Contra o Altruísmo

“Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão?” Gênesis 4:9

No uso corrente da palavra, “altruísmo” significa a atitude de bondade gratuita, de benevolência, de importar-se genuinamente com as outras pessoas, sem atrelar o resultado ao seu próprio ganho pessoal, coisas desse tipo. Isso significa, inclusive, fazer o bem a pessoas que não merecem ou que não nos recompensarão. Nesse sentido, quem discordaria do altruísmo, senão somente uma alma corrompida? E mesmo uma alma assim ainda faria uma homenagem implícita parasitária, quando o altruísmo alheio lhe beneficia.

No entanto, às vezes “altruísmo” significa algo mais: um ideal de que toda ação moral, para encontrar validade, deve estar totalmente desligada (ao menos na intenção) de qualquer benefício a quem a realiza. Nesse sentido, a ação mais virtuosa seria aquela que não procura nenhuma recompensa; a virtude seria sua própria recompensa. Essa perspectiva ética é associada à figura do pietista liberal Immanuel Kant. (Algumas pessoas associam algo nesse sentido ao confucionismo, mas eu suspeito que isso seja muito mais uma leitura moderna.)

Isso coloca diante de nós um problema imediato. Aquilo que os cristãos chamam de escatologia emerge, na história humana, precisamente como uma reparação final dos problemas do mundo e então uma premiação dos bons e castigo dos maus, uma recompensa dos méritos e deméritos, transposta para a eternidade. Quando lemos as Escrituras, não nos parece que Deus quer que desejemos recompensas? Do contrário, não no-las prometeria. Ele procura, de algum modo, atrair o nosso desejo através disso que ele coloca diante de nós. Isso vale tanto para ambos os testamentos. Cristo fala explicitamente sobre sermos “dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos”.

Por outro lado, há muito, na Escritura, na direção de que devemos agir desinteressadamente: a caridade “não busca os seus interesses”. Paulo ensina, em lugares diferentes: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.”; “Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem.”

Ainda assim, não é curioso que, no momento exato em que Cristo tem a melhor oportunidade de tratar da ação sem recompensa, no caso do socorro a pessoas em condições miseráveis, que não podem nos recompensar, fugindo das limitações da lógica do retorno pessoal e da gratificação social (“esse quam videri”), ele faça questão de reintroduzir a crença na Ressurreição? Ele diz: “serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.”

Se, por um lado, Cristo manifestou uma atitude de desprendimento sacrificial em favor da humanidade, por outro lado, ele não o fez sem receber e sem olhar para recompensar (“…Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz…”). A questão é: que recompensa é essa? A quem ela beneficia de fato? A recompensa que Cristo recebe não é, muito mais, em favor de outras pessoas do que dele mesmo?

O que ocorre é que a separação entre altruísmo e egoísmo presume uma antropologia individualista e liberal, aquela do “cogito” cartesiano. Se eu vejo no ser humano uma identidade aberta e comunitária, que atravesse os indivíduos, a ideia de uma felicidade individual é ilusão, e pautar nisso a intenção das ações é correr de uma miragem. Como escreveu o poeta anglicano, “Nenhum homem é uma ilha”, e, cada vez que o sino toca, indicando que alguém se foi, eu sei que eu mesmo ali morri também. O que diz respeito aos outros diz respeito a mim. Quem fere à humanidade fere a mim. Quem pede perdão, pede perdão a mim; quem perdoa, perdoa a mim. Crime, vergonha, constrangimento e reconciliação nunca se dão entre mônada sociais, mas são sempre eventos políticos. Somos cúmplices das comunidades das quais participamos, na proporção dessa participação.

Por isso, quando, elaborando a raiz do que os cristãos chamaram de “Comunhão dos Santos”, São Paulo escreve que “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam”, ele não descreve aí uma forma totalmente nova de existência humana, mas a restauração e elevação daquilo que é a vocação humana universal. A Igreja é a pólis restaurada. Não sabe disso toda família que, em meio às contradições e vicissitudes da nossa existência, cumpre o seu papel? Não sabe disso todo exército em batalha? A vitória de um é a vitória de todos, e, a cada um que perece, todos nós perecemos um pouco mais. Somos, em Cristo, membros uns dos outros porque fomos feitos para sermos membros uns dos outros. Nas palavras do rei Davi: “Vós sois meus irmãos, sois meu osso e minha carne”.

Por isso, quando um de nós não se preocupa com sua própria vida, quando age de maneira relaxada e irresponsável, pode tornar mais miserável a vida de outras pessoas que se importam, pois somos membros uns dos outros.

Nesse sentido, o que se quer evitar é que cada um procure o que é seu enquanto apenas seu, enquanto posse e domínio pessoal, e não enquanto serviço em favor do outro. A recompensa divina, nesse sentido, é algo que temos obrigação de buscar, e isso inclusive em favor de outras pessoas, pois nossa santificação e elevação afeta outras pessoas, que nós arrastamos conosco. Rejeitar a recompensa divina é rejeitar a amizade com Deus, pois toda amizade é reciprocidade ao longo do tempo, numa teia de obrigações que se fortalece a cada resposta que se dá, a cada gesto de gratidão. Quem recusa a reciprocidade manifesta independência, recusa a comunidade, recusa as obrigações decorrentes. Nesse sentido, somente uma vida de oração (que é em favor dos outros) pode justificar a reclusão do eremita cristão.

Rev. Gyordano M. Brasilino

AOS CRISTÃOS CONSERVADORES

AOS CRISTÃOS CONSERVADORES

Misericórdia, paz e amor.

As Sagradas Escrituras nos ensinam que Deus reina sobre as nações e que é ele quem eleva e depõe os nossos governantes.

Diante de tantos cristãos que oraram, jejuam, intercederam, choraram e fizeram campanha para Jair Bolsonaro, a pergunta que devemos fazer agora é: o que Deus nos ensina com esses resultados?

A aritmética do primeiro turno já nos havia dito que as chances de Bolsonaro eram poucas. Somente um milagre poderia elegê-lo.

E o milagre não veio.

Esses evangélicos, se não confundindos pela ideologia, foram, na melhor das hipóteses, enganados pelo “mal menor”, que tem e sempre terá o poder de nos corromper. Mal menor porque, sabendo dos erros graves de Bolsonaro, não poderiam suportar as consequências do retorno de Lula e daquilo que sabem que ele pretende avançar, como a causa assassina em favor da legalização do aborto.

Quantos ministérios não foram humilhados por esse apoio? Quantas comunidades não caíram na vergonha? Quantas igrejas e famílias não foram divididas? Quantos púlpitos não foram maculados? E quantos cristãos não foram ostracizados e hostilizados naquela que deve ser a “Casa de Oração para todas as nações”, por não se verem obrigados a participar desse jogo? Em vão. Só veio o ônus.

Bolsonaro não foi capaz de convencer mais de 60 milhões de eleitores brasileiros de sua honestidade e sanidade, de sua lealdade à democracia, de sua capacidade de governar, de combater a corrupção e de conduzir a nação numa direção melhor.

Bolsonaro foi incapaz de unir o Brasil diante da crise da pandemia, a maior oportunidade que ele teve. Ele fracassou, a ponto de que um candidato corrupto, Lula, seja eleito.

Ele não cumpriu o seu papel.

Os evangélicos serão maiores em número nas próximas eleições. Os cristãos precisam de uma maneira diferente de lidar com a política, e construir alternativas que representem a totalidade dos nossos valores cristãos, sem ceder ao pragmatismo — a favor da vida e a favor do pobre, a favor da mãe nordestina, a favor do negro, da educação e da saúde, a favor da justiça, a favor da paz. Se não formos capaz disso, a falha é nossa.

Jesus Cristo reina.

O Amor é Desigual

.

Muita gente tem vergonha de admitir, mas a realidade é que todos nós temos preferências no amor. Não amamos todas as pessoas por igual. Não me refiro a tipos diferentes de amor, mas ao mesmo amor caridoso. Nós damos preferência a certas pessoas. Essas preferências são erradas?

Imagine que numa grande tragédia (como um tsunami), uma mãe tenha que escolher entre salvar seu filho e salvar uma criança desconhecida. Qual ela deve escolher? As duas decisões são iguais? Caso escolha a criança desconhecida, o que deverá dizer ao seu filho, caso ele sobreviva?

Ou imagine que, quando vai visitar sua mãe num hospital, um filho encontre outras várias senhoras na mesma situação. Ele deve dedicar tempo igual a cada uma delas ou deve dar preferência à sua própria mãe?

O próprio Cristo tinha um “discípulo amado”, significando com isso que havia algum tipo de preferência, sem que ele precisasse excluir ou odiar os demais. O apóstolo Paulo trata de preferência: “façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6:10).

Mas Cristo ensina que devemos amar mesmo pessoas desconhecidas, de uma nação julgada inimiga (Parábola do Bom Samaritano). O amor pelos inimigos é um ensinamento fundamental. Nossa hospitalidade deve superar todo tipo de pensamento contrário à dignidade humana (ex: racismo).

Essa preferência sem exclusão é chamada na teologia cristã de “ordo amoris” (ordem do amor), significando que há pessoas às quais devemos maior amor. O exemplo mais natural é o amor dos filhos pelos pais e dos pais pelos filhos, ou dos cônjuges entre si.

Essa prática de diferenciação é instintiva, e isso pode levar algumas pessoas a pensarem que, em razão da Queda, não devemos confiar nos nossos instintos. Mas o que há de caído nos nossos instintos não é a preferência, mas a exclusão, o ódio.

Isso nos ajuda a entender a opção de Deus pelos pobres. Deus ama a todos nós, mas há claramente uma preferência de Deus pelos mais necessitados, pelos que, aos olhos humanos, são pobres deste mundo.

O amor envolve vários aspectos:
• desejamos o bem (benevolência)
• praticamos o bem (beneficência)
• temos apreço (afeição)
• desejamos proximidade (união)

Quem acha que devemos amar a todos por igual acerta em parte, porque devemos querer o mesmo bem para todos: sem prejuízo da justiça, queremos a vida eterna para todos, não queremos nenhum mal para ninguém.

Mas amor não é só querer. Não é só decisão. Apenas querer o bem não é todo o amor, mas uma abstração dele. Amor envolve ação, e, nas condições das nossas limitações, a ação é e será sempre desigual. Então a beneficência já não será a mesma, mas limitada. Precisaremos escolher. Quem sofreu violência grave pode ter muita dificuldade em desejar proximidade com quem lhe feriu.

Então a “ordo amoris” não é só uma doutrina cristã tradicional. Ela é uma doutrina muito humana, muito realista, que nos reconhece onde estamos e nos ensina a avançar para um amor maior. As pessoas a quem amamos devem se tornar, não um limite, mas uma escola do amor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que as igrejas não podem apoiar candidatos

Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou.” 2Timóteo 2:4

Quero deixar muito claro, antes de mais nada: não acredito na separação entre religião e política. Isso não é nem ideal, nem real. Não é real porque as religiões são parte da maneira como as pessoas tomam decisões, como elas constroem critérios e prioridades. Existe a possibilidade de uma ética com base na razão e em valores compartilhados, mas isso tem limites. As pessoas religiosas precisam saber que não vivem numa sociedade em que todo mundo compartilha dos seus valores, e devem saber lidar com isso. Mas as pessoas céticas, ateias ou contrárias aos valores religiosos também precisam saber que as religiões influenciarão o mundo. Enquanto estivermos numa democracia, será assim. A separação também não é ideal, de uma perspectiva cristã, porque cada um dos meus pensamentos deve obedecer a Cristo.

Nesta altura do campeonato, quando os partidários mais aguerridos e decididos de Bolsonaro e Lula já tomaram suas posições, eles partem agora em busca dos “do meio”, fazendo todo tipo de apelo passional, e o argumento dominante será o do mal menor, já que esses “indecisos” ou “isentos” obviamente não consideram os dois lados satisfatórios. De fato, isso já começou, e é irônico ver pessoas de ambos os lados usando exatamente o mesmo tipo de discurso para forçar apoio. (Enquanto isso, líderes políticos que há pouco tempo trataram Bolsonaro e Lula como corruptos passam a apoiá-los.)

Pois bem, o “mal menor” é o motivo pelo qual igrejas não podem apoiar candidatos. Falando em termos gerais, cada pessoa pode e deve tomar partido segundo os ditames de sua própria consciência, fazendo o cálculo difícil de qual seja o mal menor, e, estando nós numa democracia, cada um tem liberdade inclusive para defender (com honestidade) o político que considera melhor. Considerando que cada lado representa uma doutrina política diferente e diametralmente oposta — com seus próprios interesses, acordos e movimentos concretos —, o cálculo comparativo é complicado, as informações são enviesadas, e nós tomamos partido sempre antecipando a miséria que certo candidato pode acabar fazendo. Sendo honesto: a maioria de nós não tem condições de tomar decisões políticas bem-informadas. Quando você apoia um candidato irrestritamente, você escolhe ignorar algumas coisas e fingir que sabe outras.

Eu falava do “mal menor”. Diferentes do povo cristão como um todo, os ministros do evangelho não podem tomar partido e defender candidatos, justamente pelo motivo de que, enquanto representantes do Reino de Deus, não devem usar seu discurso e sua autoridade em favor de nenhum “mal menor”, mas apenas do bem maior, do ideal, sem negociá-lo em favor do pragmatismo político, sem ceder ao desespero mais próximo. Esse ideal inclui muitas coisas que não concordam com as propostas disponíveis. Mas, para que ele seja alcançado, é essencial que os cristãos estejam unidos e construam uma alternativa a Bolsonaro e a Lula, que nos represente melhor. Trocar o bem maior mandamental pelo mal menor pragmático, no discurso da igreja, é perder a voz profética, e dar carta branca eterna para todo tipo de pilantra que use um ou dois valores cristãos. Quando os ministros do evangelho tomam partido, eles escandalizam gregos e judeus, e não promovem a paz.

Por isso, é importante que, numa situação em que alguns cristãos votam pelo mal menor (de esquerda ou de direita), outros cristãos devem ter plena liberdade de criticá-lo, e nós, pastores, somos pastores de ambos. Você não evangeliza a pessoa com quem você está “em guerra”. Você renuncia à missão em nome da guerra. Isso é omissão, fugir da missão de um ministro da Palavra e dos Sacramentos e se tornar cabo eleitoral de um reino tão cheio de impiedades. É sempre uma narrativa ideológica que constrói os inimigos (os “fascistas”, “comunistas”…), mas nós representamos a perspectiva de Deus, que vê seres humanos caídos e necessitados de graça.

Na eleição presidencial em que nós nos encontramos, assim como na anterior, o papel dos evangélicos é determinante. Os católicos também têm um papel aqui, mas em geral são muito mais receptivos a ideias de esquerda, inclusive no clero, mesmo quando elas vão contra o ensino “oficial” da igreja. Não resta nenhuma dúvida de que, se o número de evangélicos fosse menor, a eleição teria sido decidida já no primeiro turno.

Um fator decisivo, para os evangélicos, é a questão do aborto, e continuará sendo. A esquerda precisa desistir da ideia insana de que aborto é uma questão de saúde pública. Isso será motivo de tensão permanente. Autorizar o extermínio de crianças, com dinheiro público, não é questão de saúde pública. É assassínio puro e simples, sob o pretexto liberal e individualista “meu corpo, minhas regras”. Como os evangélicos acreditarão na compaixão da esquerda pelas vítimas do coronavírus, se não se importam com crianças no ventre das mães? (O mesmo deve ser perguntado: como a esquerda acreditará na compaixão dos evangélicos quando apoiam um presidente com discurso insensível?) Cada vez que um político de esquerda repete aquele discurso “não quero o aborto, mas é uma questão de saúde pública”, o evangélico sabe que a primeira parte é uma mentira. Isso não convence a ninguém.

Por outro lado, o que significa o apoio a Bolsonaro de parcela tão grande dos evangélicos? Significa ignorar a apologia à tortura, filistinismo, insensibilidade para com as vítimas da pandemia? Aliás, quem pode acreditar na aproximação de Bolsonaro e Guedes com as questões de justiça social e igualdade econômica? É a mesma coisa. Não vejo, na maioria dos evangélicos, uma apologia a essas coisas, mas vejo, sim, como, eles se veem forçados a ignorar muito porque veem uma alternativa que é pior ainda, e que só lhes oferece críticas.

Diante disso, os adversários de Bolsonaro devem pensar o que fazer: cuspir ódio nos evangélicos e assim acirrar as divergências, confirmando que são realmente inimigos (cada um de sua própria perspectiva: a batalha espiritual, a luta de classes…); ou sentar à mesa tentar construir uma ponte para um futuro diferente, em que o bolsonarismo não precise sequer ser discutido. Se a esquerda não é capaz de oferecer uma alternativa melhor do que Bolsonaro, ela também é culpada pelos erros dele.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O “Mistério” não salvará a Substituição Penal

Eu costumo argumentar que a ideia de Cristo ser punido no lugar da humanidade é injusta, segundo a lei divina revelada. É um defeito moral dessa teoria.

Alguém me trouxe uma resposta que eu considero a escapatória óbvia, mas que pouca gente tem coragem de apresentar, o “apelo ao mistério”, ou, mais propriamente, o “apelo à ignorância” (argumentum ad ignorantiam): não se pode dizer que punir um inocente (Cristo) seria injusto porque a justiça de Deus está além da nossa compreensão. Algo assim.

Pouca gente tem coragem porque instintivamente as pessoas sabem que é uma resposta falaciosa. Quem a apresenta comete contradição performática: diz que não entendemos a justiça de Deus, mas, ao usá-lo como argumento, age como se soubesse o que é e o que não é compatível com essa justiça, logo presumindo que entende a justiça divina.

A questão é: como podemos separar a justiça de Deus revelada daquela supostamente oculta? Como vou desprezar o revelado e fazer de conta que sei o segredo? O que está revelado é que Deus abomina mãos que derramam sangue inocente.

O “apelo ao mistério” não funciona. Uma situação pode ser incompreensível porque o número de fatores nos escapa, mas não é assim nesse assunto. A situação de Cristo tem um número muito pequeno de fatores, todos perfeitamente compreensíveis. Ninguém tem qualquer dificuldade de entender que Caifás e Pilatos cometeram uma injustiça ao punirem um inocente. Não há mistério. Não há fatores ocultos. Não há como dizer que Caifás e Pilatos, ao punirem um inocente, erravam, mas “Deus” acertaria em fazer exatamente o mesmo, como cúmplice deles.

Aliás, o próprio Cristo via que a justiça de Deus reverteria a injustiça sofrida:

“porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós… e, quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente,” (1Pedro 2:19,21,23)

Como vários outros, o defeito moral da Substituição Penal é invencível, não há resposta possível. Mas ele tem pouco poder de convencimento, porque os defensores da SP, por entenderem errado alguns textos da Bíblia, acham que a coisa realmente aconteceu (Deus puniu Cristo como substituto), então guardam uma esperança de que, de algum modo, não seja injustiça aquilo que eles sabem que é injustiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus não estudou Hermenêutica

Jesus não era biblicista. Certamente ele reconhecia e afirmava a veracidade e a autoridade das Escrituras, referindo-se a eles em seus ensinos. Mas ele as usa com relativa liberdade, seguindo padrões conhecidos da halāḵâ judaica, encarando-as mais como janelas do que como destinos. Ele não esperava que os seus interlocutores usassem as Escrituras de modo restrita, antes traz mais cartas para a mesa.

No diálogo com o intérprete da lei em Lc 10:25ss, Cristo concorda em colocar dois mandamentos da lei acima de todos os demais, mas discorda de que o mandamento do amor ao próximo se limite aos compatriotas. O problema é: se lido de maneira puramente contextual, o mandamento se referia, sim, apenas ao amor entre os israelitas:

Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:18)

Por implicação do paralelismo, o “próximo” corresponde aos “filhos do teu povo”. Essa é a leitura mais natural do texto. Por isso mesmo, o capítulo contém um segundo mandamento equiparando os estrangeiros que vivessem entre os israelitas (Lv 19:33-34); o primeiro mandamento não dava conta. Isso é uma importante expressão de humanidade e empatia, mas não é, ainda, em termos de contexto estrito, um mandamento de amor universal e irrestrito.

Então Cristo usa o mandamento para além dos seus limites contextuais e da intenção do autor. Ele não traz aí um mandamento novo — não é uma questão de “antiga aliança e nova aliança” —, mas observa como deve ser aplicado o mandamento antigo, como a lei deve ser usada. O texto não é a regra última, mas uma expressão dela.

Assim também, nas discussões sobre o sábado. No dia santo, seus interlocutores circuncidavam (Jo 7:21-24) e sacrificavam (Mt 12:5), e isso encontra amparo na lei, de modo que Cristo apela a uma hierarquização implícita nela, que deve ser válida também em situações não prescritas, como naquela de curar no sábado ou alimentar pessoas.

Mas a argumentação vai além: no sábado, eles levavam seus animais para beber água e socorriam seus filhos e animais caídos numa vala (Lc 13:15; 14:5), e isso é um apelo ao senso moral (expresso na lei oral), não à própria lei escrita. O fermento dos fariseus, a hipocrisia (Lc 12:1), consistia precisamente em ocultar o senso moral, e julgar as coisas apenas através de uma prescrição fria da lei, quando ela lhes convém.

Em outras palavras, Cristo exige dos seus interlocutores uma leitura não biblicista, na qual seja válido o princípio da analogia legal através do senso moral. Ele foi além da intentio auctoris e reclamou com quem não fez o mesmo. Se a hermenêutica é a ciência do contexto, Cristo nunca estudou hermenêutica.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Em defesa do Deus das vinganças

Na experiência de Deus a partir das Escrituras Sagradas, existe um lado perturbador na representação de Deus, um lado que tremor e até certo mal-estar em quem tenha um coração mais compassivo. Esse lado evoca imagens de severidade e indignação.

O Salmo 94 celebra o Senhor como o “Deus das vinganças” (‘ēl-nəqāmôt).

É importante não procurar eliminar esse lado. É claro que essa não deve ser nossa imagem principal de Deus — não foi ela que se mostrou a nós na face de Cristo, senão a de um Deus que assegura o perdão e a hospitalidade —, assim como não deve ser também nosso ânimo central — como Cristo advertiu a Tiago e João, desejosos de lançar fogo castigador sobre a vila samartana.

Mas essa imagem revela algo muito importante sobre nós. Ele significa que nós, aqui embaixo, não estamos perfeitamente alinhados a Ele, lá em cima, e que, por isso, Deus está comprometido com a realização da justiça. São os mártires do Apocalipse de São João que, clamando nos céus, invocam a justiça divina contra a opressora Babilônia e, com isso, provocam a conversão das nações. Deus está contra as injustiças.

Brueggemann, desde uma perspectiva progressista — e portanto tendente a revogar essa concepção pela canetada intelectual do progresso ocidental —, adverte contra o perigo de eliminar esse lado.

Essa imagem aparece no próprio Cristo quando expulsa os vendilhões do Templo de Jerusalém, que haviam profanado o culto inserirem na dinâmica do dom (dar-receber-retribuir) um caráter mercantil, um “covil de ladrões”. O Deus que se zanga com os homens é necessário porque é um Deus que não está conformado aos nossos planos.

Essa imagem, que pode ser instrumentalizado como força opressora, também é poder de libertação.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Caminho do Meio

O diabo é tanto acusador quanto tentador, e nossas lutas com ele devem levar isso em conta. Ele não só nos oferece liberdade para pecar, mas também usa a condenação da lei para nos enfraquecer. Ele nos seduz a cair e nos prende quando caímos.

Ele trabalha nos extremos e nos confunde sobre eles. Quando alguém deixa um extremo, ele trabalha para que aceleremos na direção contrária. Para ele, estarmos tristes demais ou alegres demais são tentações igualmente úteis, ambas capazes de nos cegar. Libertinos e legalistas, o diabo os ama.

Devemos trilhar o caminho do meio com confiança, não ouvindo as vozes de quem nos oferece uma fé mais radical — seja mais radical na liberdade ou no rigor. Liberdade e rigor só fazem sentido em função do amor, da caridade derramada pelo Espírito Santo, na unidade do Corpo de Cristo.

Para quem está com o coração em Deus, até as porretadas do diabo, de um lado e de outro, santificam. Por isso também, como ensina São Gregório Magno, grande parte do ministério pastoral é oferecer o remédio suficiente para levar ao equilíbrio.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Amor e a Morte

Amor é ação e hábito. Quem ama procura o bem e a união com a pessoa amada. Quando paramos de agir, nosso amor morre. Isso é muito visível na maneira como lidamos com as pessoas ao nosso redor, mas não para aí.

Há vários anos, ouvi um importante pregador carismático — vocês não saberão quem é — dizer que não mais amava a sua falecida esposa. Não sei se, enquanto ela ainda vivia, ele chegou a lhe dizer que seu amor era “forte como a morte”. As palavras me pegaram desprevenido, mas, refletindo, percebi que isso fazia perfeito sentido, dentro daquilo que aquele pregador acredita sobre a vida após a morte.

O Novo Testamento recomenda a viuvez sem novo casamento — em 1Co como um conselho a todos os cristãos para maior bem-aventurança, e em 1Tm como uma orientação na seleção de bispos e para a ordem das viúvas, de modo que, em ambos os casos, só seria aceita pessoa que não tivesse casado mais de uma vez. Além de uma demonstração de continência e de entrega ao serviço no reino de Deus, a viuvez era, no mundo antigo, uma forma de honrar a memória da pessoa falecida. Com um novo matrimônio, o cônjuge que partiu não será mais lembrado com a mesma ênfase.

Assim como em vida, também após a morte, se não fazemos nada pela pessoa falecida, se deixamos que seu nome morra, nosso amor por essa pessoa morre também, aos poucos. Então damos o nome de falecidos a lugares (como ruas e instituições), fazemos memoriais públicos (como o do holocausto), usamos fotografias, colocamos estátuas em praças, para lembrar essas pessoas de algum modo, hornando a memória daquela pessoa. “A memória do justo é abençoada, mas o nome dos perversos cai em podridão.” (Pv 10:7)

Nós fazemos essas coisas para não nos perdermos, para não nos perdermos. Pois esquecer é amar menos, e amar menos é se perder.

Então práticas cristãs como lembrar os que faleceram e orar por eles é uma forma de vivenciar o amor — desejando o seu bem e desejando nossa união com eles, o que, no fundo, é a mesma coisa em Deus. Esse sentimento de dever para com os falecidos é tão antigo que, dentro da religião israelita, parece preceder historicamente qualquer noção clara sobre vida após a morte e comunhão dos santos.

Se nós nos impomos restrições sobre a memória deles e a oração por eles, é como proibir o exercício do amor — ele atrofia. O resultado é que com o tempo nós até perdemos a consciência de que os que partiram continuam existindo. É como se, após a morte, cada um de nós se tornasse apenas mais um personagem da imaginação. Você não tem mais o que amar, mesmo. O amor é sepultado.

“…para que Davi, meu servo, tenha sempre uma lâmpada diante de mim em Jerusalém…” (1Rs 11:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino

O que é concupiscência?

O ser humano é uma criatura aberta, criada para a comunhão com Deus.. Do mesmo modo como nossos corpos dependem, para sua subsistência, de um alimento natural que surge fora de nós e que nós não produzimos (com um desejo correspondente), nossa alma depende de uma realidade espiritual que nós também não produzimos.

Essa vida de Deus na alma é necessária para nossa felicidade. Nós fomos criados por Deus com essa vida, em comunhão com Deus — não da maneira mais perfeita possível (pois era perdível e reversível), mas de maneira suficiente para nós naquele momento. O homem pecou e reverteu, rejeitou o dom sobrenatural da graça.

Essa diferença de condições é indicada alegoricamente pela segunda narrativa da Origem (Gn 2–3): o homem é criado da terra (condição inferior, natureza) e então colocado no jardim no Monte de Deus (condição superior, graça); quando come da árvore do conhecimento do bem e do mal, ele é expulso do jardim e retorna à condição inferior, na mortalidade, deixado à suas próprias forças (“Com o suor de teu rosto…“). Ele perdeu parcialmente acesso à condição primeira (“justiça original”), e parte da lógica sacrificial (que já aparece em Gn 4) é o retorno simbólico à Origem.

Essa perda da condição original nos afeta de várias maneiras, como trazendo a mortalidade fatal (o afrouxamento do vínculo entre a alma e o corpo). Nossos desejos precisam dessa comunhão com Deus para serem guiados na direção correta. Note bem: falo de “desejos” (as paixões da alma que nos atraem na direção de certo prazer e satisfação), não de “vontade” (escolha) — são palavras facilmente confundidas no discurso comum.

Sem a comunhão divina, nosso desejos não sabem o orientar corretamente, e acabam buscando, além das coisas necessárias (comida, bebida, respiração, propósito etc), coisas desnecessárias que nos afastam das mais elevadas, ou buscam as coisas necessárias do jeito errado.

Uma palavra comum para designar o desejo é concupiscência (epithumia). “Ela designa qualquer tipo de desejo. Não é uma palavra má em si mesma, embora nós normalmente a usemos quando falamos de desejos desordenados. Em Gl 5:17, lemos que o Espírito/espírito cobiça (epithumei) contra a carne, por exemplo. Quando você sente desejo de beber água porque seu corpo precisa, isso é “concupiscência boa”, ou seja, um desejo bom, necessário e natural. A Bíblia condena a “concupiscência má” (epithumia kakē, Cl 3:5). Esses desejos são, em conjunto, desligados como “membros terrenos” (ta melē ta epi tēs gēs, Cl 3:5), em associação à condição inferior e “animalesca” (como descreveu S. Gregório de Nissa).

Esses desejos apontam nas mais diferentes direções, com graus variados de força. Essa concupiscência não é pecaminosa em si mesma. A concupiscência só poder chamada de “pecaminosa”, ou se dizer que ela tem a natureza do pecado, no sentido analógico de que, através dela, o diabo nós propõe o pecado, que “jaz à porta“. A concupiscência só é pecado quando consumada (Tg 1:14–15). Como Cristo ensina, o adultério interior de um homem acontece quando ele olha uma mulher “para a desejar“, isto é, a concupiscência se une à vontade.

Nessa condição, cada ser humano que vem ao mundo nasce alienado de Deus, sem comunhão com ele, até o momento em que essa comunhão é recebida. O diabo não fica simplesmente olhando. Em razão do pecado, a humanidade se vendeu ao império do diabo.

Aquilo que o NT chama de “carne” (principalmente S. Paulo e S. João) eu gosto de chamar de “coisa-humana”. Não é a natureza humana apenas, mas a natureza humana como coisa dominável. É uma sinédoque (do tipo “pars pro toto”), que se refere à natureza humana, mas com uma ênfase particular. É a natureza humana objetificada, comestível e comprável, por isso o nome “carne” (a humanidade nomeada a partir da sua parte mais baixa).

Essa palavra “carne” designa o ser humano com desejos desordenados e debaixo do império da morte. Ou seja, a tentação interna resulta de nossa própria confusão espiritual (por ausência da comunhão com Deus) e por tentação do Tentador e Sedutor de todo o mundo.

Rev. Gyordano M. Brasilino