Que necessidade havia na morte de Jesus?

Alguém perguntou:

Porque houve a necessidade de um sacrifício redentor? Por que Deus simplesmente não perdoou a humanidade por um simples [sic] ato de vontade?”

Não há necessidade de que Deus salve a humanidade desse ou daquele jeito. Deus poderia, sim, salvar a humanidade com uma só palavra. De fato, o perdão, na sua essência, é um ato gratuito, que emana das riquezas da misericórdia divina. Como Jesus disse tantas vezes a tantas pessoas: “teus pecados estão perdoados”.

A questão não é se Deus poderia fazer alguma coisa dessa ou daquela maneira, mas sim qual problema Deus tencionou resolver. Como ensinou Santo Atanásio, se fosse o problema do perdão apenas, bastaria o arrependimento, sem a Encarnação — Deus sabe perdoar do mesmo jeito que nos manda perdoar. O perdão divino implica algo maior: reconciliação com Deus, e para isso precisamos ser curados do pecado.

Então a pergunta assume a seguinte forma: já que Deus poderia salvar a humanidade de infinitas maneiras, porque a Sabedoria Eterna escolheu que acontecesse como aconteceu, tão dura e dolorosamente? A categoria correta não é necessidade, mas conveniência, adequação, propriedade, proporcionalidade, “fittingness“.

Certamente Deus quis nos salvar de uma maneira que, simultaneamente, exaltasse a Cristo, revelasse mais plenamente a natureza divina e fosse a mais adequada à nossa natureza e necessidade.

Desse modo, embora certamente esteja dentro da Onipotência nos salvar de infinitas maneiras — quem diz que Deus só poderia salvar de um jeito ofende essa Onipotência —, não somos capazes de imaginar nenhuma maneira que seja tão gloriosa como a Redenção contada nos evangelhos.

Imagine, por um instante, que Deus nos tivesse salvado (transformado) por um ato de poder. Nós receberíamos passivamente a salvação, mas seríamos incapazes de imitá-lo. Mas nos salvando, não por um ato de poder, mas pelo sofrimento da dor — isto é, pela obediência até a morte —, ele nos deu um caminho a imitar: a cruz. Como ensinam os Pais, Deus não quis nos salvar pelo poder, mas pela justiça (virtude).

Então Deus providenciou um caminho melhor, no qual:
1. Nós participemos da dividade comendo a carne e bebendo o sangue de Cristo, imitemos sua vida e morte obedientes, e nos enchamos de devoção e autoentrega ao contemplarmos a Paixão.
2. Cristo seja premiado pela obediência, tornando-se Senhor de vivos e mortos, tendo um nome acima de todo o nome, assentando-se acima de principados e potestades — recebendo essa posição (“entrasse na glória”) por merecimento (“vindicação”), tendo superado toda tentação, vergonha, maldição e inculpação a que estamos sujeitos. Cristo, o supremamente humilhado, é supremamente exaltado.
3. Os demônios sejam vencidos, não por poder bruto, mas por obediência dolorosa.
4. O próprio Deus participe do sofrimento do mundo, sem ficar assistindo distante, no trono da glória, todo o drama que ele criou.

Quanto à noção de sacrifício, é adequado, conveniente e apropriado que a reconciliação de um ofensor de alguém envolva sempre a auto-humilhação da pessoa que pede perdão (assim como de qualquer representante seu). Parte do processo de intercessão de Cristo (que continua acontecendo hoje) envolve isso. Ele não o faz porque esteja tentando convencer um “Pai” rancoroso que tenha dificuldade em perdoar, mas apenas para que nós tenhamos dimensão do valor imenso do que nos é dado.

Em outras palavras: podendo escolher uma rota mais fácil, Deus escolheu o caminho mais difícil e quer que façamos o mesmo. Com isso, nós dá maior motivo para amá-lo.

Muito mais coisa se pode dizer a esse respeito, mas aqui está o começo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

“Soli Deo Gloria” serve para quê?


O princípio “Soli Deo Gloria” é um princípio plenamente bíblico. Afinal, Deus diz, na voz do profeta: “…a minha glória, pois, a outrem não darei…” (Is 42:8; 48:11). Uma vez que que todas as coisas são dele, por ele e para ele, a glória deve ser dada a ele eternamente (Rm 11:36). As doxologias do Apocalipse e do restante do Novo Testamento carregam o mesmo sentimento. Fomos criados para a glória de Deus (Is 43:6-7). Por isso, a glória dada a Deus deve permear nosso comportamento (1Co 10:31).

Essa glória certamente é exclusiva. Mas o que isso significa? Se ela é exclusiva, a quem ela exclui? Na Bíblia, ela exclui o culto aos deuses. O contexto do Segundo Isaías, no qual aparecem as sentenças mencionadas acima, é o do conflito de Javé com um povo que havia se acostumado a cultuar divindades pagãs no Exílio. Deus não divide sua glória com os deuses e ídolos das nações.

Por outro lado, essa glória não exclui o povo de Deus. Num outro momento, a mesma literatura profética fala do destino da Jerusalém redimida: “…sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti… eu tornarei mais gloriosa a casa da minha glória…” (Is 60:2,7). O Templo é a casa da glória divina, o lugar em que essa glória reside. Deus visualiza sua própria glória entre o seu povo.

Numa leitura cristã, na qual a Igreja é o Templo de Deus, isso significa que Deus coloca sua glória e resplendor nos seus santos. Assim, é natural que o Novo Testamento veja os cristãos como “participantes” da glória de Deus (1Pe 5:1), que veja os redimidos como glorificados por Deus (Rm 8:30), que trate o crescimento dos apóstolos como um resplandecer de Cristo “de glória em glória” neles. Nesses casos, Deus partilha, sim, sua glória.

Por isso: “…diante de ti se prostrarão e te farão as suas súplicas, dizendo: Só contigo está Deus, e não há outro que seja Deus.” (Is 45:14); “…diante de ti se inclinarão com o rosto em terra e lamberão o pó dos teus pés…” (Is 49:23); “…prostrar-se-ão até às plantas dos teus pés… eu te constituirei glória eterna…” (Is 60:14-15); “eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.” (Ap 3:9).

Em toda essas coisas, Deus é glorificado, o único plenamente glorificado. Por isso, nesses casos, a glória de Deus não é dividida, porque os homens vivem para a glória de Deus. De fato, Deus ama dividir sua glória com quem não quer glória para si.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Redenção sem Substituição?

Como ensinar a Redenção de maneira simples, sem Substituição Penal?

Geralmente as pessoas fazem essa pergunta porque, tendo sido ensinados a pensar a salvação nos termos da Substituição Penal, não conseguem pensar o assunto de outro modo, então ficam sem saber como “evangelizar” ou “pregar”.

É importante entender: pregar o Evangelho NÃO é explicar a teologia da expiação. Pregar o Evangelho é contar a história da Redenção, aquilo que está no Credo, o querigma dos apóstolos nos Atos.

A salvação não tem a ver com as ideias que você tem na cabeça quando pensa sobre a expiação. Tem a ver com confessar com a boca que Jesus Cristo é Senhor, crer no coração que Deus o ressuscitou dos mortos, com todas as consequências. A afirmação de que “Cristo morreu por nossos pecados” (1Co 15:3) é essencial para esse querigma, mas jamais isso é convertido pelos apóstolos numa teoria penal (morreu como réu substituto, punido por Deus).

Todas as pessoas que acrescentam a esse depósito apostólico uma teologia da expiação como parte da essência do evangelho incorrem no anátema paulino.

Há algumas rotas bem simples para explicar a Redenção. Todas essas rotas levam a explicações complicadas, mas isso é da essência da verdade. Quem quer uma doutrina que seja inteiramente simples procura uma mentira.

Sete boas rotas (todas conectadas):

VITÓRIA SOBRE O PECADO (Prêmio e Recapitulação). “…tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira…” (Fp 2:8–9).
— Não a morte apenas, mas a obediência (amor) até a morte mereceu o senhorio de Cristo dentro da ordem cósmica. Cristo mereceu a Ressurreição e o envio do Espírito Santo. A essência do sacrifício é essa oferta do coração, através da qual Cristo continua intercedendo por nós. Essa obediência de Cristo substitui a desobediência de Adão.

VITÓRIA SOBRE O DIABO (Libertação). “…para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo,” (Hb 2:14).
— Há várias maneiras de explicar a maneira pela qual o diabo perdeu sua “autoridade” (abusada). Uma delas é a ideia de que, ao atacar Cristo, ele se excedeu em extremo, e por isso foi punido. Com isso, Cristo libertou os que estavam debaixo do poder do inimigo.

VITÓRIA SOBRE A MORTE (Ressurreição). “ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte…” (Atos 2:24).
— Ao entrar na morte, Cristo desfez desde dentro todas as barreiras que havia para a vida eterna. Unidos misticamente a ele, nós temos o mesmo destino.

SACRAMENTO. “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna…” (Jo 6:54).
— Cristo sofreu ali para disponibilizar seu poder vital divino através do sacramento.

EXEMPLO e ENSINO. “…Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas,” (1Pe 2:21).
— Embora o exemplo e ensino de Cristo não sejam suficientes para explicar o propósito de missão, ele ensina como muita clareza que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade”. Deus poderia ter salvado a humanidade só com um ato de poder, sem sofrimento; mas seguiu o caminho do sofrimento porque neste nós podemos imitá-lo em sua humildade.

IDENTIFICAÇÃO. “Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo.” (Hb 2:17).
— Ao assumir a condição humana, sem detrimento da sua pureza perfeita, Cristo recebeu sobre si todas as suas mazelas, incluindo a mortalidade. Então Cristo sofre as consequências do pecado humano (não como substituição, mas como empatia) sem merecê-las, e isso, a um só tempo, ressalta o mérito de sua paixão (pois a justiça exige sua vindicação) e, portanto, o seu prêmio, e se torna o meio pelo qual ele cura e eleva a humanidade desde dentro (deificação). Isso inclui a identificação com o sofrimento de Israel (Isaías 53).

ALIANÇA. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios…” (Gl 3:13-14).
— Ao ser amaldiçoado pelos detentores da aliança, Deus está efetivamente fora dela e, portanto, acessível ao mundo inteiro, fora da limitação temporária da Lei.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Páscoa livra do medo

Algumas pessoas têm um medo profundo da Sexta-Feira Santa e do Sábado Santo. Têm medo do Cristo Crucificado e Sepultado. Elas se sentem profundamente aflitas com esses momentos, e sentem a necessidade de falar logo da Ressurreição. Sentem a necessidade de se livrar do pesar da Cruz, do peso do luto, que sempre iluminou e inspirou a espiritualidade dos cristãos.

Não é de hoje. Poucos foram os discípulos aos pés do Crucificado.

Em alguns casos, o motivo é que elas veem a Paixão e Morte como algo que Cristo passou no lugar delas, e não com elas e por elas. É algo de que Deus as livrou — Deus nos livrou de si mesmo, dizem —, então não veem sentido em abraçar e participar do sofrimento de Cristo. Não entendem que devemos, sim, beber do amargo cálice da Paixão. Isso empobrece a vida de discípulo, que é carregar a Cruz com Jesus. Com Jesus! Com Jesus.

Amaldiçoar o Crucificado dos nossos corações é negligenciar nossa própria santificação. É o gérmen de uma espiritualidade burguesa e amante da comodidade, e que vê Deus como provedor da nossa comodidade. São Paulo ensina, com todo o Novo Testamento: preciso participar dos seus sofrimentos para participar da sua Ressureição. A fraqueza leva ao maior poder. Por isso aprendemos durante toda a Quaresma: o amor da comodidade é um grande engano. O deserto nos prepara para a Paixão.

Assim como o Crucificado venceu o Pecado, o Sepultado levou o Evangelho até a profundidade do Cativeiro humano, espoliando o forte pela força maior da sua Graça.

Mas é sofrer com Jesus na Sexta e no Sábado o que prepara o nosso coração para a alegria do Domingo de Páscoa, para a exultação do Senhor Triunfante que rompeu os grilhões da morte e aniquilou a força do Inimigo. Hoje não é dia de luto, mas de alegria, de júbilo, de cânticos alegres nos céus e na terra.

Não tenham medo da Sexta-Feira e do Sábado, da Paixão e do Sepultamento. Deus não é o Inimigo. Ele é o teu Libertador. Ele te faz vencer o medo. Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Graça? É isso que diferencia o cristianismo?

Às vezes você vê pessoas definirem a diferença da religião cristã como sendo o conceito de “graça”. A religião cristã seria religião de graça, as outras religiões seriam religiões de obras.

As pessoas geralmente o fazem sem saber que grande parte daquilo que chamamos de graça é encontrada, com o mesmo nome ou com outros nomes, em outras religiões — sobre as quais se tem um entendimento superficial e caricaturado —, e também sem considerar que a própria noção de graça é disputada entre os cristãos. Usando a tipologia de Barclay (2015), não existe acordo total sobre a superabundância, singularidade, prioridade, incongruência, eficácia e não-circularidade da graça. Praticamente nenhum cristão enfatiza essas seis dimensões ao mesmo tempo — eu diria até que tentar fazê-lo é um erro.

A diferença central da religião cristã não está na noção abstrata de graça, mas na maneira como essa graça se manifesta na história redentiva sinalizada no Credo. Como escreveu São Paulo, registrando uma fórmula primitiva da regra de fé:

Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” (1Co 15:3–4)

A história do Deus-Homem que morre pelos nossos pecados, é sepultado e ressuscita ao terceiro dia, como um cumprimento da esperança das Escrituras de Israel, com todas as implicações (soteriológicas, eclesiológicas, escatológicas…), esse é o diferencial da religião cristã.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Pai não julga a ninguém

Na cristologia bíblica, embora o título “Filho do Homem” sinalize, de certo modo, a humanidade de Jesus — o Filho do Homem (barnasha‘) é o Filho de Adão (benAdam) —, essa não é a conotação que essa expressão tem nos evangelhos.

Ela designa particularmente o papel de Cristo como juiz do mundo, escatológico e divino:

E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento… E lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem.” João 5:22,27

Note bem:
(1) o Pai a ninguém julga.
(2) o Pai confiou ao Filho todo julgamento.

Essas duas declarações impõem dois importantes limites em qualquer entendimento dogmático da Obra de Redenção.

1) Essa obra não pode ser entendida como um julgamento do Pai sobre o Filho, ou de qualquer do Pai sobre qualquer outra pessoa em Cristo.

Se dizemos que o Pai julga o Filho, fazemos o próprio Filho mentiroso, o qual disse: “o Pai a ninguém julga”. Todo juízo está nas mãos do Filho — na verdade, tudo está nas mãos do Filho (Jo 13:3). Isso é bem visível em outros evangelhos, quando se fala do julgamento que o Filho do Homem exerce (cf. Mt 13:41; 16:27; 19:28; 25:31–32; Mc 8:38 etc.). João mostra, inclusive, que o Filho do Homem exerce juízo na Cruz contra o Príncipe das Trevas (Jo 12:31; 16:11). Mas a única coisa que o Pai faz, na cruz, é glorificar o Filho (12:23–24; 13:31; 17:1).

2) O juízo divino é obra sujeita à economia divina.

O que Cristo diz mostra que as pessoas divinas não são, por sua natureza, obrigadas a punir. O Pai não é obrigado a punir, já que ele a ninguém julga. Isso sinaliza aquela verdade mais profunda de que as criaturas não obrigam o Criador — o pecado de uma criatura não obriga a justiça divina a exigir uma satisfação punitiva. Como e quando Deus resolve o problema do pecado é uma questão que está dentro de sua própria determinação e sabedoria infinita.

Não é belo que o Pai tenha dado toda autoridade de julgamento justamente àquele que não veio para julgar e sim para salvar?

Rev. Gyordano M. Brasilino

Se os mártires morreram alegres, por que Cristo se entristeceu com a morte?

Alguém me fez essa pergunta. É comum que as pessoas que acreditam que Cristo teve “separação espiritual” com o Pai usem a tristeza de Cristo como indício disso. É um argumento antigo, usamos também pelos arianos na Antiguidade.

No entanto, tudo o que os textos bíblicos dizem a esse respeito é quanto à morte: “profundamente até à morte” (Mc 14:34), “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte” (Hb 5:7). A leitura mais óbvia dos textos é que se trata do temor da morte (timor mortis).

Na morte de Cristo, existe uma dualidade. Enquanto vários textos bíblicos sinalizam que ele se entregou voluntariamente, e ninguém tomou a sua vida, ao contrário ele mesmo se deu a Deus — portanto que o sacrifício por nós era seu desejo —, por outro lado outros textos mostram que ele não queria morrer. É da natureza humana não desejar a morte, não há pecado ou tentação nisso a priori, e, no caso de Cristo, a tristeza é agravada pela compaixão dele pelos pecadores.

Um exemplo de texto em que se pode ver a angústia causada pela compaixão, isto é, pela tristeza que os pecados dos seus “inimigos” lhe trouxeram: “Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito e afirmou: Em verdade, em verdade vos digo que um dentre vós me trairá.” João 13:21

Essa dualidade existe nos santos também. Por um lado, eles desejam alegremente se unir a Cristo através da participação nos seus sofrimentos — isso é crucial, pois eles desejam passar pelo menos que Cristo passou, o que seria absurdo se Cristo estivesse passando por um sofrimento exclusivo. Mas, por outro, eles não desejam a morte em si mesma (Santo Atanásio fugiu de morrer), e lamentam por seus perseguidores.

Alguns pais da Igreja sinalizam o fato de que esse temor, em Cristo, não se origina nele, mas em nós. Ele entra na natureza humana para curá-la, então ele participa dos nossos sentimentos de tristeza e temor da morte. Com isso, ele nos mostrou o seu caminho para lidar com temores e ansiedades: a oração.

Um fato intrigante é o modo como o desleixo dos apóstolos é visto em termos escatológicos.

“É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie. Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a todos: vigiai!” Marcos 13:34–37

“Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes… Voltando, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” Marcos 14:30,37–38

A tentação de Pedro (o porteiro) e dos apóstolos era um sinal da história da igreja, de como viria o sono, a tentação escatológica, e de como isso trazia angústia ao coração de Jesus. Essa leitura paradigmática e arquetípica dessa narrativa fortalece a ideia de que Cristo não está angustiado ali apenas por si, mas por nós, particularmente pelos seus mártires.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Epifania do Senhor e os Reis-Magos

Hoje, 6 de janeiro, é o dia da Epifania do Senhor, o momento em que “uns magos” foram honrar o menino Jesus, o Rei dos judeus, que havia nascido. O significado desse dia se torna mais forte quando entendemos por que, ao menos no Ocidente, eles foram identificados como reis e como três.

Na antiga profecia hebreia, reis gentios viriam trazendo presentes e tributos, inclusive ouro, incenso e adoração (Sl 68:28–29; 72:10—11; Is 49:7; 60:3,6). Eles vieram a Jerusalém “para adorá-lo” (Mt 2:2), isto é, para se curvarem diante dele como seus tributários. A chegada dos reis-magos sinaliza, por isso, a luz do mundo atraindo os gentios à salvação. Ela representa uma tardia hospitalidade ao Rei de Israel, enquanto, em sua própria nação, os sinais dos tempos não eram percebidos.

O Evangelho nos diz que eram “uns magos”, então eram, no mínimo, dois ou três, e, provavelmente, não muitos, já que os presentes foram apenas três — a menos que houvesse repetição nos presentes, seria desonroso que muitos levassem apenas alguns presentes. Mas esse número de três se liga tipologicamente a outras histórias do Antigo Testamento, como os três valentes de Davi que foram até Belém, quando ela estava sob o domínio estrangeiro, para buscar a água preciosa para o rei — água que depois é rejeitada pelo rei e derramada em sacrifício.

Tradicionalmente, os três magos aparecem como sendo de três nações diferentes, um um negro, um branco e um asiático, recordando os três filhos de Noé que, na narrativa do Gênesis, teriam dado origem a todos os povos do mundo. Nesse símbolismo está, ao mesmo tempo, a igualdade entre eles, sua grandeza comum, e também o reconhecimento comum do Rei dos reis.

Os reis da terra, no Salmo 2, se unem contra Cristo, como vemos acontecer no Apocalipse (19:9), mas ali eles são exortados a “beijarem o Filho”. No Apocalipse, o cenário muda e vemos que “os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra” (Ap 21:24). A chegada dos reis magos é só um pequeno sinal dessa esperança final da paz universal sob o Ungido de Deus. Por isso, a Epifania é a festa da esperança da salvação para todos os povos. Ele é o Rei dos reis, “o Esperado das Nações” (Gn 49:10 LXX), “em seu nome os gentios confiarão” (Is 42:4).

Por isso, o mistério profundo da Epifania é, ao mesmo tempo, o cuidado de Deus para com todos os povos da terra, e o modo como todos os povos, sem saber, desejam e esperam o Cristo de Israel. Ele é a satisfação de todo o desejo.

“As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu. A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do Senhor.”
Isaías 60:3,6

Rev. Gyordano M. Brasilino

Um Messias divino no Antigo Testamento?

Sim, porém… mais ou menos.

Há várias coisas no AT que se unem para formar a imagem do que nós HOJE somos capazes de identificar como um Messias-Deus. Não existe um texto que diga explicitamente que o Messias é Deus — na verdade, a própria figura do Messias aparece em pouquíssimos lugares no AT. Mas há coisas que sutilmente, lidas de certa forma, apontam nessa direção.

1. Binitarianismo. Os especialistas identificam no AT um dualismo divino que geralmente é chamado de “binitarianismo” — mas num sentido diferente do trinitarianismo — ou, como os rabinos da Antiguidade chamavam (e rejeitavam), os “Dois Poderes no Céu”. A ideia basicamente é de que havia um culto duplo a Javé e ao Anjo de Javé, que carrega o seu nome (“o meu nome está nele”, Êx 23:21). Como teofanias, os cristãos identificaram o Anjo de Javé como sendo o Verbo de Deus. A versão oficial do judaísmo rabínico suprimiu essa doutrina como sendo uma “heresia” (minim). Isso é importante para mostrar o quão amplas podiam ser as concepções de Deus no Antigo Testamento, muito diferentes de um “monoteísmo estrito”.

2. A visitação de Javé. Há vários textos no AT, particularmente nos profetas (há um caso importante em Levítico 26), em que se fala de uma visitação que Javé faria ao seu povo, trazendo sua presença e habitando entre eles. Essa vinda de Javé é tratada messianicamente (em sentido amplo) no AT, embora o próprio Messias não seja mencionado. Por exemplo: “Canta e exulta, ó filha de Sião, porque eis que venho e habitarei no meio de ti, diz o Senhor.” (Zacarias 2:10). Essa noção é bastante explorada pelo Evangelho de Lucas: como eu gosto de dizer, Lucas não tem uma doutrina da Encarnação; ele tem uma doutrina da Visitação.

3. A figura do Filho do homem apocalíptico. O caso mais importante é Daniel 7, mas a imagem é bastante desenvolvida na literatura apócrifa (como 1 Enoque). O Filho do homem é uma figura que reina (como o Messias) e, ao mesmo tempo, tem características divinas — por exemplo, a expressão “eis que vinha com as nuvens do céu” (Dn 7:13) sempre indica Deus no AT.

4. O culto ao rei. Assim como um Faraó, o rei de Israel era cultuado pelo povo como um filho de Deus: “…inclinaram-se e prostraram-se perante o Senhor e perante o rei.” (1Cr 29:20). Isso se conecta com as teofanias porque o rei era, assim como o anjo, um representante sacerdotal de Deus. Alguns textos, como o Salmo 110 e o bloco final de Ezequiel (sobre o Templo), falam mais detidamente do papel sacerdotal do rei. Isso é importante porque o Messias é o sucessor e continuador da linhagem dos reis de Judá.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O que é a Expiação?

No Gólgota, havia dois ladrões, cada um de um lado de Jesus, recebendo o mesmo suplício que ele. Assim como eles, milhares de pessoas foram crucificadas no Império Romano. A morte de nenhuma dessas pessoas tem o poder redentor, mesmo sendo o mesmo tipo de morte. O que torna a morte de Cristo diferente? O que faz com que ela seja redentora? O que havia de diferente naqueles sofrimentos?

Com certeza aquele não foi o primeiro ato de injustiça cometido numa crucificação. Inocentes foram mortos antes e outros o foram depois. No entanto, um dos documentos cristãos mais antigos que temos, o hino crístico de Filipenses 2:5-11, aponta uma das primeiras interpretações teológicas da morte de Cristo: ele foi obediente até à morte de cruz (a mais abjeta) e, por isso, Deus o exaltou dando-lhes um nome acima de qualquer outro, para que todos o confessem como Senhor.

A obediência Cristo é recompensada com um prêmio. O humilhado é exaltado. Como em Daniel 7, isso significa que o tirano é deposto no Concílio Divino. Isso está na essência do querigma: Cristo entraria na glória através do sofrimento (Lc 24:26; Hb 12:2; 1Pe 1:11), da mesma maneira que ele nos ensina a fazer. Ele venceu e, com isso, pode abrir o Livro da Vida (Ap 5:9-10).

Ao tomar sobre si essas dores, particularmente a cruz romana, Cristo estava sofrendo nas mãos do Quarto Império, em conformidade com a profecia, tudo em razão do castigo de Israel pronunciado por Jeremias. O sofrimento de Cristo é uma continuação e o ápice do Cativeiro Babilônico. Como o representante do Servo de Javé (Israel) de Isaías 53, Cristo sofre nas mãos dos gentios. Nele, todo o castigo de Israel é consumado.

Mas se Cristo sofre o castigo de Israel nas mãos de Israel, isso significa o fim da Antigo Aliança. O Deus de Israel é morto por Israel nas mãos dos gentios. O fim da aliança significa o fim do domínio do escrito de dívida que é a Torá (Cl 2:14-15), e, com isso, a salvação é aberta para o mundo todo, para aqueles que estão fora da Torá. Cristo se faz maldição (não maldito!) para que, com isso, a benção de Deus possa passar aos gentios (Gl 3:13-14). Ele é rejeitado pelos homens para que eles sejam abraçados por Deus. Em Gálatas 3 (todo o capítulo), essa bênção prometida é a justificação pela fé — ou seja, o recebimento do Espírito Santo, a Nova Vida escatológica (cf. At 2:32-33). Em suma, com sua morte, Cristo derrama o Espírito sobre o mundo, rompendo as barreiras nacionais colocadas (temporariamente) pela Torá. Somente Cristo poderia fazer isso, pois nenhum outro israelita é o Deus de Israel.

Se o domínio da Torá termina, perdem seu poder os Arcontes Elementais do Mundo (ta stoicheia tou kosmou), que a usavam para dividir e dominar. Cristo instaura a nova era, que não é a dos anjos (Hb 2:5), mas a do Filho do homem. Sua morte é, portanto, uma vitória libertadora, um grande exorcismo do mundo, um livramento dos cativos: Christus Victor. Tudo isso já havia iniciado quando Cristo curou os oprimidos do diabo e exorcisou os homens — sua missão é batalha espiritual, o poder do Espírito é sinal da chegada do Reino escatológico, sua morte é “a hora e o poder das trevas” pela traição de um discípulo endemoniado.

Mas o juízo que Cristo sofre do Sinédrio e de Pilatos é irônico. Ele aparece como o juízo do mundo, pois cabe ao Filho, e não ao Pai, exercer todo o juízo (Jo 5:22,27): Christus Judex. Na cruz, ele expulsa o príncipe deste mundo (Jo 12:31-33), ele anula o poder do diabo (Hb 2:14-15), pois foi para isso que ele se manifestou (1Jo 3:8). Essa é a dimensão apocalíptica de sua obra: a redenção (alforria) é justificação, e a justificação é Deus colocando ordem no mundo.

Na raiz de todo o problema está o pecado: a desordem maligna que invade a bela criação de Deus. Pois o pecado não é só uma violação ou ofensa, mas corrupção, destruição. O Messias é o médico que vem aos pecadores para curá-los pelo arrependimento escatológico: Christus Medicus. Sua obra redentora aplica a justiça restaurativa e medicinal (não meramente punitiva) de Deus.

Em tudo isso, Cristo cumpre não só a vocação de Israel, mas recapitula a vocação de Adão. Ele é o segundo Adão que recupera e supera (com sua obediência) tudo o que foi perdido no primeiro (com sua desobediência); onde abundou o pecado, superabundou a graça. Adão provocou morte; Cristo, vida. No primeiro todos morrem; no segundo todos serão vivificados. Esse é, mais uma vez, o prêmio de sua obediência.

Com isso, Cristo cumpre a missão para a qual os sacrifícios expiatórios da Torá eram meras sombras. Como se descobriu na Era Axial, a essência dos sacrifícios estava no coração contrito (Sl 51:16-17), para o qual o rito exterior do oferecimento dos animais (e outras coisas) eram símbolos. O sangue era a vida (não a morte) oferecida a Deus, intercessoriamente, pela purificação dos homens. Na Lei, “expiar” é “cobrir” — não encobrir culpas, mas cobrir feridas. É o rito de cura (Barker). Cristo, através de sua obediência (fazendo a vontade do Pai), realiza o que os sacrifícios não podiam (Hb 10:2-10). Ele realiza, através de sua obediência, a intercessão que não se podia fazer. Por isso, sua obra não foi concluída na cruz. Ele continua a interceder (Rm 8:34; Hb 7:25; 9:24). Ele conquistou essa intercessão, inclusive pelo envio do Espírito Santo (Jo 14:16).

É nesse sentido que somos reconciliados com Deus. Cristo intercede pelos nosso perdão e nos purifica de toda a corrupção de nossas almas, através da obra contínua Espírito Santo. Todo o sistema de pureza e sacrifício da Lei repousa no princípio de que o impuro não pode adentrar no espaço sagrado e tocar no que é santo — que não se dê as coisas santas aos cães. Não há comunhão de Deus com as trevas. Purificando nossa alma, Cristo nos permite tornar à comunhão. Eis a essência da reconciliação. É nesse sentido que somos perdoados através da morte de Cristo. Não há perdão sem purificação. É somente no sentido de intercessão e purificação que podemos falar de “satisfação”.

Consistentemente, a Escritura sempre ensina que somos reconciliados com Deus, e jamais que ele é reconciliado conosco, ou propiciado em nosso favor. (Tais coisas só fazem sentido como linguagem figurativa.) Pois Deus é imutável, impassível — o Amor imutável, a Compaixão impassível. Todo o problema está em nós, não em Deus; por isso, na redenção, toda a mudança ocorre em nós, não em Deus. Nós retornamos à comunhão com ele, por iniciativa daquele que se assentou com pecadores para curá-los.

A cura que Cristo realiza consiste em fazer habitar nós o seu Espírito, o Espírito de Cristo, que mana do trono de Deus e do Cordeiro, e que nos cristifica e cruciforma. Nesse sentido, os sofrimentos de Cristo não são substitutos — ele não sofreu em nosso lugar em sentido literal —, mas representativos e participativos: ele sofre conosco, em nós, e nós completamos os seus sofrimentos (Cl 1:24). Nós participamos dos sofrimentos do Messias para, com ele, podermos entrar em sua glória (Rm 8:17; 2Co 1:5; Fp 3:10; 2Tm 2:11-12; 1Pe 4:13-14 ).

Nossa transformação consiste em revivermos toda a história de Cristo: renascemos com ele, padecemos com ele, morremos com ele, somos sepultados com ele, com ele revivemos, com ele ascendemos, com ele herdamos o Reino. Somos conformados à Imagem (eikōn, ícone) do Homem Celestial, sendo diariamente glorificados para refletir a sua imagem. Isso não é mero exemplarismo e imitação; é o poder do Crucificado e Ressuscitado habitando nos homens, pela fé, na vida batismal.

Os sofrimentos de Cristo são partilhados por nós: ele não bebeu nosso cálice em nosso lugar, mas nos chama a beber, com ele, do seu cálice; ele não levou sobre si a nossa cruz em nosso lugar (literalmente), mas nos chama a carregarmos a cruz com ele; ele não foi expulso da cidade terrena em nosso lugar, mas abriu a porta para que saiamos com ele, carregando com ele o seu vitupério. Não há substituição aí. Há participação. Tudo isso nos ajuda a entender o que foram os sofrimentos de Cristo na economia da redenção, pois nós participamos deles e sabemos que o que Deus deseja de nós não é o mero sofrimento (sádico), mas a obediência em meio aos sofrimentos. Assim foi também com Cristo.

Com tudo isso, podemos dizer: a obra da redenção não é apenas a cruz, embora ela esteja no centro. A redenção é sua paixão, morte, descenso, ressurreição, ascensão, intercessão e futura parusia. Particularmente sua ressurreição é responsável por nossa justificação (Rm 4:25), ou seja, por nossa libertação do poder da morte, cujos grilhões ele destruiu ao ressurgir vitoriosamente.

Diante dessas coisas, discussões sobre expiação limitada ou ilimitada perdem muito do sua utilidade. Elas fazem algum sentido se nós nós perguntamos se Cristo morreu no lugar de alguém ou pagou o preço de alguém. Mas se Cristo ataca o inimigo, sua obra tem não apenas um potencial universal, mas um efeito universal do qual nenhum ser humano escapará: todos, justos e ímpios, ressuscitarão, uns para a vida, outros para a condenação.

Por sua obra, Cristo realiza o sacrifício que sela a aliança ente Deus e os homens, para que ele seja o seu Deus e eles sejam o seu povo. O sacrifico de Cristo é a eclesiogênese pelo Espírito, é a habitação presente dos poderes do mundo vindouro. A nova aliança está no cálice.

Beba.

Rev. Gyordano M. Brasilino