Que necessidade havia na morte de Jesus?

Alguém perguntou:

Porque houve a necessidade de um sacrifício redentor? Por que Deus simplesmente não perdoou a humanidade por um simples [sic] ato de vontade?”

Não há necessidade de que Deus salve a humanidade desse ou daquele jeito. Deus poderia, sim, salvar a humanidade com uma só palavra. De fato, o perdão, na sua essência, é um ato gratuito, que emana das riquezas da misericórdia divina. Como Jesus disse tantas vezes a tantas pessoas: “teus pecados estão perdoados”.

A questão não é se Deus poderia fazer alguma coisa dessa ou daquela maneira, mas sim qual problema Deus tencionou resolver. Como ensinou Santo Atanásio, se fosse o problema do perdão apenas, bastaria o arrependimento, sem a Encarnação — Deus sabe perdoar do mesmo jeito que nos manda perdoar. O perdão divino implica algo maior: reconciliação com Deus, e para isso precisamos ser curados do pecado.

Então a pergunta assume a seguinte forma: já que Deus poderia salvar a humanidade de infinitas maneiras, porque a Sabedoria Eterna escolheu que acontecesse como aconteceu, tão dura e dolorosamente? A categoria correta não é necessidade, mas conveniência, adequação, propriedade, proporcionalidade, “fittingness“.

Certamente Deus quis nos salvar de uma maneira que, simultaneamente, exaltasse a Cristo, revelasse mais plenamente a natureza divina e fosse a mais adequada à nossa natureza e necessidade.

Desse modo, embora certamente esteja dentro da Onipotência nos salvar de infinitas maneiras — quem diz que Deus só poderia salvar de um jeito ofende essa Onipotência —, não somos capazes de imaginar nenhuma maneira que seja tão gloriosa como a Redenção contada nos evangelhos.

Imagine, por um instante, que Deus nos tivesse salvado (transformado) por um ato de poder. Nós receberíamos passivamente a salvação, mas seríamos incapazes de imitá-lo. Mas nos salvando, não por um ato de poder, mas pelo sofrimento da dor — isto é, pela obediência até a morte —, ele nos deu um caminho a imitar: a cruz. Como ensinam os Pais, Deus não quis nos salvar pelo poder, mas pela justiça (virtude).

Então Deus providenciou um caminho melhor, no qual:
1. Nós participemos da dividade comendo a carne e bebendo o sangue de Cristo, imitemos sua vida e morte obedientes, e nos enchamos de devoção e autoentrega ao contemplarmos a Paixão.
2. Cristo seja premiado pela obediência, tornando-se Senhor de vivos e mortos, tendo um nome acima de todo o nome, assentando-se acima de principados e potestades — recebendo essa posição (“entrasse na glória”) por merecimento (“vindicação”), tendo superado toda tentação, vergonha, maldição e inculpação a que estamos sujeitos. Cristo, o supremamente humilhado, é supremamente exaltado.
3. Os demônios sejam vencidos, não por poder bruto, mas por obediência dolorosa.
4. O próprio Deus participe do sofrimento do mundo, sem ficar assistindo distante, no trono da glória, todo o drama que ele criou.

Quanto à noção de sacrifício, é adequado, conveniente e apropriado que a reconciliação de um ofensor de alguém envolva sempre a auto-humilhação da pessoa que pede perdão (assim como de qualquer representante seu). Parte do processo de intercessão de Cristo (que continua acontecendo hoje) envolve isso. Ele não o faz porque esteja tentando convencer um “Pai” rancoroso que tenha dificuldade em perdoar, mas apenas para que nós tenhamos dimensão do valor imenso do que nos é dado.

Em outras palavras: podendo escolher uma rota mais fácil, Deus escolheu o caminho mais difícil e quer que façamos o mesmo. Com isso, nós dá maior motivo para amá-lo.

Muito mais coisa se pode dizer a esse respeito, mas aqui está o começo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O “Mistério” não salvará a Substituição Penal

Eu costumo argumentar que a ideia de Cristo ser punido no lugar da humanidade é injusta, segundo a lei divina revelada. É um defeito moral dessa teoria.

Alguém me trouxe uma resposta que eu considero a escapatória óbvia, mas que pouca gente tem coragem de apresentar, o “apelo ao mistério”, ou, mais propriamente, o “apelo à ignorância” (argumentum ad ignorantiam): não se pode dizer que punir um inocente (Cristo) seria injusto porque a justiça de Deus está além da nossa compreensão. Algo assim.

Pouca gente tem coragem porque instintivamente as pessoas sabem que é uma resposta falaciosa. Quem a apresenta comete contradição performática: diz que não entendemos a justiça de Deus, mas, ao usá-lo como argumento, age como se soubesse o que é e o que não é compatível com essa justiça, logo presumindo que entende a justiça divina.

A questão é: como podemos separar a justiça de Deus revelada daquela supostamente oculta? Como vou desprezar o revelado e fazer de conta que sei o segredo? O que está revelado é que Deus abomina mãos que derramam sangue inocente.

O “apelo ao mistério” não funciona. Uma situação pode ser incompreensível porque o número de fatores nos escapa, mas não é assim nesse assunto. A situação de Cristo tem um número muito pequeno de fatores, todos perfeitamente compreensíveis. Ninguém tem qualquer dificuldade de entender que Caifás e Pilatos cometeram uma injustiça ao punirem um inocente. Não há mistério. Não há fatores ocultos. Não há como dizer que Caifás e Pilatos, ao punirem um inocente, erravam, mas “Deus” acertaria em fazer exatamente o mesmo, como cúmplice deles.

Aliás, o próprio Cristo via que a justiça de Deus reverteria a injustiça sofrida:

“porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós… e, quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente,” (1Pedro 2:19,21,23)

Como vários outros, o defeito moral da Substituição Penal é invencível, não há resposta possível. Mas ele tem pouco poder de convencimento, porque os defensores da SP, por entenderem errado alguns textos da Bíblia, acham que a coisa realmente aconteceu (Deus puniu Cristo como substituto), então guardam uma esperança de que, de algum modo, não seja injustiça aquilo que eles sabem que é injustiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O problema não é com Deus!

Jesus não veio ao mundo para nos salvar de Deus. Jesus não veio ao mundo para aplacar a ira de um “pai” que deseja ver morte, sangue e violência para se satisfazer. Essa imagem de Deus está totalmente errada, indigna do Eterno, indigna da Santidade Absoluta, indigna de Jesus.

O que aconteceu é que, na época da Reforma, muitas pessoas carregavam uma imagem muito errada de Deus. Não dá para dizer que essa imagem era universal naquela época, pois encontramos doçura e misericórdia em muitos dos pregadores e místicos medievais, como São Bernardo (que tanto inspirou Lutero), Santa Gertrudes, Santa Juliana de Norwich. Mas certamente essa imagem odiosa de Deus foi a que vários reformadores receberam. Ela está no Purgatório de Tomás More, por exemplo.

Veja o que Calvino escreve no livro II das Institutas:

Ora, uma vez que ninguém pode descer dentro de si mesmo e sondar seriamente o que quer que seja sem que, sentindo a Deus irado e hostil para consigo, não tenha necessidade de buscar ansiosamente meio e maneira de aplacá-lo; o que exige satisfação requer-se certeza não comum, visto que sobre os pecadores, até que tenham sido absolvidos da culposidade, cai sempre a ira e maldição de Deus, o qual, visto ser justo Juiz, não deixa impune quem viola sua lei; pelo contrário, armado ele está para a punição.” (XVI, 1)

O que Calvino diz aí? Ele descreve uma experiência de introspecção (“descer dentro de si mesmo”). O que quer que sondasse dentro de si, ele via essa imagem um “Deus irado e hostil para consigo”, e uma necessidade de aliviá-lo. Eu não acredito que Calvino visse só isso em Deus, pois muitas outras partes refletem um pensamento diferente, mas certamente ele sofria com esses escrúpulos de uma consciência anormalmente pesada.

Eu não sei o que é descer dentro de mim mesmo e encontrar esse Deus irado. Boa parte do tempo eu vejo meus muitos e graves pecados, mas, olhando mais profundo, sempre vejo o Deus de amor infinito do qual eu dependo. Eu vejo minha dependência, fragilidade, necessidade. Mas já vi pessoas descreverem exatamente o que Calvino descreve, e vi as consequências danosas desse tormento.

O que ele fez, então? Fez o que a Escritura manda: foi até Cristo para buscar alívio e descanso para a alma, lançou seus fardos sobre Cristo. Mas o fez do jeito errado, e, por isso, em vez de curar a imagem errada que tinha do Pai, ele preservou e reproduziu essa imagem, com a solução errada.

A ira do Pai é seu desgosto com o pecado que nos destrói, que destrói as pessoas ao nosso redor, que destrói a Criação, que sumamente destrói nossa comunhão com ele. O problema que Jesus veio solucionar não é um problema com Deus, mas conosco.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Negociando a Salvação

A salvação e a comunhão com Deus são tratadas, na Bíblia, a partir da perspectiva da dádiva: um presente de Deus que convida à reciprocidade por parte da pessoa humana, numa troca livre, diferente de uma compra.

No entanto, numa medida muito menor, a imagem da compra também é usada, e prepara o caminho para ela de várias maneiras. O Antigo Testamento já conhece a responsabilidade que Deus assume pelos pobres (Pv 19:17), raiz da noção judaica antiga de “tesouro no céu”. Nesse caso, ao assumir a dívida (de gratidão) dos pobres, a reciprocidade ganha um tom próximo ao da compra, porque Deus não falha na retribuição.

A imagem plena da compra aparece particularmente em dois lugares do Novo Testamento:

☩ Mateus 13:45–46 – “O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra.”

☩ Apocalipse 3:18 – “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.”

No primeiro caso, o próprio “reino dos céus” é comprado pelo negociante. No segundo, compra-se de Cristo “ouro refinado” (riqueza espiritual), “vestiduras brancas” (identidade espiritual) e “colírio” (visão espiritual). Essas coisas são negociadas ou compradas de Deus ou de Cristo, não simplesmente recebidas como presentes.

Tudo isso se insere muito bem na imagem do “tesouro celestial”, que é adquirido (por exemplo) através das obras de misericórdia. Há um tesouro a ser alcançado pelos cristãos renunciando a coisas desta vida, e esse tesouro é distinto do tesouro terreno. Os pobres do mundo são ricos a fé (Tg 2:5). Os que parecem ser ricos são pobres e os que parecem ser pobre são ricos (Ap 2:9; 3:17; cf. 2Co 8:2). Há uma inversão entre riqueza e pobreza, e portanto uma possibilidade de conversão de uma riqueza na outra.

É importante que essa não se torne a maneira dominante pela qual nossa santificação e progresso na fé sejam tratadas, para que não se perca de vista a gratuidade e generosidade divinas, mas também é necessário que ela tenha um lugar, que nos relembre da necessidade de nosso próprio empenho.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Perdão segundo Jesus

As parábolas de Jesus nos dão uma imagem magnífica do perdão divino.

Na mais famosa, a do Filho Pródigo, o perdão escandaloso do pai vence toda a vergonha pública e se lança sobre filho, mesmo antes que ele confesse o seu pecado, e o chama à alegria do banquete escatológico. Bastou o retorno do filho. É o perdão doado sem reservas, sobre um filho que havia desonrado o pai, pela felicidade do retorno. O perdão é a reconciliação, é reviver, é ser encontrado.

Na parábola do Credor Incompassivo, o perdão é exigente quanto ao nosso comportamento futuro, mas sua compaixão diante da humilhação penitente é tamanha que toda a dívida é perdoada — nenhum centavo resta a pagar.

Repetindo o tema, a Parábola dos Dois Devedores fala da motivação do perdão: os dois devedores não têm com o que pagar, e o resultado é que aquele que foi mais perdoado amou mais.

Na parábola mais próxima da realidade humana (parábola exemplar), a do Fariseu e do Publicano, novamente bastou confissão penitente e contrita do publicano diante do altar divino, sem o desejo de parecer melhor do que ninguém, e ele retornou para casa justificado.

Essas lindas parábolas estão em continuidade com as narrativas patriarcais de perdão gratuito — de como Esaú e Jacó se reconciliam, ou de como José perdoa os seus irmãos —, e se inserem no Pai Nosso, no qual o perdão divino sobre nós e o perdão humano sobre os nossos devedores se vinculam tanto em natureza (perdoamos do medo modo) como em dependência (somos perdoados porque perdoamos).

A imagem que essas parábolas transmitem não é a de um Pai exigente que só perdoa quando é satisfeito, quando tem sua honra reparada (Sto Anselmo) ou quando tem sua ira satisfeita com violência (Calvino). Deus é maior que a mesquinharia humana.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Imortalidade da Alma

Existem vários lugares na Bíblia em que se pode falar de uma continuidade da consciência após a morte, que tratem da morte como uma partida (peregrinação), mas creio que o melhor texto para apresentar uma noção de imortalidade da alma seja II Coríntios 4:16–5:8. É uma tragédia que tenham colocado a divisão de capítulos bem aí, no meio do assunto.

Esse trecho nos apresenta:
• A distinção entre o exterior corruptível e o interior incorruptível (4:16).
• A distinção entre o passageiro e o eterno (4:17).
• A distinção entre o visível temporal e o invisível eterno (4:18).
• Habitação celestial após a morte (5:1-2).
• “enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor” (5:6)
• “deixar o corpo e habitar com o Senhor” (5:8).

A correspondência leva à conclusão: o homem interior é incorruptível, invisível e eterno. Esse texto transmite a mesma noção de Fp 1:20–24, mas aponta mais claramente para o interior eterno.

Sim, o texto toca na ressurreição corporal, mas não fala só disso. Se lemos essas coisas levando em conta o ambiente cultural grego (dos leitores originais) e as várias concepções de vida após a morte no judaísmo na Antiguidade, não tem outra possibilidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Redenção sem Substituição?

Como ensinar a Redenção de maneira simples, sem Substituição Penal?

Geralmente as pessoas fazem essa pergunta porque, tendo sido ensinados a pensar a salvação nos termos da Substituição Penal, não conseguem pensar o assunto de outro modo, então ficam sem saber como “evangelizar” ou “pregar”.

É importante entender: pregar o Evangelho NÃO é explicar a teologia da expiação. Pregar o Evangelho é contar a história da Redenção, aquilo que está no Credo, o querigma dos apóstolos nos Atos.

A salvação não tem a ver com as ideias que você tem na cabeça quando pensa sobre a expiação. Tem a ver com confessar com a boca que Jesus Cristo é Senhor, crer no coração que Deus o ressuscitou dos mortos, com todas as consequências. A afirmação de que “Cristo morreu por nossos pecados” (1Co 15:3) é essencial para esse querigma, mas jamais isso é convertido pelos apóstolos numa teoria penal (morreu como réu substituto, punido por Deus).

Todas as pessoas que acrescentam a esse depósito apostólico uma teologia da expiação como parte da essência do evangelho incorrem no anátema paulino.

Há algumas rotas bem simples para explicar a Redenção. Todas essas rotas levam a explicações complicadas, mas isso é da essência da verdade. Quem quer uma doutrina que seja inteiramente simples procura uma mentira.

Sete boas rotas (todas conectadas):

VITÓRIA SOBRE O PECADO (Prêmio e Recapitulação). “…tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira…” (Fp 2:8–9).
— Não a morte apenas, mas a obediência (amor) até a morte mereceu o senhorio de Cristo dentro da ordem cósmica. Cristo mereceu a Ressurreição e o envio do Espírito Santo. A essência do sacrifício é essa oferta do coração, através da qual Cristo continua intercedendo por nós. Essa obediência de Cristo substitui a desobediência de Adão.

VITÓRIA SOBRE O DIABO (Libertação). “…para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo,” (Hb 2:14).
— Há várias maneiras de explicar a maneira pela qual o diabo perdeu sua “autoridade” (abusada). Uma delas é a ideia de que, ao atacar Cristo, ele se excedeu em extremo, e por isso foi punido. Com isso, Cristo libertou os que estavam debaixo do poder do inimigo.

VITÓRIA SOBRE A MORTE (Ressurreição). “ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte…” (Atos 2:24).
— Ao entrar na morte, Cristo desfez desde dentro todas as barreiras que havia para a vida eterna. Unidos misticamente a ele, nós temos o mesmo destino.

SACRAMENTO. “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna…” (Jo 6:54).
— Cristo sofreu ali para disponibilizar seu poder vital divino através do sacramento.

EXEMPLO e ENSINO. “…Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas,” (1Pe 2:21).
— Embora o exemplo e ensino de Cristo não sejam suficientes para explicar o propósito de missão, ele ensina como muita clareza que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade”. Deus poderia ter salvado a humanidade só com um ato de poder, sem sofrimento; mas seguiu o caminho do sofrimento porque neste nós podemos imitá-lo em sua humildade.

IDENTIFICAÇÃO. “Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo.” (Hb 2:17).
— Ao assumir a condição humana, sem detrimento da sua pureza perfeita, Cristo recebeu sobre si todas as suas mazelas, incluindo a mortalidade. Então Cristo sofre as consequências do pecado humano (não como substituição, mas como empatia) sem merecê-las, e isso, a um só tempo, ressalta o mérito de sua paixão (pois a justiça exige sua vindicação) e, portanto, o seu prêmio, e se torna o meio pelo qual ele cura e eleva a humanidade desde dentro (deificação). Isso inclui a identificação com o sofrimento de Israel (Isaías 53).

ALIANÇA. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios…” (Gl 3:13-14).
— Ao ser amaldiçoado pelos detentores da aliança, Deus está efetivamente fora dela e, portanto, acessível ao mundo inteiro, fora da limitação temporária da Lei.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo pôs fim à limitação dos sacrifícios?

Existe uma maneira incorreta de contar a história do Antigo Testamento ao Novo, quanto ao tema do sacrifício. Algumas pessoas pensam a coisa assim: no Antigo Testamento havia os sacrifícios de animais, como maneira de receber o perdão de Deus, e o Novo Testamento veio e aboliu a coisa com o sacrifício de Jesus.

Esse equívoco é comum em pessoas que só leem a Bíblia e o fazem de uma maneira mais desatenta e particularmente “pactual”. (Não me refiro à “teologia do pacto” reformada.) É como se o sacrifício de animais fosse a maneira única de receber perdão na Antiga Aliança e isso termina com o sacrifício de Cristo. Isso leva a vários enganos tanto no entendimento da natureza dos antigos sacrifícios quanto na da obra da Redenção.

É verdade que, de uma perspectiva cristã, o sacrifício de Cristo torna sem sentido os antigos sacrifícios (como em Hebreus). Mas uma coisa é explicar uma relação teológica e simbólica, outra coisa é contar uma história. No mundo concreto dos fatos humanos, há sempre uma imensidão de fatores em jogo. A história não é tão simples.

Na verdade, os sacrifícios continuaram sendo realizados depois que Cristo morreu — e os apóstolos aparentemente continuaram envolvidos nesse sistema simbólico por um tempo —, e muito antes dele nascer as pessoas já sabiam que os sacrifícios não eram a única maneira de receber perdão. Outras ações eram equiparadas.

Quando a maior parte do Antigo Testamento foi escrita, várias religiões do mundo antigo (inclusive a israelita) haviam passado por um processo de espiritualização e interiorização do sacrifício: o rito exterior passou a ser visto como uma “corporificação” (em forma de dom) das intenções interiores dos adoradores, assim como uma maneira de tornar visíveis a comunhão entre os adoradores e (no caso dos sacrifícios expiatórios) o perdão divino. Embora a ideia já tenha sido criticada sob várias frentes, e muitas vezes a crítica seja legítima, ela continua existindo nos estudos da área, sob o nome, popularizado por Jaspers, de “Era Axial”.

Ademais, por fatores de sua própria história, a religião oficial passou por um tempo sem seu próprio Templo. Assim como no judaísmo contemporâneo, que encontra perdão sem o oferecimento de animais, assim também foi em tempos anteriores. Por isso, nós nos deparamos, tanto em trechos do Antigo Testamento e na literatura posterior, a equiparação de várias ações religiosas não-sacrificiais ao sacrifício. Por exemplo:

• O sacrifício agradável a Deus é o do coração (Sl 51:16-17).

• Diversas ações são tratadas como sacrificiais (Sir 35:1-5).

• Pede-se que a oração seja tratada como incenso e sacrifício (Sl 141:2; cf. Pv 15:8). Assim também o cântico (Sl 27:6; 50:14,23; 54:6; 107:22; 116:17).

• O temor é maior que os sacrifícios (Jud 16:16).

• A esmola e misericórdia expia pecados (Pv 10:2; 11:4; 16:6; 21:3; Tob 4:7-11; 12:8-9; Sir 3:33; cf. Os 6:6).

• A honra aos pais expia pecados (Sir 3:3,14).

• Mudança das más obras para as boas, na prática da justiça, é suficiente (Ez 18).

• Os mártires faziam expiação pelos pecados da nação (Dn 3:40 LXX; 2Mc; 4Mc).

Por isso, quando Hebreus 13 fala do sacrifício da beneficência e do louvor, ou quando Romanos 12 fala do sacrifício dos nossos corpos, não diz coisa nova. Essa doutrina cristã já estava lá, bem assentada, no Antigo Testamento e nas religiões próximas. Afinal, ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”, Cristo citou o Antigo Testamento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Mártires Expiadores

A chamada “teologia dos mártires” é um dos elementos do judaísmo do Segundo Templo que provavelmente influenciaram o cristianismo. Em síntese, essa doutrina ensina que aqueles que morriam zelosos da Lei, num tempo em que Israel estava sob a ira divina pela desobediência à Lei, por sua obediência extraordinária de entregar a própria vida, expiavam o pecado da nação.

A lógica às vezes parece ser de que, quando o castigo nacional e coletivo (a opressão pagã e idólatra) recai sobre os mártires inocentes, sua condição suscita a compaixão divina, seguindo aquela lógica, bem assentada no Antigo Testamento, de que nosso sofrimentos são instrumentais na misericórdia de Deus (“Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa todos os meus pecados.“, Sl 25:18), mas agora segundo uma aplicação nacional. Assim como a punição da nação recai sobre eles, a misericórdia lançada sobre eles cobre a nação. Assim também, a nação estrangeira, ao se exceder na execução do juízo divino, atrai para si esse juízo.

2 Macabeus 7:30-38 | 30 …Eu não obedeço ao mandamento do rei! Ao mandamento da Lei, porém, que foi dada aos nossos pais por meio de Moisés, a esse eu obedeço. 31 Quanto a ti, que te fizeste o inventor de toda a maldade que se abate sobre os hebreus, não escaparás às mãos de Deus. 32 Porquanto nós, é por causa dos nossos pecados que padecemos. 33 E se agora, a escopo de castigo e correção, o Senhor, que vive, está momentaneamente irritado contra nós, ele novamente se reconciliará com os seus servos. 34 Mas tu, ó ímpio e mais celerado de todos os homens, não te eleves estultamente, agitando-te em vãs esperanças, enquanto levantas a mão contra os seus servos, 35 pois ainda não escapaste ao julgamento de Deus todo-poderoso, que tudo vê. 36 Nossos irmãos, agora, depois de terem suportado uma aflição momentânea por uma vida imperecível, morreram pela Aliança de Deus. Tu, porém, pelo julgamento de Deus, hás de receber os justos castigos por tua soberba. 37 Quanto a mim, como meus irmãos, entrego o corpo e a vida pelas leis de nossos pais, suplicando a Deus que se mostre logo misericordioso para com a nação e que, mediante provas e flagelos, te obrigue a reconhecer que só ele é Deus. 38 Possa afinal deter-se, em mim e nos meus irmãos, a ira do Todo-poderoso, que se abateu com justiça por sobre todo o nosso povo!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Lava-Pés: Quatro Sentidos

Podemos ver quatro sentidos (não exaustivos e não exclusivos) no ato de Cristo de lavar os pés dos seus discípulos.

☩ Sentido Literal: Ao lavar os pés dos discípulos, Cristo coloca diante deles um exemplo a ser seguido. Eles deveriam estar dispostos a ter seus pés lavados e lavar os pés mutuamente, mostrando, com isso, um compromisso de humildade, serviço, reciprocidade, fidelidade a Cristo. No ambiente semítico e oriental de Jesus, o gesto de lavar os pés de outra pessoa era desonroso e inaceitável, que dirá se feito por um mestre, mas esse amor extremo de Jesus deve iluminar todas as nossas práticas e toda a nossa vida.

☩ Sentido Alegórico: O lava-pés é um ato profético (“compreendê-lo-ás depois”) que aponta, no contexto do Quarto Evangelho, para a missão do próprio Cristo, que foi despido em sua Paixão e verteu água quando ferido. Seu sacrifício traz transformação e pureza para os seus discípulos, uma pureza da qual eles precisam continuamente se limpar. Eles devem confiar em Jesus, e confiar que a humildade dele na cruz não é uma derrota, mas o meio pelo qual ele os purificaria. Ao dizer “Se eu não te lavar, não tens parte comigo“, Cristo mostra que não há salvação fora do seu sacrifício. Pedro, resistente à mensagem, representa aqui a Igreja na sua dimensão mais humana, frágil, que tantas vezes resiste ao plano do Senhor. Os discípulos, seguindo o modelo de Jesus, levam a pureza de Jesus para outras pessoas; eles limpam outras pessoas com a graça de Jesus, mas só o fazem plenamente se eles mesmos tiverem sido limpos.

☩ Sentido Moral: O texto aponta para duas dimensões da nossa alma, aquela que mais profundamente está ligada a Jesus (e portanto já está limpa) e aquela mais baixa, que continuamente se suja pelo contato com o mundo. Embora já tenhamos sido purificados por Jesus uma vez, não temos parte com ele a menos que ele limpe os nossos pés. Por isso, para termos plena comunhão com ele, precisamos de que ele nos limpe. A graça de Cristo nos livra mais facilmente dos pecados maiores e visíveis, mas há sempre uma sujeira por baixo que necessita de purificação. “Já lavei os pés, tornarei a sujá-los?” (Cânticos 5:3)

☩ Sentido Anagógico: Esse texto aponta para a pureza plena e definitiva que Cristo trará a nós e a este mundo. Embora ainda enfrentemos o pecado, um dia ele nos purificará por completo, limpará os nossos pés para que estejamos com ele para sempre em Terra Santa, na Nova Jerusalém. Ficarão de fora os impuros, mas, se já tivermos sido purificados pela lavagem do corpo, restará apenas uma limpeza menor, que ele fará por sua graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino