A Conversão de Roma

A breve história do encontro entre Jesus e um centurião romano (Mateus 8:5-13) se convita o leitor a uma leitura espiritual e alegórica. Esse encontro é mais do que uma história de milagres como tantas outras.

O centurião é um representante da autoridade romana e do poder romano, que avançava pelo mundo fazendo províncias pelo poder militar, e esse mesmo centurião faz referênica à cadeia de comando da qual era parte (“eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens”). Para o centurião, Jesus tem sua própria cadeia de comando, capaz de curar.

Essa história tem um paralelo intencional em outra história de milagre no mesmo Evangelho: o exorcismo da filha de mulher canaanita (15:21-28). Essas histórias têm sete elementos principais em comum:

1. Não sabemos os nomes dos personagens, mas eram ambos pagãos.

2. O personagem que encontra Jesus procura um milagre para outra pessoa: o centurião, para o seu escravo; a mulher canaanita, para a sua filha.

3. Jesus elogia a fé dessas pessoas. No caso de Mateus, Cristo é explícito em dizer que essa fé está acima da dos israelitas; no caso da mulher canaanita, ele não o diz explicitamente, mas essa fé é vista como suficiente para romper a separação entre os filhos (puros) e os cachorrinhos (impuros).

4. A versão mateana, em ambos os casos, amplia a resposta final de Jesus. Marcos conhece a história da sirofenícia e Lucas conhece a história da cura do servo do centurião, mas a versão de Mateus é, em ambos os casos, bem mais significativa na resposta final.

5. Ambas as histórias lidam com hierarquia.

6. Em ambos os casos, Jesus não vai até o lugar para curar, mas cura à distância. (Veja-se a diferença do caso da cura da filha de Jairo, em que Jesus é chamado a curar e vai fisicamente até o lugar, gerando um “atraso” significativo.)

7. Em ambos os casos, há uma linguagem escatológica em jogo: ambas falam do banquete escatológico. Em um caso, é o banquete já inaugurado; no outro, é o banquete aguardado.

Essas semelhanças dão a entender que a maneira de contar a narrativa do centurião é intencional. Certo retrato simbólico é consturído, e as palavras do próprio Cristo indicam essa direção (“eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente”), significando que aquele acontecimento tinha um sentido mais profundo.

Esse retrato é o da conversão de Roma. O centurião, cuja função é realmente representar uma parcela da autoridade romana, encontra-se ali como um símbolo do destino do Império. Cristo não esteve fisicamente em Roma (“não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”), mas ele diria uma palavra que levaria graça e cura ao escravo que estava à beira da morte. Cristo curaria a escravidão espiritual de Roma e lhe daria salvação, através da sua Palavra. Pela fé, eles seriam acolhidos na Mesa do Reino e seriam família de Abraão, Isaque e Jacó. Não seriam cachorros, mas filhos.

Quando o Evangelho de Mateus foi escrito, já havia cristãos em Roma há algum tempo, e o evangelista retrata aqui, num encontro de Jesus com um romano, o encontro de Roma com Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Respostas simples sobre Regeneração Batismal

Baptism of Pocahontas | Architect of the Capitol
  1. O que é Regeneração Batismal?

É a doutrina segundo a qual o propósito e a finalidade principais do sacramento do Batismo consistem em conceder aos batizados a graça da regeneração. Essa graça é a união dos homens com Cristo, e, consequentemente, a remissão dos seus pecados e a restauração da imagem de Deus neles, lhes permitindo participar da vida divina. Secundariamente, a regeneração batismal implica a necessidade ordinária do batismo para a salvação. Essa necessidade existe não como um “requisito” para a salvação, mas em razão daquilo que o Batismo realiza.

Dito de outro modo, existe um vínculo entre o sinal exterior e visível (água, usando a fórmula trinitária) e a graça interior e espiritual, de modo que, quando o sinal visível é validamente usado, a graça interior é concedida. O sacramento do Batismo é sinal eficaz da graça da regeneração. A Regeneração Batismal é o vínculo entre o sinal exterior e visível e a graça interior e espiritual. Paulo dá certeza desse vínculo ao escrever: “se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6:5).

  1. A Regeneração Batismal é uma doutrina bíblica?

Sim, a Regeneração batismal é uma doutrina inteiramente bíblica. Na realidade, a Bíblia não ensina, acerca do propósito do Batismo, nada além da Regeneração batismal. Se a Regeneração batismal fosse falsa, a Bíblia não teria nada a dizer sobre o propósito do Batismo, e aí teríamos que inventar várias coisas sobre o propósito do Batismo, como o fazem aqueles que, sem qualquer fundamento nas Escrituras, dizem que o propósito do Batismo é afirmar a fé ou conversão publicamente. Todos os textos bíblicos que ensinam algo sobre o propósito do Batismo ensinam que o Batismo salva, isto é, que o Batismo “provoca” algumas dimensões necessárias da salvação. Alguns textos bíblicos que exemplificam a Regeneração Batismal são Jo 3:5; At 2:38; 22:16; Rm 6:3-7; 1Co 12:13; Gl 3:26-27; Cl 2:11-13; 1Pe 3:21, dentre outros. Esses textos dependem de se entender que há um só Batismo (Ef 4:5).

  1. A Regeneração batismal contradiz a salvação pela graça e por meio da Fé?

Não. O Batismo é meio de graça. Isso significa que esse sacramento é o momento/lugar em que a graça é recebida. Ele funciona como um canal da graça, de modo que a nossa fé recebe através do sacramento a salvação. Portanto o batismo não é inimigo da Graça. Ele é graça.

Geralmente as pessoas têm dificuldade com essa noção quando presumem que o Batismo é uma obra que nós realizamos. Mas o batismo não é uma obra que o batizado realiza. É uma obra que Deus realiza através do sacramento. A água, por si mesma, não tem qualquer eficácia para salvar. Deus realiza a obra salvífica pelo poder do Espírito Santo agindo através do sacramento, em razão de uma promessa. As águas do rio Jordão não tinham poder para curar; mas, quando Naamã tomou sete banhos nela, foi curado de sua lepra, por conta de uma promessa divina.

Analogamente, podemos dizer que recebemos muitas bênçãos de Deus quando oramos com fé. A fé e oração não são inimigas. A oração é o momento em que a fé se coloca diante de Deus, para ser abençoada. Com o sacramento do batismo acontece coisa semelhante, com a diferença, já indicada acima, de que o batismo não é coisa que o batizado realiza (enquanto a oração o é). Quando, por exemplo, pedimos o perdão dos nossos pecados com fé, através da oração, somos perdoados e esse perdão se dá através de uma obra que realizamos (a oração) e essa obra é a oração. Seria tolice pensar que a oração, nesse momento, de alguma maneira elimina a graça ou a fé. Assim também, é tolice pensar que o sacramento do batismo elimina a graça e a fé. A oração é um meio. O sacramento é um meio.

Não custa lembrar que o grande campeão da justificação pela fé, o reformador alemão Martinho Lutero, era ao mesmo tempo grande defensor da justificação pela graça por meio da fé e do batismo regenerativo (locus iustificationis).

  1. A Regeneração Batismal torna a salvação mérito humano?

Não. Dá-se justamente o contrário. O Batismo nos mostra que a salvação é recebida — ninguém batiza a si mesmo. Isso se torna muito claro quando entendemos o batismo de crianças, que não têm nem poder ter nenhum mérito ou escolha quanto ao seu Batismo. Simplesmente recebem.

Igualmente, mesmo quando somos batizados por um ministro sumamente ímpio, mesmo que, em seu coração, ele seja ateu e profundamente hipócrita, mesmo que ele seja o pior de todos os homens quanto à sua vida moral, mesmo que tenha inúmeros pecados secretos ou mesmo inúmeros pecados notórios e divulgados, a eficácia do Batismo não depende nada de sua virtude moral. Depende da santidade perfeita de Cristo, o único Salvador. Não é o mérito dele (em realizar essa ação) que traz a salvação, mas sim uma promessa divina, cumprida infalivelmente. A eficácia do Sacramento é cristocêntrica. Portanto a salvação não depende nem do mérito de quem é batizado nem do mérito de quem batiza, humanamente falando, mas daquele que batiza espiritualmente falando, isso é, Cristo.

Isso é um pouco obscurecido por uma prática comum em certos ramos evangélicos: exige-se que o batizando demonstre um certo padrão moral mínimo em seu comportamento. Desse modo, o Batismo deixa de ser visto como um presente recebido e passa a se parecer com uma conquista social realizada. É algo a se alcançar, não uma dádiva a se receber. Alguém que visualiza o batismo assim terá, naturalmente, muita dificuldade com a Regeneração Batismal. Mas essas exigências moralistas não são bíblicas e não devem nos deter na investigação da doutrina bíblica do Batismo.

  1. A Regeneração Batismal vai contra a Reforma Protestante?

Não. Embora ela certamente contradiga a doutrina de Zuínglio e de todos aqueles que foram influenciados por ele, ela está plenamente de acordo com o ensinamento de Lutero, de Calvino (em alguns lugares), da tradição anglicana e de vários outros ramos menores. Até o Catecismo Menor de Westminster (reformado) fala dos sacramentos como “meios de salvação” (Q91).

No entanto, precisamos perguntar: que relevância essa pergunta tem? Somos de algum modo obrigados a concordar com os teólogos da Reforma Protestante? De onde vem essa obrigação? Por que seria mais importante a opinião dos teólogos da Reforma que a opinião dos Pais da Igreja?

  1. Todo mundo que não é batizado está condenado? Há regeneração sem Batismo?

Como dito acima, o Batismo é ordinariamente necessário a salvação. Isso não significa que todos os que morrem sem o sacramento estejam automaticamente condenados. Deus não está limitado ao sacramento, nós é que o estamos. Por isso, ninguém pode negligenciar o sacramento. Rejeitar o batismo é rejeitar Cristo. Adiar o Batismo é adiar Cristo. Brincar com o Batismo é brincar com Cristo. Deus prometeu graça através do batismo e devemos receber a promessa divina humildemente, sem questioná-la. Mas, embora Deus não o tenha prometido, ele pode salvar sem o sacramento. Isso aconteceu como todos os santos que morreram antes da Ressurreição do Senhor — todos eles morreram sem o sacramento do Batismo e receberam em Cristo a graça da vida eterna através dele.

Como analogia, afirmamos que a pregação do Evangelho é ordinariamente necessária para a salvação dos homens. Não há outro caminho. Mas uma criança, falecida na graça divina, é salva sem a pregação do Evangelho. Isso não dispensa o Evangelho, como se fosse desnecessário à salvação. Assim também, o Batismo não se torna desnecessário por Deus poder conceder a graça batismal sem o sinal visível.

  1. Por que “ex opere operato” e não outra posição?

A eficácia do Batismo é descrita, na linguagem escolástica, como “ex opere operato“, significando o que, uma vez realizado validamente, esse sacramento “ocasiona”, “causa” ou “provoca” o seu resultado infalivelmente. Isso significa que a validade do sacramento não depende da santidade ou mérito de quem o ministra ou de quem o recebe. Depende apenas da fidelidade de Cristo, que nunca falha.

A eficácia do sacramento é a capacidade de veicular certa graça, segundo a promessa divina. Nós não somos capazes de mudar isso com nossa fé ou falta de fé. Por isso, eu a chama de Eficácia Cristocêntrica. Essa eficácia não depende de nós, mas de Cristo. Isso não significa que todos os batizados sejam automaticamente salvos. Uma hipócrita, que finja adesão a fé cristã com segundas intenções, e seja assim batizado, não foi, por isso salvo. A graça lhe foi infalivelmente concedida, mas ele só desfrutará dela quando (pela graça) se converter desse mau caminho.

Essa eficácia é sinalizada pelo textos bíblicos que tratam o sacramento em termos generalizantes: “todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte” (Rm 6:3); “todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gl 3:27). Nesses dois casos, Paulo aplica intencionalmente para o batismo uma linguagem que se refere a todos os batizados (“todos quantos fostes/fomos batizados”), quanto a certos efeitos espirituais (“fomos batizados na sua morte”, “vos revestistes de Cristo”). Isso implica a certeza do vínculo entre o sinal exterior e visível e a graça interior e espiritual (Rm 6:5).

Em razão disso, podemos dizer: todo Batismo regenera (no sentido de que ele causa isso), embora nem todo batizado seja automaticamente regenerado. A eficácia do Batismo não está em produzir todo o processo, mas em produzir infalivelmente parte do processo. Em vários batizados, não se verá nenhum efeito visível, nenhuma santidade de vida, embora todo batizado esteja revestido de Cristo e, por isso, seja parte da Igreja.

A posição conhecida como “ex opere operato“, e que eu chamo de Eficácia Cristocêntrica, é a única aceitável porque é a única que não mistura a obra de Deus e a nossa obra, ao mesmo tempo que reconhece o que a Escritura ensina sobre os sacramentos. Qualquer posição não-zuingliana sobre os sacramentos, isto é, qualquer posição que ensina que os sacramentos “fazem algo” espiritualmente, terá que decidir se eles o fazem independentemente de nós ou se com nossa ajuda. Fiquemos com a opção cristocêntrica: o que Cristo faz no sacramento, ele o faz sozinho, sem depender de nós.

  1. Como se dá a Regeneração batismal no batismo de crianças? Isso depende de alguma noção de fé infantil (fides aliena, pedofé etc.)? É necessária a fé para que a Regeneração ocorra?

Quando nosso Senhor, na Escritura Sagrada, explica a nossa conversão e salvação, ele toma como referência os pequeninos, isto é, as criancinhas (Mt 18:3). Essa é uma referência importante, pois significa que não devemos encarar a salvação como se ela fosse uma coisa de adultos, na qual as crianças devem ter alguma maneira se encaixar. É o inverso. A salvação é uma coisa de crianças na qual nós adultos devemos nos encaixar.

Por isso, diversas exigências que há para nós, como a fé “consciente”, o arrependimento e a humildade, não existem para as crianças. Essas exigências existem para nós porque elas são modo como nós nos tornamos pequeninos. Não se exige isso daqueles que já são pequeninos. Então, quando falamos de salvação pela fé, devemos entender que as crianças não são salvas com o mesmo tipo de fé que nos salva. Elas ainda são salvas pela fé, e essa fé que é suficiente para salvação delas é suficiente para que desfrutem dos benefícios que lhe são conferidas no sacramento do batismo, já que o Batismo é meio dessa salvação.

Ora, essa fé não pode ter nos pequenininhos o mesmo tipo de consciência que tem nos adultos. Quer tratemos essa fé como a fé dos pais e padrinhos (fides aliena), quer a tratemos como um dom invisível infuso nas crianças (como Lutero e Calvino ensinavam), ou qualquer outro modo, isso é suficiente para que as crianças desfrutem dos benefícios batismais. Ou, se quisermos dizer que a salvação das crianças independente de qualquer tipo de fé, devemos ser consistentes e dizer que também o batismo delas independe de qualquer tipo de fé. Deus cobra mais daquele a quem ele dá mais.

Em outras palavras: a Regeneração Batismal das crianças independente da posição que tenhamos nessa questão. Ela se ajusta facilmente a qualquer noção de salvação infantil que tenhamos. Ela só não se ajusta à posição (ímpia) de que todas as crianças, independentemente de batismo ou da fé dos pais, estão condenadas até o momento de poderem fazer uma profissão consciente de fé, lá pelos 7 anos, 12 anos ou qualquer outra “idade da razão” que os homens queiram criar como limite.

  1. Existe ordem cronológica entre fé e batismo?

Não. Algumas pessoas tentam deduzir uma sequência lógica do fato de que, em alguns textos, a palavra “fé” aparece antes da palavra “batismo”, como em Mc 16:15. Mas a simples sequência das palavras não indica uma sequência obrigatória dos conceitos. Por isso, a ordem aparece invertida (primeiro o batismo, depois a fé) em alguns textos, como Mt 28:19-20 (“…batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado…”) e Cl 2:12 (“Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus…”). Mais uma vez: a sequência das palavras, por si mesma, não quer dizer nada.

Num contexto missionário, a fé (no sentido de adesão à religião de Cristo) quase sempre precederá o Batismo. Primeiro as pessoas (adultos) crerão e, em seguida, serão batizadas. Não conhecemos o coração de ninguém, mas não queremos batizar adultos que não creiam em Cristo.

  1. O Batismo de João Batista regenerava?

Não. O Batismo de João Batista era uma preparação para o Batismo cristão. Aqueles que anteriormente haviam recebido o Batismo de João tiveram de receber o Batismo cristão (At 19:1-6).

  1. E o “ladrão da cruz”?

Ao contrário do que parecem imaginar os adversários da Regeneração Batismal, o caso do ladrão da cruz não é, em nada, diferente dos demais personagens bíblicos que morreram antes da Ressurreição do Senhor, como Abraão, Moisés, Davi ou Jeremias. Todos eles morreram sem o sacramento do Batismo, embora tivessem recebido o selo prévio da circuncisão (que não tinha a mesma eficácia plena do Batismo). Todos eles, ao morrerem, desciam ao mundo dos mortos, e todos eles foram de lá resgatados por Cristo, que lhes abriu as portas do Paraíso. Aqueles que, depois disso, são batizados e morrem, não descem ao mundo dos mortos, mas sobem a Cristo. Uma nova etapa na história salvífica foi inaugurada, e o ladrão arrepedindo, embora esteja próximo da cruz, ainda está antes da Ressurreição.

Assim, embora a Regeneração Batismal possa admitir a possibilidade de que alguém seja salvo sem o Batismo, o caso do ladrão arrependido (tradicionalmente chamado São Dimas) é ordinário. O Batismo se tornou sacramento da salvação depois da Ressurreição, quando Cristo enviou os discípulos para batizarem em seu nome, segundo a fórmula trinitária (Mt 28:18-20). Quando somos batizados, Cristo nos faz a mesma promessa que fez individualmente ao ladrão arrependido.

  1. Existe regeneração prévia e posterior ao Batismo? Como elas diferem?

Ordinariamente, não existe regeneração prévia ao Batismo. Existe uma operação da graça no coração do homens para que eles tenham o dom da fé e, através dessa fé, sejam salvos. Essa operação da graça ainda não é a regeneração definida na primeira pergunta. Nesses casos, essas pessoas ainda não foram remidas dos seus pecados e unidas a Cristo. Ainda aguardam esse momento, no qual receberão essas coisas pela fé. É o caso de Paulo, que só recebeu a remissão (no Batismo) três dias depois de saber que Cristo é o Senhor (cf. At 22:16). Depois do Batismo, nós devemos vivenciar a graça da regeneração por toda a vida. Ela é concedida num momento, mas devemos operar nossa salvação ao longo da vida (Fp 2:12-13), isto é, devemos cooperar com a graça recebida, crescer nela, jamais resistindo a ela.

  1. É possível distinguir entre o Batismo sacramental e o “Batismo no Espírito Santo” (como segunda bênção)?

Há um só Batismo (Ef 4:5), que é o sacramento. Nós podemos e devemos vivenciar esse Batismo ao longo da vida, e isso pode incluir certas experiências de enchimento do Espírito Santo que se manifestam em santidade de vida e dons particulares. Essas experiências não são literalmente um segundo Batismo, mas uma manifestação do primeiro Batismo. Em muitos batizados, a graça interior e espiritual recebida no sacramento é adiada por muitos anos, através de incredulidade, pecado, ignorância e mil outras circunstâncias. Eu não tenho nenhum problema com que o nome de “Batismo no Espírito Santo” seja usado para indicar uma vivência mais plena do poder do Espírito Santo, desde que isso não seja usado para corromper nossa leitura bíblica, como se os textos que falam de “Batismo” na Bíblia se referissem apenas a essa experiência e não ao sacramento. Mais uma vez: há um só Batismo.

  1. O Batismo limpa o Pecado Original? Por que continuamos com a predisposição ao pecado?

Pode-se dizser que o Batismo limpa o Pecado Original no sentido que, no sacramento, nós deixamos de estar presos ao pecado, isto é, recebemos a graça que nos habilita a que o pecado não tenha mais domínio sobre nós (Rm 6:14). É importante entender que essa predisposição ao pecado é um defeito da nossa vontade, ocasionado pelo Pecado Original, mas que o Pecado já está em nós antes de sermos capazes de tomar “decisões”. O Pecado Original consiste em nosso desligamento espiritual em relação a Deus, a morte da alma (assim como a mortalidade do corpo), e através do Batismo nós recebemos a vida de Cristo. Nós recebemos a graça que nos livra do domínio do pecado, mas ainda estamos feridos pelo pecado. O Batismo não elimina essa inclinação automaticamente, embora, em alguns casos, possamos testemunhar pessoas que, depois do Batismo, tiveram grande avanço na sua santificação e puderam deixar certos hábitos do pecado.

  1. Regeneração Batismal é compatível com credobatismo?

Creio que não. Há certos grupos que tentam unir as duas coisas, mas, nesses casos, a salvação se torna mérito nosso antes do mérito de Cristo. A Regeneração Batismal leva naturalmente ao batismo de crianças, porque nenhum motivo teológico pode ser forte o suficiente para excluir as crianças da graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Regeneração Batismal | Material de estudo gratuito

Abaixo temos vídeos e textos gratuitos ligados ao tema da Regeneração Batismal. Pretendo atualizar a lista com o tempo.

[Vídeo] O Batismo salva? | Regeneração Batismal [30min]
https://youtu.be/cbczxGKtyEQ

[Vídeo] Ei, o Batismo salva! | Podcast Taverna dos Clérigos [1h30min]
https://www.youtube.com/watch?v=cMNeBPcRRFs

[Texto] O Batismo não é só um símbolo (parte 1) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/05/31/o-batismo-nao-e-so-um-simbolo-parte-1/

[Texto] O Batismo não é só um símbolo (parte 2) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/06/10/o-batismo-nao-e-so-um-simbolo-parte-2/

[Texto] Notas sobre o Batismo | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2016/03/21/notas-sobre-o-batismo/

[Texto] 1Co. 12:13 e o “Batismo no Espírito Santo” | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/06/02/1co-1213-e-o-batismo-no-espirito-santo/

[Texto] Um só Batismo | Rev. Gyordano | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2016/11/02/um-so-batismo/

[Texto] Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal? | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2021/06/30/tertuliano-ensinava-mesmo-a-regeneracao-batismal/

[Texto] A Doutrina Anglicana dos Sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2018/03/14/a-doutrina-anglicana-dos-sacramentos/

[Texto] Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/12/17/paulo-desprezava-o-batismo-1co-110-17/

[Texto] C. S. Lewis e os sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2018/03/22/c-s-lewis-e-os-sacramentos/

[Texto] A Eficácia Cristocêntrica dos Sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/11/29/a-eficacia-cristocentrica-dos-sacramentos/

[Texto] Hebreus 6:4-8 fala do Batismo | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/05/12/hebreus-64-8-fala-do-batismo/

[Texto] Confessionalidade Reformada e Regeneração Batismal | Jadson Targino
https://jadsontargino.medium.com/confessionalidade-reformada-e-regenera%C3%A7%C3%A3o-batismal-bb3df0b71ba3/

[Texto] Uma defesa da Regeneração Batismal nos padrões reformados | Filipe Leal
https://filipeleal.medium.com/uma-defesa-da-regenera%C3%A7%C3%A3o-batismal-nos-padr%C3%B5es-reformados-185382dfec2e

[Texto] Respostas simples sobre Regeneração Batismal | Rev. Gyordano M. Brasilino
https://vineadei.wordpress.com/2021/07/23/respostas-simples-sobre-regeneracao-batismal/

Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal?

Prague The Fresco Of Baptism Of Jesus In Church Kostel Svatého Václava By S  G Rudl Stock Photo - Download Image Now - iStock

Como eu gosto de dizer, poucas doutrinas são tão uniformes e indisputáveis, entre os Pais da Igreja, como a doutrina da Regeneração Batismal. De fato, ela é mais uniforme do que a própria doutrina da Trindade. Enquanto jamais nenhum Pai da Igreja combateu a Regeneração Batismal, os hereges da época o fizeram, como veremos. Tertuliano se encontra no número dos primeiros cristãos que deram testemunho dessa doutrina. O caso de Tertuliano, aliás, é peculiar comparado aos Pais da Igreja (grupo ao qual ele não pertence plenamente), em razão de alguns problemas doutrinais e históricos presentes nos seus escritos. Isso torna a defesa da Regeneração Batismal, um caso em que podemos aplicar a antiga regra: um momento em que até quem erra sinaliza a doutrina correta.

Pois bem, não é difícil encontrar o ensino de Tertuliano sobre regeneração batismal. Ele escreveu um tratado sobre o sacramento da fonte (De Baptismo), e o propósito desse tratado é precisamente explicar a necessidade do Batismo para a salvação, quando Tertuliano argumentou contra os gnósticos cainitas, comunidade que negava a necessidade do Batismo para a salvação. O tratado De Baptismo inicia propondo o seu tema: “Acerca do Sacramento da nossa água, no qual, sendo absolvidos dos delitos da nossa vida pristina, somos liberados para a vida eterna…” (cap. I). Mais adiante, ele escreveu (grifo meu):

Em razão disso, aqueles criminosíssimos provocadores de perguntas dizem ‘Portanto, o batismo não é necessário àqueles a quem basta a fé; assim também Abraão agradou a Deus, sem nenhuma água, senão com o sacramento da fé.’ Mas, em tudo, as coisas posteriores concluem, e as coisas subsequentes prevalecem sobre as antecedentes. A salvação anteriormente foi pela fé nua, antes da paixão e ressurreição do Senhor; mas como a fé aumentou, aos crentes no seu nascimento, paixão e ressurreição, é ampliado o sacramento pelo selo [obsignatio] do batismo, como uma vestimenta para a fé que antes estava nua, que já não pode salvar sem a sua lei. Pois a lei do batismo foi imposta, e a fórmula prescrita: “Ide”, ele diz, “ensinai todas a nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A comparação dessa fórmula com esta lei: “A menos que um homem nasça da água e do Espírito, ele não poderá entrar no reino dos céus”, restringiu a fé à necessidade do batismo. De Baptismo 13

Nesse trecho, Tertuliano tenta descrever a posição contrária como a noção de que, se a salvação é pela fé, o Batismo se torna desnecessário. Tertuliano não nega a salvação pela fé, mas argumenta que ela não deve ser pela fé nua. O Batismo é como a vestimenta necessária á fé. Para Tertuliano, portanto, o Batismo é necessário à salvação, e ele argumenta em favor dessa noção apelando para o conhecido texto de João 3:5, que limita a entrada no reino de Deus aos que nascerem da água, o que ele interpreta como significando a necessidade do Batismo. Para Tertuliano, “sem o batismo, ninguém pode alcançar a salvação” (nemini sine baptismo competere salutem, cap. 12).

De que maneira o Batismo é necessário à salvação? Num contexto um pouco diferente, Tertuliano acusa Marcião de Sinope (como redução ao absurdo) de privar o Batismo de quatro benefícios: a remissão de pecados, o livramento da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo (Contra Marcion I, 28). Isso concorda com o que propõe o De Baptismo; já mencionamos a remissão dos pecados acima. Ele também menciona o Espírito Santo ao escrever sobre “…o Espírito de Deus, que de início pairava sobre as águas, continuaria sobre as águas dos batizados.” (De Baptismo 4).

Para Tertuliano, através da invocação de Deus, as águas adquirem o “poder sacramental de santificação” (praerogativa sacramentum sanctificationis, De Baptismo 4). Aqui Tertuliano alude à tradução, difusa na patrística, segundo a qual há nas águas do Batismo um poder santificador. Por isso, no mesmo capítulo, ele segue escrevendo: “Portanto, depois que as águas foram, de algum modo, imbuídas com virtude medicinal pela intervenção do anjo, o espírito é corporalmente lavado pelas águas, e a carne é, no mesmo, espiritualmente lavada.” Tertuliano esclarece que não são as águas em si mesmas que purificam, mas seu poder santificador prepara para o envio do Espírito Santo que acontece naquele momento (De Baptismo 6). Por isso, ele distingue o ato do batismo, que é carnal, do efeito do batismo, que é espiritual: a remissão de pecados ( De Baptismo 7).

Esses são só alguns exemplos de como Tertuliano ensinava a doutrina patrística unânime da Regeneração Batismal.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Descenso de Cristo ao Hades

Na época da Reforma, muitos reformados assumiram uma posição que deveriam mudar, com respeito à Descida de Cristo ao Hades — basicamente negaram essa descida como um evento literal, desmitologizaram o evento.

Os anglicanos e luteranos (com algumas diferenças) preservaram a doutrina mais histórica do Descenso. Corrigir essa posição não causaria nenhum dano à doutrina dos reformados e, por outro lado, traria vários benefícios:

(1) A profundidade da Encarnação. Cristo não se identificou apenas com os vivos, mas com os mortos, não só na condição de estar morto, mas no destino comum das almas no mundo antigo: a morte é o seu pastor.

(2) A alma humana de Cristo. Sendo a morte a separação entre corpo e alma, se Cristo desceu ao Hades, isso significa que ele tinha uma alma humana.

(3) A primazia de Cristo. Se tirarmos dos nossos olhos por um instante as belas imagens que povoam o imaginário cristão, a essência da doutrina da Descida é a de que os antigos não tinham a visão de Deus após a morte, e Cristo (ele mesmo Deus) foi até eles para libertá-los. Portanto, para os antigos, Cristo abriu as portas do Paraíso.

(4) A forma narrativa da Redenção. As Escrituras não ensinam nossa redenção como uma teoria abstrata, mas como uma narrativa dramática. Assim, o modo como a obra de Cristo afeta os antigos não é através de uma “aplicação” abstrata (tratando a obra de Cristo como atemporal), mas concreta: ele vai até eles e realiza neles a redenção.

(5) A vitória de Cristo sobre os poderes das trevas. Como São Paulo nos ensina, foi para isto que Cristo morreu e ressuscitou: para ser Senhor de vivos e mortos. Cristo conquistou o inimigo terrível, ele possui as chaves da Morte e do Hades, que ele usa, não para reter, mas para libertar. Algo precioso da vitória de Cristo se perde se ele não invadiu o império do diabo, daquele que detinha o poder da morte.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Culpa e a Morte

Madalena Penitente (1796), Canova

A culpa afeta toda a humanidade, mas não afeta cada pessoa igualmente. Existem pessoas, de fato, sem culpa, como crianças muito pequenas e deficientes mentais. Aquilo que chamamos de culpa (no sentido de ‘merecimento de punição’) é associado a certo envolvimento pessoal (conhecimento e vontade), e diminui quando há certa ignorância inocente (Jo 9:41; 15:22); assim, o conhecimento torna indesculpável (Rm 1:20), o que só faz sentido se a ignorância torna, em alguma medida, inculpável.

Diante disso, se achamos que o problema principal do homem for a culpa, entramos num dilema: ou dizemos que só algumas pessoas precisam de salvação (pois só alguns são culpados), e portanto minamos a necessidade de Cristo; ou damos algum jeito de dizer que todo ser humano é culpado mesmo (culpa herdada). A salvação, nesses termos, é fundamentalmente jurídica: a culpa jurídica (como ‘merecimento de punição’) provoca uma consequência jurídica (condenação), então Cristo aparece como solução jurídica.

Na verdade, a solução é diferente: a culpa não é o problema principal do homem, precisamente porque nem todos são culpados. A culpa é um sintoma de uma realidade espiritual mais profunda, de um desligamento do homem com Deus, de uma desordem e mortalidade que procuram afetar a todos nós. Só isso pode explicar a necessidade de salvação para todos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Monergismo ou Sinergismo?

Há certas linguagens teológicas que não servem para nada. Se o sujeito pergunta se eu sou “monergista” ou “sinergista”, o certo é orar por ele.

A salvação se dá por inciativa e providência de Deus, mas não acontece sem cooperação humana. A salvação final exige santificação, e a santificação envolve cooperação. Quando eu digo algo assim, o jovem não iniciado me julgará como sinergista, mas os grandes teólogos tidos por monergistas concordam. De fato, meu grande modelo nessa área é Santo Agostinho de Hipona, que eles acham que era monergista.

Se você simplesmente abandonar esses nomes, fica tudo bem. O mar continua no seu lugar, nenhum terremoto é provocado, nenhuma praga se alastra sobre a terra, e os poderes dos céu não são abalados. (Alguns poderes da terra talvez o sejam, mas nada mais imponente do que síndico de prédio.)

A cooperação é mais profunda do que parece à primeira vista, pois envolve a dinâmica entre a vontade divina e a vontade humana no próprio Cristo. Ele é o exemplo supremo de cooperação, pois a impecabilidade divina flui para a sua natureza humana como graça. Por um lado, a vontade humana coopera sem possibilidade de queda ou hesitação; por outro lado, ela o faz sem que sua liberdade seja eliminada (muito pelo contrário). Tomando emprestada a imagem que São Tomás usa em outro contexto, é como a cooperação entre o ferreiro e o martelo (mas sem sugestão de apolinarismo ou monotelismo). A cristologia ortodoxa exige uma soteriologia suficientemente ampla. Monergismo extremo é uma forma de monoenergismo, a heresia cristológica mais esquisita de todas.

De fato, a própria obra da Redenção envolveu cooperação humana. Deus podia fazer de outro modo, mas quis adentrar na esfera humana e estar entrelaçado nela, e se doar através dela. Por isso, falar da redenção como “extra nos” ou “in nobis” também não me ajuda muito.

De Maria a Judas, o homem cooperou com Deus na realização do sacrifício de Cristo. Maria, com o “sim” máximo (causa salutis); Judas, com o “não” máximo; e Jesus usou o “não” para realizar o “sim”, usou o “sim” para curar o “não”. A Paixão foi realizada pelo homem, em cujas mãos Cristo foi entregue. E não há em Cristo nenhum sofrimento além daquele que o homem e o diabo lhe provocam, e que é maximizado por sua compaixão. Não há um terceiro sofrimento invisível provocado por Deus Pai. Nós, criaturas, o fizemos.

Somente a sua Ressurreição se deu principalmente sem cooperação de outros homens. (Isso nos fiz muito sobre a centralidade da Ressurreição na Redenção.)

Depois de realizada a obra da redenção, Cristo enviou ao mundo os seus discípulos como “cooperadores de Deus”, nas palavras do apóstolo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Calvino: fora da Igreja não há salvação.

Para Calvino, não se deve esperar salvação fora da Igreja visível:

“Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos [Mt 22.30]. Porque nossa habilidade não permite que sejamos despedidos da escola até que tenhamos passado toda nossa vida como discípulos. Anotemos também que fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação… de sorte que
é sempre funesto o afastamento da Igreja.” Institutas IV, 1, 4

“A muitos os impele ou a soberba, ou o desdém, ou a inveja, de sorte que se persuadam de poder fruir de suficiente proveito lendo e meditando em particular, e com isso desprezam as reuniões públicas e consideram a pregação como sendo supérflua. Mas, uma vez que, quanto está em si, quebram ou rompem o sagrado vínculo da unidade, ninguém escapa à justa pena deste ímpio divórcio, sem que sedeixe enfeitiçar por erros pestíferos e por delírios os mais horríveis.” 1, 5

“…aos fiéis nada é de mais importância do que esta administração do culto público, através da qual Deus gradativamente eleva os seus ao alto.” 1, 5

“lgualmente, não é louvor vulgar dizer que a Igreja é eleita e separada por Cristo para ser sua esposa, que “fosse sem ruga e sem mácula” [Ef 5.27], “seu corpo e suaplenitude” [Ef 1.23]. Do quê se segue que o abandono da Igreja é negação de Deuse de Cristo, razão por que mais se deve guardar de tão celerado dissídio, porque, enquanto nos esforçamos, quanto está em nós, por fomentar a ruína da verdade de Deus, somos dignos de que ele dardeje seus raios com todo o ímpeto de sua ira, afim de fazer-nos em pedaços. Não se pode imaginar mais atroz qualquer crime do que o de violar com sacrílega perfídia o matrimônio que o Unigênito Filho de Deus se dignou contrair conosco.” 1, 10

“Portanto, permaneça fixado um e outro destes dois pontos: primeiro, que nenhuma escusa tem aquele que, deliberadamente, deserta a comunhão exterior da Igreja, onde é pregada a Palavra de Deus e são ministrados os sacramentos; segundo, que as faltas e pecados de outros, sejam poucos ou muitos, não nos impeçam de fazer profissão de nossa religião usando os sacramentos e os demais exercícios eclesiásticos juntamente com eles, porquanto uma consciência piedosa não é nem ferida pela indignidade de outrem, quer de pastor, quer de leigo; e os sacramentos do Senhor tampouco deixam de serpuros e santos para o homem limpo por ser recebidos em companhia dos impuros e perversos.” 1, 19

“Portanto, três coisas devemos aqui observar. Em primeiro lugar, por grande que seja a santidade em que os filhos de Deus se distingam, contudo, sempre que habitarem no corpo mortal nesta condição, não podem permanecer na presença de Deus sem a remissão dos pecados; em segundo lugar, este benefício é a tal ponto próprio da Igreja, que não usufruímos dele de outra sorte senão permanecendo na comunhão; em terceiro lugar, ele nos é dispensado por intermédio dos ministros e pastores da Igreja, seja pela pregação do evangelho, seja pela ministração dos sacramentos, eneste aspecto sobressai especialmente o poder das chaves que o Senhor conferiu à sociedade dos fiéis. Conseqüentemente, que cada um pense ser este seu dever: não buscar a remissão dos pecados noutro lugar senão onde o Senhor a colocou.” 1, 22

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus foi ouvido — O Pai disse “Sim”

“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,” Hebreus 5:7

Quando estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Cristo fez uma oração que está profundamente gravada na consciência da primeira comunidade de cristãos, pedindo ao Pai pelo livramento. Essa oração agonizante aparece nos Evangelhos Sinóticos: “Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14:36 = Mt 26:39 // Lc 22:42); e depois é mencionada em Hb 5:7 e 1Pe 2:23, tendo talvez um eco nas palavras de Paulo (Rm 8:15; Gl 4:6).

Antes de ser levado para sua humilhação e morte, Cristo fez uma oração intensa, “com forte clamor e lágrimas”, àquele que “o podia livrar da morte”. Ele disse: “Minha alma está triste [perilypos] até à morte” (Mc 14:34). O evangelista usa palavras graves para descrever o estado da alma de Cristo: ele começou se impressionar e apavorar profundamente [ekthambeisthai] e se angustiar [adēmonein]. O tom é tão forte que é suavizado pelos evangelistas posteriores — o Cristo do Quarto Evangelho nos parece resoluto e determinado, mas mesmo Marcos conhecia a intenção do Filho do homem de doar sua vida (10:45) —, mas mesmo Lucas, na variante textual mais conhecida, fala da “agonia” de Cristo (Lc 22:44), isto é, da batalha que ele enfrentava. Na hora das trevas, Cristo batalhava contra os poderes obscuros que o cercavam e tentavam, e pedia ao Pais que o livrasse da morte. Diante da injustiça que sofreria, Cristo “entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2:23).

E Cristo foi ouvido. Isso surpreende a algumas pessoas, mas a oração de Cristo foi ouvida pelo Pai. Não poderia ser diferente, afinal, ele mesmo disse: “Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11:42). Assim como Cristo havia ensinado ao Pai que seus discípulos receberiam o que pedissem quando fossem obedientes (Jo 15), ele mesmo, estando na perfeita obediência (“por causa da sua piedade [eulabeia]”), recebia do Pai tudo o que pedia. Então Cristo foi ouvido pelo Pai!

Mas como pode ser, se ele morreu? Ele morreu, mas ressuscitou. Ao retornar à vida, ele foi livre daquilo que o prendia. Aqueles que acreditam que a paixão de Cristo foi um “não” do Pai ao Filho terão muita dificuldade em ligar o que está em Hb 5:7 à oração registrada nos Evangelhos, mas, de fato, o Pai passou o cálice. Cristo morreu, mas não morreu eternamente. Ele esteve morto por apenas um tempo. Ao ressuscitá-lo, o Pai dizia o “sim” ao Filho, passando dele o cálice. Como Jó, Cristo foi restituído após os seus sofrimentos injustos, provocados pelas forças das trevas.

Em 2Co 4 (o Evangelho de hoje), Paulo tinha em mente exatamente a mesma coisa. É por isso que ele podia dizer, juntamente, que “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus” (v. 14) e, então, que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (v. 17). Jó foi restituído, Cristo foi restituído, e Paulo sabia que o mesmo poder da ressurreição estava nele. A ressurreição é restituição e muito mais do que restituição.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Simul Justus et Peccator? Uma leitura apocalíptica.

A Redenção, assim como a Criação, é realizada pela Palavra criativa de Deus. Uma das contribuições mais importantes da Escola Apocalíptica — inspirada em Käsemann e pouco conhecida além dos círculos protestantes de estudos bíblicos — é a noção de que a “justificação” (pela fé) em Paulo deve ser entendida como “retificação”: Deus agindo para endireitar o que está errado no homem e no mundo.

Quando Deus encontra o homem ímpio e o “conta” como justo, a Palavra divina não apenas aceita a condição do pecador através de uma ficção legal, nem age como como contabilista de méritos humanos, mas, como ação criativa, ela gera uma realidade nova que não existia até então. Nos espíritos, Deus diz, mais uma vez: “Haja luz”.

Fleming Rutledge ilumina a questão com o exemplo de Gideão, herói do Antigo Testamento que já deve ter figurado em muitos sermões pentecostais e carismáticos por aí, mas que nem sempre aparece ligado ao tema da justificação. (Ele aparece em Hb 11:32-33 entre os que “pela fé venceram reinos” e “praticaram a justiça”).

A palavra do anjo do Senhor a Gideão foi “O Senhor é contigo, homem valente.” (Jz 6:12). Gideão não era, até então, um homem valente, mas essa palavra, de caráter profético, é uma palavra de envio e, portanto, aponta para um novo futuro que Deus inicia, e não para o passado do próprio Gideão. A explicação de Deus é: “Vai nesta tua força, e livrarás a Israel das mãos dos midianitas; porventura não te enviei eu?”. Deus chama à existência aquilo que ainda não é, mas que então começa a surgir. Ao dar um novo destino a Gideão e colocar-se ao seu lado na batalha — uma batalha que seria vencida por Deus —, Deus gera um novo Gideão.

De fato, a palavra sobre o “homem de valor” tem um sabor irônico, mas temos já aí a ironia de Deus, que manifesta sua força através da fraqueza de Gideão, mostra sua grandeza através do pequeno, transformando a realidade pela fé.

Como no Evangelho de João, caracterizado por uma escatologia já realizada, que trata o futuro como já presente — “consumei” (17:4-5) antes de já estar “consumado” (19:28,30), ou “está julgado” (16:11) antes de ser julgado (12:31), ou “tem a vida eterna” (6:47) antes da “ressurreição da vida” (5:29), e tantos outros exemplos —, os olhos da fé veem, no presente, o começo do futuro e, com isso, veem já o futuro inteiro, como por uma janela. Como Santo Agostinho no De Trinitate, a justiça começa como um poder interior, ainda por frutificar. É o poder dos “novos céus e nova terra, onde habita a justiça”, que irrompe no presente como signum praedestinationis, gerando pelo Espírito, em prolepse, a identidade escatológica.

É nesse sentido, e talvez só nele, que se pode falar do remido como simul justus et peccator (simultaneamente justo e pecador) — ainda é um coração que produz o pecado, mas que também é alvo do agir salvador de Deus (“justiça”). Essa condição é uma dádiva, mas o dom é um poder na guerra: na luta contra as paixões dos pecados, contra principados e potestades. Como na reviravolta do livro de Ester, o povo judeu recebe, do rei, o presente que lhes dará vida, mas o presente não é a anulação da sentença de morte por instigação de Hamã (Satanás), mas a capacidade de se defenderem, através de uma nova lei. Essa é sua vindicação.

Por isso, é uma condição da qual alguém deve se alegrar, até gloriar-se na cruz — como escreveu Paulo com certo exagero poético, mas também com uma verdade visceral —, mas não simplesmente descansar. É uma nova posição no “grande conflito”: não como escravos dos poderes das trevas e sujeitos à morte, mas como membros alistados das hostes celestes, lutando com armas poderosas em Deus para a destruição de fortalezas, pois o inimigo mais poderoso já foi vencido e desarmado.

Rev. Gyordano M. Brasilino