade é disciplinar a imaginação, dirigir a imaginação na direção correta. Um coração transformado envolve um pensamento renovado (Rm 12:2). É um processo, de modo que Paulo exorta àqueles cristãos em Roma a se renovarem no pensamento. Na mesma carta, ele fala do conflito interior entre as cogitações da carne e as do espírito (Rm 7–8).

Quando lemos as Escrituras, parte do que acontece é que repovoamos o nosso imaginário com os melhores objetos. Quando lemos o primeiro relato da Criação (Gn 1), e imaginamos a ordem por trás das diversas etapas; ou quando pensamos nas Dez Pragas e na abertura do Mar, no Êxodo; ou na batalha entre Davi e Golias; ou nas imagens tremendas do Salmo 18; ou talvez nos verdes pastos e águas tranquilas do Salmo 23, parte do processo de entender as histórias envolve lê-las imsginativamente. Um dos maiores deleites ao ler os evangelhos canônicos está em imaginar aquilo que o Senhor disse e fez, particularmente na sua Paixão e Crucificação, que, segundo São Tomás, são a inspiração principal da nossa devoção. O mesmo se dá com os Atos dos Apóstolos, ou, de modo muito óbvio, com o Apocalipse de São João, um livro que só pode ser lido se usarmos bem a imaginação. As imagens apresentadas e sugeridas pela Sagrada Escritura devem ter um lugar dominante no nosso pensamento, tornando-nos capazes de imaginar o inimaginável, através de representações menores e abertas.

No caso do Apocalipse, em particular, há algo importante a dizer. Num texto anterior, eu me referi a um erro muito comum na leitura do livro, cometido especialmente por pessoas que iniciam no estudo da Teologia: a ideia de que o livro foi escrito em código para que os perseguidores romanos não entendessem que a mensagem dizia respeito a eles. Isso não faz nenhum sentido; se o Apocalipse tivesse sido escrito como um código assim, seria um código muito bobo, pois os romanos poderiam facilmente entendê-lo. Na verdade, a Meretiz assentada sobre a Basta não é um código para se referir a Roma. A verdade é o contrário: a Roma pagã é um código que se refere à Meretriz. Deus nos dá a imagem porque quer que vejamos Roma de certa maneira, quer que imaginemos Roma de certo modo. A Roma que os apóstolos viam com os olhos é um símbolo que se remete a uma realidade espiritual mais profunda e monstruosa. Usamos símbolos porque eles se reportam a realidades mais profundas que o uso comum das palavras. É por isso que a Escritura Sagrada é cheia de símbolos, e não apenas linguagem denotativa simples; ela fala de realidades muito profundas. A leitura alegórica das narrativas bíblicas, mesmo as não claramente alegóricas, depende disso.

Quando oramos, um dos nossos maiores inimigos é a imaginação, que se perde a transitar em vários mundos e foge da realidade invisível e inimaginável do Deus Inefável. Esse é um dos motivos pelos quais, seja na época dos apóstolos, seja séculos depois, a cultura religiosa cristã — herdeira do simbolismo judaico antigo —, desenvolveu através das artes elementos para fortalecer nossa devoção e atenção às coisas de Deus: teatro, música, pintura, arquitetura, liturgia, cerimônia, vestimenta e outras artes que atraem nossa atenção e espírito de reverência. O Rev. Jeremy Taylor escreveu, em seu livro Vida Santa:

Por esse propósito é bom transplantarmos os instrumentos da imaginação para a religião, e por essa razão a música foi trazida às igrejas, assim como ornamentos, e perfumes, e vestes dignas, e solenidades, e cerimônias decentes, para que a imaginação muito ativa e menos discenente, sendo atraída aos seus objetos próprios, possa ser instrumental para um amor mais celestial e espiritual.

Nesse jogo, a imaginação defeituosa é vencida pela inteligência; ela procura o corporal e, como por um anzol, é dirigida ao espiritual. Todos nós sabemos sobre o efeito quase irresistível que a música excerce sobre nossos afetos — Hooker fala de como certas formas de música “levam como a êxtases, enchendo a mente com alegria celestial e, por um tempo, de certo modo separando-a do corpo” —, e podemos ver algo disso nas mais diversas artes. Não usamos “melodias bíblicas” — de fato, nem sequer a ideia do que seja uma melodia é bíblica. Mas precisamos dessas artes não-bíblicas para obedecer à Palavra de Deus escrita. A arte musical nos auxilia na oração, tornando nosso coração mais dócil diante de Deus.

Assim, todo o coração deve ser convertido a Deus, cativo a Cristo, e isso inclui a imaginação. Soterrar a imaginação não é uma conversão completa. A conversão completa é ocupar a imaginação com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe” (Fp 4:8).

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não seria melhor dar tudo aos pobres?

Quando uma igreja é destruída ou depredada por qualquer motivo, de maneira acidental ou intencional, é comum se ver grande comoção e tristeza. Pensemos, por exemplo, no incêndio da Notre-Dame de Paris em 2019, ou na destruição da Igreja Martin Luther (luterana) em 2018, aqui no Brasil. Ou pensemos também naquelas igrejas destruídas por bombardeios, como a Igreja Memorial Kaiser Wilhelm (em Berlim) ou a St Dunstan (em Londres), ambas atacadas por bombardeios na Segunda Guerra, há muito tempo.

Nós nos entristecemos pela beleza perdida e pela comunidade que ali realizava seus serviços religiosos, quando é o caso. A arquitetura sagrada dessas construções nos remete a algo que nos toca profundamente como seres humanos, como pessoas integrais, mesmo quando (normalmente) não somos capazes de interpretar conceitualmente o sentido de cada coisa. É um senso de totalidade e profundidade, de que esses lugares não são casas apenas para abrigar nossos corpos, mas também nossas almas inquietas. Esse tipo de construção se coloca diante de nós como um mundo saturado de sentido e significado, enquanto fora reina a confusão. Não me refiro apenas às catedrais góticas mais famosas, mas mesmo as construções pré-românicas mais simples e brutas, aquelas igrejas visigóticas de pedras irregulares (tão humanas!), se colocam ao nosso redor como uma muralha a nos proteger e a dirigir nossa atenção, sob luz de velas, à única coisa essencial. Estes me falam muito mais, na verdade, inclusive sobre uma vida mais simples.

A destruição ou depredação de igrejas nos diz algo sobre nós mesmos, tanto sobre nosso poder de destruição irrestrito e insano, como também nossa incapacidade de cuidar com atenção e zelo das coisas que afetam nossa alma. O tratamento dispensado às pessoas e às coisas ao nosso redor diz muito sobre nossa própria vida interior, sobre nossas prioridades e nosso tédio (no sentido existencial da palavra). Isso é especialmente verdade quando perdemos o senso de sagrado. Na Antiguidade, como a própria Bíblia testemunha, o espaço sagrado era o lugar de refúgio, onde o sangue não poderia ser derramado em nenhuma hipótese, para onde as pessoas corriam a agarrar as pontas do altar. Foi assim que aprendemos que, no fundo, não devemos derramar o sangue de ninguém.

Nós nos surpreendemos quando ouvimos alguém dizer, diante dessas destruições, que essas coisas não têm importância. Mas não é uma surpresa completa. Não é segredo que muita gente se vê incapaz de reconhecer um valor na beleza artística. Mesmo quando ainda está “pedra sobre pedra”, uma pergunta (legítima) é repetida: não era melhor dar tudo aos pobres? Eu perdi as contas de quantas vezes vi pessoas dizerem coisas assim, geralmente de ateus, cristãos secularizados e evangélicos menos tradicionais. Não haveria uma maneira melhor de investir nosso tempo, recursos e atenção? Não parece um grande desperdício investir em igrejas de pedra belas, ou em conservar as que já existem, quando há outros problemas no mundo?

O que devemos nos perguntar é o que está em jogo: se é não ver real valor nesse tipo de arquitetura, ou se a questão é mesmo com respeito a dirigir os recursos para pessoas pobres (ou outro propósito nobre). Uma pessoa pode achar que esse tipo de construção não tem valor (ou bem pouco), e aí, obviamente, qualquer outro investimento será melhor — o que está em jogo não é exatamente a questão da pobreza (que seria apenas ums forma de atrair atenção para a questão). Outra pessoa pode pensar, no entanto, que tudo deve ser investido na “questão social”, que nenhuma outra forma de direcionar recursos seja válida, mesmo que esse tipo de arquitetura tenha valor. São duas formas diferentes de pensar.

Não é difícil perceber que o cuidado com as pessoas mais pobres é uma questão de muita importância para Cristo, para os apóstolos e para os primeiros cristãos, segundo o testemunho do Novo Testamento. A primeira comunidade de Jerusalém mostra, no relato lucano, uma preocupação muito aguda com a distribuição para os pobres e viúvas, e o apóstolo Paulo, em particular, confere a isso importância considerável, no seu ministério — coisa que ele mesmo conecta a uma orientação dos apóstolos mais antigos. Como no Antigo Testamento, o Novo retrata as obras de misericórdia como sacrifícios a Deus, atraindo o seu favor. Não custa relembrar que Cristo retrata o modo de tratar os famintos, sedentos e nus como determinante no Juízo Final (Mt 25). Isso está continuidade com a maneira como os profetas antigos tratavam as questões morais; de nada adiantava o culto vocal e ritual a Deus se o coração estava longe dele e se as mãos praticavam injustiça. Os jejuns e orações não eram atendidos por Javé. A Igreja morre espiritualmente quando fecha seu coração para esses problemas.

Por isso mesmo, no entanto, é que a questão social se torna facilmente uma boa desculpa para negarmos qualquer outra necessidade dentro da missão da Igreja. “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” (Jo 12:5) — essas são as palavras de Judas, que, no fundo, queria o dinheiro para si. Para Cristo, receber o perfume caro, em vez de doar o valor aos pobres, é uma forma perfeitamente válida e exemplar de honra. Ele não precisava daquele perfume. Mas ai de nós se pensarmos que, porque ele não precisa do que os damos, não devemos lhes dar mais nada. Na verdade, assim, nós nos tornamos pessoas piores.

Essas coisas não são inimigas. Podemos atentar tanto para a melhoria do culto a Deus quanto para as necessidades das pessoas mais vulneráveis. O esplendor da adoração a Deus e o socorro dos necessitados não estão em oposição. Cristo predisse a destruição do Templo de Salomão, mas os próprios discípulos continuaram adorando lá — o livro de Atos tem, em seu programa, o propósito livrar os cristãos da acusação de que eram inimigos do Templo.

A pergunta que cada um de nós deve se fazer é: por que eu não doei aos pobres tudo o que recebi? Essa não é uma pergunta retórica piegas, uma maneira de individualizar uma questões social real. Tente respondê-la. Embora possa ter doado algo, você talvez tenha destinado alguma quantia (excedente) para outras coisas que julgou corretas — talvez com livros e com arte, por exemplo, com coisas que vão te ajudar como pessoa. Porque você sabe que há outras necessidades.

É mais ou menos o motivo pelo qual a Igreja não investe apenas em projetos sociais, mas também em outras coisas — que, por sua vez, devem nos inspirar a servir outras pessoas. Os fatores não são independentes. Então, ao tentar enriquecer o mundo com beleza explicitamente cristã — e não apenas aquela atematicamente cristã já presente no mundo —, com uma contemplação inspiradora e pública, a arte cristã nos dá algo de que todos nós somos indigentes, quanto às necessidades e valores da alma. Não é privilégio de uma elite capaz de viajar ou até de construir para si. Os pobres têm direito a pão e têm direito a beleza.

O Antigo Testamento exemplifica muito bem o modo como Deus atenta para essas nossas necessidades, no detalhamento da construção do Tabernáculo e das vestes dos sacerdotes “para glória e ornamento” — os construtores precisavam mesmo do Espírito profético para realizarem sua obra. A dignidade do lugar e do culto deveria refletir a dignidade de Deus, a “beleza da santidade”, de modo que Deus fosse contemplado no Templo. Por isso, os israelitas tratavam com carinho a dimensão física do culto. “Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste.” (Sl 26:8); “porque os teus servos amam até as pedras de Sião e se condoem do seu pó.” (Sl 102:14).

Esses salmos não são exemplos de um amor doentio pelas coisas ou de um apego infantil pelas realidades corporais. Eles expressam amor a Deus e ao próximo. Amamos as coisas por amor a Deus, porque elas foram consagradas a ele, pertencem a ele, remetem a ele. Por isso, o embelezamento do Templo é visto como um sinal divino (cf. Ed 7:27; Is 60:13).

Essas pedras e símbolos têm um estranho poder acolhedor que nossas construções modernas “puramente funcionais” (ao menos da perspectiva ideológica) não alcançam. Elas clamam e proclamam aquilo que as palavras não conseguem exprimir. Assim como nossas roupas não apenas nos protegem do frio e do olhar, mas nos dignificam e nos colocam acima da condição animal e objetificada — e grande parte da caridade de vestir o nu está aí —, nossas igrejas são como vestes que mostram que há num valor maior do que a nossa própria mesquinhez. Tudo aponta para cima, para fora, para dentro, para baixo, de maneiras diferentes e necessárias.

Essas antigas igrejas, que nós hoje, por priorizarmos mais o dinheiro, não construiríamos, nos falam de uma época em que os homens valorizavam a Deus mais do que nós, a ponto de investirem em construções que só estariam realmente prontas décadas depois de suas mortes, como um testemunho da transcendência do Eterno, e também da eternidade de nosso próprio espírito. Eles não precisavam ver, mas apenas crer, e começar a preparar um mundo melhor para as próximas gerações.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Epifania é uma mistagogia

O tempo da Epifania (Tempo Comum I), entre o Natal e a Quaresma, não é simplesmente uma zona neutra verde, como um “sorbet” para limpar o paladar. Por estar entre a Encarnação e a Ressurreição, entre a chegada do Rei e sua vitória definitiva, esse tempo nos coloca como discípulos, no meio do caminho, sendo formados por Jesus, acompanhando o seu ministério e seus atos.

Por isso, na forma atual, a Epifania começa com Cristo sendo manifestado aos três reis-magos (pagãos que chegaram a ele através da sabedoria da contemplação dos céus), a João Batista (o maior profeta dos judeus vendo o milagre descer dos céus à terra) e aos seus discípulos (através do milagre Caná provocado pelo pedido perseverante de Maria). Essa tripla epifania revela Cristo como Filho aos representantes dos três povos. “Tu és o meu Filho amado” (Lc 3:22); “manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.” (Jo 2:11).

Aos reis, ele se revela como Rei. Ao profeta, ele se revela como o Profeta. A quem ele se revela como o Sacerdote, senão àqueles que ele transforma em sacerdotes?

Neste ano C (Lucas), no meio do caminho entre a Epifania e a Transfiguração, Cristo se coloca como cumprimento das profecias antigas e é rejeitado em Nazaré. Antes mesmo de formar sua primeira comunidade, ele já diz a que veio, já coloca o programa da sua missão para os pobres e oprimidos, trazendo a justiça do Deus de Israel, tão esperada. Ele mostra, com isso, a necessidade de avançar para além da sinagoga de sua época, restrita ao ensino da Lei, e de como Deus, ao ser rejeitado, leva seus milagres aos estrangeiros e rejeitados.

Então Jesus sobe o monte, escolhe seus doze apóstolos, desce à multidão dos discípulos e, para essa nova comunidade, traz sua mensagem de esperança para os pobres, famintos, sofredores e perseguidos — a esperança do Reino de Deus, que traz reviravolta ao mundo — e, contudo, uma mensagem de amor aos inimigos, amor radical, amor reconciliador, uma mensagem de misericórdia que nos ancora na misericórdia transformadora do Pai, e que nos tira da lógica das recompensas meramente humanas e passageiras.

São os discípulos que primeiro aprenderam essas coisas que agora podem subir o monte para contemplar o Reino de Deus vindo com poder, e então descer para enfrentar os poderes das trevas que atacam os pequeninos, a confusão do mundo. Eles precisavam primeiro ter o coração purificado em sua esperança e em seu amor.

Esse tempo termina com a manifestação máxima: a Transfiguração, na qual os três discípulos de Cristo (como os três magos) têm uma visão de Cristo transfigurado em vestes brancas (as roupas místicas dos anjos e sumo-sacerdotes com acesso à Visão Divina). Repetindo a tripla Epifania, eles “viram a sua glória” (Lc 9:32) e ouviram: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi.” (Lc 9:35). Os discípulos escolhidos, o círculo íntimo, têm acesso ao Mistério, ao Segredo.

A seguir vem, então, a Quaresma, na qual saímos a enfrentar o demônio, e, tendo em nós a memória da Glória, caminhamos para carregar a Cruz. Enquanto a Epifania nos eleva, a Quaresma nos reduz.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Três Epifanias

As Três Epifanias (revelações) são:

A da Natividade, com os magos, em Belém, diante dos pagãos, pela estrela no céu.

A do Batismo, com João Batista, no Jordão, diante dos judeus, pelo Espírito que desce sobre a água.

A das Bodas, com Maria, em Caná, diante dos discípulos, pela água que vira vinho.

A primeira é 6 de Janeiro. A segunda é a terceira são os dois domingos seguintes.

Há um vínculo teológico entre as três epifanias. A primeira é a luz da razão (o conhecimento dos magos), a segunda é a revelação do Antigo Testamento (João Batista é o ápice da Antiga Aliança), a terceira é o Novo Testamento. Por isso: gentios, judeus, cristãos (os três povos).

A luz da razão apenas contempla os céus (estrela). A Antiga Aliança traz o céu à terra (como a chama que desceu para o altar). Mas somente a Nova Aliança tem o milagre na terra.

Os magos trazem os presentes do casamento. João Batista é o amigo do noivo (ele é o “amado” do Cântico dos Cânticos). Maria é a mãe do noivo (que faz simbolicamente as vezes da noiva).

As três epifanias são três eras: a origem, a maturidade e a consumação.

A sequência é também a da cristã iniciação. Na primeira epifania, o ensino e a doutrina. Já segunda epifania, o Batismo. Na terceira epifania, a Eucaristia.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Epifania do Senhor e os Reis-Magos

Hoje, 6 de janeiro, é o dia da Epifania do Senhor, o momento em que “uns magos” foram honrar o menino Jesus, o Rei dos judeus, que havia nascido. O significado desse dia se torna mais forte quando entendemos por que, ao menos no Ocidente, eles foram identificados como reis e como três.

Na antiga profecia hebreia, reis gentios viriam trazendo presentes e tributos, inclusive ouro, incenso e adoração (Sl 68:28–29; 72:10—11; Is 49:7; 60:3,6). Eles vieram a Jerusalém “para adorá-lo” (Mt 2:2), isto é, para se curvarem diante dele como seus tributários. A chegada dos reis-magos sinaliza, por isso, a luz do mundo atraindo os gentios à salvação. Ela representa uma tardia hospitalidade ao Rei de Israel, enquanto, em sua própria nação, os sinais dos tempos não eram percebidos.

O Evangelho nos diz que eram “uns magos”, então eram, no mínimo, dois ou três, e, provavelmente, não muitos, já que os presentes foram apenas três — a menos que houvesse repetição nos presentes, seria desonroso que muitos levassem apenas alguns presentes. Mas esse número de três se liga tipologicamente a outras histórias do Antigo Testamento, como os três valentes de Davi que foram até Belém, quando ela estava sob o domínio estrangeiro, para buscar a água preciosa para o rei — água que depois é rejeitada pelo rei e derramada em sacrifício.

Tradicionalmente, os três magos aparecem como sendo de três nações diferentes, um um negro, um branco e um asiático, recordando os três filhos de Noé que, na narrativa do Gênesis, teriam dado origem a todos os povos do mundo. Nesse símbolismo está, ao mesmo tempo, a igualdade entre eles, sua grandeza comum, e também o reconhecimento comum do Rei dos reis.

Os reis da terra, no Salmo 2, se unem contra Cristo, como vemos acontecer no Apocalipse (19:9), mas ali eles são exortados a “beijarem o Filho”. No Apocalipse, o cenário muda e vemos que “os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra” (Ap 21:24). A chegada dos reis magos é só um pequeno sinal dessa esperança final da paz universal sob o Ungido de Deus. Por isso, a Epifania é a festa da esperança da salvação para todos os povos. Ele é o Rei dos reis, “o Esperado das Nações” (Gn 49:10 LXX), “em seu nome os gentios confiarão” (Is 42:4).

Por isso, o mistério profundo da Epifania é, ao mesmo tempo, o cuidado de Deus para com todos os povos da terra, e o modo como todos os povos, sem saber, desejam e esperam o Cristo de Israel. Ele é a satisfação de todo o desejo.

“As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu. A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do Senhor.”
Isaías 60:3,6

Rev. Gyordano M. Brasilino

Minhas diferenças com o Catolicismo e a Ortodoxia

Patriarca Atenágoras de Constantinopla e Papa Paulo VI

“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” Efésios 5:25-27

Algumas pessoas já me pediram para falar sobre quais são as minhas diferenças com o Catolicismo (romano) e com a Ortodoxia. Eu confesso que prefiro conversar essas questões em privado do que em público, porque elas tendem a gerar certas formas de debate e discussão que, francamente, tenho muita dificuldade de ver como edificantes ou espirituais, e, mesmo em privado, esse tipo de assunto me parece desinteressante. Sobre vários assuntos, eu não estou preparado para falar das diferenças simplesmente pelo fato de que não tenho interesse de saber o que os latinos ou os orientais pensam. Isso não significa que eu não haja lido nada a respeito ou conversado com eles, mas apenas que eu estudei teologia o suficiente para saber que cada doutrina só faz sentido no todo da fé, e que, por isso, é muito difícil entender o que uma doutrina significa sem crer no todo do qual ela emerge e participar de sua vivência concreta, existencial, comunitária e cúltica. Cada afirmação de fé pode ter o sentido mudado em conjunto com outras afirmações. Ou seja, eu acredito que a maioria das coisas que católicos, ortodoxos e protestantes dizem uns dos outros quando se atacam é de suma leviandade.

Mas eu entendo que, para aqueles que estão explorando as diferentes formas da religião cristã em busca de respostas, o tipo de esclarecimento que pretendo fazer pode ser importante, pode ajudar de alguma maneira. Preocupo-me principalmente com os que ficam mais ansiosos com essas questões, os que legitimamente estão em busca da verdade, mas sem orientação. Se o que eu digo aqui servir de algum préstimo quem está nessa condição, creio que cumpri meu propósito. É para esses que eu escrevo. Por isso, eu me norteio pelos temas mais questionados. É perfeitamente possível que as semelhanças ou diferenças incluam outros temas não mencionados aqui. Quanto a algum católico ou ortodoxo que porventura leia este texto, deve entender que eu não pretendo oferecer aqui os argumentos necessários para defender o que defendo ou refutar o que não defendo, mas apenas uma descrição inicial da minha posição.

Principalmente para os protestantes, com quem eu tenho maior proximidade. Em momentos anteriores, já compartilhei a minha opinião de que a Reforma Protestante terminou em 1529, no Colóquio de Marburgo, e que, a partir disso, não há qualquer expectativa para uma reforma geral da Igreja em termos de doutrina, mas apenas um caminho de diálogo honesto e pacífico no qual nossas diferenças possam ser mitigadas e nosso escândalo, curado. Através desse diálogo, vemos católicos reconhecerem que a Reforma Protestante os ajudou a recuperarem e esclarecerem elementos de sua própria fé e tradição que estavam dormentes, assim como vemos protestantes vislumbrarem uma maior catolicidade da Escritura Sagrada. Não defendo a manutenção do status quo de desunião entre comunidades cristãs; defendo, antes, que façamos nossa parte para, pedindo a luz do Espírito Santo, eliminar nossa distância tanto quanto possível, sem criar barreiras desnecessárias, mais fruto da antipatia mútua. Não pretendo ser capaz de resolver essa questão, então procuro manter, o quanto posso, a política da boa vizinhança com os católicos e com os ortodoxos, e falo aos protestantes, que estão mais perto.

Pois bem, pretendo falar o que penso sobre os tópicos que me aproximam e me distanciam do catolicismo e da ortodoxia. Cada uma dessas diferenças mereceria uma discussão detalhada e uma argumentação mais precisa e rigorosa, o que exigiria o espaço de um livro que eu não pretendo escrever nunca. (Daqui em diante, quando digo “católico” ou “catolicismo”, refiro-me ao maior grupo a usar essa designação, aquele sujeito ao Bispo de Roma. Quando digo “ortodoxo” ou “ortodoxia”, refiro-me também ao maior grupo a usar essa designação. Digo isso porque às vezes diferentes grupos disputam esses nomes, e é óbvio que qualquer cristão sensato quererá se considerar católico e ortodoxo, se souber o que essas palavras designam.)

Eu creio que a Escritura Sagrada contém, quanto à fé, todas as coisas necessárias para a nossa salvação, desde que lida e interpretada no contexto da Tradição, isto é, conforme o sentido histórico que se desenha ao longo dos séculos, no testemunho cristão. Nenhum texto tem sentindo independente da interpretação que pode receber a partir de uma comunidade ligada a ele (cultural e linguisticamente). Por isso, não há qualquer sentido, por exemplo, em ler as Escrituras sem doutrinas históricas como a Santíssima Trindade ou o teísmo clássico. Eu sou inteiramente a favor de uma análise científica da Escritura através da Crítica Histórica, mas essa análise não nos diz qual é nossa fé, não nos diz a mensagem que a Escritura veicula como um cânon, como testemunho conjunto. Por isso, há a necessidade de uma estrutura dogmática que nos norteie no modo como observamos, não só a Escritura, mas aquilo a que a Escritura se refere.

Por isso, afirmo que a Igreja tem, usando a expressão dos 39 Artigos, o papel de “protetora” ou “guardiã” (keeper, conservatrix) da Escritura Sagrada. A Igreja, e não a Bíblia, é a “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3:15). Assim, o testemunho histórico da Igreja em favor da Bíblia, não só acerca de sua existência, mas também acerca do seu sentido, deve ser ouvido. Quando digo que a Escritura contém todas as coisas necessárias para a nossa salvação, desde que lida à luz da Tradição, identifico-me com aquilo que alguns chamam de Sola Scriptura e outros chamam de Prima Scriptura. Eu não me importo com o nome, que não aparece nos documentos confessionais anglicanos. Decididamente estou contra quem afirme que a Tradição contenha validamente elementos desligados das Escrituras, ou que a Escritura deve ser lida sem qualquer auxílio da voz da Igreja. O Espírito Santo guiou a Igreja. Por acreditar nessas coisas, e afirmá-las com otimismo, em vários pontos eu defendo, de uma perspectiva anglicana — portanto com certas nuances —, traços da fé cristã em comum com o Catolicismo e a Ortodoxia.

Algumas diferenças óbvias dizem respeito à Santíssima Trindade, já mencionada, e também à União Hipostática, a necessidade geral dos Sacramentos para a salvação, a importância da sucessão apostólica e do governo episcopal (com as três ordens), a distinção entre o sacerdócio geral e o ministerial, a importância do exemplo e honra aos santos na vida da Igreja (particularmente a sempre virgem e pura Mãe de Deus), orações pelos falecidos, a possibilidade do uso devocional de imagens (ícones ou estátuas) de Deus ou dos santos (na adoração a Deus) — embora eu pense que dou menos importância a esse assunto do que os católicos ou ortodoxos — , na necessidade do guiamento do consenso dos Pais da Igreja na doutrina cristã, na descida de Cristo ao Abismo, na concepção da Eucaristia como o sacrifício de Cristo (não repetido) recebido pelo “sacrifício de louvor e ação de graças” da Igreja (repetido), no batismo (e comunhão) de crianças, na necessidade da santificação para se chegar à vida eterna, na importância da contemplação mística. Esses temas não excluem o protestantismo, mas são os que mais aparecem em conflitos entre os dois grupos.

Vários desses assuntos são motivos centrais pelos quais algumas pessoas são protestantes e não católicas ou ortodoxas. Nesse caso, penso que essas pessoas são protestantes pelos motivos errados. Da minha perspectiva, que não pretendo impor a ninguém, é natural que elas abandonem o protestantismo quando deixam de lado os motivos errados e ignoram os certos. Quantos evangélicos conhecemos que têm como crítica principal ao catolicismo a posição elevada dada a Maria, por exemplo? Com certeza, eu não trato Maria como o catolicismo popular a trata, mas creio que essa seja a perspectiva errada. É preferível ser um protestante como Lutero, que amava Maria.

Mesmo dentro dessas semelhanças, há já diferenças. Eu leio a filioque (a afirmação de que “o Espírito Santo procede do Pai e do Filho“) como significando per filium (“o Espírito Santo procede do Pai através do Filho”), o que me parece ser uma posição inteiramente satisfatória, com a concordância de alguns católicos/ortodoxos e discordância de outros. Sobre Maria, concordo que ela foi livre de pecado atual (“a minha imaculada”, Ct 6:9), sempre Virgem e mãe de Deus. Eu não tenho qualquer problema grave com a Assunção de Maria (dos católicos) ou a Dormição de Maria (dos ortodoxos), embora a segunda opção me pareça mais bela e relevante; mas não acredito que é necessário ter uma posição sobre isso e, nesse ponto, divirjo dos dois grupos. Quanto à honra ao santos, creio que eles intercedem por nós (oram a Deus em nosso favor) e que a Escritura dá indícios suficientes de que eles sabem o que se passa entre nós, então considero razoável ou defensável a posição de quem pede a intercessão deles como pedimos daqueles que estão entre nós (ora pro nobis), mas não a de quem os invoca como se fossem poderosos e capazes de conceder bênçãos. Quanto à sucessão apostólica, eu afirmo sua importância e a necessidade de preservá-la a todo custo, mas não nego que Deus conceda graça nas comunidades protestantes privadas dela.

Há outras áreas em que eu estou mais próximo de um lado ou de outro. O catolicismo romano me parece mais tendente a falar e explicar sua doutrina em detalhes, e quem fala mais está mais propício a errar, mas também a dizer coisas belas e corretas, se o fizer com sabedoria. Por isso, a maioria das diferenças e semelhanças de que tenho ciência estão do lado do catolicismo. O catolicismo é mais aberto a certos temas que são importantes para mim, como o movimento carismático e a Crítica Histórica, e essas são duas áreas em que há bastante diálogo, intercâmbio e amizade entre católicos e protestantes.

Quando me perguntam qual é minha maior divergência com o catolicismo, a resposta óbvia é a Supremacia Papal. Parece-me bem óbvio que Simão Pedro, segundo a apresentação do Novo Testamento, detinha uma forma de primazia sobre os demais apóstolos, e que a continuidade dessa primazia está sumamente em conformidade com a realização dos planos de Cristo. Assim como a maioria das comunidades protestantes terá, em algum momento, um líder principal, é natural que a Igreja Una tenha um líder terreno principal. Então a primazia petrina, entendida de certo modo, é uma doutrina perfeitamente razoável, não só da perspectiva de como o Novo Testamento retrata o Pescador, mas também do modo como qualquer comunidade global deveria funcionar, tendo em vista harmonia e ordem. Precisamos de um líder que fale hoje, mesmo que seja um humano falho. Embora essa primazia não exija necessariamente que o líder máximo detenha o tipo de jurisdição que o catolicismo lhe dá (coisa historicamente construída), isso não é impossível, também. (Se é desejável, é outra história.)

Mas eu não posso concordar com a infalibilidade papal, ou com a infalibilidade da doutrina romana como um todo. Minha impressão é que essa doutrina se contradiz em alguns momentos, como no modo como o inclusivismo soteriológico hoje dominante e “aceitável” substituiu as posições mais severas e exclusivistas de Florença ou da Unam Sanctam (que toca a infalibilidade papal). As tentativas de harmonização não me convencem; e as pessoas que as defendem não me convencem de que realmente são capazes de crer no que me dizem. As defesas do dogma da infalibilidade papal, em particular, me parecem sempre muito arbitrárias e vagas. Dão sempre a impressão de raciocínio circular. Além disso, as controvérsias em torno do Papa Francisco dão a impressão de que a doutrina romana muda mesmo, e que a infalibilidade, mesmo que seja verdadeira, não ajuda em nada, já que é perfeitamente possível que o Papa infalível guie os católicos na direção errada, apenas tomando decisões pastorais e fazendo discursos desastrosos e ambíguos. (Digo isso levando em conta os críticos de Francisco. A coisa é diferente se pensarmos que os corretos são os seus defensores.)

Há outras diferenças com o catolicismo, como o dogma da Transubstanciação — a Presença Real do corpo e do sangue de Cristo me parecem tão certas quanto a remanência dos elementos (pão e vinho), e me parece que os católicos não se importam muito com o testemunho bíblico e patrístico nessa segunda direção — , a indissolubilidade absoluta do matrimônio — posições ortodoxas me parecem mais corretas, sensatas e mais em linha com a totalidade da Tradição (particularmente a tradição conciliar) —, e o celibato clerical. Eu estou realmente convencido de que a o celibato clerical obrigatório não é só uma disciplina canônica, mas que toca, sim, na doutrina, porque afeta o modo como a Igreja vê a vocação; de que essa obrigatoriedade esconde um erro de doutrina, como se a Igreja pudesse exigir legitimamente sem levar em conta o modo como Deus concede dons (o matrimônio e o celibato), assim como estão errados em doutrina os protestantes mais esquisitos que acreditam que Deus não concede esses dons. Há outras questões, como a rejeição mais ampla ao universalismo e o tema do purgatório. Eu não sou universalista, mas a postura dos ortodoxos, de relativa abertura quanto a essa questão, me parece mais sensata. Como já mostrei num texto anterior, se a linguagem do Purgatório for equivalente a um processo de purificação e aperfeiçoamento após a morte, continuando e (de certo modo) completando o que aconteceu em vida (resguardada a epektasis), eu a afirmo; mas se isso é visto em termos mais penais, como aquela rejeitada pelos reformadores, não me parece nada aceitável, mas apenas brutal.

Por fim, acho que o catolicismo tem muita beleza mas também muita feiura em sua estética, mesmo nas versões mais tradicionais e cuidadosas. Muita coisa brega, relativamente recente (em termos de dois mil anos de história). Nesse ponto, a ortodoxia tem uma aparência, de fato, muito mais celestial e, estranhamente, menos “pesada”. Eu o digo, é óbvio, da perspectiva de quem não é membro de nenhum desses dois grupos e que, por isso, não sei qual é a experiência de quem está realmente dentro.

Quanto aos ortodoxos, que eu conheço menos, os problemas são menores em número, tanto pela razão dita acima como pela distância cultural. Tratar a doutrina da Eucaristia mais como mistério, sem precisar recorrer a explicações como a transubstanciação (ainda que pareça ser aceitável entre eles), é algo com que eu tenho muita afinidade. A ênfase na deificação do homem (theosis) no processo de salvação é bem-vinda, mas o modo como os neopalamitas atrelam argumentativamente isso à distinção essência-energias me parece bizarro (mesmo que a distinção seja correta). Além disso, embora haja vozes em contrário entre os ortodoxos (como o Padre Georges Florovsky), parece que a maioria deles tem um fechamento sacramental absoluto, só vendo validade sacramental entre eles mesmos. Em termos gerais, a eclesiologia ortodoxa é menos agostiniana e mais cipriânica. Assim também é sua soteriologia, que parece ser absolutamente fechada a certas concepções que, entre nós ocidentais, são mais aceitáveis. Para mim, embora no cômputo geral a Ortodoxia seja mais aceitável, quando ela erra, ela me parece mais inaceitável.

Não me amolem mais. Deus vos abençoe.

Rev. Gyordano M. Brasilino