Vivam os gregos! Viva Platão!

File:Giovanni Paolo Pannini - Apostle Paul Preaching on the Ruins -  WGA16977.jpg - Wikimedia Commons

Desde Harnack, o desenvolvimento dos dogmas cristãos é interpretado como helenização e corrupção da mentalidade pristina e protocristã, supostamente mais hebraica. Não é difícil encontrar pessoas batalhando contra a influência de categorias gregas tanto na Teologia Sistemática quanto na Teologia Bíblica. Até N. T. Wright é refém desse purismo hebreu. O que Harnack via como degeneração, eu vejo como coisa muito bela, como o avanço do Evangelho para além das (supostas) fronteiras intelectuais de uma nação.

Uma oposição entre o “pensamento grego” e o “pensamento hebreu” é indefensável, herdeira de uma antropologia muito rígida. As muralhas entre os povos são porosas. Afinal, o “pensamento grego” nunca foi uma coisa só. Havia variedade capaz de cobrir tanto a impassibilidade quanto a passibilidade. Os inimigos da helenização se referem principalmente à influência do platonismo e, em alguma medida, à do estoicismo, escolas que, contudo, fazem sentir sua influência já no Novo Testamento, que recebe essas imisções não como o ouro egípcio no Bezerro, mas como o cedro sírio no Templo. O NT não só afirma a salvação para todos os povos, como também é profundamente influenciado pelo pensamento desses povos.

Por outro lado, o “pensamento hebreu”, desde o Antigo Testamento, também era aberto ao emprego de categorias, símbolos e padrões dos povos em redor (canaanitas, egípcios, fenícios, mesopotâmicos), coisa óbvia para quem saiba fazer comparações. Fílon de Alexandria não era um traidor da pátria, mas um autêntico israelita, sem dolo. (É engraçado ver o mesmo tipo de gente dizer que Fílon estava helenizando as Escrituras e que o Logos do Quarto Evangelho é apenas a Sabedoria do AT, sem muita helenização.)

Mesmo Tertuliano, o mais antifilosófico dos antigos, foi um dos principais responsáveis pelo estabelecimento da linguagem teológica da União Hipostática e da Santíssima Trindade, através das noções de pessoa e substância, e também importou categorias do pensamento jurídico romano (como “satisfação”). Também ele afirmava a impassibilidade divina. Assim também, os inimigos do “pensamento grego” estão o tempo todo introduzindo categorias do pensamento ocidental (moderno e pós-moderno) em suas reflexões sobre Deus e sobre a Bíblia. E, a priori, não há nenhum problema nisso! Se cremos na Bíblia e não cremos que a terra é plana, é porque não estamos presos a uma forma de pensamento antiga.

Não é preciso destruir a Beleza do Infinito para apreciar as narrativas das Escrituras. Não há motivo pelo qual o Cristo judeu não possa se manifestar através das línguas do grego, do romano, do chinês, do indiano ou do nigeriano. Todo bom missionário sabe disso. Nossos teólogos, infelizmente, nem sempre são bons missionários. Como no Pentecostes, Deus se mostra capaz de falar nas línguas de todos os povos, não conforme a “mente do hebreu”, mas conforme a Mente do Espírito. Tudo pertence a Cristo.

“Procure Cristo, o Filho de Deus; que era antes do tempo, mas apareceu no tempo; que era invisível por natureza, mas visível na carne; que era impalpável e não podia ser tocado, como se não tivesse um corpo, mas por nossa causa se tornou tal, e podia ser tocado e manuseado no corpo; que era impassível como Deus, mas se tornou passível por nós como homem; e que de todas as maneiras sofreu por nossa causa.” Santo Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo 3:2

Rev. Gyordano M. Brasilino

Você acredita na predestinação sem saber

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Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29

Se você é cristão, provavelmente acredita em alguma forma de predestinação, mesmo que não goste da palavra ou não se dê conta. Com isso, quero dizer que certa forma de predestinação está implícita na crença, compartilhada por todos os cristãos, de que Deus criou (e sustenta) o Universo, e que ele sabe de todas as coisas, inclusive o futuro de sua própria Criação. Continue lendo “Você acredita na predestinação sem saber”

A Beleza está nos olhos de Deus

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Observava nas belezas o Belíssimo e, pelos vestígios impressos nas coisas, perseguia por toda parte o Amado, fazendo de tudo uma escada para si, para subir à apreensão daquele que é todo desejável. — São Boaventura, Legenda Maior Sancti Francisci, IX, 1, 7

A beleza do mundo consiste inteiramente de doces consonâncias mútuas, quer dentro dele mesmo, quer com o ser supremo. Quanto ao mundo corpóreo, embora haja muitas outras formas de consonâncias, ainda assim a sua beleza mais doce e mais encantadora é sua semelhança com as belezas espirituais. A razão é que as belezas espirituais são infinitamente as maiores, e, não sendo os corpos senão sombras de seres, eles são tão mais encantadores quanto mais espelham as belezas espirituais. Essa beleza é peculiar às coisas naturais, ultrapassando a arte dos homens. Jonathan Edwards, A Beleza do Mundo

A modernidade torna o homem a medida de todas as coisas, o centro mesmo do universo. Colocado em um trono que não deveria ocupar e para o qual jamais estaria preparado, de fato um trono ilusório, o homem é incapaz de dar sentido a si mesmo e ao que o cerca, de colocar todas as coisas em uma ordem consistente; a nossa modernidade não é líquida, mas flácida. Privado de Deus e de todos os valores mais altos, o homem se vê também privado de sua própria alma, se vê reduzido a uma máquina, pronta para encarnar quaisquer diferentes finalidades de quem a controla. Continue lendo “A Beleza está nos olhos de Deus”

A Simplicidade Divina Absoluta

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“Pois assim como Deus é o Ser infinitamente maior, assim também concordamos que ele é infinitamente o mais belo e excelente: toda a beleza por toda a parte da criação é somente o reflexo dos feixes difusos daquele Ser infinitamente brilhante e glorioso.” Jonathan Edwards, The Nature of True Virtue

“Nuvens e escuridão o rodeiam…” Salmo 97:2

Nada há de concreto neste mundo que sejamos realmente capazes de compreender. Os detalhes e minúcias dos menores fragmentos do mundo escapam da nossa sutileza, a grandeza do Universo excede nossa visão. De fato, não entendemos plenamente nem a nós mesmos, e quase nada dos nossos semelhantes. Continue lendo “A Simplicidade Divina Absoluta”

A Fé Cristã e as Religiões do Mundo

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Em sua morte em 1825, Saint-Simon deixou incompleto um diálogo sobre O Novo Cristianismo, no qual reconstrói a fé cristã segundo as aspirações do Iluminismo, numa proposta não tão diferente da de Kant: a religião se constituiria essencialmente num moralismo da razão pura — uma ética demitizada, burguesa e humanista —, capaz de unir os homens numa nova solidariedade. Diferente de Kant, a proposta do francês não carrega o menosprezo pietista pelo ritual, que acaba aliciado. Continue lendo “A Fé Cristã e as Religiões do Mundo”

O platonismo do Novo Testamento

Platão

Desde Harnack, uma tese tem sido bastante comum entre teólogos protestantes, conscientemente ou não. Trata-se da noção de que a teologia cristã se desenvolveu por helenização do pensamento hebreu de Jesus e dos apóstolos, e de que isso seria um crime contra as origens. Essa concepção de Harnack expressa um tipo de narrativa puritana preocupada com a “origem imaculada” e a posterior “degeneração” da fé cristã, uma visão trágica do desenvolvimento histórico do Cristianismo inteiramente diferente daquela que Jesus pensou na Parábola do Grão de Mostarda. A helenização às vezes recebe o nome de (neo)platonismo, o grande vilão. Continue lendo “O platonismo do Novo Testamento”

C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron

C S Lewis

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.  Filipenses 4:8

A vontade de Deus é central para o modo como os cristãos encaram o sentido último de todas as coisas. Na Oração, o Filho de Deus ensinou os homens a pedir ao Pai Celeste dizendo que “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, não muito diferente do que pediria no seu sofrimento: “não seja como eu quero, mas como tu queres”. Com isso não convencemos Deus a fazer Sua vontade, como se de outro modo Ele não a fizesse — Ele a fará —, mas apenas nos colocamos diante do mistério que ela encerra e a aceitamos com resignação e com fé, seja qual for. Pois, seja qual for, a vontade de Deus será sempre boa, ainda que vivenciá-la como boa exija a renovação da nossa própria mente.  A oração cristã, por si mesma, exige fé na bondade absoluta da vontade de Deus. Continue lendo “C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron”

O Mistério de Deus

Paradiso

La gloria di colui che tutto move
Per l’universo penetra, e risplende
in una parte più e meno altrove.
(Paradiso, Canto Primo)

Deus é o mistério maior. Não há qualquer mistério que não encontre em Deus sua resposta — assim como sua pergunta —, mas que resposta misteriosa! A Escritura nos diz que [o]s céus declaram a glória de Deus” (Sl. 19:1), mas nós os compreendemos? Continue lendo “O Mistério de Deus”

Amor Impassível

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“Confiai no Senhor perpetuamente;
porque o Senhor Deus é uma rocha eterna.”
(Isaías 26:4)

Deus não muda. Por toda eternidade, desde sempre e para sempre, Deus é o mesmo. Nada há que o possa mover em qualquer direção. Não obstante, quando olhamos para o Gólgota, não vemos essa impassibilidade; vemos o Deus Crucificado que, entre o sangue e o vinagre, sofre injustamente nas mãos dos que o laceravam. Seria isso mesmo possível? Continue lendo “Amor Impassível”