O Batismo com o Espírito Santo no livro de Atos — O que eu penso disso?

Antes de tudo, devo dizer que acredito na experiência pentecostal. Assim como diversos teólogos, minhas dúvidas não são sobre a experiência, mas sobre a descrição teológica dela, isto é, no modo como a experiência pentecostal é ligada a conceitos bíblicos ou quase-bíblicos como “batismo no Espírito Santo”, “falar línguas”, “enchimento” e “plenitude” do Espírito, e coisas semelhantes, o que gera consequências para o sentido que essa experiência tem, deve der ou poder ter na comunidade cristã. Acredito que posição que eu defendo não descarta, antes amplia o pensamento pentecostal nesse assunto.

Acredito que a interpretação pentecostal é melhor que a leitura reformada do “batismo no Espírito Santo” no livro de Atos dos Apóstolos. Enquanto a leitura pentecostal simplesmente aceita a “estranheza” dos textos, sem tentar forçar uma pneumatologia alheia a ela, me parece que a leitura reformada procura forçar o texto a enquadrar-se na situação vivenciada pelos próprios reformados e suas igrejas, onde essas coisas estranhas não costumam acontecer, assim como em sua teologia da “regeneração”. Isso não significa que a leitura reformada não seja capaz de fornecer observações pertinentes, nem significa que qualquer dois dos grupos seja monolítico na interpretação de todos os textos relevantes.

Porém acredito que, em razão do anti-sacramentalismo comum entre os pentecostais, algumas conexões presentes nos textos lhes escapam. Além disso me parece o que os pentecostais procuram estabelecer, através das experiências diferentes no livro de Atos, uma regra facilmente aplicável a hoje. Penso que não haja uma regra, ou que a regra, na verdade, seja mais ampla do que imaginam. Essa hermenêutica anti-sacramental afeta principalmente a interpretação dos capítulos 2 (Pentecostes), 10 (Cornélio) e 19 (Discípulos em Éfeso) do livro de Atos dos Apóstolos, precisamente os três textos em que aparece o “falar em línguas” conectado à experiência de recebimento do Espírito Santo, além de traços relevantes dos capítulos 8 (Samaria) e 9 (Paulo). Quando deixamos de lado o viés anti-sacramental, fica mais nítida a regra que devemos observar para a recepção e vivência do Espírito Santo.

Alguns fatores a considerar: (1) o Espírito Santo é concedido, no livro de Atos, principalmente e presumivelmente através do batismo (2:38; 9:17-18) e da imposição de mãos (8:15-20; 19:5-6), dois atos eclesiásticos que ocorrem sempre na mesma sequência, isto é, primeiro o batismo e depois a imposição de mãos; (2) o livro de Atos descreve a experiência nesses momentos como “receber” o Espírito Santo (1:8; 2:38; 8:115,17,19; 10:47; 19:2), o “dom do Espírito” (At 2:38; 8:20; 11:17), dizendo que foram “cheios” do Espírito Santo (2:4; 9:17) ou que o Espírito “caiu” ou “desceu” sobre eles (8:16; 10:44; 11:15); não se diz que os personagens bíblicos foram “batizados” no Espírito Santo, embora a promessa do Batismo seja invocada na explicação do Pentecostes e no incidente da casa de Cornélio (1:5; 11:16).

Os cinco textos mais relevantes, no livro de Atos, para entender essa questão são os capítulos 2 (Pentecostes, Jerusalém), 8 (Samaria), 9 (Paulo, Damasco), 10 (Cornélio, Cesareia) e 19 (Éfeso). Esses textos mais ou menos acompanham a expansão da Igreja tanto de modo geográfico (Jerusalém, Samaria, Damasco, Éfeso) como étnico (judeus, samaritanos, gentios).

No primeiro caso, no dia de Pentecostes, o mais importante, a “descida” do Espírito Santo sobre a comunidade certamente é precedida de orações comunitárias de conteúdo desconhecido (1:14), mas acontece de modo “a-sacramental”. No entanto, após interpretar o evento ligando ao envio da “promessa do Espírito Santo” por Cristo (2:33) e ao seu senhorio (2:36), Pedro diz aos ouvintes que, caso se arrependam e sejam batizados para remissão de pecados, receberão “o dom [dōreá] do Espírito Santo” (2:38), fazendo referência à mesma “promessa” (2:39). A promessa é aquela de Atos 1:5,8: “sereis batizados com o Espírito Santo”. Assim, Pedro oferece aos presentes aquele dom através (também) do Batismo. Não se fala de imposição de mãos ou outra coisa, embora o texto seja demasiado compacto para que se tire muitas conclusões. Esse é um dos três textos em que se fala de “línguas” no recebimento do Espírito Santo.

No segundo caso, em Samaria, os samaritanos evangelizados já haviam recebido o batismo sacramental e crido na pregação apostólica, através do ministério de Filipe (provavelmente o helenista de Atos 6), mas ainda não haviam recebido o Espírito Santo. Dois apóstolos, Pedro e João, descem a Samaria para orar e impor as mãos sobre os samaritanos, para que recebam também o Espírito Santo. O Batismo está, nesse texto, bem claramente atrelado à Imposição de Mãos, e a linguagem empregada é “descida” (8:16), “recebimento” (8:15,19) ou “concessão” do Espírito Santo (8:17). O texto não menciona “línguas”, “profecia” ou outros sinais ligados ao recebimento do Espírito Santo.

No terceiro caso, o de Paulo, não temos uma comunidade, mas um indivíduo, que recebe a ministração de outro: Ananias, que, embora não seja explicitamente contado como apóstolo, é mencionado como um “discípulo” (9:10) observante da Torá (22:12). Ele é enviado pessoalmente por Jesus através de uma visão (9:10-16), não por algum dos apóstolos, e chega três dias depois de Paulo ter tido a visão com Jesus. Ananias lhe descreve o propósito de sua vinda nos seguintes termos: “…para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo” (v. 17), ou seja, cura e enchimento do Espírito. O texto descreve como isso aconteceu: “Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado.” (v. 18). Sabemos que a cura aconteceu por imposição de mãos (9:12), mas enchimento do Espírito Santo corresponde ao “e foi batizado”. Esse batismo é o sacramento, como nos certifica outra versão da mesma história, que segue a mesma sequência: cura e depois batismo sacramental (22:13-16). Nenhuma das duas versões menciona fenômenos carismáticos como línguas ou profecias.

No quarto caso, o da casa de Cornélio, uma família inteira recebe o Espírito Santo: “caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra” (10:44; cf. 11:15), “maravilharam-se de que o dom [dōreá] do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios” (10:45), “receberam como nós o Espírito Santo” (10:47), o que é sinalizado através do “falar em línguas”. Àquelas pessoas, Deus “concedeu o mesmo dom [dōreá]” que aos apóstolos (11:17). Logo em seguida, eles são batizados sacramentalmente; para Pedro, não faria sentido impedir de batizar. Assim, embora o recebimento do Espírito ocorra logo antes do batismo sacramental, Pedro vislumbra uma conexão clara entre as duas coisas. Além disso, na verdade, Pedro estava justamente falando sobre o Batismo: “todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome.” (10:43). Pedro não disse aí que todos os que creem receberão o perdão porque creem, mas que todos os que creem receberão o perdão “pelo seu nome” (dia tou onomatos autou), isto é, através do seu nome. Essa é a linguagem dos textos batismais de Atos (2:38; 22:16). Essa é a fórmula empregada para atos de poder realizados no nome de Jesus, como cura e exorcismo (At 3:6; 4:7,10,30; 9:14,21; 16:18; 19:13); o Batismo aparece aí como um desses atos de poder realizados “em nome do Senhor Jesus”. Tanto em Atos 8 como em Atos 10, o recebimento do Espírito Santo, embora tenha conotações proféticas e esteja, aqui, ligado à adoração a Deus, não se tem em vista uma preparação ministerial. Tanto no acontecimento em At 10 quanto em sua explicação no capítulo seguinte, tem-se em vista a salvação.

No quinto caso e último caso, o dos doze discípulos em Éfeso, aparece toda a sequência: Batismo (sacramento), Imposição de mãos, línguas, profecia. A linguagem usada é “veio sobre eles o Espírito Santo” (19:6), o que ocorre a partir da pergunta de Paulo sobre se “Recebestes… o Espírito Santo” (19:2).

Esses textos não indicam uma “segunda bênção”, mas uma única bênção, que às vezes é recebida tempos depois do batismo sacramental, ou um pouco antes. Ao visualizar uma só bênção, os reformados se aproximam da verdade, mas essa “bênção única” não é a “regeneração” da qual eles falam; é algo posterior ao arrependimento e à fé, às vezes posterior ao Batismo. Se há uma indicação de uma lógica de duas bênçãos, ela está justamente nos dois atos eclesiásticos: Batismo e Imposição de Mãos, embora eles não sejam tratados como os meios exclusivos, e sim os meios ordinariamente esperados da dação do Espírito Santo. Por isso, a leitura histórica mais tradicional desses atos eclesiásticos é: o Batismo e a Imposição de Mãos de fato conferem duas “bênçãos” distintas ambas no entanto, ligadas à dotação do Espírito Santo, uma em continuidade com a outra, às vezes uma sendo vista como aprofundamento e “conclusão” da outra. Assim, uma raiz da noção de segunda benção está plenamente lá na tradição, mas como uma segunda bênção sacramental. No modus operandi divino, no livro de Atos, não há duas bênção, mas uma mesma doação do Espírito divino.

Como existe uma correlação entre os atos eclesiásticos sacramentais e adaptação do Espírito, a expectativa não é de que a infusão do Espírito ocorra através de orações e de buscas do batismo no Espírito Santo (a menos que isso se referia à oração sacramental, como em At 8:15); espera-se que ocorram nos próprios atos sacramentais. Não existe uma noção de “busca” do Batismo no Espírito Santo no livro de Atos. Saindo do livro de Atos, podemos falar de uma busca do “enchimento” do Espírito Santo e de uma “vida no Espírito”, nas cartas paulinas.

Não é difícil perceber que, no livro de Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo é dado como “poder” missionário e profético, como um “capacitador” da igreja para sua missão e ministério particularmente dos apóstolos, como testemunhas poderosas da Ressurreição. A caracterização do Espírito Santo como Espírito Profético aparece tanto na promessa de Jesus (At 1:8) quanto na interpretação dada por Pedro no próprio Pentecostes (2:17-18). No entanto, o caso dos samaritanos e o de Cornélio são diferentes, tendo em vista principalmente a salvação, assim como é diferente a ligação do Espírito Santo com batismo em Gálatas 3 em termos soteriológicos, não apenas ministeriais, então não se pode fazer uma separação muito radical entre pneumatologia paulina e pneumatologia lucana.

Diante dessas considerações, minha posição é a de que o batismo no Espírito Santo é a benção prometida e selada no sacramento do Batismo (I), aprofundada apostolicamente na imposição de mãos (II) e renovada, pela fé, muitas vezes ao longo de nossa vida, particularmente através dos dons espirituais (III). Em outras palavras, o batismo no Espírito Santo é a vida cristã. É a dimensão da vida cristã ligada a um poder profético, não como o ministério de uma elite espiritual, mas disseminado em toda a comunidade messiânica. Aquilo que é prometido no Batismo e aprofundado na imposição de mãos pode ser vivido imediatamente, mas frequentemente os cristãos levam anos para “acessarem” ou “ativarem” as promessas recebidas. Com isso, quero dizer que há “um só batismo” (Ef 4:5), o sacramento, um mistério único que contém compactamente e assinala profeticamente todo o nosso percurso no caminho de Jesus.

Nesse sentido, o momento em que recebemos o sacramento do Batismo não indica necessariamente o primeiro momento em que desfrutamos plenamente da benção profética ali ministrada. O mesmo se dá com a Imposição de Mãos. Em analogia com essas coisas, podemos colocar a oração: se eu oro hoje pela cura de um enfermo, desejo que sua cura aconteça hoje, devo orar para que ela aconteça agora, devo esperar a intervenção de Deus para o presente momento, mas não sou o dono da realização dos seus efeitos, pois eles pertencem a Deus, e por isso podem se realizar algumas horas depois ou amanhã, quando a pessoa que recebeu a oração hoje desfrutará então da cura impetrada. Ou seja, o momento em que a oração é feita e o momento em que a resposta é recebida podem ter um intervalo de bastante tempo.

Assim também, a experiência de enchimento do Espírito Santo, que deve ser esperada para o sacramento ou sinal sacramental, talvez só seja ativado tempos depois. Do mesmo modo, assim como há muitas maneiras pelas quais Deus curou e cura (simples oração individual, intercessão, imposição de mãos, unção com óleo, banho “profético”, cuspe…), Deus pode ministrar seu Espírito de vários modos. Não precisamos estabelecer uma regra para Deus, mas apenas para nós mesmos. Não precisamos crer em duas bênçãos ou em três bênçãos. Podemos acreditar em infinitas bênçãos como infinitas manifestações do Espírito. O Espírito Santo sempre tem mais. Mas é sempre também o mesmo Espírito Santo, a mesma bênção indivisa, o mesmo mistério inesgotável.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Entrada Triunfal, Adoração Celestial

Meditate on Christ's Triumphal Entry into Jerusalem, with a 15th century  Icon

Os Evangelhos estão cheios de mistérios que nunca descobriremos se nos limitarmos a simplesmente olhar suas páginas, sem comparar e ligar uma parte a outra. Um caso é a Entrada Triunfal de Cristo em Jerusalém, na versão do Evangelho de Lucas.

Os peregrinos que seguem com Cristo para Jerusalém entoavam, em sua honra, a aclamação do Salmo 118, cântico de romagem. (O evento também ecoa outros salmos, como o 122.) Dentre as várias diferenças, os quatro evangelhos registram uma mesma frase: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (heb. bārûḵ habbaʾ bšem ʾadonāy), reconhecendo Cristo como aquele que haveria de vir, o esperado (gr. ho erchomenos).

Mas enquanto Mateus seguiu a aclamação registrada por Marcos, só acrescentando uma expressão, Lucas modifica bastante o texto e basicamente produz algo estruturalmente novo. Isso é intencional, e não é a primeira vez que Lucas usa essas palavras. Noutro momento de aclamação, em Lc 2:13-14 (feita pelos anjos), vemos que Lucas usa a mesma linguagem doxológica:

“E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade.”
Lucas 2:13-14

“E, quando se aproximava da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos passou, jubilosa, a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que tinham visto, dizendo: Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!”
Lucas 19:37-38

Nos dois casos, há uma multidão (plēros) que aclama a Cristo, por milagres, fala sobre paz e usa fórmula “glória nas maiores alturas” (doxa en hypsistois). A aclamação da Entrada Triunfal tem uma frase a mais, justamente a do Salmo 118, e a sequência entre “paz” e “glória” está invertida. O motivo disso aparece quando justapomos os dois cânticos. Na verdade, eles são um mesmo cântico, em quiasmo:

[A] Glória [a Deus] nas maiores alturas,
[B] e paz na terra [aos homens de boa vontade].
[C] Bendito é o [Rei] que vem em nome do Senhor!
[B’] Paz no céu
[A’] e glória nas maiores alturas!

Essa canção se insere na tradição bíblica do Cântico Novo: diante de um ato salvador divino, uma canção nova é entoada. É um cântico responsivo, no qual os homens, na terra, respondem aos anjos, no céu. Como no livro do Apocalipse, a adoração terrestre é consequência e “responso” da adoração celeste (cf. Ap 5:8-14; 19:1-8). Ambos convocam os céus a adorarem a Deus, evocando a linguagem de vários salmos em que os anjos são, no templo, chamados pelos homens à adoração: 29:1-2,9-11 (“glória”, “templo”, “rei”, “paz”), 103:20-21 (“bendizer”, heb. bāraḵ, e o exército angélico) e 148:1-2 (com as “alturas”, LXX en tois hypsistois, e o exército angélico).

Complementando-se, os anjos (saindo da Jerusalém celeste) proclamam “paz na terra” e os homens (entrando na Jerusalém terrestre) proclamam “paz no céu”. Talvez devamos imaginar os céus e a terra se saudando com a paz, shalom, isto é, abençoando-se mutuamente, intercedendo pela paz uns dos outros. As duas cidades, a terrestre e a celeste, comungam da mesma adoração a Deus, adoram juntamente a Deus.

As expressões usadas (“paz na terra”, “paz no céu”) também evocam textos do Antigo Testamento. Dentre as bênçãos que Deus havia prometido ao povo de Israel, quando obedecesse à Torá, estava “paz na terra” (Lv 26:6), assim como ele estabeleceria seu tabernáculo entre os homens, andando entre eles (vv. 11-12), numa promessa de libertação em relação à escravidão (v. 13) que tinha tudo a ver com o momento político de Israel. Em Jó 25:2-3, fala-se de como Deus faz “reinar a paz nas alturas celestes” (LXX “en hypsistō“), mencionando também os exércitos angélicos. Embora possa parecer estranho que os homens desejem “paz no céu”, que sempre evocam o sentimento da máxima paz, na verdade as Escrituras nos falam de como as realidades celestiais podem ser conflituosas (cf. Is 24:21; Dn 10:1; Lc 21:26; Ef 6:12).

Esse cântico é simplesmente uma obra de arte em termos de alusões bíblicas.

De fato, a Entrada Triunfal é o momento propício para falar de paz, já que a profecia que ela cumpre, em Zacarias, fala da cessação messiânica das guerras e o estabelecimento da paz (Zc 9:9-10; cf. Is 2:1-5; 9:6-7; 11:6-9; 32:18; 60:17-18; Mq 4:2-4; Os 2:18). A paz é um tema importante para Lucas. Ele nos fala do “caminho da paz” (Lucas 1:79) e do “evangelho da paz” (At 10:36). A procissão de Cristo a Jerusalém se dá montada num animal inofensivo, não num cavalo de guerra, como César.

O cântico unido presume uma correspondência cósmica entre o céu e a terra — tanto na paz quanto na guerra (cf. Jz 5:19-20; Is 24:21; Lc 21:24-26) —, entre o reino no céu e o reino da terra, entre a Jerusalém terrestre e a celeste; presume uma imitação do céu na terra, realizando o que se pede no Pai Nosso: Deus é adorado, assim na terra como no céu.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Parábola Mais Difícil da Bíblia (Explicada)

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A Parábola do Administrador Infiel é provavelmente a mais difícil de toda a Bíblia. Ela contrasta fortemente com a maioria das parábolas, geralmente fáceis de entender, ao menos para quem já é cristão. Sua dificuldade não reside numa dificuldade de tradução, num contexto ininteligível, numa gramática truncada ou num uso de conceitos estranhos. De fato, penso que não haja nada de ambíguo na parábola. Pelo contrário, sua dificuldade reside precisamente no fato de que, mesmo parecendo ser muito clara, ela coloca diante de nós uma linguagem realmente chocante. Como Cristo pode ter louvado um ato de desonestidade, particularmente quando quem o realiza pensa apenas em si mesmo? O que Cristo espera que nós façamos diante disso? Essas são as duas perguntas principais a se fazer. Parece que algo não faz sentido; parece que falta algo.

Pretendo dar ao leitor um vislumbre do que eu penso ser a leitura correta do propósito dessa parábola. Como se verá, a proposta dessa parábola não é coisa totalmente nova na Bíblia.

A maneira como eu imagino a “cena” da parábola é semelhante à famosa interpretação de Kenneth Bailey. O administrador de um senhor de terras (“um homem rico”) é acusado (diaballein) de defraudar seus bens e, por isso, será demitido. Exige-se que preste contas de sua administração. O drama gira em torno do que esse administrador fará para sobreviver depois que for posto para fora. Ainda de posse dos livros de contas, ele manda chamar os arrendatários das terras, que deveriam pagar àquele senhor certos valores em azeite e trigo. Então ele os faz adulterar os números das contas, diminuindo suas próprias dívidas. Se esse administrador reduz as contas, sua situação fica ainda pior; muito maior razão ele dá para ser demitido. Mas, como a demissão já é certa, não importa. Ele não pretende se defender. Ele precisa arriscar tudo. Então ele usa a situação em seu próprio favor. Os devedores do senhor agora devem, em segredo, um favor ao administrador; em público, o dono da propriedade aparece como um grande misericordioso. Quando o administrador for demitido, os devedores o receberão em suas próprias casas. Aquele “administrador infiel” ou “administrador de impiedade” (ho oikonomos tēs adikias) é louvado por ter usado de astúcia.

Logo após essa parábola, há alguns comentários importantes, que nos ajudam na interpretação. Essa parábola tem a ver com:

  1. Usar injustamente as riquezas (v. 10).
  2. Usa das “riquezas injustas” [en tō adikō mamōna] (v. 11), [ek tou mamōna tēs adikias] (v. 9).
  3. Receber a verdadeira riqueza [to alēthinon] (v. 11.). Isso corresponde a ser recebido “nos tabernáculos eternos” (v. 9). Os amigos feitos através das riquezas nos recebem nos tabernáculos eternos. Há aqui uma referência escatológica.
  4. Ser fiel no uso do que é alheio (v. 12).
  5. Servir apenas a Deus, não às riquezas (v. 13).
  6. A avareza dos fariseus (v. 14), pois “aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus” (v. 15).

Para entender a parábola, há dois requisitos. O primeiro é uma teologia correta da riqueza e da esmola, para além de qualquer convivência cômoda com as riquezas. O segundo é eliminar interpretações radicais do princípio “sola fide”; essa parábola não é compatível com elas. Uma lição da parábola é sobre fazer amigos para herdar a vida eterna.

O primeiro problema com o que nos deparamos diz respeito à desonestidade. Poderia Cristo usar um desonesto como exemplo? Existe uma discussão sobre se a palavra “senhor” em Lc 16:8 deve ser traduzida e entendida como o “senhor [da terra]” ou como o “Senhor” (Cristo). Para efeitos do problema da desonestidade, não faz diferença, pois, nas falas seguintes, Cristo toma o caso como exemplar.

Na verdade, o que ocorre é que nem sempre as parábolas têm o propósito de refletir a natureza divina. Na Parábola da Viúva Importuna (Lc 18:1-8), o lugar que deveria ser o de Deus é ocupado por um juíz iníquo. A perseverança na oração é exemplificada em uma viúva que insiste à porta de um juíz mau e finalmente é atendida. É preciso entender que, embora algumas parábola sejam alegorias, essas parábolas com as quais lidamos não o são. São exemplos vivos retirados da vida humana. Assim, nem todos os detalhes da parábola são aplicáveis para nós, inclusive a “desonestidade”. Há algo que Cristo quer que façamos, seguindo o exemplo do administrador desonesto. Cristo vê uma certa inteligência no modo como os filhos das trevas lidam entre si, e ele quer que seu discípulos aprendam isso (v. 8). Ou seja, Cristo que que seus discípulos (filhos da luz) aprendam a usar o que está em suas mãos para se safarem do que virá. Eles devem ser intencionais.

Mas como assim? O que está nas mãos dos discípulos? O que virá?

Essa parábola, como várias outras (inclusive a próxima parábola no mesmo capítulo), lida com o juízo final, com o destino dos homens. Noutra parábola lucana, Cristo trata seus discípulos como administradores no contexto da Parusia (Lc 12:42-48). A própria ideia de um acerto de contas é uma metáfora escatológica de juízo (Mt 12:36; 18:23; 25:19; Rm 14:12; Hb 13:17; 1Pe 4:5). Seremos julgados pelo modo como tratamos o que temos (como na parábola das minas/talentos). No caso do administrador injusto, ele já começa a história condenado, mas deve encontrar um jeito de se safar. O momento da demissão está perto de chegar; enquanto ainda é administrador, aproveita o tempo que tem para usar os “recursos” que tem em seu próprio benefício. Nós, como administradores das riquezas, sabemos que as perderemos um dia, isto é, elas faltarão (Lc 16:9). Mamom é passageiro (Mt 6:24 // Lc 16:13 [Q]). Como a tradição profética do Antigo Testamento assinala, nossas riquezas não nos livrarão no dia da ira (Pv 11:4; Ez 7:19; Sf 1:18).

O “susto” que o administrador tem diante da demissão que vem e do pouco tempo que resta coloca diante de nós a dimensão escatológica da conversão. Enquanto podia viver sem se preocupar com o amanhã, aquele homem foi um mau administrador. Mas sabendo que o dia do seu juízo chegaria, ele agiu, inclusive apressando os devedores. Ao fazê-lo, ele será recebido em suas casas. Nós, ao fazermos amigos usando das “riquezas da injustiça”, seremos recebidos nos “tabernáculos eternos” (linguagem escatológica, cf. 2Co 5:1).

Mas que relação há entre uma coisa e outra? Como ligar riquezas, amigos e vida eterna?

Essa é uma das parábolas exclusivas do Evangelho de Lucas. Lucas tem uma preocupação particular com a pobreza e com a esmola, desprezando as riquezas passageiras. Embora coisas assim sejam achadas nos demais evangelhos sinóticos, essa é uma ênfase particular de Lucas, é parte do seu traço redacional. Várias das parábolas exclusivas de Lucas lidam especificamente com a misericórdia. De fato, a parábola seguinte lida ainda com riqueza e pobreza (o Rico e Lázaro); ambas iniciam falando de um “homem rico” (Lc 16:1; 18:19). A tradição sinótica registra bem o dito de Cristo sobre a impossibilidade da salvação do rico (Mc 10:25 par.), diante do que Cristo assinala a possibilidade de salvação do rico. É possível para o rico, mas como? Penso que o propósito dessa parábola é, ao menos em parte, explicar como.

Se usamos riquezas para fazer amigos, é natural que esses amigos sejam pessoas necessitadas de dinheiro, os pobres tão enfatizados por Lucas, os miseráveis. A parábola lida com o modo como herdamos a vida eterna (somos recebidos nos tabernáculos eternos) ajudando os pobres. Não apenas entramos nos tabernáculos eternos em razão deles; eles nos recebem nos tabernáculos eternos. O Antigo Testamento conhece a intercessão (bênção) ou imprecação (maldição) do pobre em relação a quem lhe dá ou recusa socorro; isso aparece especialmente nas obras (como Deuteronômio e Provérbios) em que o cuidado com os pobres é mais acentuado. Por exemplo:

Êxodo 22:26,27 : “Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha restituirás antes do pôr do sol; porque é com ela que se cobre, é a veste do seu corpo; em que se deitaria? Será, pois, que, quando clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.”

Deuteronômio 15:9,10 : “Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado. Livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres; pois, por isso, te abençoará o Senhor, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes.”

Deuteronômio 24:12-15 : “Porém, se for homem pobre, não usarás de noite o seu penhor; em se pondo o sol, restituir-lhe-ás, sem falta, o penhor para que durma no seu manto e te abençoe; isto te será justiça diante do Senhor, teu Deus. Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou estrangeiro que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia, lhe darás o seu salário, antes do pôr do sol, porquanto é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”

Jó 29:11-13 : “Ouvindo-me algum ouvido, esse me chamava feliz; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim; porque eu livrava os pobres que clamavam e também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.”

Jó 31:16-22 : “Se retive o que os pobres desejavam ou fiz desfalecer os olhos da viúva; ou, se sozinho comi o meu bocado, e o órfão dele não participou (Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como se eu lhe fora o pai, e desde o ventre da minha mãe fui o guia da viúva.); se a alguém vi perecer por falta de roupa e ao necessitado, por não ter coberta; se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com a lã dos meus cordeiros; se eu levantei a mão contra o órfão, por me ver apoiado pelos juízes da porta, então, caia a omoplata do meu ombro, e seja arrancado o meu braço da articulação.

Esses textos aludem ao hábito imemorial de que o pedinte socorrido abençoe o que o ajuda. Deus é o defensor e vingador da causa do pobre (Pv 22:22-23; 23:10-11). Como Ben Sira evidencia, essa tradição de valorizar a oração do pobre continuou a existir (cf. Ecclo 4:1-1; 21:6). É relevante que essa ideia do clamor do pobre seja repetida, no Novo Testamento, por Tiago, que conhecia a tradição sinótica (Tg 5:4; cf. Ap Ap 6:9-10). Aí aparece uma linguagem de “justiça” como sendo um “crédito” que se tem com Deus através da obediência (cf. Dt 6:25). Assim, lemos em Pv 10:2; 11:4:

Provérbios 10:2 : “Os tesouros da impiedade de nada aproveitam, mas a justiça livra da morte.”

Provérbios 11:4 “As riquezas de nada aproveitam no dia da ira, mas a justiça livra da morte.”

A justiça livra da morte. Essa justiça (ṣᵊḏāqâ, LXX dikaiosynē), interpretada no contexto judaico como “esmola” (daí Mt 6:1-2), livra da morte. Por isso, textos como Pv 10:2; 11:4 foram interpretados, no judaísmo, como significando que a esmola livra da morte e leva à vida eterna (cf. Tb 12:8-9). O texto de Prv 10:2, em particular, se conecta de modo interessante a Lc 16:9, porque vemos falar aqui dos “tesouros da impiedade” assim como ali se fala das “riquezas da injustiça”. O que esses textos nos ensinam é a doar o que temos, e não reter. Cristo havia condenado o que ajunta tesouros para si e não é rico para com Deus (cf. Lc 12:21,33). Assim, uma riqueza que guardamos para nós mesmos é, naturalmente, uma riqueza injusta.

Em suma, a lição da parábola é fundamentalmente sobre ser misericordioso para alcançar misericórdia. O administrador iníquo foi “misericordioso” (com intenção desonesta) para com os devedores, e por isso eles lhe retribuíram. Assim também, devemos fazer amigos com nossas riquezas, com a boa intenção de que eles nos ajudem no caminho que precisamos seguir. Os misericordiosos alcançarão misericórdia. A retribuição iníqua se torna aí exemplo de como nós, filho da luz, devemos buscar uma retribuição benigna. Algumas pessoas têm dificuldade com a ideia de recompensa que Cristo liga à esmola (Mt 6), porque, pensam, tudo deve ser gracioso. A grande verdade é que mesmo essa retribuição é fruto da graça divina. A fato de que ela se dá através do clamor do pobre, e não por um merecimento nosso, é determinante. De fato, a esmola é um grande ato de fé. É confiança na retribuição divina futura.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que Maria é chamada “mãe do meu Senhor” em Lucas 1:43?

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O primeiro capítulo do Evangelho de Lucas é uma das partes mais encantadoras e fascinantes de toda a Sagrada Escritura, por muitos motivos: conta-nos da origem do cristianismo em termos tão íntimos e tão familiares, ao mesmo tempo tão imersos na religião e no messianismo hebreu, e tão únicos se comparados ao restante do Novo Testamento — como a narrativa tão mais abreviada em Mateus 1 —, fazendo, por alguns instantes, adentrar até mesmo a vida interior de Maria, a quem Isabel nomeia “mãe do meu Senhor” (Lc. 1:43). Essas palavras são surpreendentes em todos os sentidos. Continue lendo “Por que Maria é chamada “mãe do meu Senhor” em Lucas 1:43?”

Deus prefere os pobres?

Viúva pobre

Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.
Lucas 6:20,24

Há, de fato, alguns ricos que são justos, humildes e detestam a impiedade; mas eles são poucos. João Calvino, Comentário à Epístola de Tiago

A idéia de que Deus possa preferir alguma pessoa, ou algum grupo de pessoas, é um escândalo para nossa mentalidade igualitária. Atinge, de fato, a nós mesmos — o que fazer se eu não estou entre os preferidos? É inaceitável. Ouvimos dizer que Deus não faz acepção de pessoas, e ao ouvi-lo entendemos que Deus preza a todos igualmente, não despreza a ninguém. Por isso, quando perguntamos se Deus prefere os pobres, a idéia de preferência pode nos chocar, a despeito de quais sejam as nossas intenções quanto a eles mesmo. Continue lendo “Deus prefere os pobres?”