Deus odeia alguém?

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E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Lucas 6:32,35

Há alguém que Deus odeie? Costuma-se dizer que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. É uma declaração fácil de se fazer, e parece responder à pergunta. Como o gênero humano, à exceção do Filho de Deus, é formado de pecadores (uns arrependidos, outros não), o amor de Deus pela humanidade tem de ser um amor por pecadores (Rm 5:8), sendo também, contudo, um amor que os transforma. Continue lendo “Deus odeia alguém?”

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Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento

Flagellation of our Lord Jesus Christ - Bourguereau

Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele; ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a face ao que o fere; farte-se de afronta. O Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens. Lamentação 3:27-33

Não é fácil encontrar o lugar da resignação na fé cristã. O próprio Cristo nos parece o modelo máximo de resignação e irresignação. Ele curou cegos, leprosos e paralíticos, libertou possessos, se opôs aos poderes constituídos deste mundo — os líderes judeus e romanos que agiam como títeres das hostes espirituais da maldade —, e elogiou o exemplo de fé de várias pessoas que, não se resignando à doença e ao diabo, procuraram nele cura e libertação. Mas, como um cordeiro mudo, Cristo desceu ao seu suplício, e, mesmo temeroso do sofrimento que teria de padecer, orou entregando-se à vontade do Pai — “não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc. 14:36) —, levando sobre si e expiando a culpa de todos pelo sacrifício de si mesmo, o justo pelos injusto. Continue lendo “Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento”

A Fé Cristã e as Religiões do Mundo

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Em sua morte em 1825, Saint-Simon deixou incompleto um diálogo sobre O Novo Cristianismo, no qual reconstrói a fé cristã segundo as aspirações do Iluminismo, numa proposta não tão diferente da de Kant: a religião se constituiria essencialmente num moralismo da razão pura — uma ética demitizada, burguesa e humanista —, capaz de unir os homens numa nova solidariedade. Diferente de Kant, a proposta do francês não carrega o menosprezo pietista pelo ritual, que acaba aliciado. Continue lendo “A Fé Cristã e as Religiões do Mundo”

Cristo e o Mundo da Inveja

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“Pois ele bem percebia que por inveja os principais sacerdotes lho haviam entregado.” Marcos 15:10

É comum que as descrições da morte de Jesus foquem em dois planos, o histórico e o teológico, cuidadosamente distinguidos e nestorianamente separados. No plano histórico, foi a morte de um profeta galileu, com pretensões messiânicas, após desafiar as autoridades político-religiosas de Jerusalém, padecendo então uma morte de escravo. No plano teológico, Deus entregou seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna, o qual, no seu sangue, realiza a expiação pelos pecados de todo o mundo. Continue lendo “Cristo e o Mundo da Inveja”

Não há salvação sem amor

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No texto anterior deste blog, eu escrevi sobre uma forma simples de conciliar as doutrinas da justificação pela fé e do juízo final segundo as obras, a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas: “fé” e “obras”, nos salvos, sinalizam uma mesma realidade, o amor divino que se entrega gratuitamente a nós e que habita em nós pelo Espírito Santo, de maneira que a fé justificante é uma fé que opera em amor, e as obras julgadas como dignas da vida eterna são também aquelas feitas em amor. Continue lendo “Não há salvação sem amor”

Deus prefere os pobres?

Viúva pobre

Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.
Lucas 6:20,24

Há, de fato, alguns ricos que são justos, humildes e detestam a impiedade; mas eles são poucos. João Calvino, Comentário à Epístola de Tiago

A idéia de que Deus possa preferir alguma pessoa, ou algum grupo de pessoas, é um escândalo para nossa mentalidade igualitária. Atinge, de fato, a nós mesmos — o que fazer se eu não estou entre os preferidos? É inaceitável. Ouvimos dizer que Deus não faz acepção de pessoas, e ao ouvi-lo entendemos que Deus preza a todos igualmente, não despreza a ninguém. Por isso, quando perguntamos se Deus prefere os pobres, a idéia de preferência pode nos chocar, a despeito de quais sejam as nossas intenções quanto a eles mesmo. Continue lendo “Deus prefere os pobres?”

Justiça e Misericórdia

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A ti também, Senhor, pertence a misericórdia;
pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.
Salmos 62:12

Deus é absolutamente simples, sem corpo, partes ou paixões. A essência divina é o que é, nada podendo se lhe acrescentar ou subtrair. Deus nada recebe de suas próprias criaturas; antes, ele mesmo é o Princípio Absoluto de tudo o que há e é — não um ser entre outros, mas o Ser em si mesmo, e, portanto, absolutamente imutável. Enquanto nós, seres humanos, juntamente com todas as criaturas, somos compostos, uma mistura em contínuo fluxo, em integração e desintegração, em presença e ausência, em necessidade e contingência, em ato e potência, Deus é absolutamente puro, absolutamente intocável na Luz Inacessível. Enquanto nós somos nós mesmos e nossas circunstâncias, em Deus não há circunstância: Deus é o que é.

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