Como lidar com o Problema do Sofrimento?

1200–1600 - National Gallery of Slovenia
Pietà (c. 1420), provavelmente de Salzburgo

Como lidar com o Problema do Sofrimento?

O problema do sofrimento não é uma questão puramente teórica. Não é só um argumento usado por céticos para desacreditar a bondade ou existência de Deus. A questão do sofrimento é aquilo que enfrentamos todos os dias, pois todos os dias nós sofremos. Se um de nós se vê livre do sofrimento por um momento, não pode ignorar o sofrimento dos que estão ao seu redor. Portanto, viver inclui saber lidar com o sofrimento.

O sofrimento está no centro da história mais importante contada pela fé cristã: Cristo, o Deus encarnado, sofreu injusta e cruelmente. Aos pés da cruz, sua mãe e alguns dos seus discípulos, impotentes diante do mal praticado. Quando um cristão contempla um crucifixo ou um ícone da Paixão, ou reconta, em um sermão, aquele acontecimento, ele vê o seu Deus sofrer e vê nesse mistério a sua salvação. Então Deus não apenas contempla o sofrimento da criação desde o trono celestial; ele não deixou sofrer sozinho o mundo que criou. Ele mesmo sofreu, envolvendo-se na nossa sina. Ele suportou, juntamente conosco, o peso da criação.

Essas considerações amiúde levantam a pergunta sobre o propósito do sofrimento no plano divino, e às vezes nós oferecemos soluções que são ingênuas ou até profundamente cínicas. Dizemos, por exemplo, que o sofrimento nos ensina algo e nos torna pessoas melhores. Mas, diante do sofrimento brutal pelo qual criancinhas passam, sofrimentos que terminam em sua morte, como podemos que o propósito do sofrimento é ensinar algo? Isso pode vale para alguns sofrimentos, mas só para alguns.

O fato é que o sofrimento pode ter vários propósitos e pode não ter propósito nenhum, e nem sempre somos capazes de diferenciar as coisas. É preciso resistir à tentativa de dar um propósito único a todo o sofrimento, pois isso acabará por justificar o mal e nos deixar insensíveis. Cristo não exige que expliquemos o sofrimento, mas que choremos com os que choram e defendamos os oprimidos. Ele está ao nosso lado contra o sofrimento, compadecido de nossas dores. Devemos combater o mal como coisa desnecessária, que não deveria ser. Chorar com os que choram não significa ficar imóvel diante do mal, reduzido ao lamento, mas assumir certo pathos, certo sentimento, deixando correr livre o direito como um rio caudaloso e a justiça como um ribeiro eterno.

Às vezes, uma explicação pode trazer certa ordem a um coração confuso; mas, na maior parte do tempo, o que queremos não é explicação, mas cura. Nós participamos disso quando temos compaixão. De fato, somente num mundo em que há sofrimento pode haver perdão e compaixão. Assim, somente num mundo em que há sofrimento (temporariamente) o Amor pode revelar sua profundidade.

Há vários motivos pelos quais nós passamos por sofrimentos. Esses motivos não são soluções para o problema do sofrimento. São questões nas quais devemos meditar quando padecemos como cristãos, e que só têm razão de ser quando nos ajudam concretamente. Vivendo a nossa fé, podemos encontrar ao menos nove motivos para o sofrimento:

A culpa própria. Essa é a explicação mais óbvia do sofrimento, a explicação retributiva. Não devemos ser ingênuos em pensar que todo cristão é um santo inocente. Muitos dos nossos sofrimentos não são grandes provações da nossa fé heroica, mas resultados dos nossos pecados ou da nossa ignorância. Deus nos visita e disciplina para nos tornar participantes da sua santidade. Muitos de nós precisam entender que têm responsabilidade por suas ações, sem precisar transferir isso aos demais. Mas é preciso tomar cuidado com os que se culpam demais.

A humildade e a compaixão. Embora os filhos de Deus desfrutem de um cuidado especial, nós somos homens sujeitos às mesmas condições de vida que o restante da humanidade. Através do sofrimento, aprendemos a ser mais humildes e reconhecer nossa condição comum, levando-nos à compaixão para com os nossos semelhantes. Quem não sofre tem dificuldade de perceber o sofrimento alheio.

A unidade dos cristãos. Através dessa compaixão, carregamos os fardos uns dos outros e fortalecemos nossa unidade para com os nossos irmãos. Isso vale especialmente para com nossos irmãos nos países onde há maior sofrimento cristão, e com isso percebemos a importância da unidade maior que nossas diferenças, pois o Espírito do Senhor está sobre aqueles que sofrem pelo Evangelho.

O ódio do mundo a Cristo. Um ataque a um cristão é, no fundo, um ataque ao Cristo que nele vive. Se o Senhor sofreu, como nós não sofreríamos também? Por isso, quando Paulo perseguia os cristãos, o Senhor lhe perguntou: “Saulo, por que me persegues?”. Carregar a cruz e sofrer com o Senhor com paciência, passando vergonha e rejeição, nos leva a uma imitação mais profunda do nosso Senhor crucificado.

A plenitude dos sofrimentos de Cristo. Cristo permite que cada um de nós participe do seu sacrifício único através dos sofrimentos, completando as aflições messiânicas que instauram seu reino. Através disso, e em continuidade com a razão anterior, cada cristão se torna um ícone do Senhor, um santo, inspirando a conversão e santificação de outras pessoas.

A provação da nossa fé. A provação não é só um teste, como se Deus não soubesse dos nossos limites, mas uma forma de sermos purificados por ele, em meio às tentações. Isso é importante para nós mesmos, quando vemos como a graça do Senhor nos permitiu resistir às tentações, motivo de grande alegria. Aquele que vence a provação recebe a coroa da vida; nossa tribulação momentânea produz peso de glória. Isso é um sinal de eleição.

O exercício do perdão. Só há perdão onde também houve sofrimento. Quando padecemos, Deus nos concede uma oportunidade de exercer seu Amor soberano. Deus quer nos santificar perdoando os que nos fizeram mal.

A seriedade da vida. Através do sofrimento, entendemos o nosso fim, levamos a vida — a nossa e a dos nossos semelhantes — com mais seriedade, percebendo o real valor eterno de cada um que nos deixa. Percebemos

A dependência. O sofrimento nos relembra de como somos necessitados da graça e do auxílio do Senhor, para o buscarmos em oração.

Mais uma vez: essas coisas não são exatamente explicações que devemos dar, mas reflexões que devemos fazer, maneiras pelas quais pode adquirir sentido aquilo que para nós não tem sentido nenhum. Se, em algum momento, elas não nos ajudam, que sejam abandonadas.

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.” Eclesiastes 7:2

“Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” Apocalipse 21:3,4

Rev. Gyordano M. Brasilino

O que Deus acha de punir um inocente?

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Cristo morreu como um inocente completo e absoluto, sem qualquer culpa. Em qualquer discussão sobre o propósito da sua morte no plano divino, em algum momento a questão da sua inocência vem à tona. Os Evangelhos pintam a cena de seu julgamento como envolvendo uma mistura de testemunhos mentirosos, inveja, pressão, interesses políticos e ignorância, pois só uma mistura dessas coisas poderia levar à condenação de um inocente. Aqueles que hoje acreditam que, além de ser um inocente sofrendo na justiça humana, Cristo também era um inocente sofrendo na justiça divina, isto é, que Cristo foi punido pelo Pai no lugar dos homens, precisam lidar com o fato de que Cristo era inteiramente inocente. É justo punir um inocente? Pois podemos facilmente dizer que o tribunal humano que condenou Cristo foi injusto. Mas não podemos dizer o mesmo do tribunal divino. Juízo e justiça são a base do trono de Deus.

O que Deus pensa dessa questão? Nosso instinto moral nos dirá que é injusto punir inocentes, e não esperamos que Deus, o juiz mais justo de todos, nos diga algo diferente. De fato, demonstrar que é injusto punir inocentes é quase como tentar provar que a grama é verde. Essa é uma regra tão universal, presumida por todas as nossas reflexões éticas e sistemas jurídicos, que é estarrecedor que precise ser dita ou que se precise argumentar em seu favor. Todos aqueles que leem sabem, no fundo, que há profunda injustiça em punir um inocente. Mas como há quem afirme que Deus pode punir inocentes (ao menos no caso de Jesus), é importante visualizar como as Escrituras colocam essa questão, não só na rejeição completa da punição de inocentes, como na linguagem com que essa rejeição aparece.

Um primeiro grande exemplo na Bíblia é o da destruição da cidade ímpia de Sodoma, a cidade de Ló, pela qual Abraão intercedeu. Javé revela a Abraão que a cidade será destruída pois “o seu pecado é gravíssimo” (Gn 18:20). No entanto, aquela palavra pareceu dura a Abraão, que inicia uma “luta” com Deus em oração, tentando encontrar a possibilidade de que, em razão dos justos que morassem ali, a cidade não fosse condenada.

Gênesis 18:23-25
“E, aproximando-se a ele, disse: Destruirás o justo com o ímpio? Se houver, porventura, cinquenta justos na cidade, destruirás ainda assim e não pouparás o lugar por amor dos cinquenta justos que nela se encontram? Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”

Para Abraão, era uma questão clara: Deus não iria destruir o justo com o ímpio. Seria injustiça dar a ambos a mesma punição. Há aí uma conexão direta com a justiça (mišpāṭ) de Deus. A justiça de Deus exige que o justo não sofra a mesma punição do ímpio. Que esse não é só um pensamento de Abraão, mas algo com o que Deus concorda, mostram as sucessivas respostas que Deus dá a Abraão, a começar desta: “Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a cidade toda por amor deles.” (18:26). Os injustos são poupados por amor aos justos, para que os justos não sejam punidos em razão dos ímpios. É preferível, para Deus, dar temporariamente o destino dos justos aos ímpios do que dar o destino dos ímpios aos justos (cf. Is 65:8; Jr 5:1; Ez 22:30; Mt 24:22). Portanto há um claro pendor, na justiça divina, para a misericórdia, não para a severidade. De fato, todos os caminhos de Deus são justiça (Dt 32:4).

Esse não é o único caso em que a Escritura Sagrada coloca a justiça de Deus ao lado do inocente. Outros exemplos são estes:

Êxodo 23:6-8
“Não perverterás o julgamento do teu pobre na sua causa. Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, porque não justificarei o ímpio. Também suborno não aceitarás, porque o suborno cega até o perspicaz e perverte as palavras dos justos.”

Deuteronômio 24:16
“Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado.”

Provérbios 6:16-19
Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos.”

Provérbios 17:15,26
“O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o Senhor, tanto um como o outro. Não é bom punir ao justo; é contra todo direito ferir ao príncipe.”

A Escritura condena, em vários momentos, a injustiça de matar o justo ou o inocente (Dt 19:10,13; 1Sm 19:5; 2Rs 21:16; 24:4; Sl 94:21; 106:38; Pv 1:11; Is 59:7; Jr 7:6; 22:3,17; 26:15; Jl 3:19; Mt 27:4; Tg 5:6 etc). Por isso, o próprio Cristo, como inocente, se lançava nas mãos “daquele que julga justamente” (1Pe 2:23), o que não faria nenhum sentido se aquele que julga justamente o estivesse punindo por pecados de outras pessoas. O que Cristo fez foi se entregar aos cuidados daquele que não pune inocentes e que não apoia a punição de inocentes.

Nesse sentido, ao rejeitar a punição do inocente, a Escritura Sagrada sustenta que somente o culpado pode ser punido. Há um vínculo entre um mal praticado, uma pessoa que o cometeu e uma punição: “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim.” (Êxodo 32:33). Numa linguagem muito semelhante, o profeta Ezequiel transmite o oráculo da justiça divina: “a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18:4). Cada um é julgado por suas próprias obras. De fato, o trecho de Ezequiel merece muita atenção:

Ezequiel 18:1-4,19-24
Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.
Mas dizeis: Por que não leva o filho a iniquidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo, e guardou todos os meus estatutos, e os praticou, por isso, certamente, viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este. Mas, se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é reto e justo, certamente, viverá; não será morto. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela justiça que praticou, viverá. Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? — diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Mas, desviando-se o justo da sua justiça e cometendo iniquidade, fazendo segundo todas as abominações que faz o perverso, acaso, viverá? De todos os atos de justiça que tiver praticado não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu e no seu pecado que cometeu, neles morrerá.

Ezequiel, assim como Jeremias, profetizava o juízo da nação de Israel naquele momento. Era um juízo nacional, intimamente ligado aos pecados das gerações anteriores e, mesmo assim, o profeta indicava a responsabilidade individual. Para Ezequiel, Deus não pune inocentes. Isso é importante porque a resposta mais comum a esse princípio, por parte dos que acreditam que Deus pode punir inocentes, é assinalar casos bíblicos de juízos sobre famílias e nações, os quais podem, segundo se argumenta, envolver a punição de inocentes. Embora esses textos sejam importantes e testemunhem a amplitude com a qual a Escritura trata essa questão, as coisas nunca são tão simples. Mesmo nos textos bíblicos escritos em condições em que se vislumbra responsabilidade coletiva, nesses casos sempre existe a possibilidade do repúdio mal, para que não haja conivência coletiva (cf. Dt 21:1-9).

Na verdade, toda essa questão desaparece inteiramente se percebermos que, na execução da condenação, o juiz não é o Pai, e sim o Filho (Jo 5:22,27), e que, portanto, o Filho não foi, de modo algum, condenado pelo Pai.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O que é escândalo?

Normalmente tratamos “escândalo” como algum tipo de história chocante envolvendo uma falha moral de impacto social muito grave. Falamos muito de escândalos políticos. Escandalizar seria o mesmo que chocar. Embora a noção bíblica de “escândalo” envolva essa gravidade e seriedade, além de poder ter um impacto social, ela indica algo um pouco diferente.

O substantivo e o verbo correspondentes, na Bíblia, significam um tipo de pedra colocada com o “armadilha” para fazer alguém tropeçar (literalmente), ou seja, pecar (figurativamente). Escandalizar é provocar a queda espiritual de outras pessoas, ou de nós mesmos (como em Mt 5:29-30; 18:8-9). Às vezes queremos escandalizar, e às vezes queremos algo que causa escândalo. Assim, tentar outras pessoas é uma forma de escandalizá-las (Mt 16:22-23). Escandalizar é fazer tropeçar, é enfraquecer outras pessoas (Rm 14:21).

Como a perseguição é uma tentação (de negar o nome de Cristo), ela é uma forma de escândalo para os fracos (Mc 4:17), e Cristo prepara seus discípulos para esse escândalo (Jo 16:1-2).

É óbvio que, se escandalizar é fazer outros caírem, isto é, fazer perecer aquele por quem Cristo morreu, segue-se que escandalizar normalmente é pecado. O que causa escândalo será removido do reino e condenado (Mt 13:41; 18:6-8), de modo que nosso propósito deve ser sempre o de não escandalizar ninguém (Rm 14:13; 1Co 8:9; 2Co 6:3), permanecendo “sem escândalo algum até ao dia de Cristo” (Fp 1:10). Paulo tem uma preocupação constante de que o evangelho não seja censurado (2Co 6:3; cf. 1Tm 5:14; 6:1; Tt 2:5,8), para que não haja obstáculo a ele (1Co 9:12).

Mas é preciso entender bem: escandalizar não é o mesmo que chatear outras pessoas, embora isso possa se escandaloso quando praticado por certas pessoas, especialmente pelos que representam Cristo, que devem ter como propósito agradar tantos quanto for possível, desde que isso não tire de Cristo o primeiro lugar (cf. 1Co 10:33; Gl 1:10). Ainda assim, o próprio Cristo, pregando e vivendo a Palavra, escandalizou pessoas em alguns momentos (cf. Mt 11:6; 13:54-58; 15:12-13; Jo 6:60-61; Rm 9:33), e uma das coisas que chocavam as pessoas em redor era certamente o modo como Cristo andava, comia e bebia com “pecadores”. Mas ele evitava escandalizar desnecessariamente (Mt 17:27).

O próprio evangelho é um escândalo para os judeus (1Co 1:23), o escândalo da cruz (Gl 5:11), a história de um rei crucificado por seu próprio povo, o que colocava cada judeu evangelizado diante de uma escolha muito difícil. Ser cristão é carregar esse escândalo, pois cada cristão deve carregar a cruz. Paradoxalmente, Paulo que que não causemos escândalo aos judeus (1Co 10:32).

Assim, por lealdade à verdade, e não por mera insensibilidade, eventualmente iremos escandalizar as pessoas, porque cremos numa mensagem que escandaliza, uma mensagem que, num dado momento, fará com que pessoas se afastem, como se afastaram de Jesus. Isso se dá porque, embora devamos procurar agradar tanto quanto puder, evitando afastar desnecessariamente, Paulo nos ensina também que não devemos nos tornar escravos de ninguém, e o discurso do escândalo pode se tornar numa prisão. É perigoso que nosso evangelho se torne escravo das conveniências sociais, refém da hipocrisia. Contra isso, o Apóstolo protesta: não se tornem escravos dos homens!

A regra deve ser sempre o amor, como lemos em 1João 2:10: “Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo.”

A Doutrina Protestante da Virgindade Perpétua de Maria

Imagino que, para a maioria dos leitores, o título deste texto talvez pareça um absurdo. Quando aderem ao protestantismo, especialmente o protestantismo de tipo evangélico, em geral os cristãos aprendem a rejeitar quase tudo o que aprenderam no catolicismo acerca de Maria, como coisa espúria, maligna, idólatra, sem fundamento na Palavra de Deus. A figura de Maria termina tão despida de qualidades que há um medo de dizer qualquer coisa boa ou positiva sobre ela. De fato, há quem chegue a tratar Maria como uma mulher qualquer, como uma pecadora qualquer. Teme-se que, honrando Maria, Deus seja menos adorado.

O título é sugestivo, por outro motivo. Tratamos aqui da doutrina protestante da Virgindade Perpétua de Maria. Há uma doutrina protestante da Virgindade Perpétua, uma doutrina especificamente protestante ou uma versão protestante da doutrina? Com isso não quero dizer, é claro, que o resultado seja diferente do da doutrina católica romana ou da ortodoxa, mas se trata de uma abordagem um pouco diferente, com suas próprias nuances. Os protestantes em geral não se satisfazem com o consenso histórico em favor da Virgindade Perpétua. Exigem provas mais rigorosas de uma determinada doutrina, que se baseiem nas Escrituras Sagradas, no testemunho apostólico mais antigo. Então embora eu mostre aqui o que pensavam figuras como Lutero e Calvino, o propósito de estabelecer esse consenso não é de tratá-lo como uma prova exata da doutrina, mas uma prova de que essa é a doutrina protestante original, preservando o consenso histórico, e que não há nada de especificamente protestante na negação da Virgindade Perpétua, nem é “coisa de católico” afirmá-la.

1. Testemunhos protestantes em favor da Virgindade Perpétua

Como é de amplo conhecimento, a Virgindade Perpétua de Maria é afirmada pelos Pais da Igreja, com exceção de Tertuliano (cuja condição entre os Pais é disputada). Mas também Lutero, Calvino, os reformadores ingleses e teólogos carolinos, John Wesley (o pai do movimento evangélico) e tantos outros afirmaram a Virgindade Perpétua e rejeitaram argumentos empregados contra a doutrina (como o que usa Mt 1:25).

Para uma lista (em inglês) de citações de reformadores apoiando a Virgindade Perpétua, veja aqui. A Segunda Confissão Helvética (1562) também professa que Maria é “sempre virgem” (c. 11). Quanto aos bispos e teólogos anglicanos, vemos afirmações da Virgindade Perpétua por todo lado. Três exemplos, de épocas contíguas, nos séculos XVI e XVII, são Cranmer, Andrewes e Taylor. Na Correção, o arcebispo Thomas Cranmer (1489–1556) escreveu:

“E eu creio também que esse menino Jesus Cristo não apenas foi concebido sem pecado, mas também nasceu igualmente da referida benditíssima mãe; e que ela, tanto na concepção quanto no nascimento e natividade do seu filho, assim como para sempre, reteve sua sua virgindade pura e imaculada…”

Nas suas Devoções Privadas, o bispo Lancelot Andrewes (1555–1626) escreveu:

“Fazendo menção da toda santa, imaculada e benditíssima Maria, Mãe de Deus e Sempre Virgem, com todos os Santos, encomendemos a nós mesmos e uns aos outros e toda a nossa vida a Cristo, nosso Deus.”

Em seu Golden Grove, o Rev. Jeremy Taylor (1613–1667) escreveu:

“…e ela recebeu a honra de ser Mãe do Filho de Deus, e para sempre Virgem, e todas as gerações a chamarão bendita.”

É importante dizer também que, se esse é o consenso, e se a Igreja é a coluna e baluarte da verdade (1Tm 3:15), esse consenso, que inclui cristãos de ramos tão distintos (assírios, ortodoxos, miafisitas, protestantes, romanos) não pode ser desprezado. Não podemos imaginar que algum gênio, depois de tanto tempo, tenha finalmente entendido as Escrituras em contrário a tudo o que foi ensinado antes. A afirmação da Virgindade Perpétua de Maria não é um “resquício do catolicismo”, como se o propósito da Reforma Protestante fosse eliminar o catolicismo, assim como não são resquícios de catolicismo a afirmação dos dogmas da Trindade e da União Hipostática.

2. Jesus, o único filho de Maria

A demonstração da Virgindade Perpétua de Maria começa estabelecendo um fato: Maria teve apenas um filho. Isso é um passo importante, pois, embora ter tido apenas um filho não seja prova suficiente da continuidade da virgindade após o nascimento de Jesus — poderíamos supor que Maria teve apenas um filho conhecido e, ainda assim, teve uma vida sexual com José, por ser estéril ou porque outros filhos teriam morrido ainda no ventre ou bem pequenos —, ainda assim o argumento de que Cristo teve irmãos é usado como argumento fácil contra a Virgindade Perpétua.

Assim, o que nos ensinam as Escrituras nessa área? Em primeiro lugar, é importante dizer que não há texto nas Escrituras que diga que Maria tenha tido outros filhos, ou que tenha perdido a virgindade. Há textos dos quais se tenta deduzir isso, mas não há um texto que realmente indique tal coisa. Nesse assunto, um texto que nos instrui muito é o de João 19:26-27 (NAA):

Vendo Jesus a sua mãe e junto dela o discípulo amado, disse: — Mulher, eis aí o seu filho [íde ho huiós sou]. Depois, disse ao discípulo: — Eis aí a sua mãe [íde hē mēter sou]. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa [eis ta ídia].

Nesse texto, Cristo como que transfere para o Discípulo Amado a responsabilidade de ser o filho de Maria, e dá a ela a responsabilidade de ser sua mãe. A expressão que Crito usa, nessa transferência de filiação, é sugestiva: “eis aí o seu filho”, como que indicando que não havia outro filho para cuidar de Maria, o qual, a partir daquele momento, a recebeu em casa [eis ta ídia]. Naquele contexto semítico, não era incomum que mulheres que não fossem mães naturais fossem, ainda assim, chamadas de mães (cf. Rm 16:13). Cristo não diz que o Discípulo Amado deveria apenas cuidar de Maria, mas que deveria ser o seu filho. Esse texto nos indica também, implicitamente, que José já estava falecido, algo que será importante posteriormente. Não haveria sentido em privá-la de seu marido se ele ainda estivesse vivo. O “filho” só teria responsabilidade em receber a mãe em casa se o marido de sua mãe (seu pai) já tiver morrido. De todo modo, por esse texto, parece que Maria tinha apenas um filho: Jesus, cujo papel é assumido por João.

Ironicamente, outro texto particularmente importante para mostrar que Maria tinha apenas um filho é aquele que amiúde é citado como indicação de que Jesus tinha irmãos naturais: Marcos 6:3. O texto expressa a surpresa ou desconfiança dos conterrâneos quanto a Jesus. Essa história aparece em diferentes versões nos quatro evangelhos, as quais nos fornecem várias informações relevantes:

Mateus 13:54-56 : E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de modo que se maravilhavam e diziam: — De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro [ho tou téktonos huiós]? A sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? Todas as suas irmãs não vivem entre nós? Então, de onde lhe vem tudo isto?

Marcos 6:1-3 : Tendo saído dali, Jesus foi para a sua terra, e os seus discípulos o acompanharam. Chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: — De onde lhe vem tudo isso? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria [ho huiós tēs Marías] e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não vivem aqui entre nós? E escandalizavam-se por causa dele.

Lucas 4:22 : Todos davam testemunho dele e se maravilhavam das palavras cheias de graça que lhe saíam dos lábios. E perguntavam: — Não é este o filho de José?

João 6:42 : E diziam: — Este não é Jesus, o filho de José [ho huiós Iōsēph]? Por acaso não conhecemos o pai e a mãe dele? Como é que ele agora diz: “Desci do céu”?

O modo como Jesus é identificado, nesses textos, é bastante sugestivo: ele é identificado como “o filho de José”, “o filho do carpinteiro”, “o filho de Maria”, expressões bastante sugestivas de que Cristo era o único filho conhecido. A expressão é tão sugestiva que, no caso de Mc 6:3, a maioria das traduções bíblicas ocultam o artigo definido. Em Jo 6:42, em que ele é identificado como “Jesus, o filho de José”, é perfeitamente plausível que o artigo definido cumpra aí apenas a função de identificar um Jesus dentre muitos, já que seu nome (Iēsous, Yēšûaʿ) era relativamente comum na época; não indicaria necessariamente o único filho. Davi é também chamado “o filho de Jessé”, mesmo havendo outros. Mas os outros exemplos são diferentes. Sem a identificação do seu nome, ele é chamado simplesmente de “o filho do carpinteiro” (Mt 13:55) e “o carpinteiro, o filho de Maria” (Mc 6:3), ambas marcadas pelo artigo definido. Essas expressões perderiam sua utilidade se houvesse outros filhos possíveis (ao menos quatro). Assim, a melhor explicação é de que Jesus seria o único filho natural de Maria e (como se pensava) de José.

Mas os textos não mencionam outro irmãos? Como explicaremos logo adiante, usar outros textos bíblicos para identificar esses irmãos (Tiago, José, Simão, Judas), especialmente Tiago, nos ajuda a mostrar que esses não eram irmãos naturais. Assim, ao que parece, Maria não teve outros filhos além de Jesus. É por esses motivos que não vemos nenhum sinal de irmãos em Lc 2:41-51, quando o Senhor já tinha doze anos de idade.

3. Os Irmãos do Senhor

Alguns textos bíblicos falam de pessoas conhecidas como Irmãos do Senhor, sem explicitar o que essa expressão significa. Na antiguidade, a cristandade ortodoxa tinha duas posições principais sobre quem eles seriam: segundo a tese de Jerônimo, eram primos de Jesus; segundo a de Epifânio, eram meio-irmãos de Jesus, filhos de José de um casamento anterior. Essa segunda tese parece não ter nenhum indício real no Novo Testamento, antes parece contradizer o que acabamos de dizer: Cristo era o único “filho” conhecido de José. A primeira tese, porém, emerge naturalmente dos indícios que o Novo Testamento dá acerca dessas figuras, particularmente Tiago.

Uma primeira informação importante, acerca desses irmãos do Senhor, é que inicialmente “nem mesmo seus irmãos criam nele” (Jo 7:5). Obviamente, Maria e José acreditavam, pois receberam diversas revelações angélicas. Como explicar que irmãos naturais, criados na mesma casa e recebendo o mesmo testemunho de Maria e de José, não acreditassem em Jesus?

Dentre os Irmãos do Senhor, o mais bem identificado é Tiago. Os indícios das Escrituras Sagradas são de que Tiago, irmão do Senhor, era filho de Alfeu, um dos doze apóstolos de Cristo, não sendo, portanto, um irmão natural. Não há uma prova cabal, mas tudo o que sabemos sobre ele aponta nessa direção. Quando lemos o que o Novo Testamento indica sobre Tiago, irmão do Senhor, e Tiago, filho de Alfeu, a melhor explicação é de que eles eram a mesma pessoa. Os dados casam perfeitamente, e isso provavelmente era tão óbvio para os primeiros cristãos que eles sequer precisaram explicar. Grosso modo, seria uma identificação entre o Tiago das epístolas e o Tiago menor dos evangelhos (e Atos). Não devemos multiplicar Tiagos desnecessários.

O que sabemos sobre Tiago, o irmão do Senhor?

I. Ele não poderia ser o filho de Zebedeu, pois esse logo foi martirizado.
II. Ele era um dos apóstolos e vivia em Jerusalém. A leitura inclusiva de Gálatas 1:19 é a mais simples: “não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor”, ou seja, não viu nenhum outro apóstolo além de Tiago; do contrário, a comparação entre ele e os apóstolos seria desnecessária. Essa visita a Tiago se deu quando Paulo estava em Jerusalém (v. 18). Essa leitura é fortalecida por 1Co. 9:5, que coloca implicitamente os “irmãos do Senhor”, juntamente com Cefas (Pedro), entre os apóstolos. O texto pode ser melhor traduzido assim: “como também os demais apóstolos, tanto os irmãos do Senhor quanto Cefas”, pois Cefas era apóstolo, e a construção grega (“kai/kai” como “tanto/quanto”) o permite. É possível que 1Co. 15:7 indique o mesmo.
III. Ele era uma das colunas, ao lado de dois apóstolos. A mesma epístola se refere a Tiago, Cefas (Pedro) e João como as três colunas entre os cristãos de Jerusalém, e mostra que eles ministravam aos judeus (vv. 2:1,9), e que ele provavelmente procurava manter boas relações com judeus zelosos em Jerusalém (Gl. 2:12). Isso condiz com o retrato de Tiago de Jerusalém em At. 21:18-24.
IV. Não há qualquer história de sua conversão como tal. Ele simplesmente “aparece” como líder cristão, no livro de Atos, e já estava lá aguardando o Pentecostes.

Agora, o que sabemos sobre o apóstolo Tiago, filho de Alfeu?

I. Sabemos que Judas era seu irmão. Não se trata do Iscariotes, mas do apóstolo identificado como escritor da Epístola de Judas, que nela nos diz ser “servo de Jesus, Cristo e irmão de Tiago” (1:1). Tanto no Evangelho de Lucas (6:15-16) quanto nos Atos (1:13), há essa identificação: “Tiago, filho de Alfeu… e Judas, irmão de Tiago”. Isso parece significar que tanto Tiago quanto Judas eram filhos de Alfeu. (Nada sabemos sobre a vida desse Alfeu, e certamente entre os cristãos ele era uma figura menos importante que seu filho Tiago, já que Judas é denominado pelo irmão, não pelo pai.)
II. Ele era famoso. De fato, o escritor da Carta de Tiago era tão famoso que poderia ser simplesmente identificado por seu nome pessoal, Tiago, enquanto seu irmão, escritor da Carta de Judas, era identificado por ele, como “irmão de Tiago”. Se houvesse uma multiplicidade de Tiagos importantes, esperaríamos que os textos os distinguissem de alguma maneira. Enquanto eram dois, eram identificados pelos pais (Zebedeu, Alfeu); com a morte do filho de Zebedeu, a identificação se tornou desnecessária.
III. Ele provavelmente era o Tiago de Jerusalém, líder daquela Igreja. Com a morte do filho de Zebedeu (At. 12:2), o livro de Atos menciona certo Tiago à frente da Igreja em Jerusalém (15:13; 21:18). Ele não vê qualquer necessidade em identificar esse Tiago, tratando-se de uma pessoa importante, de fácil identificação. Toda a probabilidade é de que seja o mesmo Tiago dos onze. Portanto, Tiago, irmão de Judas e filho de Alfeu, provavelmente era um líder cristão importante em Jerusalém; na verdade, liderava os anciãos (presbíteros) daquela Igreja e responsável pela igreja como um todo (12:17).
IV. Ele provavelmente tinha uma mãe chamada Maria. Entre as mulheres que testemunharam a ressurreição estava certa “Maria, mãe de Tiago” (Lc. 24:10), que não era Maria, a mãe do Senhor. Havendo dois Tiagos possíveis no Evangelho, o mais provável é que ela seja a mãe do Tiago que se tornou mais proeminente: o filho de Alfeu, Tiago de Jerusalém. Marcos 15:40 confirma essa interpretação, e nos diz que ela era mãe de Tiago, o menor, e José. Assim, há pelo menos três irmãos aqui em jogo: Tiago, José e Judas.
V. Ele era irmão do Senhor. Em Marcos 6:3, os irmãos do Senhor são identificados como Tiago, Judas, José e Simão. Embora provavelmente nada saibamos desse Simão pelos evangelhos, três dos nomes da lista são os mesmos que identificamos entre os irmãos de Tiago, o menor, filho de Alfeu e Maria. Eles eram filhos de Alfeu e Maria (outra Maria além da mãe do Senhor), não de José e Maria (mãe do Senhor). Portanto, ao chamá-los “irmãos” do Senhor, com isso se quer dizer que eles eram seus familiares, embora não filhos dos mesmos pais.

Por si só, isso já mostra que Tiago e seus irmãos não poderiam ser “irmãos do Senhor” em sentido natural. A expressão deve ter outro sentido. Sabemos que Cristo tinha uma tia chamada Maria, mulher de Clopa (Jo. 19:25). É possível que Clopa e Alfeu sejam variantes, em escrita grega, do mesmo nome semítico. Assim, Alfeu e Maria seriam tios do Senhor. Os Irmãos do Senhor seriam primos, seguindo aqui o costume judaico de chamar parentes de “irmãos”. Não há necessidade de postular outro Tiago. Assim, toda a probabilidade é de que Tiago, irmão (primo) do Senhor, era filho de Alfeu e Maria, um dos apóstolos de Cristo e o primeiro bispo da Igreja de Jerusalém.

Se essa identificação dos irmãos do Senhor for correta, então temos um argumento incidental a mais em favor da Virgindade Perpétua. Pois, se o mais próximo, além de Maria, que a multidão pôde encontrar em Jesus foram seus primos, então a melhor explicação é a de que ele não tinha irmãos naturais.

4. A virgindade, dom escatológico

Como eu disse acima, do fato de que Maria teve apenas um filho não se deduz que ela permaneceu virgem, pois há outras possibilidades abstratas (sem indícios). Precisamos então observar se há alguma indicação, dentre o que sabemos de Maria, nessa direção.

Uma vez que observamos que Maria tinha apenas um filho, o Senhor, e sabemos que ela permaneceu ao menos nove meses como casada (legalmente) e virgem, surge então questionamento: como explicar esse período de virgindade? Para que o milagre do nascimento virginal de Cristo acontecesse, bastava que José não tivesse tido intimidade sexual com Maria no começo. Se o propósito fosse apenas esse, não haveria qualquer necessidade de evitar a intimidade sexual lá pelo meio ou fim da gestação. Como explicar esses nove meses?

Uma pergunta óbvia a fazer é: o que a Escritura ensina sobre virgindade? A única explicação bíblica plausível é de que Maria não apenas ficou virgem para estabelecer o milagre, mas fez o voto de castidade. O Novo Testamento dá um lugar especial a esse voto. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que há aqueles que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente de que maneira essa condição é recebida por Deus. Ao menos, essas palavras indicam que se trata uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62). Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. Reino de Deus os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.

Como vimos, os casados podem passar alguns dias separados sexualmente para se dedicarem à oração, um tipo de consagração de poucos dias conhecida já desde o Antigo Testamento (cf. Êx 19:15; 1Sm 21:4-5). Mas Maria e José estiveram assim por nove meses! Ou seja, eles não se encaixaram naquilo que seria esperado para um casal normal. Eles não estavam vivendo uma vida normal de casal. Eles não se encaixavam no que Paulo descreve como o esperado para os casados, mas para os virgens e viúvos: eles conseguiam se dominar o suficiente para não precisarem disso por nove meses, sem serem arrastados pela tentação e pelo “abrasamento” sexual. Eles não precisavam se unir sexualmente. Assim, quando olhamos para os nove meses, vemos que a melhor explicação para esses nove meses é de que eles viviam o voto de castidade.

Há algo mais aí. Como vimos, Paulo não exalta apenas a virgindade, mas também a viuvez. Com a morte de José, Maria ficou viúva, entrando no grupo dos anawim, alvos particulares da compaixão de Javé. Isso já foi indicado em Jo 19:26-27, e também é evidente pelo que lemos em Atos 1:14, que Maria vivia em meio aos discípulos de Jesus, sem José, o que é melhor explicado pela morte prévia de José. Ademais, Maria não procurou um segundo casamento, embora o pudesse. Com exceção do sumo sacerdote (Lv 21:14), que não podia casar com uma viúva, o judaísmo permitia que ela casasse novamente, como permite o Novo Testamento. Podemos considerar outras possibilidades, é claro: que Maria tivesse tentado casar e não tenha conseguido, ou que tenha casado posteriormente. Mas precisamos pensar: qual é a melhor maneira de explicar, ao mesmo tempo, tanto a a virgindade consagrada por 9 meses, a viuvez mantida e a ausência de irmãos de Jesus? A resposta é de que Maria havia se dedicado à vida casta exaltada em I Coríntios 7. Na família natural de Jesus, começamos a ver um sinal profético da vida eterna da família chamada Igreja.

Ao longo dos séculos, os cristãos vieram essa consagração da virgindade de Maria a Jesus na profecia de Ezequiel 44:2:

“E o Senhor me disse: — Este portão permanecerá fechado; não deverá ser aberto. Ninguém entrará por ele, porque o Senhor, o Deus de Israel, entrou por ele. Por isso, permanecerá fechado.”

Assim, quando unimos o fato de que Maria teve apenas um filho (2) aos nove meses antes do parto, juntamente com a profecia de Ezequiel 44:2 e a viuvez continuada de Maria, a melhor explicação para a virgindade de Maria é essa adesão a essa consagração escatológica a Deus, contribuindo para que ela seja “bendita entre as mulheres”, a mulher mais abençoada.

5. Alguns argumentos contra a Virgindade Perpétua

Já tratamos acima de um dos argumentos, que é o dos “irmãos do Senhor”, e vimos que, na verdade, os textos apontam noutra direção e funcionam como argumento em favor da Virgindade Perpétua. Em continuidade com esse argumentos, há quem alegue que a palavra grega empregada (adelphos) indica necessariamente filhos dos mesmos pais, enquanto as palavra para parentes mais distantes ou primos (anepsios, sungenis) não são usadas. Esse argumento é falso e resulta de falsa erudição, pois a palavra grega adelphos era, num ambiente semítico, usada com referência também a parentes distantes. Afinal, em primeiro lugar, falando em aramaico, as primeiras testemunhas de Cristo não poderiam distinguir entre “irmão” e “primo”, não havendo esta palavra em sua língua. Em segundo lugar, como testemunha o uso da LXX (tradução grega do Antigo Testamento), parentes eram chamados de “irmãos” (adelphoi; cf. Gn 14:16; 1Sm 20:29; 2Rs 10:13; 1Cr 23:2). Isso era natural nessa língua, pois todos os descendentes distantes eram contados como filhos (cf. Mt 1:2), portanto irmãos entre si. As expressões das relações familiares não eram tão precisas.

Um segundo argumento, usando 1Co 7:4-5, indica que marido e esposa não poderiam passar muitos dias separados sexualmente. Mas, como vimos, José e Maria passaram ao menos nove meses. Eles obviamente não seguiam essa regra, pelos motivos já indicados, inclusive baseados no restante do capítulo.

Um terceiro argumento, bastante comum, é o que usa Mt 1:25, às vezes conjugado com Lc 2:7. Os textos são os seguintes:

Mateus 1:25 : “E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus.”

Lucas 2:7 : “Então Maria deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou o menino e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

No primeiro texto, o argumento é de que o “até que” indica o término da virgindade: José não teve intimidade sexual (“conheceu”) Maria até o momento do parto, mas o teria feito em seguida. Além disso, Jesus é chamado “primogênito” (nos dois textos), indicando que seria o primeiro dentre muitos filhos.

Quanto à expressão “primogênito”, é fácil comprovar que ela não tem um sentido tão restrito. Em Rm 8:29, falando dos salvos, se diz que Cristo é “o primogênito entre muitos irmãos”. Ora, nenhum de nós é gerado do Pai do mesmo modo que Cristo. Essa expressão indica a primazia de Cristo. Em sentido estrito, ele é o único Filho de Deus, embora seja chamado de primogênito. Ser primogênito não o impede de ser unigênito. Noutro sentido, Cristo é tratado como primogênito da criação em Cl 1:15 e primogênito da ressurreição em Cl 1:18; Ap 1:5. Em Hb 1:6, Cristo é chamado simplesmente de “o primogênito”; ele é o primogênito de Deus tanto quanto é o unigênito de Deus. Uma coisa não impede a outra. A Igreja é chama de “igreja dos primogênitos” (Hb 12:23), como se todos eles (já salvos) fossem primogênitos. A primogenitura é um título que podia ser transferido (como se deu entre Esaú e Jacó). Dessas coisas se depreende que a expressão é usada de maneira bastante fluída do Novo Testamento. O primeiro filho é automaticamente o primogênito, mesmo que não haja um segundo na sequência.

Quanto ao “até que” (ou “enquanto”), a expressão grega “héōs [hou]” não indica necessariamente um término. Tanto no Antigo Testamento (LXX) quanto no Novo, vemos vários exemplos em que ela é usada e em que não indica uma transição posterior, mas apenas se enfatiza um determinado tempo (Dt 1:31; 9:7; 1Sm 15:35; 2Sm 6:23; Mt 12:20; Lc 1:80 etc). Em 1Co 15:25, lemos: “Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés.” Lido isoladamente, o texto indicaria que o reino de Cristo teria um fim, o que sabemos ser falso (cf. Lc 1:33). O propósito da expressão é apenas indicar um propósito, enfatizar um determinado momento, sem necessariamente excluir o que acontece depois. Assim, certamente José não conheceu Maria enquanto ela não deu à luz a Cristo… nem depois. Por que Mateus fala desse modo, e não diz simplesmente que Maria foi sempre virgem? Ele não precisava, porque isso não estava em discussão, e talvez ele sequer soubesse disse. Disse o que podia saber ou o que precisou enfatizar.

Dessas coisas, segue-se que os argumentos contra a Virgindade Perpétua são todos inconclusivos, insuficientes, e alguns textos na realidade ajudam a provar o inverso.

A Relevância da Virgindade Perpétua

Para muitas pessoas, pode parecer que a afirmação da Virgindade Perpétua de Maria é uma depreciação do matrimônio. É claro, essas pessoas sabem que o próprio Cristo foi sempre virgem e que os salvos viverão eternamente sem o sexo; não lhes parece que isso deprecia o matrimônio. Mas, no caso de Maria, ao menos ela era casada. Também podemos perguntar se, ao contrário, não foi uma mentalidade contrária ao sexo que produziu essa doutrina.

Por isso, é preciso dizer: a afirmação da Virgindade Perpétua de Maria não significa transformar o matrimônio e a união sexual em coisas pecaminosas. Elas não o são. Se fosse o plano de Deus que Maria tivesse tido uma vida sexual com José, isso não seria pecado nem coisa má. Ao contrário, não são apenas coisas boas, mas excelentes, pois recebem uma benção especial de Deus. São o meio pelo qual Deus quis que a humanidade enchesse a terra. Mas há, acima dessa excelência, uma perfeição escatológica própria a certos sacrifícios feitos pelo Reino de Deus.

Assim como o matrimônio imita a relação entre Cristo e a Igreja, e não só imita como prenuncia escatologicamente, assim também a virgindade e o celibato imitam a pessoa de Cristo, para anunciar a condição eterna dos salvos. É justamente a excelência e grandiosidade o matrimônio e da união sexual inerente, uma vocação divina, o que faz o que o sacrifício dessa coisa boa em nome de uma coisa ainda melhor tenha um valor tão grande.

A Virgindade Perpétua de Maria não tem a mesma relevância que a Maternidade Divina. Há uma heresia profunda em negar que Maria é mãe de Deus (Theotokos), pois é um ataque ao próprio Cristo e à união entre suas duas naturezas, união que nos trouxe nossa salvação. A Virgindade Perpétua não está igualmente atrelada à nossa salvação, então tem uma relevância menor. Enquanto a Maternidade Divina nos diz principalmente algo sobre Jesus, a Virgindade Perpétua nos diz principalmente algo sobre Maria. Fala-nos de sua consagração completa a Jesus e ao Reino dos Céus, pelo que ela é digna de maior honra, bendita entre todas as mulheres.

Nunca nos esqueçamos das palavras de Santo Agostinho de Hipona:

“Maria é mais bendita recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ai de vós, os ricos!

My Post (5)

As palavras de Cristo nos parecem, às vezes, escandalosas. Como pode Jesus dizer “ai de vós, os ricos” (Lc 6:24)? Mas e se for um rico honesto? E se for alguém que trata bem os seus empregados? E se for um homem de fé? E se…? Não obstante, foi o que Cristo disse: ai de vós, os ricos, já tendes a vossa consolação. A felicidade de vocês já veio e é temporária.

Pior, Cristo disse que é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino. Na nossa ânsia de “salvar” as palavras de Jesus, de torná-las mais aceitáveis, inventamos mil agulhas e mil camelos possíveis, todos criações da fantasia humana sem qualquer fundamento, quando Cristo, na realidade, nos fala de algo realmente impossível (Mt 10:23-26).

O desejo de Cristo, quanto às riquezas, é muito claro: ele quer que sejam dadas aos pobres para que, com isso, não sejam acumulados tesouros na terra, e sim no céu (Mt 6:19-21). Se nosso tesouro está no céu, nosso coração está no céu; se nosso tesouro está na terra, nosso coração está na terra. Aquilo que valorizamos diz muito sobre o nosso destino. O próprio Cristo fez-se pobre para nos enriquecer, e com isso nos deu o exemplo do que devemos fazer, abrindo nossas mãos. Certamente ele promete cuidar daqueles que são generosos.

Para Cristo, “os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições” são como espinhos que sufocam aquele que poderia frutificar (Mc 4:19). Fica infrutífero porque está cercado por aquilo que o prende, pelos deleites desta vida, por aquilo que o mundo oferta. Poucas coisas são tão mundanas quanto essa acomodação ao espírito do mundo, que nos faz amar os nossos recursos mais do que ao nosso próximo. É nesse espírito mundano, frequentemente motivados por ideologias ateias, que ignoramos as palavras do Senhor acerca da riqueza. Como alguém disse, o bolso é a última parte que se converte.

Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé (Tg 2:5). Ele escolheu as coisas que não são para confundir as que são, por isso “não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” (1Co 1:26). Quanto aos ricos deste mundo, devem herdar a verdadeira vida doando seus bens, sendo misericordiosos e compassivos, sacrificando suas riquezas (1Tm 6:17-19). Uma grande ameaça pesa sobre aquele que ama as riquezas deste mundo mas não é rico para com Deus.

Devemos tomar o cuidado com o tratamento das riquezas como um sinal da bênção divina. O livro de Provérbios está cheio de indicações de como os sábios, os trabalhadores e os justos prosperarão. E, no entanto, também os ricos aumentam suas riquezas nas Escrituras, sem dores e sem preocupação: “Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas.” (Sl 73:12). Não podemos negar que as riquezas podem ser, sim, uma das maneiras pelas quais Deus nos abençoa, mas com que propósito? O que a Escritura nos ensina é distribuir aos pobres para, com isso, ter uma justiça eterna (Sl 112:9).

Eu não digo aqui nada contra profissões muito rentáveis, como a de grandes empresários, que naturalmente terão grandes remunerações. O que está em jogo não é a recepção em si das riquezas, mas duas outras coisas: o propósito para o qual nós as desejamos (cobiça?) e o que fazemos depois que as recebemos (acumulamos?). O amor ao dinheiro é raiz de todos os males, e os que querem ser ricos caem em muitas tentações (1Tm 6:9-10). O mero acúmulo, sem uma preocupação com tantas pessoas necessitadas e com tanto bem que pode ser feito aos nossos semelhantes, é um mal, assim como é um mal desejar esse acúmulo.

Penso que dois cuidados são necessários. Primeiro, não devemos ter desprezo para com os ricos, nem invejá-los. Não se resolve um pecado com outro, e a intenção cristã é sempre a reconciliação, o amor mútuo, não o conflito. Frequentemente a crítica à riqueza, como vista eventualmente no cenário político, é apenas um desejo de tomá-la, como Judas quis. Segundo, essa concepção sobre as riquezas não pode se confundir com um pensamento imaterialista, uma espiritualidade pura que desconhece o corpo e as necessidades desta vida.

Devemos estar satisfeitos com o que o Senhor nos concedeu, na simplicidade do que ele nos deu, como na oração: “não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pv 30:8). Aprendemos na Escritura a estarmos satisfeitos tendo o que comer e com o que nos vestirmos. O espírito mundano nos impede de fazer essa mesma oração.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Honrar os santos é idolatria?

Minha publicação (5)

Honra é um elemento muito importante da fé cristã. Não apenas aprendemos a honrar pai e mãe, mas também honrar as autoridades (Rm 13:7; 1Pe 2:17), honrar o cônjuge (1Pe 3:7), as viúvas (1Tm 5:3), os anciãos (Lv 19:32). Honrar os que temem o Senhor é uma virtude elogiada (Sl 15:4). Paulo disse que Epafrodito deveria ser recebido com honra em razão de sua fidelidade a Cristo (Fp 2:25-30); do mesmo modo, o rei Ezequias foi honrado em sua morte (2Cr 32:33). De fato, as Escrituras dão amplitude máxima à honra: “Honrai a todos.” (1Pe 2:17a). Se isso não significa que todos devem receber as mesmas honras — pois não podemos mentir enquanto honramos —, certamente significa que honrar é um dever. Não honrar é violar um mandamento, é pecar. Continue lendo “Honrar os santos é idolatria?”

O Antigo Testamento continua lindo?

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Desde o princípio da Igreja, os cristãos precisaram lidar com a interpretação e aplicação do Antigo Testamento. Foi a partir de certas interpretações das Escrituras Sagradas dos hebreus que os primeiros apóstolos e discípulos de Jesus defenderam sua prerrogativa messiânica e, portanto, a necessidade da conversão à nova fé, ainda alguns anos antes do surgimento dos escritos que comporiam o Novo Testamento. Continue lendo “O Antigo Testamento continua lindo?”

Deus odeia alguém?

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E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Lucas 6:32,35

Há alguém que Deus odeie? Costuma-se dizer que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. É uma declaração fácil de se fazer, e parece responder à pergunta. Como o gênero humano, à exceção do Filho de Deus, é formado de pecadores (uns arrependidos, outros não), o amor de Deus pela humanidade tem de ser um amor por pecadores (Rm 5:8), sendo também, contudo, um amor que os transforma. Continue lendo “Deus odeia alguém?”

Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento

Flagellation of our Lord Jesus Christ - Bourguereau

Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele; ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a face ao que o fere; farte-se de afronta. O Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens. Lamentação 3:27-33

Não é fácil encontrar o lugar da resignação na fé cristã. O próprio Cristo nos parece o modelo máximo de resignação e irresignação. Ele curou cegos, leprosos e paralíticos, libertou possessos, se opôs aos poderes constituídos deste mundo — os líderes judeus e romanos que agiam como títeres das hostes espirituais da maldade —, e elogiou o exemplo de fé de várias pessoas que, não se resignando à doença e ao diabo, procuraram nele cura e libertação. Mas, como um cordeiro mudo, Cristo desceu ao seu suplício, e, mesmo temeroso do sofrimento que teria de padecer, orou entregando-se à vontade do Pai — “não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc. 14:36) —, levando sobre si e expiando a culpa de todos pelo sacrifício de si mesmo, o justo pelos injusto. Continue lendo “Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento”

A Fé Cristã e as Religiões do Mundo

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Em sua morte em 1825, Saint-Simon deixou incompleto um diálogo sobre O Novo Cristianismo, no qual reconstrói a fé cristã segundo as aspirações do Iluminismo, numa proposta não tão diferente da de Kant: a religião se constituiria essencialmente num moralismo da razão pura — uma ética demitizada, burguesa e humanista —, capaz de unir os homens numa nova solidariedade. Diferente de Kant, a proposta do francês não carrega o menosprezo pietista pelo ritual, que acaba aliciado. Continue lendo “A Fé Cristã e as Religiões do Mundo”