A Santíssima Trindade | Resumão

– É a doutrina mais importante da religião cristã.

– A doutrina da Trindade pode ser demonstrada usando a Bíblia, mas não está toda explícita.

– Uma mesma essência divina, três pessoas consubstanciais (Fórmula Capadócia). Não confundir as pessoas, nem separar a essência (natureza divina).

– Não são três partes de Deus. Cada pessoa é a natureza divina inteira.

– O Pai é ingerado e o princípio eterno da divindade. O Filho é gerado eternamente do Pai. O Espírito procede do Pai através do Filho. Essas relações (paternidade, filiação, processão) distinguem as pessoas incriadas. Sem isso, a doutrina colapsa no modalismo.

– Na Trindade, há uma só essência, uma só divindade, um só poder, uma só vontade, uma só energia, um único princípio, uma única autoridade, um único domínio, uma única soberania. Não há subordinação eterna na Trindade.

– A palavra “pessoa” equivale a “hipóstase” ou “subsistência”. Tem sentido metafísico. Não faz referência à psicologia da pessoa humana. Não há três mentes independentes em Deus, mas uma mente infinita (sem prejuízo da Encarnação), que é predicada de cada pessoa.

– A Trindade Imanente (Ontológica) indica quem e o que Deus é. A Trindade Econômica é como Deus age e se revela às criaturas, particularmente na criação e na redenção. Em razão disso, certas atividades e predicados, mesmo pertencendo aos três, são mais apropriadas a uma das pessoas.

– Há várias analogias úteis para a Trindade. Mas nenhuma criatura é exatamente como a Trindade.

– As pessoas da Trindade são coinerentes e inseparáveis; suas obras exteriores são indivisíveis. Opera trinitatis ad extra indivisa sunt.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O senso de indignação salvará a Substituição Penal?



Ontem uma pessoa me trouxe uma pergunta-objeção de que eu gostei muito. Eu afirmo que Deus perdoa sem exigir punição, isto é, que Deus perdoa de fato perdoando, não num perdão fictício através de punição. A objeção foi a seguinte:

Imagine-se que alguém mata toda a minha família e agora estamos diante do juiz. O juiz chega à conclusão de que aquela pessoa realmente cometeu o assassinato, mas diz: “eu sou um juiz bondoso, e, por isso, vou perdoar o assassino.” Como eu me sentirei? Indignado, com certeza. Com isso, se quer dizer que o perdão não pode eliminar a punição. O senso de indignação seria um sinal da condição moral do comportamento do juiz em perdoar sem punir.

A pessoa que trouxe essa objeção disse que a ela foi posta por um pregador americano bastante popular. Por uma questão de ética, não direi que o pregador é Paulo Lavador.

Eu devo confessar que gosto muito dessa objeção, por um motivo óbvio: ela não é uma objeção bíblica. O que se tenta provar não pode ser fundamentado nas Escrituras, e o objetor (conscientemente ou não) sai do terreno bíblico para o da lei natural e do senso moral. Calvino faz mais ou menos o mesmo nas Institutas, apelando para a consciência incapaz de aceitar perdão sem punição (e isso abre uma janela interessante para os problemas de consciência do próprio Calvino). Eu não tenho nenhum problema com argumentar a partir da lei natural — parte da ética cristã depende de certos juízos não bíblicos —, mas quem coloca essa objeção precisa reconhecer que saímos do terreno bíblico.

O senso de indignação diante da situação inicial é, ao menos em parte, uma coisa importante. Envolve uma busca pela justiça, e a justiça envolve que o mal seja reconhecido. Se, diante do mal, nada acontece, não há diferença entre o mal e o bem.

Como eu responderia a essa objeção? De dois modos:

Primeiro, eu faria a seguinte proposta: vamos aplicar a Substituição Penal a essa situação, e vejamos o que acontece. Imagine-se que, na mesma situação, o juiz diz algo diferente: “realmente ele cometeu esse crime terrível, mas vou permitir que outra pessoa, um inocente, sofra a punição, enquanto ele pode sair ileso”. Como nos sentiremos nessa situação? Será que o senso de indignação ficou satisfeito? Na verdade, se formos pessoas moralmente sensatas, e não apenas preocupadas com nossa própria família, a nossa indignação agora triplicou: primeiro, porque o problema inicial não foi resolvido; segundo, porque agora ele está ainda mais longe de ser resolvido; terceiro, porque um inocente vai sofrer, sem culpa.

Então, em vez de solucionar o problema, a Substituição Penal o agrava. E, diferentemente da experiência imaginativa inicial, nesse caso podemos provar, a partir das Escrituras, a infâmia que é atribuir ao Justo Juiz a punição do inocente.

Segundo, ainda resta a situação colocada. Como eu a resolveria?

Nosso senso de indignação tem, em grande parte, a ver com um valor imenso (a vida) que foi perdido irremediavelmente. Não temos o mesmo senso de indignação com uma obra de arte destruída (mesmo que não possa ser reconstruída). Temos uma indignação ainda menor com a destruição de um objeto que pode ser restituído.

Então, mudando um pouco a situação, imagine que um ladrão, arrependido, devolve o que roubou e paga uma multa (já que o apenas devolver não resolve a situação). Numa situação assim, ninguém dirá que ele precisa receber punição total, ou que alguém precisa receber no lugar dele. O senso de indignação fica satisfeito, porque o ladrão foi capaz de fazer certa restituição. Nessa situação, ele não precisa ser punido (preso, mutilado, morto etc.), apenas restaurar o que foi destruído, mediante um arrependimento genuíno (que não somos capazes de julgar com perfeição).

Nós temos um senso de indignação violado porque perdemos nossa família e não há como a recuperar. Mas se fosse possível fazê-lo (e para Deus é possível), não seria uma indignação tão grande. No caso da vida, a justiça humana não é capaz de aplicar nada semelhante, porque a vida não pode ser restituída. Mas na justiça de Deus, ela pode, sim. Não há nada que Deus não possa restituir, restaurar, reparar e compensar, vindicando as vítimas. O poder restaurativo da justiça divina acrescenta uma dimensão importante a qualquer necessidade de retribuição.

Mas é importante observar que, para Deus, esse tipo de problema simplesmente não existe, porque, embora nós percamos, Deus não perde nada. Não pode haver para Deus *o mesmo* senso de indignação que há para nós. Se é uma ofensa a Deus, ele pode sim simplesmente retirar a queixa, já que Deus nunca perde nada. Ele é o juiz e não precisa prestar contas.

Na verdade, essa é a diferença entre Deus e o homem. Veja o que a Bíblia diz: “Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.” (Oséias 11:9)

É aí que está a diferença entre Deus e o homem, justamente a capacidade de perdoar com liberdade. Ele é Deus e não homem. É por isso que ele progressivamente ensina o seu povo a fazer o mesmo. A não procurar vingança, a oferecer a outra face.

O melhor juiz não é o que faz a aplicação inflexível da lei, mas o que promove a realização da justiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Princípios Protestantes, na versão equilibrada.

Texto originalmente publicado em 27 de fevereiro de 2019, na minha página do Facebook.

A Reforma Protestante costuma ser explicada a partir de alguns princípios, mas há sempre uma forma radical e uma forma equilibrada de tratar esses princípios.

SOLA FIDE
Forma Equilibrada — A salvação é somente por meio da fé em Cristo. Essa fé salvífica é uma fé viva e frutífera, que opera em amor, não uma fé morta.
Forma Radical — A salvação é somente por meio da fé em Cristo, e essa fé não tem qualquer relação com as obras. Não há qualquer necessidade de busca da santidade de vida (antinomismo).

SOLA GRATIA
Forma Equilibrada — Do começo ao fim, a salvação resulta da graça de Deus, pelos méritos de Cristo, que se tornam nossos de muitas maneiras (meios de graça, especialmente os sacramentos).
Forma Radical — Do começo ao fim, a salvação resulta da graça de Deus, e essa graça não está ligada a nada, sendo totalmente invisível e conhecida apenas internamente.

SOLA SCRIPTURA
Forma Equilibrada — Todos os artigos da fé cristã estão explícitos ou implícitos nas Escrituras Sagradas, havendo um papel fundamental na Tradição como preservação do sentido correto dessas Escrituras. Cada cristão pode fazer o livre exame dessas Escrituras, respeitando o papel histórico da Igreja como sua guardiã.
Forma Radical — Todas as verdades da fé cristã devem estar explícitas nas Escrituras Sagradas. Não há lugar para credos ou tradições (Solo Scriptura), portanto cada cristão é livre para interpretar as Escrituras.

SOLO CHRISTO
Forma Equilibrada — Cristo é o único caminho de salvação, e ele vem a nós através do seu corpo, cuja missão espiritual é não apenas falar sobre Cristo, mas realmente levar Cristo às pessoas.
Forma Radical — Cristo é o único caminho, portanto a Igreja é dispensável e desnecessária para a salvação.

SOLI DEO GLORIA
Forma Equilibrada — Toda a glória deve ser dada a Deus, e devemos honrar aqueles que nos precederam na fé e nos deixaram (em doutrina e em vida) exemplos de fé fundamentais para a nossa santificação. Maria é a mãe de Deus, bendita entre as mulheres.
Forma Radical — Toda a glória deve ser dada a Deus, portanto nenhuma outra pessoa deve ser digna de honra ou pode servir de exemplo. Maria foi uma mulher comum.

SACERDÓCIO UNIVERSAL
Forma Equilibrada — Cada cristão é vocacionado por Deus a exercer um sacerdócio com sacrifícios espirituais (oração, jejum, obras de misericórdia), testemunhar do nome de Cristo, intercedendo por outras pessoas. Os ministros do evangelho são pais espirituais.
Forma Radical — Todo cristão tem autoridade total para exercer1 qualquer ministério. Nenhum dom específico é concedido por Deus a certas pessoas para exercerem ministério do evangelho. Os ministros do evangelho são só professores.

O radicalismo é uma disjunção entre:
– Fé e Obras
– Graça e Sinal
– Escritura e Tradição
– Cristo e Igreja
– Adoração e Comunhão dos Santos
– Sacerdócio e Pastorado

O espírito católico protestante é o da unidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

10 coisas que você deve saber sobre anjos

1. Anjos são espíritos poderosos.

Não devemos permitir que as representações mais comuns dos anjos, semelhantes a seres humanos alados, nos confundam. Eles podem mesmo aparecer assim, mas são espíritos, não criaturas com corpos humanoides. A Escritura ensina que os anjos são “espíritos ministradores” (cf. Hb 1:14; Sl 104:4), usando uma expressão (leitourgika pneumata) que pode ser entendida como “espíritos ministeriais”, “espíritos servos” ou mesmo “espíritos litúrgicos”.

Os anjos são “valorosos em poder” (Sl 103:20). Embora nós os vejamos normalmente apenas trazendo coisas de Deus aos homens (e dos homens a Deus), como profetas, na verdade eles são criaturas poderosas. A Escritura alude a isso quando indica que são maiores em poder do que as autoridades humanas (2Pe 2:11) e quando fala da vinda de Cristo com “anjos do seu poder” (2Ts 1:7), isto é, seus anjos poderosos. Em Ap 18:1, uma anjo de grande poder ilumina a terra com sua glória. Os títulos que os anjos recebem, como veremos, sugerem em geral essa posição de poder. Seu poder inclui a capacidade de decidir e decretar conjuntamente sobre os acontecimentos deste mundo (Dn 4:17). Ademais, certos textos bíblicos parecem indicar um poder dos anjos sobre as estrelas ou mesmo uma identificação com elas (Jz 5:20; Jó 38:7; Mc 13:25; Ap 1:20); por esse motivo, tanto os anjos como as próprias estrelas são chamadas de “exércitos dos céus”.

Em razão desse poder, anjos são vistos trazendo juízos em muitas partes da Escritura, como na morte do Rei Herodes (At 12:23) e, várias vezes, no Apocalipse. Como criaturas, o poder dos anjos é limitado. Não são invencíveis (Dn 10:12-13).

2. Os anjos recebem vários outros nomes na Bíblia.

O próprio nome “anjo” significa, tanto em hebraico como em grego, “mensageiro”; por isso, a rigor, nem todos esses espíritos são anjos, embora seja tradicional (e mesmo presente nas Escrituras) usar esse nome para todos eles. Como mensageiros, são vistos falando com pessoas, trazendo mensagens e esclarecimentos, até em sonhos, como nas narrativas da Natividade (em Mateus e Lucas), na história de Daniel e em outros lugares. Eles também são chamados de anjos de Deus (Lc 12:8), santos (Dn 33:2; Sl 89:5,7; Zc 14:5; Jd 14) ou santos anjos (Lc 9:26), vigilantes (ʿîrîn, Dn 4:13,17,23), exércitos dos céus (Sl 148:2; Lc 2:13), filhos de Deus, do Altíssimo ou do Poderoso (Jó 1:6; 2:1; 38:7; Sl 29:1; 82:6; 89:6).

Alguns anjos são nomeados individualmente na Bíblia. O livro do profeta Daniel menciona dois anjos: Miguel (Dn 10:13,21; 12:1) e Gabriel (Dn 8:16; 9:21), nomes repetidos no Novo Testamento. Adicionalmente, a literatura deuterocanônica menciona Rafael (em Tobias) e Uriel (em IV Esdras), dentre outros anjos conhecidos no judaísmo da época. Esses quatro anjos às vezes são ligados simbolicamente com os quatro pontos cardeais (cf. Mc 13:27; Ap 7:1-2), e adquiriram certa importância na tradição judaica, como os quatro anjos que cercam o trono de Deus.

3. Os anjos são inúmeros.

A Escritura não tenta nos dar o número dos anjos, quando eles aparecem em multidão; ao contrário, ela provoca a impressão de que são incontáveis. Ela nos fala de “miríades de santos” (Dt 33:2), “miríades de anjos” (Hb 12:22), “miríades de miríades” (Dn 7:10; Ap 5:11), “milhares de milhares” (Dn 7:10; Ap 5:11), “multidão” (Lc 2:13). O mais próximo de uma contagem são “doze legiões de anjos” (Mt 26:53), o que não é, de fato, uma contagem. A referência às doze legiões pode sugerir uma organização militar.

4. Os anjos têm aparências variadas, até assustadoras.

Nas várias descrições de serafins, querubins e outros anjos, nós os vemos, nas Escrituras, com números variados de olhos, asas e rostos, e manifestando sua glória em fogo, luz e eletricidade, eventualmente usando vestes de simbolismo sacerdotal (Ap 15:6; cf. Dn 10:5). Por isso, certas vezes aparência é descrita como muito assustadora (Jz 13:6), causando temor nas pessoas em redor (cf. Dn 8:17; Lc 2:9). Em certos momentos, eles aparecem como seres humanos, difíceis de identificar (Hb 13:2). Também são velozes (Dn 9:21; Ap 14:6). Essas diferentes descrições parecem indicar distinções entre os anjos em si e no modo como cada um pode aparecer.

5. Os anjos têm sua própria hierarquia.

Tais diferenças de condição, poder ou função entre os anjos aparecem de vários modos nas Escrituras. Assim, lemos em Ap 12:7 sobre “Miguel e os seus anjos”, o que, por ele ser um arcanjo, parece indicar uma posição de autoridade e comando sobre outros anjos (batalhando contra “o dragão e os seus anjos”; cf. Mt 25:41).

O Novo Testamento coloca, em vários textos, certos “agrupamentos” de anjos, o que parece indicar certas distinções entre eles. São ao menos nove tipos: anjos/mensageiros (gr. angeloi, 1Pe 3:22), principados (gr. archai, Rm 8:38), potestades/poderes/autoridades (gr. exousiai, Ef 1:21; 1Pe 3:22), tronos (gr. thronoi, Cl 1:16; 1Pe 3:21-22), dominações/senhorios (gr. kyriotēta, Ef 1:21; Cl 1:16; 2Pe 2:10; Jd 8; provavelmente os kyrioi em 1Co 8:5), virtudes (gr. dynameis, Rm 8:38; Ef 1:21; 1Pe 3:22), querubins (heb. kərūvîm, Gn 3:24; Ez 10:12-14), serafins (heb. śərāfîm, Is 6:1-7) e arcanjos (gr. archangeloi; 1Ts 4:16; Jd 9). Esse nove grupos foram identificados em diversas obras patrísticas, particularmente a Hierarquia Celeste atribuída a Dionísio, o Areopagita.

No Novo Testamento, Miguel é um arcanjo. Como Cristo virá “com voz de arcanjo” (1Ts 4:16), o que parece indicar que “arcanjo” é um grupo com traços em comum, e ademais o arcanjo Miguel é chamado de “um dos primeiros príncipes” (śārîm hariʾšonîm, Dn 10:13; śar haggādôl, Dn 12:1), a Escritura parece indicar a existência de vários arcanjos. De fato, essa era a crença comum no período do Novo Testamento. Os “sete espíritos” do Apocalipse (1:4; 3:1; 4:5; 5:6), que “estão diante do seu trono” (de Deus) e “enviados a toda a terra”, ecoando as sete lâmpadas de Zc 4:2,10, devem corresponder a: “Eu sou Rafael, um dos sete anjos que assistimos na presença do Senhor…” (Tb 12:15) e “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus…” (Lc 1:19). Outro texto que deve se referir a eles é Ap 8:2: “E vi os sete anjos, que estavam diante de Deus…”. A literatura apócrifa anterior ao Novo Testamento, particularmente o Livro de Enoque, menciona esses sete anjos (arcanjos), nomeando entre eles os quatro anjos mencionados acima (Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel).

6. Eles são enviados a serviço do povo de Deus.

Segundo as Escrituras (Hb 1:14), os anjos são enviados a serviço (eis diakonian) dos que herdarão a salvação. Eles são obedientes à voz de Deus (Sl 103:20; Mt 6:10). Uma coisa que eles fazem, em Lc 16:22, é conduzir a alma (dos justos?) após a morte (psicopompo); semelhantemente, eles selecionam os eleitos (Mc 13:27), pois participam da vinda escatológica (Mc 8:38).

Essas coisas se conectam ao serviço mais óbvio dos anjos, que é a proteção. Desde o Antigo Testamento, como vemos no Sl 91:11-12 (cântico de batalha espiritual contra diversos espíritos), já havia a crença no papel protetor dos anjos em relação ao povo de Deus (cf. Êx 23:20; Sl 34:7). Não aparece ali muito claramente a ideia de que eles são guardiões individuais, exceto possivelmente em Gn 48:16, quando Jacó abençoa os filhos de José (Efraim e Manassés) através desse anjo que o redimiu/guardou. Enquanto Jacó abençoa através do anjo, 1Tm 5:21 conjura diante dos anjos. Essa noção de proteção mais individualizada parece ser indicada (ou ao menos possibilitada) no Novo Testamento, ao falar dos anjos que cuidam das crianças (“os seus anjos”, Mt 18:10) e do anjo que cuidava de Pedro (“o seu anjo”, At 12:15). É possível que os doze anjos de Ap 21:12 sejam guardiões das doze tribos de Israel. Esse tipo de crença era disseminada no mundo antigo, para muito além das fronteiras da religião israelita.

Um papel histórico dos anjos foi o de dar ao povo de Israel a lei divina (Dt 33:2; At 7:53; Gl 3:19). A ligação dos anjos com a Lei é tão importante que essa lei é chamada “palavra dos anjos” (Hb 2:2).

Outro serviço claro prestado pelos anjos é a oração intercessória e a própria elevação das orações dos santos a Deus, indicada em alguns textos do Novo Testamento. Vemos em Zc 1:12-13 um anjo intercedendo a Deus por Jerusalém; no mesmo livro (3:1-5), uma intercessão (no Concílio Divino) por Josué. Em Apocalipse 5:8; 8:3-4 vemos que as criaturas celestiais têm nas mãos as orações dos santos e as elevam a Deus através de incensários. Essa participação ativa dos anjos na vida de oração do povo de Deus era conhecida do judaísmo anterior ao Novo Testamento; o Livro de Enoque (8:3-9:1) fala do momento em que os quatro arcanjos ouvem as orações dos que estavam morrendo. Assim, novamente como profetas, eles trazem mensagens de Deus aos homens e levam as orações dos homens a Deus.

7. Eles têm (ao menos alguns) autoridade regional.

No livro de Daniel, por exemplo, a Pérsia e Israel estão ligados ao domínio de anjos distintos (Dn 10:13,20; 12:1), sendo Miguel o guardião de Israel. Essa autoridade pode incluir também coisas como o fogo (em Ap 14:18). Mas o mundo vindouro não foi sujeito a eles (Hb 2:5). Eles serão julgados pelos salvos (1Co 6:2-3).

8. Eles e nós prestamos um mesmo culto a Deus.

Não deve causar espanto saber que os anjos adoram a Deus (Ne 9:6; Hb 1:6; Ap 4:8). Mas a adoração que eles prestam a Deus está intimamente ligada ao nosso culto. No livro de Apocalipse, após a ascensão do Cordeiro e abertura do Livro da Vida, inicia-se uma adoração (Novo Cântico) que começa nos Vinte e Quatro Anciãos, é respondida por um número incontável de anjos e depois repercute por toda a Criação (Ap 5:6-14), ou seja, uma liturgia inaugurada em Cristo que atinge todas as criaturas, passando pelos seres celestes.

Essa linda imagem aparece em Hb 12. Depois de falar do terror causado nos momentos marcantes da antiga aliança, diante do monte Sinai/Horebe, o que fazia até mesmo Moisés tremer (12:18-21), a Escritura nos ensina sobre como nós, diferentes dos antigos, chegamos ao monte Sião e à Jerusalém Celestial, com todos os seus habitantes (miríades de anjos, espíritos dos justos aperfeiçoados), a Deus, a Cristo, a uma assembleia festiva, panēgyris (Hb 12:21-24). Noutras palavras: nós já estamos participando da celebração celestial. Tendo essas coisas em mente, é fácil entender por que, em 1Co 11:10, a mulher que ora deve usar o véu “por causa dos anjos” (1Co 11:10). Estamos na presença terribilíssima de poderes muito maiores do que nós.

Isso tudo é natural, pois o Santuário no Antigo Testamento era um lugar de anjos/querubins — daí as várias representações de querubins no Tabernáculo/Templo, daí também o sonho de Jacó em Gn 28:12,16-17 quanto a Betel (cf. Ec 5:1-6) —, e a Igreja é, no Novo Testamento, o Santuário de Deus. Assim, através de Cristo, estamos efetivamente nas regiões celestiais (Ef 2:6), o que exige um pensamento correspondente às coisas celestiais (Cl 3:1). Em três salmos diversos (Sl 29:1; 103:20-21; 148:2-3), os anjos são convocados pelos homens, no antigo culto israelita, a bendizer ao Senhor, isto é, são chamados a adorar, o que é coerente com a presença deles no Templo. Cultuamos a Deus “na presença dos poderosos” (cf. Sl 138:1-2). Todas essas noções se refletiram de vários modos na liturgia cristã posterior; o Sanctus da liturgia cristã — baseado em parte nos cânticos angélicos (Is 6:2-3; Ap 4:8) somados às aclamações na entrada triunfal da Jerusalém terrena (Mt 21:9; cf. Lc 2:14) —, recorda mais vividamente, na liturgia anglicana, o modo como glorificamos a Deus “com anjos e arcanjos, e com toda a multidão celestial”:

Santo, Santo, Santo
Senhor Deus Todo-Poderoso,
Os céus e a terra estão cheios da tua glória.
Hosana nas alturas.
Bendito o que vem em nome do Senhor.
Hosana nas alturas.

Assim, é natural que Paulo fale não só diante do Pai e de Cristo, mas também diante dos anjos (1Tm 5:21). Estamos diante dos anjos.

9. Ele nos observam com expectativa.

Se a relação dos anjos com o culto terreno é tão íntima, então eles estão muito perto de nós. Os textos bíblicos indicam de vários modos que os anjos nos acompanham e contemplam os acontecimentos deste mundo, particularmente a Igreja. Se eles são chamados de “vigilantes”, e tomam decisões que nos afetam, como não seria assim? Eles nos vigiam. Se Satanás e os demônios nos cercam e observam, como seria diverso com os anjos de Deus?

O apóstolo Paulo fala do sofrimento apostólico sendo contemplado, por anjos e homens, como num espetáculo (gr. theatron, 1Co 4:9). Provavelmente as palavras do Senhor sobre a alegria celestial diante da conversão dos homens (Lc 15:7,10) têm esse mesmo sentido. Eles contemplavam com alegria a criação do mundo (Jó 38:7). Vemos nos últimos textos textos a alegria dos anjos pela criação e pela redenção. Entre os anjos há alegria, portanto eles conhecem um análogo das emoções humanas.

10. Há anjos pecadores aprisionados.

O Novo Testamento menciona a queda e aprisionamento dos anjos pecadores (2Pe 2:4; Jd 6). A Escritura não narra esse acontecimento, a queda desses anjos, embora algumas pessoas detectem alusões a isso nas profecias contra o rei da Babilônia (Is 14) e contra o rei de Tiro (Ez 28), e noutras partes. Os textos de 2Pedro e Judas aludem conjuntamente a uma narrativa bem conhecida na época, registrada no Livro de Enoque (apócrifo). Esses anjos caídos não devem ser confundidos com os demônios que circulam neste mundo.

Esqueça os bebês rechonchudos das pinturas e esculturas do Renascimento. Os anjos são bem mais interessantes.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Ascensão do Amor: a fé das crianças e a oração dos animais

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Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos. Apocalipse 5:13

O que significam tantos trechos das Escrituras Sagradas que falam da adoração que as criaturas todas, não só anjos e homens, prestam ao Criador?  O Salmo 148 foi composto como um convite a essa adoração universal ao Criador, da qual os astros e as menores criaturas terrenas participam, e diversos outros textos incorporam o mesmo espírito. O Cântico das Criaturas, de São Francisco, está em nobre companhia.
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Oito erros que teólogos cometem

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  1. Doutrinarismo

O doutrinarismo reduz o cristianismo a um sistema de afirmações (“doutrinas”) corretas. A preocupação principal é saber se as pessoas acreditam nessas afirmações ou não. Os cristãos verdadeiros são os que acreditam nelas. Num caso mais extremo, a própria Escritura é reduzida a um sistema de proposições verdadeiras. É claro que a Escritura e (conseqüentemente) o cristianismo contêm proposições “verdadeiras” (na realidade, contêm juízos verdadeiros), mas nenhum dos dois se limita, de qualquer maneira, à dimensão doutrinal ou proposicional. A tendência do doutrinário, consciente ou não, é atribuir o primeiro lugar à Teologia Sistemática e interpretar a Escritura a partir dela. O doutrinarismo é um tipo de racionalismo da fé, em que tudo se rende ao sistema. Continue lendo “Oito erros que teólogos cometem”