Sacrifício eucarístico de louvor?

Quanto ao Sacrifício Eucarístico, algumas pessoas tentam fazer uma cisão que, embora bem-intencionada (explico ao fim), é profundamente incorreta: procuram tratar “sacrifício de louvor” e “sacrifício expiatório” como coisas antagônicas e separadas. O que Cristo fez historicamente seria um sacrifício expiatório; o sacramento seria apenas sacrifício de louvor.

Essa separação cria um problema muito óbvio para qualquer pessoa com dois neurônios: a partir daí, há *dois sacrifícios* diferentes, o de Cristo e o da igreja. Isso, por si só, já é motivo de escândalo. A Igreja não presta nenhum sacrifício autônomo ou independente do de Cristo, mas apenas participa do dele. Isso é ao mesmo tempo da fonte de glória (pois ela está em Cristo e realiza tudo no nome, no poder e no corpo de Cristo) e de humildade (pois ela nada contribui de independentemente seu) da igreja.

Essa doutrina de “dois sacrifícios” leva, consequentemente, à negação da Presença Real, pois significa que o corpo de Cristo sobrenaturalmente presente não é mais aquele corpo que, na cruz, era sacrifício. O corpo de Cristo *é* sacrifício expiatório. O sangue de Cristo *é* sacrifício expiatório. Se o sacramento não é sacrifício expiatório, não é o corpo e o sangue de Cristo.

O Senhor Jesus Cristo, na instituição mesma do sacramento, nos dá indicações disso, nas diferentes versões que os evangelhos canônicos nos deixaram (Mt/Mc e Lc/1Co). Cristo diz:

— Mt 26:28: “isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.”

— Lc 22:19-20 “…Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim…. Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.”

Ao dizer “em favor de muitos”, “por vós”, “para remissão de pecados”, Cristo vincula ao seu corpo e sangue esse caráter expiatório, e ele o faz precisamente no momento exato em que institui o sentido do sacramento. É loucura estabelecer o sentido do sacramento sem atentar para exatamente o que Cristo disse naquela hora. Portanto, o sacrifício de louvor é sacrifício expiatório.

Isso se deduz também do efeito do sacramento, que é comunhão com o corpo e sangue de Cristo, assim como união espiritual entre os cristãos (1Co 10:16-17). Ora, isso não se realiza apenas por força da gratidão da Igreja, mas também e principalmente por força do caráter expiatório do corpo e do sangue de Cristo.

Eu entendo os motivos pelos quais essas pessoas querem fazer essa separação, e concordo com a intenção. Essas pessoas estão tentando evitar justamente aquilo que os 39 Artigos também condenam: a ideia de que os “sacrifícios das missas” sejam sacrifícios adicionais, com méritos adicionais, coisa que devemos rechaçar. Há um só sacrifício, o de Cristo, e tudo mais é apenas o sacrifício de Cristo mesmo, tomando corpo no mundo.

Não posso deixar de compartilhar as belas palavras do Rev. Jeremy Taylor (1613–1667), que explica magistralmente a ligação entre o sacramento na terra e o sacerdócio de Cristo nos céus:

“Assim como Cristo é um sacerdote perpétuo nos céus, e ainda assim não se sacrifica novamente, nem sem sacrifício poderia ser um sacerdote, mas pela ministração e intercessão ele representa seu sacrifício a Deus, e se oferece como sacrificado, assim também ele faz na terra, pelo ministério dos seus servos. Ele é oferecido a Deus, isto é, ele é, por orações e pelo Sacramento, representado e oferecido a Deus “como sacrificado”; o que, de fato, é uma celebração de sua morte e sua aplicação às necessidades presentes e futuras da Igreja por um ministério semelhante ao seu nos céus. Segue-se, então, que a celebração desse sacrifício é, em sua proporção, um instrumento de aplicação do sacrifício adequado a todos os seus propósitos, que ele primeiro designou. Ele é ministerialmente, e por aplicação, um instrumento propiciatório; é eucarístico, é uma homenagem e um ato de adoração; e é impetratório, e obtém para nós, e para toda a igreja, todos os benefícios do sacrifício que então é celebrado e aplicado; isto é, como esse rito é a memória e celebração ministerial do sacrifício de Cristo, logo ele é destinado a honrar a Deus, a expressar homenagem e dever dos seus servos, a reconhecer seu supremo domínio, a lhe dar graças e culto, a suplicar perdão, bênçãos e provisão para todas as nossas necessidades.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Divórcio e Segundo Matrimônio: Minha Posição

De vez em quando alguém me pede para falar desse assunto. Confesso um certo receio de tratar de um tema que envolve tantas situações diferentes, que toca nas dores e nos sofrimentos de muita gente, cujas condições não podem ser adequadamente abordadas em um texto que queira ser simples. Seis considerações são necessárias:

(1) Pessoas casadas considerando o divórcio ou segundo matrimônio como uma possibilidade devem ser aconselhados pastoralmente, em suas igrejas, e não simplesmente se guiar por algum texto que encontraram na Internet. O propósito deste texto não é dar orientações pastorais, é ajudar a entender como a Igreja deve lidar com esse assunto, e mostrar um pouco de como eu lido com essa questão. Este texto provavelmente só será útil em igrejas que sigam a mesma perspectiva, como esclarecimento dela.

(2) É possível que minha posição seja vista, por um “tradicionalista” — como os católicos romanos e reformados que defendem indissolubilidade absoluta —, como uma abertura exagerada e incontrolável que levará (ou já levou) ao caos matrimonial. A mesma posição talvez seja vista, pelo partido oposto, talvez mais “progressista”, como rigorosa, retrógrada, incompassiva, reacionária, incoerente. Aconteça o que acontecer, minha posição não será “em cima do muro”. Direi exatamente o que penso sobre assunto.

(3) É importante notar que, como consideraremos a interpretação de textos bíblicos, devemos fazê-lo sem impor a linguagem histórica com a qual, séculos depois, os cristãos passaram a tratar do assunto: distinções entre “anulação”, “divórcio” e “separação”, ou entre “matrimônio sacramental” e “casamento natural”. Essas distinções são importantes e úteis e devem fazer parte da discussão, mas devemos tomar cuidado na maneira como nós as vemos nos textos. As tradução que há se veem forçadas a escolher traduzir por “divórcio” ou “separação” textos que, no grego, usam a mesma palavra. Sem detrimento do mérito dos tradutores, não devemos colocar peso demais quando as encontramos num dado texto. Essas distinções têm uma história, e em alguns momentos elas simplesmente não existiam. Os cristãos de hoje talvez ficassem chocados com a maneira como, na época dos Pais da Igreja, os cristãos eram tolerantes com o concubinato (e como as pessoas em concubinato comungavam na Igreja).

(4) Não devemos temer que o ensinamento de Cristo seja visto como rigoroso (desde que não desumano). Ele disse: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20). O ensinamento de Cristo sobre o divórcio e segundo matrimônio foi, em particular, visto como difícil pelos seus discípulos (Mt 19:10). Um ensinamento que nos pareça muito fácil talvez seja uma construção de nossa própria imaginação.

(5) Não imaginei este texto como um ataque a nenhuma posição diferente da minha, ou a pessoas cujas condições de vida estejam (aparentemente) desalinhadas para com o que eu digo aqui. Pessoas divorciadas não devem ser destratadas ou desprezadas, muito pelo contrário; a Igreja deve sempre procurar uma maneira de reintegrá-las, e não simplesmente puni-las eternamente. Os divórcios já acarretam danos enormes sobre os casais e sobre os filhos, a Igreja não deve contribuir com isso, mas ser um lugar de cura.

(6) Eu creio que o ensinamento de Cristo sobre esse assunto é perene, é permanente, e deve ser seguido por nós até o fim dos tempos. Existem mudanças na cultura, e essas mudanças na cultura nos levam a considerar de maneira diferente certos fatores que serão mencionados abaixo. Mas, aconteça o que acontecer, eles não devem mudar os mandamentos de Jesus.

Pois bem, o tema do divórcio e a possibilidade (ou não) de segundo matrimônio é um dos assuntos mais difíceis para os cristãos. Nós convivemos num mundo em que o casamento é tratado como uma forma de satisfação pessoal, podendo ser permanente ou provisório a depender da vontade das partes; é reduzido a um contrato. Ao tocarmos nesse assunto, tocamos na maneira como as pessoas planejam suas próprias vidas, e a coisa mais comum é que as pessoas que se tornam cristãs ou retornam à igreja carreguem consigo bastante da mentalidade da cultura em redor. Numa época em que tudo é descartável, por que o casamento não poderia ser também?

Mas como comparar a situação de um casal que simplesmente desiste da convivência porque idealiza um romance melhor àquela de uma mulher violentada (física e psicologicamente) pelo esposo narcisista?

O primeiro fator a considerar, na construção desse assunto, é o que eu chamarei “a Regra”. Essa regra aparece tanto na epístolas de São Paulo quanto, depois, nos evangelhos sinóticos. Ela pode ser descrita assim:

“Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal. De sorte que será considerada adúltera se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro homem; porém, se morrer o marido, estará livre da lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.” (Romanos 7:2-3)

“Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher… A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor.” (1 Coríntios 7:10-11,39)

Essas palavras estão em contextos bem diferentes. Enquanto a primeira é parte de uma discussão sobre a lei, na qual o casamento aparece como uma analogia incidental para o ensinamento de Paulo, a segunda é parte de uma discussão mais ampla sobre o casamento em si, assim como sobre celibato e viuvez. Apesar dessas diferenças de contexto, os dois trechos, além de concordarem na doutrina, têm duas semelhanças: em primeiro lugar, a linguagem assimétrica (falam mais da mulher); em segundo lugar, têm um fraseado muito semelhante: a mulher está ligada ao marido enquanto ele vive, ficando livre/desobrigada caso ele morra. O trecho de Romanos 7 acrescenta o pecado do adultério para a mulher que se unir a outro esposo enquanto o primeiro vive.

No contexto de 1Coríntios 7, Paulo discute várias situações diferentes e usa as palavras de Cristo e sua sabedoria pastoral para orientar os casados. Nos versículos citados, ele é claro em dizer que não se trata de uma ideia sua, mas uma ordem do Senhor. Essa “ordem” do Senhor é retratada também no evangelho canônico julgado o mais antigo, o de São Marcos, no qual foi registrado o célebre diálogo de Cristo com os fariseus acerca da aplicação da lei mosaica do divórcio. Segundo Cristo, a possibilidade de divórcio que havia na lei era uma concessão mosaica à “dureza de coração” dos homens. A lei permitia a carta de divórcio, mas Cristo toma uma postura diferente. Ele resume seu ensinamento sobre isso dizendo:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem [anthrōpos]… Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera.” (Marcos 10:9,11-12)

Essas palavra concordam, em essência, com o que foi escrito por Paulo num contexto diferente, e elas não fazem nenhuma restrição a um caso específico. As palavras são colocadas de maneira bem genérica, e se pautam na essência da relação matrimonial: se Deus uniu o homem e a mulher, não devemos separá-los. Eu concordo, em parte, com aqueles que dizem que a preocupação de Cristo aqui é em proteger a mulher da arbitrariedade do marido, pois ela seria lançada à miséria caso ele se divorciasse dela. Sim, certamente a compaixão era um dos fatores principais na pregação e doutrina moral de Cristo. Mas o texto não nos dá indicação de se limitar a essa situação; Cristo radica o caso “no princípio”, na ligação entre homem e mulher. Cristo deixa a coisa em termos bem gerais.

Essa ligação entre os cônjuges é fortalecida por vários fatores de origem bíblica, como a relação “matrimonial” entre Cristo e a Igreja (Ef 5) ou os ensinos de Cristo sobre perdão. Muito pode ser dito em favor disso, particularmente quando vemos o que vários pais da Igreja (como Santo Agostinho) disseram sobre esse assunto. Essa regra rigorosa só é compreensível à luz do ensinamento, visto tanto em Cristo quanto (principalmente) em Paulo, que valoriza o celibato acima do matrimônio. Quando entendemos que o matrimônio não é a finalidade de nossa vida terrena, torna-se um pouco mais fácil entender por que a existência fora do matrimônio (para alguém que tenha se separado do cônjuge) não é uma punição, mas o retorno à condição maior.

De todo modo, tomando por base os textos bíblicos lidos até aqui, a Regra é aquela vista amiúde nos votos matrimonias: “até que a morte nos separe”. Aparentemente não deve haver segundo matrimônio quando haja um primeiro matrimônio válido. Essa é a Regra.

Agora, a boa hermenêutica nos pede que nos perguntemos: há algo mais, nas palavras de Jesus e nos ensinos dos apóstolos, ou na Bíblia como um todo, que indiquem uma direção distinta sobre esse assunto? Há algum outro princípio a considerar, na aplicação da lei? Essa pergunta é necessária porque é muito comum, na discussão de qualquer assunto moral, que nós tenhamos, na Escritura, testemunhos em direções diferentes, e o entendimento mais completo do assunto exige que nós levemos em conta todos os fatores. Mesmo princípios como misericórdia e compaixão devem ser levados em conta. Todas as cartas devem estar na mesa.

Nesse sentido, há duas circunstâncias que, creio, ajudam bastante na lida com pessoas com certos problemas matrimoniais. A primeira circunstância é desconsiderar o casamento civil. Diversas pessoas estão casadas civilmente, se divorciam civilmente e, por ignorância sobre o assunto, pensam que não podem casar “novamente”. Ocorre que o casamento civil é uma instituição relativamente recente, e, diferentemente do matrimônio cristão, não indica intenção de perpetuidade. Não se faz votos “até que a morte nos separe”. Então, em tese, uma pessoa que contraiu apenas o casamento civil não estaria impedida. Não se trata de desconsiderar totalmente o casamento civil, pois ele tem uma importância legal e social, e a ausência do casamento civil pode indicar desinteresse matrimonial (embora a presença não indique automaticamente interesse). Todos os casais devem contrair, além do matrimônio cristão, o casamento civil. Isso não é o mesmo que dizer que pessoas civilmente casadas devam ser encorajadas a se separar; elas devem ser encorajadas a fazer os votos do matrimônio cristão. No entanto, em situações particularmente difíceis, esse fardo não precisa ser suportado e o casamento civil pode ser desfeito em benefício de um novo relacionamento. (As pessoas que querem tratar o casamento civil como igual ao matrimônio cristão só aumentam o problema.)

Nessa circunstância está o caso de pessoas que se divorciaram antes de se tornarem cristãs. (Note bem: cristãs, não evangélicas ou participantes da igreja A ou B.) É um dos casos mencionados por Paulo em 1Co 7:24-28, sobre os quais ele diz “se te casares, não pecas”. É um divórcio prévio. Semelhante também é o caso de 1Co 7:12-16, quando, num casamento entre dois pagãos, um deles se converte à fé cristã e o outro o abandona.

A segunda circunstância é o erro em relação à pessoa. Nós fazemos os votos matrimoniais não apenas para com o rosto que está diante dos nossos olhos, ou para com o nome que está no papel, mas para com a totalidade da pessoa. Isso significa que, para assumirmos o matrimônio, nós precisamos estar suficientemente informados de quem seja a pessoa com quem casamos. Isso não significa conhecer profundamente os segredos e meandros do coração; significa saber o que se precisa saber para casar. Em alguns casos, as pessoas casam enganadas, porque seus cônjuges fingiram algo que não eram. Não se trata, mais uma vez, de alguém que mudou com o tempo, mas de alguém que não tinha interesse real de casar. Embora nos votos façamos compromissos sérios e isso envolva uma certa “aposta” de que a outra pessoa será boa, essa aposta não inclui casar com um psicopata, por exemplo. Então, se uma pessoa casa com alguém assim, ela pode, dentro de um contexto eclesiástico que o permita, ter o seu “vínculo” matrimonial terminado (o que alguns chamarão de “anulação”, não “divórcio”). Considerando a maneira como as pessoas se casam hoje, isso é algo bem comum.

Levando isso esses fatores, há uma última situação, a chamada “cláusula fornicationem“, que aparece no Evangelho de São Mateus:

“Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus 5:32)

Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério].” (Mateus 19:9)

A leitura mais natural desses textos é de que, se uma pessoa se divorcia, por motivo de relações sexuais ilícitas, e casa com outra não comete adultério. Ou seja, esses textos parecem colocar uma exceção na Regra. Não é difícil mostrar que houve ampla repercussão dessa clásusula na Tradição cristã durante séculos, não só entre os Pai da Igreja — que não eram unânimes nesse assunto —, mas principalmente na vida da Igreja através dos cânones conciliares. Para exemplos fáceis (em inglês), veja aqui, aqui e aqui. É muito comum que as pessoas que defendem a indissolubilidade absoluta ignorem essa história de séculos. Vários dos exemplos repetem a clásulula fornicationem e lhe dão a interpretação mais natural. Existem outras leituras desse texto, mas normalmente elas são tão constrangedoras que o próprio proponente parece perceber que força a barra.

É importante dizer: essa cláusula não derroga o caráter sacramental do matrimônio. O matrimônio é, essencialmente, finito e limitado: ninguém estará casado para sempre, na eternidade, antes o matrimônio tem fim com a morte. O que se considera é que haja outras situações, além da morte, que rompam o vínculo. (Sobre a cláusula em particular, considero boa a consideração de que, sendo a fornicação pecado mortal, ela legalmente levaria à morte do cônjuge, naqueles tempos.)

Diante disso, minha posição é de que, considerados todos os fatores acima (a restrição ao matrimônio cristão, o erro de pessoa, a cláusula fornicationem), provavelmente na maioria dos casos as pessoas não deveriam procurar um novo matrimônio. Primeiramente, ninguém deve se divorciar apenas porque quer; caso se separe, não deve casar novamente de maneira nenhuma, em tempo nenhum, enquanto o primeiro cônjuge viver, ou caso não se evidenciem as situações acima. A subjetividade dos envolvidos não deve ser desconsiderada, mas as circunstâncias e exceções colocadas não devem ser julgadas apenas subjetivamente. Ademais, a ideia de que um segundo matrimônio simplesmente salvará aquela pessoa do sofrimento do primeiro é loucura.

Caso a convivência no primeiro matrimônio seja impossível ou até perigosa, devem se distanciar os seus cônjuges, mas não procurar um novo matrimônio, e sim viverem o ideal da fé cristã, que é a dedicação total a Cristo e o casamento com ele. Nesse caso, é inteira responsabilidade da Igreja lutar pela reconciliação sempre que é possível, e lutar pela pessoa caso não seja possível. Existem situações em que a reconciliação não é possível. É uma imensa irresponsabilidade e até crueldade enviar para junto do seu esposo a mulher que foi violentada por ele. Mas nos dois casos a Igreja deve lutar pelas pessoas e apoiá-las. Se alguém não encontra apoio e amparo da Igreja e faz o contrário do que Cristo diz, em grande parte a Igreja é responsável. É muito fácil colocar na conta de Jesus. A lei do amor ainda é a maior de todas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sacrifício, Violência, Dom

O Novo Testamento apresenta a Igreja como “casa espiritual” para “oferecer sacrifícios espirituais”. Em razão disso, não é possível entender a essência e a missão da Igreja sem entender o que é um sacrifício. Uma eclesiologia sacrificial é necessária.

Na linguagem corrente, usamos a palavra “sacrifício” num sentido negativo: sacrificar é eliminar, é destruir, é negar, ou, ao menos, realizar algo através de algum tipo de dor pessoal que seja, em algum sentido, também destruição. O sacrifício envolve alguma forma de violência, e a Igreja, particularmente na forma da comunidade concreta, passa a ser um lugar de violência sublimada — um lugar de violência simbólica. Embora Girard veja no sacrifício de Cristo o fim de uma história terrível, no fim das contas a narrativa padece desse mesmo preconceito antissacrificial, e nos deixa a ver navios quanto ao propósito da Igreja enquanto continuidade da prática sacrificial.

Esse é um dos motivos pelos quais eu creio que a heresia kenótica tenha certo apelo entre os diletantes modernos da cristologia. Se eu entendo que sacrificar é deixar para trás, é concebível, para os sequazes de uma antimetafísica obstinada, que a obra de Cristo consista, em parte, no abandono (temporário) da sua divindade. Se sacrificar é negar, há algum sentido nisso. (Bem pouco, sinceramente.)

Mas não é bem esse o sentido que a palavra “sacrifício” tem na tradição cristã e, francamente, também na própria Bíblia. Embora isso seja muito claro em Santo Agostinho — para quem o sacrifício é uma forma de unir, não uma forma de destruir, uma forma de afirmar, não uma forma de negar —, acho que a primeira pessoa que realmente chamou minha atenção para isso tenha sido Robert Daly, há poucos anos. O fogo do amor não destrói a oferta, antes a eleva às regiões superiores; isso é realmente “sacri-ficar”, tornar sagrado.

Um sacrifício é uma forma de presente, de entrega, de dom. Na raiz das mais diversas religiões, está a noção de que o sacrifício é uma forma de alimentar a divindade, coisa que, óbvio, se torna supérflua a partir do momento em que a divindade é tratada em termos propriamente absolutos. Por isso também, a forma de sacrificar é mudada. Santo Agostinho diz, de modo interessante, na Cidade de Deus: “E a razão por que aqueles sacrifícios [da lei] tiveram de ser mudados, no momento oportuno e pré-estabelecido, foi precisamente para impedir que as pessoas acreditassem que os sacrifícios em si mesmos, em vez das coisas significadas por eles, eram desejadas por Deus ou ao menos aceitáveis em nós.” (X, 5)

De todo modo, o que está em jogo não é a morte — que só acontece em alguns tipos de sacrifícios —, mas o oferecimento do presente. Não é à toa que os sacrifícios sejam chamados de “dons” (gr. dōra). Sacrificar é presentear, e, por isso, é uma forma de transitar (inaugurar, restaurar, fortalecer) numa dinâmica de amizade, agradecimento e reciprocidade para com os poderes superiores. O Antigo Testamento tem alguns resquícios simbólicos da ideia de alimentar a divindade, mas o rejeita frontalmente, particularmente no discurso dos profetas, para quem o melhor sacrifício a se oferecer a Deus é a justiça compassiva para com o próximo e o culto do coração a Deus. São Tomás nos lembra de que o nosso principal sacrifício é a devoção, e isso tudo é parte de um processo de quase três milênios, que ainda não acabou, no qual temos ressignificado (espiritualizado) o sacrifício.

Tudo isso é muito óbvio para quem tenha refletido acerca da noção de Sacrifício Eucarístico. Na Eucaristia, não eliminamos ou destruímos nada de Cristo, muito pelo contrário. O sacramento não destrói, somente “acrescenta”. Embora possamos falar de um investimento de recursos, tempo, atenção e tantas outras coisas que a celebração do sacramento possa envolver, no fundo, o nosso próprio oferecimento só é pleno quando todas essas coisas forem vistas como formas de ganhar, não como formas de perder. Tratar o sacrifício como eliminação é impiedade. Todas as vezes em que sacrificamos, seja na Eucaristia, seja em qualquer outra coisa, nós somos os beneficiários.

O sacrifício não é parte de um jogo de soma zero, mas sim de uma uma dinâmica simbólica criativa, um de aprofundamento ontológico. Por isso, ao dizer “não tenho minha vida por preciosa”, Paulo tornou sua vida sumamente preciosa. Inversamente, ao dizer “não darei ao Senhor sacrifícios que não me custem nada”, Davi tornou em nada o valor que ele ofereceu a Deus. No sacrifício, damos a Deus tudo como se não fosse nada, e é assim que nada se torna tudo. Sacrificar é dizer: nossa amizade, nossa comunhão, é mais importante do que tudo o que esteja em minhas mãos, por isso, com desapego, eu te dou. O apego destrói o valor; a entrega o multiplica.

Por isso, não há qualquer oposição ou contradição entre a Eucaristia como sacrifício e a Eucaristia como banquete — nós comemos entregando e entregamos comendo; tanto sacrifício quanto banquete são formas de dizer: união com Deus. Se essas duas coisas forem bem entendidas, não há sequer como enfatizar uma sem que a outra seja igualmente enfatizada.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não há uma só maneira de honrar a Deus

Na época de Santo Agostinho, já se discutia com que frequência um cristão deveria participar da Eucaristia – se deveria recebê-la diariamente ou se deveria preferir se abster, na maioria dos dias, por reverência diante do Sacramento. Diante dessa questão, alguém pode esperar que haja uma resposta definitiva, absoluta, invariável, “a certa”. Podemos querer que uma atitude seja condenada como severa demais, como legalista, ou que a outra seja tratada como permissiva demais, fácil demais.

No entanto, em sua Epístola 54, o santo defende ambas atitudes como aceitáveis e que esse não é motivo para divisão, e cita, para isso, o comportamento de Zaqueu e do Centurião, nos evangelhos. Zaqueu recebeu Cristo com alegria em sua casa, enquanto o Centurião impediu essa visita, se dizendo indigno. Ele escreveu:

Pois não brigaram entre si Zaqueu e aquele Centurião, nem se colocou um contra o outro, quando um recebeu com alegria o Senhor em sua casa, ao passo de que o outro disse ‘Não sou digno de que entres sob o meu teto’, ambos honrando o Salvador de modo diverso e quase contrário; ambos miseráveis pelo pecado, ambos alcançados pela misericórdia.”

Em ambos os casos, não há desprezo pelo sacramento – o que participa poucas vezes não o faz por considerar o sacramento como dispensável ou de menor importância, antes por se considerar indigno de participação frequente, ao passo que o outro deseja maior frequência porque entende que precisa daquilo, e não por tratar o sacramento como refeição comum e banal. Assim também, não há presunção por parte deles – o que participa frequentemente, não o faz por se considerar santo, mas precisamente porque sente a necessidade de ser mais santificado pelo sacramento, enquanto o que participa menos, não o faz por rejeitar o sacramento e se considerar capaz de buscar a santidade sem ele, mas para conseguir fazê-lo com um coração mais preparado.

Principalmente: nem dos dois é movido pela indiferença, por um espírito de que “tanto faz”. Ao contrário, cada um leva com máxima seriedade sua própria situação. E ambos são chamados a se aceitarem por amor a Cristo, na paz da mesma catolicidade.

O mesmo valor do sacramento é aplicado de maneira diferente em pessoas diferentes, e ambos participam da graça vivendo os mesmos princípios como podem, em suas próprias realidades. “Quem és tu que julgas o servo alheio?” (Romanos 14:4).

O Dom Escatológico do Celibato

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Não vivemos para o sexo. Eu lembro que, na época da escola, tive uma conversa com um colega sobre isso. Por algum motivo, falamos sobre planos para o futuro e esse colega me disse que pensava, como objetivo de vida, em casar e fazer sexo, “pois é para isso que nós vivemos”.

Eu não era cristão, não acreditava em Deus, então não fazia nenhuma ideia sobre um propósito para a vida. Nunca tinha pensado seriamente sobre aquilo, e tinha muita dificuldade de responder qual era o propósito da vida. Foi a primeira vez que alguém colocou um propósito. Mas eu fiquei chocado em pensar que a vida se resumiria, de fato, a alguns momentos de prazer. Parecia pouco.

A fé cristã ensina muito claramente que esse não é o propósito da vida. Cristo era celibatário. Paulo e tanto outros discípulos seguiram a mesma rota. Se eles nos ensinam algo nessa área, é a moderação, o domínio próprio. Assim, o mesmo Paulo não só recomenda o celibato, como recomenda que os viúvos permaneçam como viúvos (1Co 7:8), embora não proíba totalmente um segundo casamento. Ainda assim, os ministros e as viúvas consagradas ao serviço na Igreja (e que dela dependem) não devem ter um segundo casamento, como ensina 1Tm 3:2; 5:9.

Aqui vemos claramente como a fé cristã se distingue do judaísmo ou do islamismo. A despeito de como seja interpretada (e alegorizada), é famosa a concepção muçulmana de que o prazer sexual é parte da nossa realização celestial última. Na religião cristã, o sexo, embora seja bom se vivido como “leito sem mácula”, é coisa apenas desta vida.

Embora nem todos tenham a vocação do celibato, uma coisa não é opcional para os cristãos: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.” (Gl 5:24). Então nossa vida não é dominada por desejos e necessidades humanas, mas pela sede que só é saciada no Deus Vivo. O que se esconde na mentalidade de cristãos que consideram inferior o celibato (a condição de Cristo!) talvez possa ser, em alguns casos, uma vida dominada pelas paixões, tão dominada que essas paixões passam a controlar a maneira como julgamos as coisas.


O Novo Testamento dá um lugar especial ao voto do celibato. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente como essa condição é recebida por Deus. Essas palavras indicam que se trata, ao menos, de uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia, para todos nós, a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária, acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62), um escândalo para os padrões da época. Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. No Reino de Deus, os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.


Se o matrimônio fosse superior ao celibato, como querem algumas pessoas, isso significaria que Deus nos levaria do estado superior (casados hoje) para o inferior (castos na eternidade), e que Cristo estava numa condição familiar inferior à de Abraão ou Moisés. Isso não faz sentido.

Nesse aspecto, é bem óbvio o motivo pelo qual o celibato é superior: é dedicação maior de tempo e energia a Deus, maior liberdade para se entregar e sacrificar. Qualquer pessoa com família sabe disso. É puro realismo pastoral do Apóstolo.

Existe um motivo pelo qual uma pessoa pode resistir a isso: a maioria de nós, que fomos ensinados sobre o quanto somos especiais e temos direito a igual felicidade, nos sentimos desprezados se imaginamos que há uma vocação com consagração superior à nossa. Mas é precisamente por reconhecermos nossa fraqueza — de que precisamos de cônjuges e família, e por não sermos capazes de resistir às tentações da castidade —, ou seja, por reconhecermos nossa condição real, que temos a possibilidade de que nossa condição seja exaltada, não pelo matrimônio, mas pela humildade. Pois, no corpo de Cristo, quando um é honrado, todos são honrados, e, nesse caso, Deus deu “muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24). Quando tentamos furtar a dignidade maior do celibato, perdemos a humildade. A humildade começa quando reconhecemos nossa própria condição real e concreta. Deus dá graça aos humildes.

O que Paulo queria, ao ensinar sobre o celibato?

“O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa, e assim está dividido. Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito; a que se casou, porém, se preocupa com as coisas do mundo, de como agradar ao marido.” (1Co 7:32–34)

O propósito bíblico do celibato é este: por causa do reino dos céus, para que “vos facilite consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor” (1Co. 7:35). Lançando as bases para o espírito do monasticismo, o apóstolo Paulo procurava uma vida sem distrações (aperispastōs).


No capítulo famoso de 1Coríntios 7, São Paulo ensina que o casamento é bom, o celibato é melhor e a viuvez é um meio termo. A parte da viuvez parece piada moderna, mas Paulo diz mesmo isso (“será mais feliz [makariōtera] se permanecer viúva”). Não se trata de demonizar nenhuma situação, mas de reconhecer a superioridade. Para Paulo, a pergunta que devemos fazer não é “devo mesmo ser celibatário?”, mas “preciso mesmo casar?”.

Ambas as situações são dons de Deus, segundo o apóstolo, mas, por algum motivo, algumas pessoas recebem um dom superior, outras recebem um dom inferior. Veja que escândalo! Minha inveja não tolera que alguém tenha recebido algo melhor. Preciso diminuí-la, devo anulá-lo.

E não é só inveja, mas são escatologias diferentes. O cristão visualiza a vida eterna como uma realidade na qual o casamento e a vida sexual deixaram de existir, não por serem maus, mas por serem inferiores. Então todos nós estamos destinados a termos apenas alguns anos de casados, uma gota na imensidão eterna de uma vida sem casamento. O mundo, por outro lado, só conhece esta vida, então o celibatário está perdendo tempo precioso, deixando de aproveitar.

Às vezes, pessoas tão dispostas a dizer que Deus concede salvação a uns e não a outros, não são capazes de ver que, entre os salvos, alguns recebem posição superior.


É normal que o Antigo Testamento exalte a vida matrimonial. A expectativa dos obedientes à Torá, em seu sentido histórico e literal, é de uma vida longa, portanto de um sucesso natural: uma descendência numerosa e próspera que preservasse o nome. São abundantes, no Deuteronômio, exortações como esta: “Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir.” (Dt 30:16)

O Novo Testamento coloca um fim mais elevado: a vida angélica (“são iguais aos anjos”, Lc 20:36). A mudança de fim implica mudança na maneira como as coisas são priorizadas hoje.

Se a melhor vida a se alcançar, no AT, era vida longa com com muitos filhos naturais (como no Salmo 128), então o matrimônio era a melhor forma de vida, e tanto os eunucos quanto os inférteis tinham uma condição social de desonra e inferioridade, como amaldiçoados. O Novo Testamento vê mais longe do que aquilo que está explícito no Antigo. Então aqueles que eram desonrados foram elevados por Deus, “concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24).

A Antiga Aliança toma como referência a Primeira Criação, passada. A Nova Aliança, sem desprezar a Primeira Criação (portanto sem desprezar o matrimônio), toma como referência maior a Nova Criação. Por isso, o milagre de Isabel (que cuja família significa o ápice da Antiga Aliança) foi o milagre de ter um filho mesmo sendo infértil, como Sara. Sua vergonha foi convertida em alegria: “Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbrio perante os homens.” (Lc 1:25). Mas o milagre de Maria (cuja família significa o ápice da Nova Aliança) foi o da maternidade sobrenatural, preservada sua virgindade.


O texto de 1Co 7 trata, em parte, da “opinião” do apóstolo Paulo sobre qual deveria ser o destino de todos os cristãos, mas a superioridade do matrimônio não é matéria de opinião. Se fosse opinião, já seria bastante coisa, pois era a opinião de um apóstolo de Cristo, de alguém que tinha uma mente muito mais espiritual que a nossa, que tinha um “conhecimento tácito” das coisas divinas e das realidades humanas que nós não alcançamos. A opinião (isolada?) de um apóstolo não é mera opinião.

Mas o que o apóstolo Paulo trata como “opinião” é que todos deveriam ser celibatários (“Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto…”, 7:7). A superioridade do celibato não é tratada como opinião no texto: “quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor.” (7:38).

Algumas pessoas tentam fugir dessa superioridade do celibato alegando que havia algum motivo particular para a preferência do celibato, motivo que estaria ligado, talvez, à perseguição que os cristãos sofriam. A particularização é a primeira estratégia de quem quer fugir de qualquer texto bíblico, alegando que o texto trata de certas condições que, curiosamente, não estão em parte alguma do texto. Não há qualquer menção à perseguição. Esses leitores veem Paulo falar da “angustiosa situação presente” ou “instante necessidade” (7:26) e presumem que Paulo fala aí de perseguição. Paulo procura ali poupar os cristãos de “tribulações na carne” (7:28), mas essas tribulações não estão diretamente ligadas, no contexto, a nenhuma perseguição, mas às necessidades do mundo que nos impedem, como casados, de alcançar a consagração total, sem distrações (7:32-35).

Isso se percebe no motivo pelo qual os cristãos são autorizados a casar (como coisa boa): “por causa da impureza” (7:2), ou seja, porque, para os que não são capazes de se dominar (manter a continência da castidade), “é melhor casar do que viver abrasado” (7:9). O que isso tem a ver com perseguição? Coisa nenhuma. Ora, se estão autorizados a casar aqueles que não se dominam, como pode ser coisa superior o matrimônio? Se o celibato tem o propósito de dedicação completa, como ele pode ser inferior ao matrimônio? É como dizer que se dominar é inferior a não se dominar, ou se consagrar é inferior a não se consagrar. É absurdo. Prefiro concordar com o apóstolo. E com o Espírito Santo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Vários nomes, o mesmo sacramento.

Sunday Eucharist in the Early Church - Justin Martyr - Crossroads Initiative

A Eucaristia tem vários nomes bíblicos. Cada nome enfatiza uma coisa diferente.

  1. Ceia do Senhor. Esse nome aparece em 1Co 11:20. Literalmente, “kyriakon deipnon” é Ceia Senhorial, Ceia Dominical. “Senhor” é uma das designações favoritas da comunidade primitiva para Cristo, a invocação que os distingue enquanto comunidade religiosa particular. Esse nome enfatiza o ato de comer (em refeição compartilhada) sob o senhorio de Cristo, assim como a raiz história ligada ao momento inaugural em que o Senhor esteve com seus discípulos.
  2. Eucaristia. A palavra grega significa “ação de graças” (eucharistia, eucharisteō), um tipo de oração, e o sacramento tem esse nome porque Cristo “abençoou” (Mt/Mc) ou “deu graças” (Lc/1Co) sobre os elementos. Essa palavra grega faz referência à tradição judaica de abençoar e dar graças pelas refeições (b’rachá). Esse nome enfatiza o ato de consagrar, razão por que ele é um dos mais importantes na história do sacramento; indiretamente, esse nome também assinala uma dimensão sacrificial, em referência ao “sacrifício de ação de graças” mencionado no Antigo Testamento.
  3. Comunhão. A eficácia do sacramento é a comunhão (koinōnia) no corpo e no sangue de Cristo (1Co 10:16) e a unidade entre os que dele participam dignamente (v. 17). Esse nome enfatiza, como finalidade, o efeito que o sacramento produz entre nós, unindo-nos a Cristo e uns aos outros.
  4. Pão do Céu. Cristo designa a si mesmo assim no discurso eucarístico na sinagoga de Cafarnaum (João 6). Esse nome enfatiza, ao mesmo tempo, a origem divina e a finalidade espiritual do sacramento (alimento).
  5. Partir do Pão. O nome aparece nos Atos dos Apóstolos (principalmente At 2:42; 20:7,11; cf. Lc 24:30-31,35). Esse nome enfatiza o sacramento como refeição comunitária (partilha) de unidade, em analogia ao que era praticado por diversas religiões antigas.
  6. Mesa do Senhor. Esse nome aparece em 1Co 10:21, reminiscência (indicada no contexto) o altar do pão no Antigo Testamento (cf. Ez 41:22; Ml 1:7,12). Esse nome enfatiza a comunhão espiritual, a partilha e a dimensão sacrificial do sacramento.
  7. Cálice da Bênção, Cálice da Salvação. O nome aparece em 1Co 10:16, mas é possível ligá-lo ao que se lê em Sl 116:13, uma vez que a bênção prometida no sacrifício de Cristo é a salvação. Esse nome enfatiza a dimensão sobrenatural do sacramento.
  8. Sacramento do Altar. Em Hb 13:10, lemos que os cristãos têm um altar exclusivo, isto é, do qual só eles podem comer. Historicamente, esse nome distingue esse mistério do Sacramento da Fonte (o Santo Batismo). Esse nome enfatiza a dimensão sacrificial e sagrada, o culto a Deus, a localização concreta da celebração no seio da comunidade cristã e a dimensão dessa comunidade enquanto Templo, assim como o momento histórico-salvífico da Nova Aliança (em distinção com a Antiga).

Além desses, podemos falar de outros nomes simbólico-proféticos, como o maná escondido e o fruto da árvore da vida.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Respostas simples sobre Regeneração Batismal

Baptism of Pocahontas | Architect of the Capitol
  1. O que é Regeneração Batismal?

É a doutrina segundo a qual o propósito e a finalidade principais do sacramento do Batismo consistem em conceder aos batizados a graça da regeneração. Essa graça é a união dos homens com Cristo, e, consequentemente, a remissão dos seus pecados e a restauração da imagem de Deus neles, lhes permitindo participar da vida divina. Secundariamente, a regeneração batismal implica a necessidade ordinária do batismo para a salvação. Essa necessidade existe não como um “requisito” para a salvação, mas em razão daquilo que o Batismo realiza.

Dito de outro modo, existe um vínculo entre o sinal exterior e visível (água, usando a fórmula trinitária) e a graça interior e espiritual, de modo que, quando o sinal visível é validamente usado, a graça interior é concedida. O sacramento do Batismo é sinal eficaz da graça da regeneração. A Regeneração Batismal é o vínculo entre o sinal exterior e visível e a graça interior e espiritual. Paulo dá certeza desse vínculo ao escrever: “se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6:5).

  1. A Regeneração Batismal é uma doutrina bíblica?

Sim, a Regeneração batismal é uma doutrina inteiramente bíblica. Na realidade, a Bíblia não ensina, acerca do propósito do Batismo, nada além da Regeneração batismal. Se a Regeneração batismal fosse falsa, a Bíblia não teria nada a dizer sobre o propósito do Batismo, e aí teríamos que inventar várias coisas sobre o propósito do Batismo, como o fazem aqueles que, sem qualquer fundamento nas Escrituras, dizem que o propósito do Batismo é afirmar a fé ou conversão publicamente. Todos os textos bíblicos que ensinam algo sobre o propósito do Batismo ensinam que o Batismo salva, isto é, que o Batismo “provoca” algumas dimensões necessárias da salvação. Alguns textos bíblicos que exemplificam a Regeneração Batismal são Jo 3:5; At 2:38; 22:16; Rm 6:3-7; 1Co 12:13; Gl 3:26-27; Cl 2:11-13; 1Pe 3:21, dentre outros. Esses textos dependem de se entender que há um só Batismo (Ef 4:5).

  1. A Regeneração batismal contradiz a salvação pela graça e por meio da Fé?

Não. O Batismo é meio de graça. Isso significa que esse sacramento é o momento/lugar em que a graça é recebida. Ele funciona como um canal da graça, de modo que a nossa fé recebe através do sacramento a salvação. Portanto o batismo não é inimigo da Graça. Ele é graça.

Geralmente as pessoas têm dificuldade com essa noção quando presumem que o Batismo é uma obra que nós realizamos. Mas o batismo não é uma obra que o batizado realiza. É uma obra que Deus realiza através do sacramento. A água, por si mesma, não tem qualquer eficácia para salvar. Deus realiza a obra salvífica pelo poder do Espírito Santo agindo através do sacramento, em razão de uma promessa. As águas do rio Jordão não tinham poder para curar; mas, quando Naamã tomou sete banhos nela, foi curado de sua lepra, por conta de uma promessa divina.

Analogamente, podemos dizer que recebemos muitas bênçãos de Deus quando oramos com fé. A fé e oração não são inimigas. A oração é o momento em que a fé se coloca diante de Deus, para ser abençoada. Com o sacramento do batismo acontece coisa semelhante, com a diferença, já indicada acima, de que o batismo não é coisa que o batizado realiza (enquanto a oração o é). Quando, por exemplo, pedimos o perdão dos nossos pecados com fé, através da oração, somos perdoados e esse perdão se dá através de uma obra que realizamos (a oração) e essa obra é a oração. Seria tolice pensar que a oração, nesse momento, de alguma maneira elimina a graça ou a fé. Assim também, é tolice pensar que o sacramento do batismo elimina a graça e a fé. A oração é um meio. O sacramento é um meio.

Não custa lembrar que o grande campeão da justificação pela fé, o reformador alemão Martinho Lutero, era ao mesmo tempo grande defensor da justificação pela graça por meio da fé e do batismo regenerativo (locus iustificationis).

  1. A Regeneração Batismal torna a salvação mérito humano?

Não. Dá-se justamente o contrário. O Batismo nos mostra que a salvação é recebida — ninguém batiza a si mesmo. Isso se torna muito claro quando entendemos o batismo de crianças, que não têm nem poder ter nenhum mérito ou escolha quanto ao seu Batismo. Simplesmente recebem.

Igualmente, mesmo quando somos batizados por um ministro sumamente ímpio, mesmo que, em seu coração, ele seja ateu e profundamente hipócrita, mesmo que ele seja o pior de todos os homens quanto à sua vida moral, mesmo que tenha inúmeros pecados secretos ou mesmo inúmeros pecados notórios e divulgados, a eficácia do Batismo não depende nada de sua virtude moral. Depende da santidade perfeita de Cristo, o único Salvador. Não é o mérito dele (em realizar essa ação) que traz a salvação, mas sim uma promessa divina, cumprida infalivelmente. A eficácia do Sacramento é cristocêntrica. Portanto a salvação não depende nem do mérito de quem é batizado nem do mérito de quem batiza, humanamente falando, mas daquele que batiza espiritualmente falando, isso é, Cristo.

Isso é um pouco obscurecido por uma prática comum em certos ramos evangélicos: exige-se que o batizando demonstre um certo padrão moral mínimo em seu comportamento. Desse modo, o Batismo deixa de ser visto como um presente recebido e passa a se parecer com uma conquista social realizada. É algo a se alcançar, não uma dádiva a se receber. Alguém que visualiza o batismo assim terá, naturalmente, muita dificuldade com a Regeneração Batismal. Mas essas exigências moralistas não são bíblicas e não devem nos deter na investigação da doutrina bíblica do Batismo.

  1. A Regeneração Batismal vai contra a Reforma Protestante?

Não. Embora ela certamente contradiga a doutrina de Zuínglio e de todos aqueles que foram influenciados por ele, ela está plenamente de acordo com o ensinamento de Lutero, de Calvino (em alguns lugares), da tradição anglicana e de vários outros ramos menores. Até o Catecismo Menor de Westminster (reformado) fala dos sacramentos como “meios de salvação” (Q91).

No entanto, precisamos perguntar: que relevância essa pergunta tem? Somos de algum modo obrigados a concordar com os teólogos da Reforma Protestante? De onde vem essa obrigação? Por que seria mais importante a opinião dos teólogos da Reforma que a opinião dos Pais da Igreja?

  1. Todo mundo que não é batizado está condenado? Há regeneração sem Batismo?

Como dito acima, o Batismo é ordinariamente necessário a salvação. Isso não significa que todos os que morrem sem o sacramento estejam automaticamente condenados. Deus não está limitado ao sacramento, nós é que o estamos. Por isso, ninguém pode negligenciar o sacramento. Rejeitar o batismo é rejeitar Cristo. Adiar o Batismo é adiar Cristo. Brincar com o Batismo é brincar com Cristo. Deus prometeu graça através do batismo e devemos receber a promessa divina humildemente, sem questioná-la. Mas, embora Deus não o tenha prometido, ele pode salvar sem o sacramento. Isso aconteceu como todos os santos que morreram antes da Ressurreição do Senhor — todos eles morreram sem o sacramento do Batismo e receberam em Cristo a graça da vida eterna através dele.

Como analogia, afirmamos que a pregação do Evangelho é ordinariamente necessária para a salvação dos homens. Não há outro caminho. Mas uma criança, falecida na graça divina, é salva sem a pregação do Evangelho. Isso não dispensa o Evangelho, como se fosse desnecessário à salvação. Assim também, o Batismo não se torna desnecessário por Deus poder conceder a graça batismal sem o sinal visível.

  1. Por que “ex opere operato” e não outra posição?

A eficácia do Batismo é descrita, na linguagem escolástica, como “ex opere operato“, significando o que, uma vez realizado validamente, esse sacramento “ocasiona”, “causa” ou “provoca” o seu resultado infalivelmente. Isso significa que a validade do sacramento não depende da santidade ou mérito de quem o ministra ou de quem o recebe. Depende apenas da fidelidade de Cristo, que nunca falha.

A eficácia do sacramento é a capacidade de veicular certa graça, segundo a promessa divina. Nós não somos capazes de mudar isso com nossa fé ou falta de fé. Por isso, eu a chama de Eficácia Cristocêntrica. Essa eficácia não depende de nós, mas de Cristo. Isso não significa que todos os batizados sejam automaticamente salvos. Uma hipócrita, que finja adesão a fé cristã com segundas intenções, e seja assim batizado, não foi, por isso salvo. A graça lhe foi infalivelmente concedida, mas ele só desfrutará dela quando (pela graça) se converter desse mau caminho.

Essa eficácia é sinalizada pelo textos bíblicos que tratam o sacramento em termos generalizantes: “todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte” (Rm 6:3); “todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gl 3:27). Nesses dois casos, Paulo aplica intencionalmente para o batismo uma linguagem que se refere a todos os batizados (“todos quantos fostes/fomos batizados”), quanto a certos efeitos espirituais (“fomos batizados na sua morte”, “vos revestistes de Cristo”). Isso implica a certeza do vínculo entre o sinal exterior e visível e a graça interior e espiritual (Rm 6:5).

Em razão disso, podemos dizer: todo Batismo regenera (no sentido de que ele causa isso), embora nem todo batizado seja automaticamente regenerado. A eficácia do Batismo não está em produzir todo o processo, mas em produzir infalivelmente parte do processo. Em vários batizados, não se verá nenhum efeito visível, nenhuma santidade de vida, embora todo batizado esteja revestido de Cristo e, por isso, seja parte da Igreja.

A posição conhecida como “ex opere operato“, e que eu chamo de Eficácia Cristocêntrica, é a única aceitável porque é a única que não mistura a obra de Deus e a nossa obra, ao mesmo tempo que reconhece o que a Escritura ensina sobre os sacramentos. Qualquer posição não-zuingliana sobre os sacramentos, isto é, qualquer posição que ensina que os sacramentos “fazem algo” espiritualmente, terá que decidir se eles o fazem independentemente de nós ou se com nossa ajuda. Fiquemos com a opção cristocêntrica: o que Cristo faz no sacramento, ele o faz sozinho, sem depender de nós.

  1. Como se dá a Regeneração batismal no batismo de crianças? Isso depende de alguma noção de fé infantil (fides aliena, pedofé etc.)? É necessária a fé para que a Regeneração ocorra?

Quando nosso Senhor, na Escritura Sagrada, explica a nossa conversão e salvação, ele toma como referência os pequeninos, isto é, as criancinhas (Mt 18:3). Essa é uma referência importante, pois significa que não devemos encarar a salvação como se ela fosse uma coisa de adultos, na qual as crianças devem ter alguma maneira se encaixar. É o inverso. A salvação é uma coisa de crianças na qual nós adultos devemos nos encaixar.

Por isso, diversas exigências que há para nós, como a fé “consciente”, o arrependimento e a humildade, não existem para as crianças. Essas exigências existem para nós porque elas são modo como nós nos tornamos pequeninos. Não se exige isso daqueles que já são pequeninos. Então, quando falamos de salvação pela fé, devemos entender que as crianças não são salvas com o mesmo tipo de fé que nos salva. Elas ainda são salvas pela fé, e essa fé que é suficiente para salvação delas é suficiente para que desfrutem dos benefícios que lhe são conferidas no sacramento do batismo, já que o Batismo é meio dessa salvação.

Ora, essa fé não pode ter nos pequenininhos o mesmo tipo de consciência que tem nos adultos. Quer tratemos essa fé como a fé dos pais e padrinhos (fides aliena), quer a tratemos como um dom invisível infuso nas crianças (como Lutero e Calvino ensinavam), ou qualquer outro modo, isso é suficiente para que as crianças desfrutem dos benefícios batismais. Ou, se quisermos dizer que a salvação das crianças independente de qualquer tipo de fé, devemos ser consistentes e dizer que também o batismo delas independe de qualquer tipo de fé. Deus cobra mais daquele a quem ele dá mais.

Em outras palavras: a Regeneração Batismal das crianças independente da posição que tenhamos nessa questão. Ela se ajusta facilmente a qualquer noção de salvação infantil que tenhamos. Ela só não se ajusta à posição (ímpia) de que todas as crianças, independentemente de batismo ou da fé dos pais, estão condenadas até o momento de poderem fazer uma profissão consciente de fé, lá pelos 7 anos, 12 anos ou qualquer outra “idade da razão” que os homens queiram criar como limite.

  1. Existe ordem cronológica entre fé e batismo?

Não. Algumas pessoas tentam deduzir uma sequência lógica do fato de que, em alguns textos, a palavra “fé” aparece antes da palavra “batismo”, como em Mc 16:15. Mas a simples sequência das palavras não indica uma sequência obrigatória dos conceitos. Por isso, a ordem aparece invertida (primeiro o batismo, depois a fé) em alguns textos, como Mt 28:19-20 (“…batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado…”) e Cl 2:12 (“Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus…”). Mais uma vez: a sequência das palavras, por si mesma, não quer dizer nada.

Num contexto missionário, a fé (no sentido de adesão à religião de Cristo) quase sempre precederá o Batismo. Primeiro as pessoas (adultos) crerão e, em seguida, serão batizadas. Não conhecemos o coração de ninguém, mas não queremos batizar adultos que não creiam em Cristo.

  1. O Batismo de João Batista regenerava?

Não. O Batismo de João Batista era uma preparação para o Batismo cristão. Aqueles que anteriormente haviam recebido o Batismo de João tiveram de receber o Batismo cristão (At 19:1-6).

  1. E o “ladrão da cruz”?

Ao contrário do que parecem imaginar os adversários da Regeneração Batismal, o caso do ladrão da cruz não é, em nada, diferente dos demais personagens bíblicos que morreram antes da Ressurreição do Senhor, como Abraão, Moisés, Davi ou Jeremias. Todos eles morreram sem o sacramento do Batismo, embora tivessem recebido o selo prévio da circuncisão (que não tinha a mesma eficácia plena do Batismo). Todos eles, ao morrerem, desciam ao mundo dos mortos, e todos eles foram de lá resgatados por Cristo, que lhes abriu as portas do Paraíso. Aqueles que, depois disso, são batizados e morrem, não descem ao mundo dos mortos, mas sobem a Cristo. Uma nova etapa na história salvífica foi inaugurada, e o ladrão arrepedindo, embora esteja próximo da cruz, ainda está antes da Ressurreição.

Assim, embora a Regeneração Batismal possa admitir a possibilidade de que alguém seja salvo sem o Batismo, o caso do ladrão arrependido (tradicionalmente chamado São Dimas) é ordinário. O Batismo se tornou sacramento da salvação depois da Ressurreição, quando Cristo enviou os discípulos para batizarem em seu nome, segundo a fórmula trinitária (Mt 28:18-20). Quando somos batizados, Cristo nos faz a mesma promessa que fez individualmente ao ladrão arrependido.

  1. Existe regeneração prévia e posterior ao Batismo? Como elas diferem?

Ordinariamente, não existe regeneração prévia ao Batismo. Existe uma operação da graça no coração do homens para que eles tenham o dom da fé e, através dessa fé, sejam salvos. Essa operação da graça ainda não é a regeneração definida na primeira pergunta. Nesses casos, essas pessoas ainda não foram remidas dos seus pecados e unidas a Cristo. Ainda aguardam esse momento, no qual receberão essas coisas pela fé. É o caso de Paulo, que só recebeu a remissão (no Batismo) três dias depois de saber que Cristo é o Senhor (cf. At 22:16). Depois do Batismo, nós devemos vivenciar a graça da regeneração por toda a vida. Ela é concedida num momento, mas devemos operar nossa salvação ao longo da vida (Fp 2:12-13), isto é, devemos cooperar com a graça recebida, crescer nela, jamais resistindo a ela.

  1. É possível distinguir entre o Batismo sacramental e o “Batismo no Espírito Santo” (como segunda bênção)?

Há um só Batismo (Ef 4:5), que é o sacramento. Nós podemos e devemos vivenciar esse Batismo ao longo da vida, e isso pode incluir certas experiências de enchimento do Espírito Santo que se manifestam em santidade de vida e dons particulares. Essas experiências não são literalmente um segundo Batismo, mas uma manifestação do primeiro Batismo. Em muitos batizados, a graça interior e espiritual recebida no sacramento é adiada por muitos anos, através de incredulidade, pecado, ignorância e mil outras circunstâncias. Eu não tenho nenhum problema com que o nome de “Batismo no Espírito Santo” seja usado para indicar uma vivência mais plena do poder do Espírito Santo, desde que isso não seja usado para corromper nossa leitura bíblica, como se os textos que falam de “Batismo” na Bíblia se referissem apenas a essa experiência e não ao sacramento. Mais uma vez: há um só Batismo.

  1. O Batismo limpa o Pecado Original? Por que continuamos com a predisposição ao pecado?

Pode-se dizser que o Batismo limpa o Pecado Original no sentido que, no sacramento, nós deixamos de estar presos ao pecado, isto é, recebemos a graça que nos habilita a que o pecado não tenha mais domínio sobre nós (Rm 6:14). É importante entender que essa predisposição ao pecado é um defeito da nossa vontade, ocasionado pelo Pecado Original, mas que o Pecado já está em nós antes de sermos capazes de tomar “decisões”. O Pecado Original consiste em nosso desligamento espiritual em relação a Deus, a morte da alma (assim como a mortalidade do corpo), e através do Batismo nós recebemos a vida de Cristo. Nós recebemos a graça que nos livra do domínio do pecado, mas ainda estamos feridos pelo pecado. O Batismo não elimina essa inclinação automaticamente, embora, em alguns casos, possamos testemunhar pessoas que, depois do Batismo, tiveram grande avanço na sua santificação e puderam deixar certos hábitos do pecado.

  1. Regeneração Batismal é compatível com credobatismo?

Creio que não. Há certos grupos que tentam unir as duas coisas, mas, nesses casos, a salvação se torna mérito nosso antes do mérito de Cristo. A Regeneração Batismal leva naturalmente ao batismo de crianças, porque nenhum motivo teológico pode ser forte o suficiente para excluir as crianças da graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Regeneração Batismal | Material de estudo gratuito

Abaixo temos vídeos e textos gratuitos ligados ao tema da Regeneração Batismal. Pretendo atualizar a lista com o tempo.

[Vídeo] O Batismo salva? | Regeneração Batismal [30min]
https://youtu.be/cbczxGKtyEQ

[Vídeo] Ei, o Batismo salva! | Podcast Taverna dos Clérigos [1h30min]
https://www.youtube.com/watch?v=cMNeBPcRRFs

[Texto] O Batismo não é só um símbolo (parte 1) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/05/31/o-batismo-nao-e-so-um-simbolo-parte-1/

[Texto] O Batismo não é só um símbolo (parte 2) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/06/10/o-batismo-nao-e-so-um-simbolo-parte-2/

[Texto] Notas sobre o Batismo | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2016/03/21/notas-sobre-o-batismo/

[Texto] 1Co. 12:13 e o “Batismo no Espírito Santo” | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/06/02/1co-1213-e-o-batismo-no-espirito-santo/

[Texto] Um só Batismo | Rev. Gyordano | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2016/11/02/um-so-batismo/

[Texto] Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal? | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2021/06/30/tertuliano-ensinava-mesmo-a-regeneracao-batismal/

[Texto] A Doutrina Anglicana dos Sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2018/03/14/a-doutrina-anglicana-dos-sacramentos/

[Texto] Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/12/17/paulo-desprezava-o-batismo-1co-110-17/

[Texto] C. S. Lewis e os sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2018/03/22/c-s-lewis-e-os-sacramentos/

[Texto] A Eficácia Cristocêntrica dos Sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/11/29/a-eficacia-cristocentrica-dos-sacramentos/

[Texto] Hebreus 6:4-8 fala do Batismo | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/05/12/hebreus-64-8-fala-do-batismo/

[Texto] Confessionalidade Reformada e Regeneração Batismal | Jadson Targino
https://jadsontargino.medium.com/confessionalidade-reformada-e-regenera%C3%A7%C3%A3o-batismal-bb3df0b71ba3/

[Texto] Uma defesa da Regeneração Batismal nos padrões reformados | Filipe Leal
https://filipeleal.medium.com/uma-defesa-da-regenera%C3%A7%C3%A3o-batismal-nos-padr%C3%B5es-reformados-185382dfec2e

[Texto] Respostas simples sobre Regeneração Batismal | Rev. Gyordano M. Brasilino
https://vineadei.wordpress.com/2021/07/23/respostas-simples-sobre-regeneracao-batismal/

Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal?

Prague The Fresco Of Baptism Of Jesus In Church Kostel Svatého Václava By S  G Rudl Stock Photo - Download Image Now - iStock

Como eu gosto de dizer, poucas doutrinas são tão uniformes e indisputáveis, entre os Pais da Igreja, como a doutrina da Regeneração Batismal. De fato, ela é mais uniforme do que a própria doutrina da Trindade. Enquanto jamais nenhum Pai da Igreja combateu a Regeneração Batismal, os hereges da época o fizeram, como veremos. Tertuliano se encontra no número dos primeiros cristãos que deram testemunho dessa doutrina. O caso de Tertuliano, aliás, é peculiar comparado aos Pais da Igreja (grupo ao qual ele não pertence plenamente), em razão de alguns problemas doutrinais e históricos presentes nos seus escritos. Isso torna a defesa da Regeneração Batismal, um caso em que podemos aplicar a antiga regra: um momento em que até quem erra sinaliza a doutrina correta.

Pois bem, não é difícil encontrar o ensino de Tertuliano sobre regeneração batismal. Ele escreveu um tratado sobre o sacramento da fonte (De Baptismo), e o propósito desse tratado é precisamente explicar a necessidade do Batismo para a salvação, quando Tertuliano argumentou contra os gnósticos cainitas, comunidade que negava a necessidade do Batismo para a salvação. O tratado De Baptismo inicia propondo o seu tema: “Acerca do Sacramento da nossa água, no qual, sendo absolvidos dos delitos da nossa vida pristina, somos liberados para a vida eterna…” (cap. I). Mais adiante, ele escreveu (grifo meu):

Em razão disso, aqueles criminosíssimos provocadores de perguntas dizem ‘Portanto, o batismo não é necessário àqueles a quem basta a fé; assim também Abraão agradou a Deus, sem nenhuma água, senão com o sacramento da fé.’ Mas, em tudo, as coisas posteriores concluem, e as coisas subsequentes prevalecem sobre as antecedentes. A salvação anteriormente foi pela fé nua, antes da paixão e ressurreição do Senhor; mas como a fé aumentou, aos crentes no seu nascimento, paixão e ressurreição, é ampliado o sacramento pelo selo [obsignatio] do batismo, como uma vestimenta para a fé que antes estava nua, que já não pode salvar sem a sua lei. Pois a lei do batismo foi imposta, e a fórmula prescrita: “Ide”, ele diz, “ensinai todas a nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A comparação dessa fórmula com esta lei: “A menos que um homem nasça da água e do Espírito, ele não poderá entrar no reino dos céus”, restringiu a fé à necessidade do batismo. De Baptismo 13

Nesse trecho, Tertuliano tenta descrever a posição contrária como a noção de que, se a salvação é pela fé, o Batismo se torna desnecessário. Tertuliano não nega a salvação pela fé, mas argumenta que ela não deve ser pela fé nua. O Batismo é como a vestimenta necessária á fé. Para Tertuliano, portanto, o Batismo é necessário à salvação, e ele argumenta em favor dessa noção apelando para o conhecido texto de João 3:5, que limita a entrada no reino de Deus aos que nascerem da água, o que ele interpreta como significando a necessidade do Batismo. Para Tertuliano, “sem o batismo, ninguém pode alcançar a salvação” (nemini sine baptismo competere salutem, cap. 12).

De que maneira o Batismo é necessário à salvação? Num contexto um pouco diferente, Tertuliano acusa Marcião de Sinope (como redução ao absurdo) de privar o Batismo de quatro benefícios: a remissão de pecados, o livramento da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo (Contra Marcion I, 28). Isso concorda com o que propõe o De Baptismo; já mencionamos a remissão dos pecados acima. Ele também menciona o Espírito Santo ao escrever sobre “…o Espírito de Deus, que de início pairava sobre as águas, continuaria sobre as águas dos batizados.” (De Baptismo 4).

Para Tertuliano, através da invocação de Deus, as águas adquirem o “poder sacramental de santificação” (praerogativa sacramentum sanctificationis, De Baptismo 4). Aqui Tertuliano alude à tradução, difusa na patrística, segundo a qual há nas águas do Batismo um poder santificador. Por isso, no mesmo capítulo, ele segue escrevendo: “Portanto, depois que as águas foram, de algum modo, imbuídas com virtude medicinal pela intervenção do anjo, o espírito é corporalmente lavado pelas águas, e a carne é, no mesmo, espiritualmente lavada.” Tertuliano esclarece que não são as águas em si mesmas que purificam, mas seu poder santificador prepara para o envio do Espírito Santo que acontece naquele momento (De Baptismo 6). Por isso, ele distingue o ato do batismo, que é carnal, do efeito do batismo, que é espiritual: a remissão de pecados ( De Baptismo 7).

Esses são só alguns exemplos de como Tertuliano ensinava a doutrina patrística unânime da Regeneração Batismal.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus era inclusivo? 16 razões por que a Comunhão deve vir depois do Batismo.

Medieval Baptismal Font | gardenaccents

A Tradição cristã ensina que a Santa Comunhão só deve ser recebida por batizados. Ao menos ordinariamente, é assim, e a maioria dos cristãos reconhece essa restrição. No entanto, aqueles de tendência mais biblicista sempre acabam perguntando se existe um fundamento nas Escrituras para essa limitação. Cristãos de tendência mais pós-moderna, apaixonados por uma ênfase particularmente aguda na inclusividade, tendem a não ver propósito nessa restrição. Seria uma marca da ‘religiosidade’ do passado, a ser eliminada.

Pretendo oferecer aqui o que considero serem razões corretas por trás dessa restrição. Defenderei que o Batismo é exigido antes da participação na Comunhão. (Não está em jogo, aqui, se há ou deve haver, canônica ou teologicamente, requerimentos ulteriores, como algum processo de catecumenato, Primeira Comunhão ou Confirmação, para a participação na Comunhão. Simplesmente não é o que se discute aqui. Queremos saber se um não-batizado pode participar do sacramento.)

É importante observar que os motivos que eu ofereço só fazem sentido quando tratamos os sacramentos como mais do que apenas símbolos. Para aqueles que veem o Batismo como “mero símbolo” e a Santa Comunhão do mesmo modo, usar um como limitação do outro é apenas questão de conveniência e ordem pública, mas sem um motivo espiritual grave. Assim sendo, a Igreja poderia mudar essa restrição sem efeitos sérios, caso julgasse que seria pastoralmente benéfico em alguma situação. Para alguém que pensa assim, os motivos que eu ofereço não parecerão mais do que analogias rarefeitas.

No entanto, se os sacramentos são realmente sacramentos, sinais e mistérios sagrados, isto é, se eles realmente invocam e selam forças espirituais (“graça”), se eles provocam um impacto espiritual sério, se realmente eles nos introduzem na esfera sobrenatural, se eles têm mais em comum com a magia do que com uma placa de trânsito, a coisa muda de figura. Aqui não tentarei provar que os sacramentos são essas coisas. Falo apenas aos que já lhes dão uma importância maior, e que estão convencidos de que essa posição é correta de acordo com a Escritura ou a Tradição.

Antes dos motivos, é importante dizer que nem todas as pessoas estão aptas a participar da Eucaristia, como Paulo escreve em 1Co 11. Isso pode inclusive ser ruim para elas. A eletricidade é muito útil, mas você não mexe com ela a menos que esteja devidamente protegido e preparado. Uma falha pode ser fatal. Esse é, inclusive, um dos motivos pelos quais sabemos que, para Paulo, o sacramento não era só um símbolo. Uma encenação não deveria ser capaz de fazer alguém adoecer, morrer e ser condenado. Então o sacramento não é e não deve ser para todo mundo. Não se trata de privar as pessoas de um bem, mas de evitar que esse bem as prejudique.

Eis dezesseis motivos pelos quais é mais sensato pensar que o Batismo é um requisito para a participação na Eucaristia:

1. Em Mt 7:6, lemos: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.” Esse texto bíblico, desde muito cedo, foi aplicado ao Batismo pelos cristãos, como registra a Didaquê (documento provavelmente do século I d.C). Não é difícil entender a lógica por trás dessa aplicação: Cristo ensina que coisas santas e preciosas (e a Eucaristia é uma coisa santa e preciosa) não devem ser dadas aos cães ou porcos (impuros, fora da comunidade). Nem todo mundo pode receber o que é precioso e santo. Como o Batismo torna alguém parte da comunidade (cf. 1Co 1:13; 12:13), ele se torna, no mínimo, um requisito para a condição de participante de alguém que pertence à comunidade. Esse argumento leva em conta uma lógica de pureza (limitando a hospitalidade) que se repetirá em argumentos posteriores.

2. Como indica implicitamente o texto de João 3:25-26, o Batismo (de João, ainda) era entendido como uma purificação. A lógica ritual da Bíblia é de que aqueles que estão puros podem participar dos ritos da comunidade, particularmente dos sacrifícios. Isso certamente inclui a Eucaristia.

3. Como lemos em Êx 12:44,48, somente os circuncisos poderiam participar da Páscoa. Ora, Cristo é a Páscoa da qual participamos (1Co 5:7-8), e a nossa circuncisão ocorre no Batismo (Cl 2:11-12). (Observe-se que o Batismo assume tanto o papel dos ritos de purificação com água quanto da circuncisão.)

4. Em linha com o que se disse até aqui, lemos em Hb 10:19-22: “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” Esse texto, por si mesmo, já mostra a necessidade de que tenhamos o corpo lavado com água pura (Batismo) para adorarmos a Deus como devemos. Mas a referência dupla ao sangue e à carne de Cristo parece ser alusão ao mistério cristão da Comunhão, no qual chegamos a Deus, entrando no Santo dos Santos. Mais uma vez, temos a lógica de pureza (“água pura”, cf. Ez 36:25).

5. Em Mt 28:19, os apóstolos recebem a missão de discipular pessoas de duas maneiras: batizando-os e ensinando-os a guardar o que Cristo ensinou. No contexto desse evangelho, aprender a guardar o que Cristo ensinou inclui a participação na Comunhão. O texto presume que, embora haja uma missão para todas as nações, a obediência a Cristo se dá no contexto da formação de discípulos.

6. Aprendemos em textos como 1Co 1:13; 12:13; Ef 4:4-7 e outros que o Batismo assinala nossa pertença à unidade da Igreja. Ora, o mesmo se diz da Eucaristia em 1Co 10:16. Ora, por uma questão de coerência eclesiológica, essas duas coisas só fazem sentido se aquele que participa do segundo sacramento também recebeu o primeiro.

7. Como o Batismo cristão é recebido apenas uma vez, ao passo que a Comunhão é recebida muitas vezes, é muito mais coerente encarar o Batismo como a entrada na comunidade e a Eucaristia como uma continuação nela.

8. No Novo Testamento, o Batismo era feito com certa urgência, sem muita preparação ou ensino prévios. Não se nota a mesma urgência quanto à participação da Eucaristia, ainda que ela seja central. Esse padrão é mais coerente com visualizar o Batismo como antecedendo a Eucaristia.

9. Enquanto o Batismo nos introduz na realidade escatológica futura, o mundo Vindouro (At 2:38; Rm 6:3-7; Gl 3:26-28; Cl 2:12 etc.), a Eucaristia corresponde ao Banquete escatológico do cordeiro (cf. Mc 14:25; Lc 22:30 etc.). Ora, essa vinculação escatológica, por analogia, faz com que aquilo que está ligado no futuro (no “ainda não”) esteja ligado também à sua iniciação presente (no “já”). Assim, se o Banquete pertence ao Mundo Vindouro, a Comunhão pertence ao Batismo.

10. Uma vez que é no Batismo que nos revestimos de Cristo, é nele que recebemos nossa filiação (cf. Gl 3:26-28). Ora, é absurdo que haja comunhão entre os que vivem como filhos de Deus e os que não vivem.

11. Como aprendemos em At 2:38 e noutras partes, no Batismo nós recebemos a remissão de pecados (necessária). Como podemos ter comunhão com Cristo na Eucaristia (1Co 10:16-17) sem a remissão de pecados? Impossível.

12. Aprendemos em Jo 3:3-5 que somente podem ver o reino de Deus aqueles que nascerem do alto, isto é, da água e Espírito. A maioria dos cristãos interpreta essa “água” como indicando o Batismo. Se a Eucaristia pertence ao reino de Deus, ela não pode estar separada do Batismo.

13. Em 1Co 10:1-4, o apóstolo Paulo faz uma leitura alegórica da história da libertação da nação de Israel, aplicando-a aos sacramentos cristãos do Batismo e da Eucaristia. Há uma sequência no texto: primeiro, cruzou-se o mar; depois, bebeu-se da rocha. Primeiro os israelitas foram libertos, depois foram alimentados por Deus. Essa coerência narrativa parece presumir a sequência entre Batismo e Eucaristia.

14. Comunhão presume aliança. Ora, a Eucaristia é comunhão (1Co 10:16-17). Se o Batismo, enquanto circuncisão, envolve aliança (cf. Gn 17:10), a Eucaristia presume o Batismo.

15. Na vida de Cristo e na narrativa dos Evangelhos, o Senhor foi precedido por João Batista, o pregador do Batismo. Esse precursor tem o trabalho de anunciar a preparação para o que Cristo depois faria. O Batismo de João batista deu lugar ao Batismo cristão, mas, ao colocarmos o Batismo antes da Eucaristia, nós preservamos a sequência da vida de Cristo (que só instituiu a Eucaristia perto do fim). Há uma coerência narrativa e cristológica, pois revivemos a história de Jesus.

16. Em At 2:38 e outros textos, vemos que recebemos o Espírito Santo através do Batismo. Em 1Co 10:16, temos comunhão com Jesus através da Eucaristia. Ora, se é através do Espírito Santo que temos comunhão com Jesus, o Batismo deve preceder a Eucaristia.

Embora eu tenha prometido dezesseis motivos, o leitor atento notará que esses motivos têm vários semelhanças entre si. Eles formam um padrão: preparação-comunhão, uma lógica de pureza. Esses motivos podem permitir que outros sejam vistos, seguindo a mesma lógica de observar os traços tipológicos e os benefícios do Batismo, e enxergar como eles fazem mais sentido se o Batismo precede a Eucaristia.

Mas Jesus limitaria a mesa? Essa é uma pergunta importante a se fazer. O que Jesus faria? Mas inevitavelmente, a resposta que damos a essa questão está ligada o modo como vemos Jesus, a imagem que fazemos dele e, nesse ponto, limitamos a sua liberdade nessa questão. O que podemos fazer é, no máximo, refletir a partir dos registros de Jesus. Se tomarmos os evangelhos canônicos como parâmetro — e a própria noção de “evangelhos canônicos” já presume certa seleção exclusiva —, notaremos que há motivos encontrar, na imagem de Jesus, tanto exclusividade quanto inclusividade, em suas ações e palavras.

Vemos nas atitudes de Jesus aquilo que nós poderíamos chamar hoje de inclusividade. Ele comeu e andou com pecadores e publicanos (como Zaqueu); visitou e pregou a inimigos do seu povo (como os samaritanos); convocou crianças; ensinou a mulheres; tocou leprosos; conviveu com os pobres. Ele disse que não veio chamar os justos, mas sim os pecadores. Ele foi até aqueles que nós poderíamos chamar de “excluídos”, os impuros, os de fora. Ele disse: “quem não é contra nós é por nós” (Mc 9:40). Vemos em Jesus uma hospitalidade acolhedora para com todos esses diminuídos. Essas e outras coisas atravessam os evangelhos.

Por outro lado — eu sei que vocês já esperavam por isso —, vemos também no Jesus canônico uma representação da tendência inversa. Ele disse que veio apenas para os perdidos da casa de Israel — perdidos (inclusividade!) mas da casa de Israel (restrição) —, e ensinou os seus discípulos a evangelizarem apenas judeus; ele ensinou que aquele que não desse ouvidos à Igreja deveria ser tratado “como um gentio e publicano”, isto é, como alguém de fora; ele ensinou que não se deveria dar as coisas preciosas e santas aos impuros (cães e porcos); ele falou em parábolas para não ser entendido pelos de fora. Aliás, embora tivesse uma mensagem universal, Cristo em alguns momentos guardava segredos para aqueles que os pudessem reter, até o momento certo, como na ressurreição da filha de Jairo, na Transfiguração, no Gêtsemani e na própria instituição do sacramento. Vemos, no discurso de Jesus, a possibilidade da perdição eterna, das Trevas Exteriores, e o ensinamento de que “porque estreita é a porta e apertado é o caminho que leva à vida, também poucos há que a encontrem.” (Mateus 7:14). A porta estreita e o caminho apertado são símbolos de exclusão. Poucos encontram o caminho, essas são as palavras terríveis de Jesus nas Escrituras. Por isso, ele diz a alguns: “apartai-vos de mim”. Na Parábola das Bodas de Mt 22, depois de fazer um convite a que todas pessoas participem do banquete, o rei manda retirar da festa uma pessoa que entrou sem as vestes adequadas (vv. 11-13). (É interessante observar que a versão de Lc 14 não tem esse trecho, e que Mateus geralmente tende um pouco mais à exclusividade do que Lucas.)

Então vemos inclusividade e exclusividade, e a única maneira de preservar essa tensão é não tentar eliminar um dos dois polos, que emergem por haver uma dualidade contraditória, não em Jesus, mas em nós. Essa dupla tendência aparece belamente nas palavras finais do Apocalipse: as portas da cidade estarão sempre abertas (21:25-26; cf. Is 60:11), mas podem entrar apenas os que lavaram as suas vestes (22:14).

Eu tenho muita simpatia pelos amigos e irmãos que em em Jesus uma mensagem de hospitalidade irrestrita. Eu diria que tenho mais em comum com eles do que com quem vê apenas o Jesus exclusivista, pois também eu quero ser incluído. No entanto, julgo que não encontramos, nas palavras de Cristo nos evangelhos, uma mensagem de comunhão sem restrições. Cristo ressignificou os padrões de pureza, mas não eliminou a noção de pureza em si. Sem isso, qualquer discurso sobre a necessidade de conversão e transformação é sem sentido.

Há um vínculo profético entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico. Onde houver a possibilidade de exclusão no banquete escatológico — “ficarão de fora” (Ap 22:15), “serão lançados para fora” (Mt 8:12) —, deve haver, pelas mesmas razões (mas segundo nossas limitações), possibilidade de exclusão do banquete eucarístico presente, pois “com o tal nem ainda comais” (1Co 5:11). O Batismo, enquanto transição profética, é o momento adequado para assinalar a mudança inclusiva. O sacramento da fonte é a inclusividade de Cristo, a declaração divina de que, pela graça, a partir de agora certas pessoas estão incluídas na comunidade do futuro.

Rev. Gyordano M. Brasilino