Sem amor, a fé não salva. Todos concordam.

Porque, em Cristo Jesus,
nem a circuncisão,
nem a incircuncisão
têm valor algum,
mas a fé que atua pelo amor.

Gálatas 5:6

Esse é, decididamente, um dos meus textos favoritos de toda a Bíblia. É surpreendente notar, no entanto, o quanto esse versículo foi usado pelos cristãos das mais diversas tradições para esclarecer o significado da fé salvadora. Historicamente, esse texto foi usando para explicar também a distinção entre fé morta e fé viva em Tiago 2: a fé viva seria precisamente “a fé que atua pelo amor” (portanto uma fé que tem obras e amor); a fé morta seria a fé sem obras, demoníaca, marcada pelo mero temor (servil). Essa associação entre Gálatas 5 e Tiago 2 é o que eu chamo de “solução agostiniana” para a tensão textual entre Paulo e Tiago. É muito difícil encontrar alguma solução que não passe por ela em algum momento.

Enquanto falamos de fé ou de obras na salvação, parece que falamos de coisas diferentes; quando, no entanto, usamos essas palavras de Paulo para explicar com maior precisão o papel da fé na salvação, todos nós, partindo de perspectivas diferentes, caminhamos na direção de um mesmo equilíbrio. É parte do “mínimo ecumênico” da nossa soteriologia: a crença de que a fé justificante, a fé viva, é fé que opera pelo amor. Só vive pela fé quem vive pela fé viva.

Alguns exemplos (com ênfases diferentes):

“Depois de concluir que a fé está em nosso poder, visto que, quando alguém quer, vem a crer e, quando crê, crê por sua vontade, é mister investigar, ou melhor, recordar a que fé o Apóstolo se refere com tanta combatividade. (…) Esta é a fé pela qual se salvam aqueles a quem diz: ‘Pela graça sois salvos’ (…) Finalmente, esta é a fé que age pela caridade, não por temor, não temendo o castigo, mas amando a justiça.”
Santo Agostinho, O Espírito e a Letra, XXXII, 55, 57

“Assim ele diz ‘Pois em Cristo Jesus‘, isto é, naqueles que vivem na fé em Cristo, ‘nem a circuncisão nem a incircuncisão servem de nada‘, isto é, não fazem diferença, ‘mas a fé‘, não informe, mas o tipo ‘que opera pela caridade‘: ‘a fé sem obras é morta‘. Pois a fé é um conhecimento da palavra de Deus — ‘Que Cristo habite em vossos corações pela fé‘ — palavra que não é perfeitamente possuída ou perfeitamente conhecida a menos que seja possuído o amor pelo qual ela espera.”
São Tomás de Aquino, Comentário a Gálatas 5:6

“A fé deve, é claro, ser sincera. Deve ser uma fé que realiza boas obras através do amor. Se à fé falta o amor, ela não é fé verdadeira. (…) A fé ociosa não é fé justificante.”
Lutero, Comentário a Gálatas 5:6

“Portanto a fé que verdadeiramente justifica é aquela fé que opera através do amor.”
Colóquio de Ratisbona (Martin Bucer), Art V

“Porque a fé nem une perfeitamente com Cristo, nem faz membro vivo de seu corpo, se não se lhe ajuntarem a esperança e a caridade. Daí a razão de se dizer com toda a verdade: a fé, sem obras, é morta (Tgo 2, 17 ss) e ociosa [cân. 19]; e em Jesus Cristo nem a circuncisão nem o prepúcio valem coisa alguma, mas a fé que obra pela caridade (Gal 5, 6; 6, 15).”
Concílio de Trento, Sexta Sessão

“Essa fé morta portanto não é a fé certa e substancial que salva os pecadores. Há outra fé nas Escrituras, que não é (como a referida fé) ociosa, infrutífera e morta, mas que opera pela caridade (como São Paulo declara, Gálatas 5:6). De modo que, assim como a outra fé vã é chamada fé morta, assim também esta é chamada fé viva e vivaz.”
Primeiro Livro de Homilias (Igreja Anglicana), Homilia IV (Da fé verdadeira e viva)

“De modo que, embora a fé conduza o caminho da nossa justificação, ainda assim a santidade de vida manifestada nas obras de caridade, assim como todos os outros atos da vida piedosa, devem abrir para nós as portas do céu e conseguir para nós a entrada na mesma, como é evidente em São Mateus 25:34-41.”
Rev. Peter Heylyn, The Doctrine and Discipline of the English Church

“A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e na justiça dele, é o único instrumento de justificação; ela, contudo não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as outras graças salvadoras; não é uma fé morta, mas obra por amor.”
Confissão de Fé de Westminster (Igreja Presbiteriana), Cap XI, §II
[Seguida ipsis litteris pela Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 e pela Declaração de Savoy (congregacional)]

“O amor não é ingrediente numa fé meramente especulativa, mas é a vida e a alma da fé prática. Uma fé verdadeiramente prática ou salvadora é luz e calor juntos, ou antes luz e amor, enquanto que uma fé especulativa é somente luz sem calor; e, como lhe falta calor espiritual ou amor divino, ela é em vão, e para nada serve. Uma fé especulativa consiste somente na ascensão do entendimento; mas numa fé salvadora há também o consentimento do coração; e a fé que é apenas do primeiro tipo não é melhor que a fé dos demônios, pois eles têm uma fé apenas no tanto em que ela pode existir sem amor, crendo e tremendo.”
Jonathan Edwards, Love, the Sum of All Virtue

“Na fé justificadora o ser humano confia na promessa graciosa de Deus; nessa fé estão compreendidos a esperança em Deus e o amor a Ele. Essa fé atua pelo amor; por isso o cristão não pode e não deve ficar sem obras.”
Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, 4.3.25

“A fé, portanto, não inclui apenas um assentimento à verdade do Evangelho, mas envolve também um compromisso de nossa vontade para com Deus em arrependimento e obediência ao seu chamado; do contrário, a fé é morta (Tg 2:17). A fé viva é inseparável do amor, produz boas obras e aprofunda-se ao longo de uma vida de santidade. (…) Assim como justificação e santificação são dois aspectos do mesmo ato divino, assim também a fé viva e o amor são inseparáveis no crente. A fé não é uma disposição meramente privada e interior, mas por sua própria natureza ela é exteriorizada em ação: boas obras necessariamente brotam de uma fé viva (Tg 2:17ss).”
ARCIC II (Segunda Comissão Internacional Anglicana – Católico-Romana), Salvation and the Church, 10 e 19

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Doutrina Protestante da Virgindade Perpétua de Maria

Imagino que, para a maioria dos leitores, o título deste texto talvez pareça um absurdo. Quando aderem ao protestantismo, especialmente o protestantismo de tipo evangélico, em geral os cristãos aprendem a rejeitar quase tudo o que aprenderam no catolicismo acerca de Maria, como coisa espúria, maligna, idólatra, sem fundamento na Palavra de Deus. A figura de Maria termina tão despida de qualidades que há um medo de dizer qualquer coisa boa ou positiva sobre ela. De fato, há quem chegue a tratar Maria como uma mulher qualquer, como uma pecadora qualquer. Teme-se que, honrando Maria, Deus seja menos adorado.

O título é sugestivo, por outro motivo. Tratamos aqui da doutrina protestante da Virgindade Perpétua de Maria. Há uma doutrina protestante da Virgindade Perpétua, uma doutrina especificamente protestante ou uma versão protestante da doutrina? Com isso não quero dizer, é claro, que o resultado seja diferente do da doutrina católica romana ou da ortodoxa, mas se trata de uma abordagem um pouco diferente, com suas próprias nuances. Os protestantes em geral não se satisfazem com o consenso histórico em favor da Virgindade Perpétua. Exigem provas mais rigorosas de uma determinada doutrina, que se baseiem nas Escrituras Sagradas, no testemunho apostólico mais antigo. Então embora eu mostre aqui o que pensavam figuras como Lutero e Calvino, o propósito de estabelecer esse consenso não é de tratá-lo como uma prova exata da doutrina, mas uma prova de que essa é a doutrina protestante original, preservando o consenso histórico, e que não há nada de especificamente protestante na negação da Virgindade Perpétua, nem é “coisa de católico” afirmá-la.

1. Testemunhos protestantes em favor da Virgindade Perpétua

Como é de amplo conhecimento, a Virgindade Perpétua de Maria é afirmada pelos Pais da Igreja, com exceção de Tertuliano (cuja condição entre os Pais é disputada). Mas também Lutero, Calvino, os reformadores ingleses e teólogos carolinos, John Wesley (o pai do movimento evangélico) e tantos outros afirmaram a Virgindade Perpétua e rejeitaram argumentos empregados contra a doutrina (como o que usa Mt 1:25).

Para uma lista (em inglês) de citações de reformadores apoiando a Virgindade Perpétua, veja aqui. A Segunda Confissão Helvética (1562) também professa que Maria é “sempre virgem” (c. 11). Quanto aos bispos e teólogos anglicanos, vemos afirmações da Virgindade Perpétua por todo lado. Três exemplos, de épocas contíguas, nos séculos XVI e XVII, são Cranmer, Andrewes e Taylor. Na Correção, o arcebispo Thomas Cranmer (1489–1556) escreveu:

“E eu creio também que esse menino Jesus Cristo não apenas foi concebido sem pecado, mas também nasceu igualmente da referida benditíssima mãe; e que ela, tanto na concepção quanto no nascimento e natividade do seu filho, assim como para sempre, reteve sua sua virgindade pura e imaculada…”

Nas suas Devoções Privadas, o bispo Lancelot Andrewes (1555–1626) escreveu:

“Fazendo menção da toda santa, imaculada e benditíssima Maria, Mãe de Deus e Sempre Virgem, com todos os Santos, encomendemos a nós mesmos e uns aos outros e toda a nossa vida a Cristo, nosso Deus.”

Em seu Golden Grove, o Rev. Jeremy Taylor (1613–1667) escreveu:

“…e ela recebeu a honra de ser Mãe do Filho de Deus, e para sempre Virgem, e todas as gerações a chamarão bendita.”

É importante dizer também que, se esse é o consenso, e se a Igreja é a coluna e baluarte da verdade (1Tm 3:15), esse consenso, que inclui cristãos de ramos tão distintos (assírios, ortodoxos, miafisitas, protestantes, romanos) não pode ser desprezado. Não podemos imaginar que algum gênio, depois de tanto tempo, tenha finalmente entendido as Escrituras em contrário a tudo o que foi ensinado antes. A afirmação da Virgindade Perpétua de Maria não é um “resquício do catolicismo”, como se o propósito da Reforma Protestante fosse eliminar o catolicismo, assim como não são resquícios de catolicismo a afirmação dos dogmas da Trindade e da União Hipostática.

2. Jesus, o único filho de Maria

A demonstração da Virgindade Perpétua de Maria começa estabelecendo um fato: Maria teve apenas um filho. Isso é um passo importante, pois, embora ter tido apenas um filho não seja prova suficiente da continuidade da virgindade após o nascimento de Jesus — poderíamos supor que Maria teve apenas um filho conhecido e, ainda assim, teve uma vida sexual com José, por ser estéril ou porque outros filhos teriam morrido ainda no ventre ou bem pequenos —, ainda assim o argumento de que Cristo teve irmãos é usado como argumento fácil contra a Virgindade Perpétua.

Assim, o que nos ensinam as Escrituras nessa área? Em primeiro lugar, é importante dizer que não há texto nas Escrituras que diga que Maria tenha tido outros filhos, ou que tenha perdido a virgindade. Há textos dos quais se tenta deduzir isso, mas não há um texto que realmente indique tal coisa. Nesse assunto, um texto que nos instrui muito é o de João 19:26-27 (NAA):

Vendo Jesus a sua mãe e junto dela o discípulo amado, disse: — Mulher, eis aí o seu filho [íde ho huiós sou]. Depois, disse ao discípulo: — Eis aí a sua mãe [íde hē mēter sou]. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa [eis ta ídia].

Nesse texto, Cristo como que transfere para o Discípulo Amado a responsabilidade de ser o filho de Maria, e dá a ela a responsabilidade de ser sua mãe. A expressão que Crito usa, nessa transferência de filiação, é sugestiva: “eis aí o seu filho”, como que indicando que não havia outro filho para cuidar de Maria, o qual, a partir daquele momento, a recebeu em casa [eis ta ídia]. Naquele contexto semítico, não era incomum que mulheres que não fossem mães naturais fossem, ainda assim, chamadas de mães (cf. Rm 16:13). Cristo não diz que o Discípulo Amado deveria apenas cuidar de Maria, mas que deveria ser o seu filho. Esse texto nos indica também, implicitamente, que José já estava falecido, algo que será importante posteriormente. Não haveria sentido em privá-la de seu marido se ele ainda estivesse vivo. O “filho” só teria responsabilidade em receber a mãe em casa se o marido de sua mãe (seu pai) já tiver morrido. De todo modo, por esse texto, parece que Maria tinha apenas um filho: Jesus, cujo papel é assumido por João.

Ironicamente, outro texto particularmente importante para mostrar que Maria tinha apenas um filho é aquele que amiúde é citado como indicação de que Jesus tinha irmãos naturais: Marcos 6:3. O texto expressa a surpresa ou desconfiança dos conterrâneos quanto a Jesus. Essa história aparece em diferentes versões nos quatro evangelhos, as quais nos fornecem várias informações relevantes:

Mateus 13:54-56 : E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de modo que se maravilhavam e diziam: — De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro [ho tou téktonos huiós]? A sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? Todas as suas irmãs não vivem entre nós? Então, de onde lhe vem tudo isto?

Marcos 6:1-3 : Tendo saído dali, Jesus foi para a sua terra, e os seus discípulos o acompanharam. Chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: — De onde lhe vem tudo isso? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria [ho huiós tēs Marías] e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não vivem aqui entre nós? E escandalizavam-se por causa dele.

Lucas 4:22 : Todos davam testemunho dele e se maravilhavam das palavras cheias de graça que lhe saíam dos lábios. E perguntavam: — Não é este o filho de José?

João 6:42 : E diziam: — Este não é Jesus, o filho de José [ho huiós Iōsēph]? Por acaso não conhecemos o pai e a mãe dele? Como é que ele agora diz: “Desci do céu”?

O modo como Jesus é identificado, nesses textos, é bastante sugestivo: ele é identificado como “o filho de José”, “o filho do carpinteiro”, “o filho de Maria”, expressões bastante sugestivas de que Cristo era o único filho conhecido. A expressão é tão sugestiva que, no caso de Mc 6:3, a maioria das traduções bíblicas ocultam o artigo definido. Em Jo 6:42, em que ele é identificado como “Jesus, o filho de José”, é perfeitamente plausível que o artigo definido cumpra aí apenas a função de identificar um Jesus dentre muitos, já que seu nome (Iēsous, Yēšûaʿ) era relativamente comum na época; não indicaria necessariamente o único filho. Davi é também chamado “o filho de Jessé”, mesmo havendo outros. Mas os outros exemplos são diferentes. Sem a identificação do seu nome, ele é chamado simplesmente de “o filho do carpinteiro” (Mt 13:55) e “o carpinteiro, o filho de Maria” (Mc 6:3), ambas marcadas pelo artigo definido. Essas expressões perderiam sua utilidade se houvesse outros filhos possíveis (ao menos quatro). Assim, a melhor explicação é de que Jesus seria o único filho natural de Maria e (como se pensava) de José.

Mas os textos não mencionam outro irmãos? Como explicaremos logo adiante, usar outros textos bíblicos para identificar esses irmãos (Tiago, José, Simão, Judas), especialmente Tiago, nos ajuda a mostrar que esses não eram irmãos naturais. Assim, ao que parece, Maria não teve outros filhos além de Jesus. É por esses motivos que não vemos nenhum sinal de irmãos em Lc 2:41-51, quando o Senhor já tinha doze anos de idade.

3. Os Irmãos do Senhor

Alguns textos bíblicos falam de pessoas conhecidas como Irmãos do Senhor, sem explicitar o que essa expressão significa. Na antiguidade, a cristandade ortodoxa tinha duas posições principais sobre quem eles seriam: segundo a tese de Jerônimo, eram primos de Jesus; segundo a de Epifânio, eram meio-irmãos de Jesus, filhos de José de um casamento anterior. Essa segunda tese parece não ter nenhum indício real no Novo Testamento, antes parece contradizer o que acabamos de dizer: Cristo era o único “filho” conhecido de José. A primeira tese, porém, emerge naturalmente dos indícios que o Novo Testamento dá acerca dessas figuras, particularmente Tiago.

Uma primeira informação importante, acerca desses irmãos do Senhor, é que inicialmente “nem mesmo seus irmãos criam nele” (Jo 7:5). Obviamente, Maria e José acreditavam, pois receberam diversas revelações angélicas. Como explicar que irmãos naturais, criados na mesma casa e recebendo o mesmo testemunho de Maria e de José, não acreditassem em Jesus?

Dentre os Irmãos do Senhor, o mais bem identificado é Tiago. Os indícios das Escrituras Sagradas são de que Tiago, irmão do Senhor, era filho de Alfeu, um dos doze apóstolos de Cristo, não sendo, portanto, um irmão natural. Não há uma prova cabal, mas tudo o que sabemos sobre ele aponta nessa direção. Quando lemos o que o Novo Testamento indica sobre Tiago, irmão do Senhor, e Tiago, filho de Alfeu, a melhor explicação é de que eles eram a mesma pessoa. Os dados casam perfeitamente, e isso provavelmente era tão óbvio para os primeiros cristãos que eles sequer precisaram explicar. Grosso modo, seria uma identificação entre o Tiago das epístolas e o Tiago menor dos evangelhos (e Atos). Não devemos multiplicar Tiagos desnecessários.

O que sabemos sobre Tiago, o irmão do Senhor?

I. Ele não poderia ser o filho de Zebedeu, pois esse logo foi martirizado.
II. Ele era um dos apóstolos e vivia em Jerusalém. A leitura inclusiva de Gálatas 1:19 é a mais simples: “não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor”, ou seja, não viu nenhum outro apóstolo além de Tiago; do contrário, a comparação entre ele e os apóstolos seria desnecessária. Essa visita a Tiago se deu quando Paulo estava em Jerusalém (v. 18). Essa leitura é fortalecida por 1Co. 9:5, que coloca implicitamente os “irmãos do Senhor”, juntamente com Cefas (Pedro), entre os apóstolos. O texto pode ser melhor traduzido assim: “como também os demais apóstolos, tanto os irmãos do Senhor quanto Cefas”, pois Cefas era apóstolo, e a construção grega (“kai/kai” como “tanto/quanto”) o permite. É possível que 1Co. 15:7 indique o mesmo.
III. Ele era uma das colunas, ao lado de dois apóstolos. A mesma epístola se refere a Tiago, Cefas (Pedro) e João como as três colunas entre os cristãos de Jerusalém, e mostra que eles ministravam aos judeus (vv. 2:1,9), e que ele provavelmente procurava manter boas relações com judeus zelosos em Jerusalém (Gl. 2:12). Isso condiz com o retrato de Tiago de Jerusalém em At. 21:18-24.
IV. Não há qualquer história de sua conversão como tal. Ele simplesmente “aparece” como líder cristão, no livro de Atos, e já estava lá aguardando o Pentecostes.

Agora, o que sabemos sobre o apóstolo Tiago, filho de Alfeu?

I. Sabemos que Judas era seu irmão. Não se trata do Iscariotes, mas do apóstolo identificado como escritor da Epístola de Judas, que nela nos diz ser “servo de Jesus, Cristo e irmão de Tiago” (1:1). Tanto no Evangelho de Lucas (6:15-16) quanto nos Atos (1:13), há essa identificação: “Tiago, filho de Alfeu… e Judas, irmão de Tiago”. Isso parece significar que tanto Tiago quanto Judas eram filhos de Alfeu. (Nada sabemos sobre a vida desse Alfeu, e certamente entre os cristãos ele era uma figura menos importante que seu filho Tiago, já que Judas é denominado pelo irmão, não pelo pai.)
II. Ele era famoso. De fato, o escritor da Carta de Tiago era tão famoso que poderia ser simplesmente identificado por seu nome pessoal, Tiago, enquanto seu irmão, escritor da Carta de Judas, era identificado por ele, como “irmão de Tiago”. Se houvesse uma multiplicidade de Tiagos importantes, esperaríamos que os textos os distinguissem de alguma maneira. Enquanto eram dois, eram identificados pelos pais (Zebedeu, Alfeu); com a morte do filho de Zebedeu, a identificação se tornou desnecessária.
III. Ele provavelmente era o Tiago de Jerusalém, líder daquela Igreja. Com a morte do filho de Zebedeu (At. 12:2), o livro de Atos menciona certo Tiago à frente da Igreja em Jerusalém (15:13; 21:18). Ele não vê qualquer necessidade em identificar esse Tiago, tratando-se de uma pessoa importante, de fácil identificação. Toda a probabilidade é de que seja o mesmo Tiago dos onze. Portanto, Tiago, irmão de Judas e filho de Alfeu, provavelmente era um líder cristão importante em Jerusalém; na verdade, liderava os anciãos (presbíteros) daquela Igreja e responsável pela igreja como um todo (12:17).
IV. Ele provavelmente tinha uma mãe chamada Maria. Entre as mulheres que testemunharam a ressurreição estava certa “Maria, mãe de Tiago” (Lc. 24:10), que não era Maria, a mãe do Senhor. Havendo dois Tiagos possíveis no Evangelho, o mais provável é que ela seja a mãe do Tiago que se tornou mais proeminente: o filho de Alfeu, Tiago de Jerusalém. Marcos 15:40 confirma essa interpretação, e nos diz que ela era mãe de Tiago, o menor, e José. Assim, há pelo menos três irmãos aqui em jogo: Tiago, José e Judas.
V. Ele era irmão do Senhor. Em Marcos 6:3, os irmãos do Senhor são identificados como Tiago, Judas, José e Simão. Embora provavelmente nada saibamos desse Simão pelos evangelhos, três dos nomes da lista são os mesmos que identificamos entre os irmãos de Tiago, o menor, filho de Alfeu e Maria. Eles eram filhos de Alfeu e Maria (outra Maria além da mãe do Senhor), não de José e Maria (mãe do Senhor). Portanto, ao chamá-los “irmãos” do Senhor, com isso se quer dizer que eles eram seus familiares, embora não filhos dos mesmos pais.

Por si só, isso já mostra que Tiago e seus irmãos não poderiam ser “irmãos do Senhor” em sentido natural. A expressão deve ter outro sentido. Sabemos que Cristo tinha uma tia chamada Maria, mulher de Clopa (Jo. 19:25). É possível que Clopa e Alfeu sejam variantes, em escrita grega, do mesmo nome semítico. Assim, Alfeu e Maria seriam tios do Senhor. Os Irmãos do Senhor seriam primos, seguindo aqui o costume judaico de chamar parentes de “irmãos”. Não há necessidade de postular outro Tiago. Assim, toda a probabilidade é de que Tiago, irmão (primo) do Senhor, era filho de Alfeu e Maria, um dos apóstolos de Cristo e o primeiro bispo da Igreja de Jerusalém.

Se essa identificação dos irmãos do Senhor for correta, então temos um argumento incidental a mais em favor da Virgindade Perpétua. Pois, se o mais próximo, além de Maria, que a multidão pôde encontrar em Jesus foram seus primos, então a melhor explicação é a de que ele não tinha irmãos naturais.

4. A virgindade, dom escatológico

Como eu disse acima, do fato de que Maria teve apenas um filho não se deduz que ela permaneceu virgem, pois há outras possibilidades abstratas (sem indícios). Precisamos então observar se há alguma indicação, dentre o que sabemos de Maria, nessa direção.

Uma vez que observamos que Maria tinha apenas um filho, o Senhor, e sabemos que ela permaneceu ao menos nove meses como casada (legalmente) e virgem, surge então questionamento: como explicar esse período de virgindade? Para que o milagre do nascimento virginal de Cristo acontecesse, bastava que José não tivesse tido intimidade sexual com Maria no começo. Se o propósito fosse apenas esse, não haveria qualquer necessidade de evitar a intimidade sexual lá pelo meio ou fim da gestação. Como explicar esses nove meses?

Uma pergunta óbvia a fazer é: o que a Escritura ensina sobre virgindade? A única explicação bíblica plausível é de que Maria não apenas ficou virgem para estabelecer o milagre, mas fez o voto de castidade. O Novo Testamento dá um lugar especial a esse voto. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que há aqueles que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente de que maneira essa condição é recebida por Deus. Ao menos, essas palavras indicam que se trata uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62). Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. Reino de Deus os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.

Como vimos, os casados podem passar alguns dias separados sexualmente para se dedicarem à oração, um tipo de consagração de poucos dias conhecida já desde o Antigo Testamento (cf. Êx 19:15; 1Sm 21:4-5). Mas Maria e José estiveram assim por nove meses! Ou seja, eles não se encaixaram naquilo que seria esperado para um casal normal. Eles não estavam vivendo uma vida normal de casal. Eles não se encaixavam no que Paulo descreve como o esperado para os casados, mas para os virgens e viúvos: eles conseguiam se dominar o suficiente para não precisarem disso por nove meses, sem serem arrastados pela tentação e pelo “abrasamento” sexual. Eles não precisavam se unir sexualmente. Assim, quando olhamos para os nove meses, vemos que a melhor explicação para esses nove meses é de que eles viviam o voto de castidade.

Há algo mais aí. Como vimos, Paulo não exalta apenas a virgindade, mas também a viuvez. Com a morte de José, Maria ficou viúva, entrando no grupo dos anawim, alvos particulares da compaixão de Javé. Isso já foi indicado em Jo 19:26-27, e também é evidente pelo que lemos em Atos 1:14, que Maria vivia em meio aos discípulos de Jesus, sem José, o que é melhor explicado pela morte prévia de José. Ademais, Maria não procurou um segundo casamento, embora o pudesse. Com exceção do sumo sacerdote (Lv 21:14), que não podia casar com uma viúva, o judaísmo permitia que ela casasse novamente, como permite o Novo Testamento. Podemos considerar outras possibilidades, é claro: que Maria tivesse tentado casar e não tenha conseguido, ou que tenha casado posteriormente. Mas precisamos pensar: qual é a melhor maneira de explicar, ao mesmo tempo, tanto a a virgindade consagrada por 9 meses, a viuvez mantida e a ausência de irmãos de Jesus? A resposta é de que Maria havia se dedicado à vida casta exaltada em I Coríntios 7. Na família natural de Jesus, começamos a ver um sinal profético da vida eterna da família chamada Igreja.

Ao longo dos séculos, os cristãos vieram essa consagração da virgindade de Maria a Jesus na profecia de Ezequiel 44:2:

“E o Senhor me disse: — Este portão permanecerá fechado; não deverá ser aberto. Ninguém entrará por ele, porque o Senhor, o Deus de Israel, entrou por ele. Por isso, permanecerá fechado.”

Assim, quando unimos o fato de que Maria teve apenas um filho (2) aos nove meses antes do parto, juntamente com a profecia de Ezequiel 44:2 e a viuvez continuada de Maria, a melhor explicação para a virgindade de Maria é essa adesão a essa consagração escatológica a Deus, contribuindo para que ela seja “bendita entre as mulheres”, a mulher mais abençoada.

5. Alguns argumentos contra a Virgindade Perpétua

Já tratamos acima de um dos argumentos, que é o dos “irmãos do Senhor”, e vimos que, na verdade, os textos apontam noutra direção e funcionam como argumento em favor da Virgindade Perpétua. Em continuidade com esse argumentos, há quem alegue que a palavra grega empregada (adelphos) indica necessariamente filhos dos mesmos pais, enquanto as palavra para parentes mais distantes ou primos (anepsios, sungenis) não são usadas. Esse argumento é falso e resulta de falsa erudição, pois a palavra grega adelphos era, num ambiente semítico, usada com referência também a parentes distantes. Afinal, em primeiro lugar, falando em aramaico, as primeiras testemunhas de Cristo não poderiam distinguir entre “irmão” e “primo”, não havendo esta palavra em sua língua. Em segundo lugar, como testemunha o uso da LXX (tradução grega do Antigo Testamento), parentes eram chamados de “irmãos” (adelphoi; cf. Gn 14:16; 1Sm 20:29; 2Rs 10:13; 1Cr 23:2). Isso era natural nessa língua, pois todos os descendentes distantes eram contados como filhos (cf. Mt 1:2), portanto irmãos entre si. As expressões das relações familiares não eram tão precisas.

Um segundo argumento, usando 1Co 7:4-5, indica que marido e esposa não poderiam passar muitos dias separados sexualmente. Mas, como vimos, José e Maria passaram ao menos nove meses. Eles obviamente não seguiam essa regra, pelos motivos já indicados, inclusive baseados no restante do capítulo.

Um terceiro argumento, bastante comum, é o que usa Mt 1:25, às vezes conjugado com Lc 2:7. Os textos são os seguintes:

Mateus 1:25 : “E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus.”

Lucas 2:7 : “Então Maria deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou o menino e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

No primeiro texto, o argumento é de que o “até que” indica o término da virgindade: José não teve intimidade sexual (“conheceu”) Maria até o momento do parto, mas o teria feito em seguida. Além disso, Jesus é chamado “primogênito” (nos dois textos), indicando que seria o primeiro dentre muitos filhos.

Quanto à expressão “primogênito”, é fácil comprovar que ela não tem um sentido tão restrito. Em Rm 8:29, falando dos salvos, se diz que Cristo é “o primogênito entre muitos irmãos”. Ora, nenhum de nós é gerado do Pai do mesmo modo que Cristo. Essa expressão indica a primazia de Cristo. Em sentido estrito, ele é o único Filho de Deus, embora seja chamado de primogênito. Ser primogênito não o impede de ser unigênito. Noutro sentido, Cristo é tratado como primogênito da criação em Cl 1:15 e primogênito da ressurreição em Cl 1:18; Ap 1:5. Em Hb 1:6, Cristo é chamado simplesmente de “o primogênito”; ele é o primogênito de Deus tanto quanto é o unigênito de Deus. Uma coisa não impede a outra. A Igreja é chama de “igreja dos primogênitos” (Hb 12:23), como se todos eles (já salvos) fossem primogênitos. A primogenitura é um título que podia ser transferido (como se deu entre Esaú e Jacó). Dessas coisas se depreende que a expressão é usada de maneira bastante fluída do Novo Testamento. O primeiro filho é automaticamente o primogênito, mesmo que não haja um segundo na sequência.

Quanto ao “até que” (ou “enquanto”), a expressão grega “héōs [hou]” não indica necessariamente um término. Tanto no Antigo Testamento (LXX) quanto no Novo, vemos vários exemplos em que ela é usada e em que não indica uma transição posterior, mas apenas se enfatiza um determinado tempo (Dt 1:31; 9:7; 1Sm 15:35; 2Sm 6:23; Mt 12:20; Lc 1:80 etc). Em 1Co 15:25, lemos: “Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés.” Lido isoladamente, o texto indicaria que o reino de Cristo teria um fim, o que sabemos ser falso (cf. Lc 1:33). O propósito da expressão é apenas indicar um propósito, enfatizar um determinado momento, sem necessariamente excluir o que acontece depois. Assim, certamente José não conheceu Maria enquanto ela não deu à luz a Cristo… nem depois. Por que Mateus fala desse modo, e não diz simplesmente que Maria foi sempre virgem? Ele não precisava, porque isso não estava em discussão, e talvez ele sequer soubesse disse. Disse o que podia saber ou o que precisou enfatizar.

Dessas coisas, segue-se que os argumentos contra a Virgindade Perpétua são todos inconclusivos, insuficientes, e alguns textos na realidade ajudam a provar o inverso.

A Relevância da Virgindade Perpétua

Para muitas pessoas, pode parecer que a afirmação da Virgindade Perpétua de Maria é uma depreciação do matrimônio. É claro, essas pessoas sabem que o próprio Cristo foi sempre virgem e que os salvos viverão eternamente sem o sexo; não lhes parece que isso deprecia o matrimônio. Mas, no caso de Maria, ao menos ela era casada. Também podemos perguntar se, ao contrário, não foi uma mentalidade contrária ao sexo que produziu essa doutrina.

Por isso, é preciso dizer: a afirmação da Virgindade Perpétua de Maria não significa transformar o matrimônio e a união sexual em coisas pecaminosas. Elas não o são. Se fosse o plano de Deus que Maria tivesse tido uma vida sexual com José, isso não seria pecado nem coisa má. Ao contrário, não são apenas coisas boas, mas excelentes, pois recebem uma benção especial de Deus. São o meio pelo qual Deus quis que a humanidade enchesse a terra. Mas há, acima dessa excelência, uma perfeição escatológica própria a certos sacrifícios feitos pelo Reino de Deus.

Assim como o matrimônio imita a relação entre Cristo e a Igreja, e não só imita como prenuncia escatologicamente, assim também a virgindade e o celibato imitam a pessoa de Cristo, para anunciar a condição eterna dos salvos. É justamente a excelência e grandiosidade o matrimônio e da união sexual inerente, uma vocação divina, o que faz o que o sacrifício dessa coisa boa em nome de uma coisa ainda melhor tenha um valor tão grande.

A Virgindade Perpétua de Maria não tem a mesma relevância que a Maternidade Divina. Há uma heresia profunda em negar que Maria é mãe de Deus (Theotokos), pois é um ataque ao próprio Cristo e à união entre suas duas naturezas, união que nos trouxe nossa salvação. A Virgindade Perpétua não está igualmente atrelada à nossa salvação, então tem uma relevância menor. Enquanto a Maternidade Divina nos diz principalmente algo sobre Jesus, a Virgindade Perpétua nos diz principalmente algo sobre Maria. Fala-nos de sua consagração completa a Jesus e ao Reino dos Céus, pelo que ela é digna de maior honra, bendita entre todas as mulheres.

Nunca nos esqueçamos das palavras de Santo Agostinho de Hipona:

“Maria é mais bendita recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Honrar os santos é idolatria?

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Honra é um elemento muito importante da fé cristã. Não apenas aprendemos a honrar pai e mãe, mas também honrar as autoridades (Rm 13:7; 1Pe 2:17), honrar o cônjuge (1Pe 3:7), as viúvas (1Tm 5:3), os anciãos (Lv 19:32). Honrar os que temem o Senhor é uma virtude elogiada (Sl 15:4). Paulo disse que Epafrodito deveria ser recebido com honra em razão de sua fidelidade a Cristo (Fp 2:25-30); do mesmo modo, o rei Ezequias foi honrado em sua morte (2Cr 32:33). De fato, as Escrituras dão amplitude máxima à honra: “Honrai a todos.” (1Pe 2:17a). Se isso não significa que todos devem receber as mesmas honras — pois não podemos mentir enquanto honramos —, certamente significa que honrar é um dever. Não honrar é violar um mandamento, é pecar. Continue lendo “Honrar os santos é idolatria?”

A Presença de Cristo na Eucaristia

 

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Quando se discute sobre a Presença de Cristo no Sacramento, é comum que o debate se limite a uma exposição das diferenças entre certas teorias clássicas. Fala-se em favor do memorialismo ou mero simbolismo, da presença espiritual, da presença corporal ou física de Cristo no sacramento, como que justificando certa posição e, indiretamente, legitimando as diferenças entre os cristãos, reforçando as trincheiras. Continue lendo “A Presença de Cristo na Eucaristia”

O Purgatório de C. S. Lewis: Uma Defesa Breve

 

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Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Mateus 5:8

A vida cristã é uma contínua reflexão sobre a morte, sobre o destino último do ser humano, na lembrança de que cada um terá de enfrentar o inimigo terrível (memento mori). Vivemos vidas piores quando não nos lembramos da seriedade do nosso destino. As distrações do tempo acabam por consumir e vencer nossos melhores ideais, enquanto a Eternidade nos dá o único parâmetro verdadeiro pelo qual devemos julgar o peso real das coisas. A grandeza e eternidade de Deus provocam a inquietante pergunta sobre o Para Onde. Continue lendo “O Purgatório de C. S. Lewis: Uma Defesa Breve”

Dez ensinamentos da Bíblia negligenciados no mundo evangélico


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A fidelidade dos evangélicos à Sagrada Escritura às vezes é frustrada por certa reticência em confessar aquilo que ela mesma ensina de modo claro e distinto sobre diferentes assuntos. Essas palavras não atingem a totalidade dos evangélicos, mas atingem em cheio certo tipo de evangelicalismo inculto de origem americana. Penso que a maioria dos evangélicos brasileiros, especialmente os de igrejas mais recentes, é atingida em ao menos um destes dez ensinamentos bíblicos.

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A Nova Perspectiva sobre Paulo

Um dos desenvolvimentos mais interessantes e importantes da teologia protestante na segunda metade do século XX é a Nova Perspectiva sobre Paulo, uma proposta de correção de certas leituras da teologia do apóstolo acerca da justificação e temas conexos. De acordo com essa releitura, a doutrina paulina da justificação pela fé não procura responder à pergunta “Como encontramos salvação?”, mas sim “Como sabemos quem é parte da comunidade ou não?”. O debate entre Paulo e seus críticos seria diferente daquele entre Santo Agostinho e seus críticos, ou entre Lutero e seus críticos. Continue lendo “A Nova Perspectiva sobre Paulo”

A Doutrina Anglicana da Predestinação

BCP

Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Filipenses 4:5a

A teologia anglicana recebeu diversas influências dos pais da Igreja, dos escolásticos e medievais, das reformas luterana e calvinista. O cultivo dessa teologia se deu como via média entre a pressão do radicalismo puritano e o tradicionalismo romano. Como via média, seu papel não foi o de produzir nenhuma nova doutrina — nenhuma doutrina é propriedade anglicana! —, mas reconciliar os extremos através de um culto comum, reconhecendo a intimidade entre nossa fé e nossa adoração. A batalha teológica anglicana sempre foi pela fé orada, não apenas pela fé professada. Continue lendo “A Doutrina Anglicana da Predestinação”

Unidade entre Justificação e Santificação

Rembrandt Batismo do Eunuco

“…mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.” — I Coríntios 6:11

“Essa justiça, portanto, é dada aos homens no batismo e sempre que eles verdadeiramente se arrependem.” — Martinho Lutero, Sermão sobre dois tipos de justiça

A doutrina da justificação é central para a compreensão da natureza e propósitos da Reforma Protestante. Tal doutrina não apenas sinaliza diferenças cruciais entre o catolicismo tridentino e o protestantismo, como também diferenças — não inconciliáveis, talvez — dentro do próprio protestantismo, entre Lutero e Calvino, entre as tradições que os seguiram, e sobre as quais penso que cada lado acertou e errou em alguma medida. Pois a doutrina da justificação não é sem ambigüidades e dificuldades, que refletem a unidade com que justificação e santificação aparecem nas Sagradas Escrituras. O uno é descrito com mais dificuldade que o múltiplo. Continue lendo “Unidade entre Justificação e Santificação”

C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron

C S Lewis

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.  Filipenses 4:8

A vontade de Deus é central para o modo como os cristãos encaram o sentido último de todas as coisas. Na Oração, o Filho de Deus ensinou os homens a pedir ao Pai Celeste dizendo que “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, não muito diferente do que pediria no seu sofrimento: “não seja como eu quero, mas como tu queres”. Com isso não convencemos Deus a fazer Sua vontade, como se de outro modo Ele não a fizesse — Ele a fará —, mas apenas nos colocamos diante do mistério que ela encerra e a aceitamos com resignação e com fé, seja qual for. Pois, seja qual for, a vontade de Deus será sempre boa, ainda que vivenciá-la como boa exija a renovação da nossa própria mente.  A oração cristã, por si mesma, exige fé na bondade absoluta da vontade de Deus. Continue lendo “C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron”