A Igreja Anglicana é reformada?

Por algum motivo, várias pessoas diferentes me fizeram a mesma pergunta: a Igreja Anglicana não é reformada?

É preciso entender que a Igreja Anglicana não é calvinista. Quando o Arcebispo Whitgift tentou tornar certo calvinismo moderado em doutrina anglicana, nos Artigos de Lambeth (1595), eles foram rejeitados. Ou seja, a Igreja Anglicana rejeitou o calvinismo como doutrina quando a proposta foi feita. (O que não significa que não haja influências calvinistas na doutrina e liturgia anglicanas; elas existem e são bastante positivas.)

Como eu digo muitas vezes: os 39 Artigos de Religião ensinam a doutrina da eleição e rejeitam ensinamentos como expiação limitada e perseverança dos santos, além de ensinarem certa cooperação com a graça. O Livro de Homilias tem um sermão cujo propósito é ensinar o perigo de perder a salvação. Um trecho:

“Pois se Deus mostrou, a todos os que creem verdadeiramente em seu Evangelho, sua face de misericórdia em Jesus Cristo, que ilumina seus corações, para que eles (se a observarem como devem) sejam transformados em sua Imagem, sejam feitos participantes da luz celeste e do seu Espírito Santo, e sejam conformados a ele em toda a bondade exigida dos filhos de Deus; então, se posteriormente eles negligenciam tais coisas, se forem ingratos a ele, se não ordenarem suas vidas de acordo com seu exemplo e doutrina, e ao anúncio de sua glória, ele lhes tirará o seu Reino, sua santa palavra, pela qual ele reinaria neles, por eles não trazerem o fruto que deles ele buscava.” — Livro de Homilias, On Declining from God

Esse trecho não só ensina a possibilidade de perder a salvação, como o faz à luz da doutrina da dupla justificação. Não se trata da doutrina luterana — perda de salvação por perda da fé —, mas a perda da salvação por pecado.

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Para os reformadores ingleses, era bem óbvio que a salvação podia ser perdida. Outro dia, compartilhei um trecho em que Hugh Latimer fala sobre essa possibilidade. Quem descreve esses homens como calvinistas não sabe bem o que diz. Eles acreditavam em predestinação, mas não a predestinação como posteriormente definiria Dort.

É por isso que o Art. 16 fala da possibilidade de cair da graça do Espírito Santo através do pecado, o que é óbvio para quem acredita em Regeneração Batismal. De fato, a homilia “On the Declining from God” (do Livro de Homilias da Igreja da Inglaterra), usando a famosa parábola da vinha em Isaías 5, expressa esse fato dizendo:

“…eles não mais serão do seu reino, eles não mais serão governados por seu Espírito Santo, eles serão tirados da graça e dos benefícios que tinham e que desfrutariam eternamente por Cristo, eles serão privados da luz celestial e da vida que tinham em Cristo enquanto permaneciam nele; eles serão (como um dia foram) homens sem Deus no mundo, ou até pior. Em suma, eles serão dados ao poder do diabo, que exerce domínio em todos os que são lançados de Deus, como fez com Saul e Judas (1Samuel 15:23; 16:14), e geralmente em todos quantos operam por suas próprias vontades, filhos da desconfiança e da descrença.”

A mesma homilia ensina ensina: “assim como a salvação é prometida aos fiéis em palavra e obra”.

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Revmo. Hugh Latimer (☩1555), bispo anglicano e mártir, sobre perda da salvação:

“Então essas pessoas que ainda não vieram a Cristo, ou, se vieram a Cristo, caíram novamente dele e assim perderam sua justificação (assim como há muitos de nós que, quando caímos voluntariamente no pecado contra a consciência, perdemos o favor de Deus, nossa salvação e finalmente o Espírito Santo)…” — Sermão sobre a Epístola do Primeiro Domingo do Advento

Primeiro podemos saber que podemos estar no livro num momento e noutro momento sair dele; como parece ser com Davi, que foi inscrito no livro da vida; mas quando pecou, naquele momento ele ficou fora do livro do favor de Deus, até que se arrependeu e se entristeceu por suas faltas. Assim podemos estar no livro uma vez e, em seguida, quando esquecemos de Deus e de sua palavra e agimos impiamente, saímos do livro; isto é, saímos de Cristo, que é o livro.” — Sermão do Terceiro Domingo depois da Epifania

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No nosso Livro de Oração Comum, a oração (coleta) desta semana é uma na qual a possibilidade de perda da salvação é apresentada:

“Ó Deus, protetor dos que em ti confiam, sem o qual nada é forte, nada é santo; acrescenta e multiplica a tua misericórdia para conosco, a fim de que, sob o teu governo e direção, vivamos esta vida de tal maneira que não percamos a vida eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.”

O trecho relevante é o que diz “vivamos esta vida de tal maneira que não percamos a vida eterna”. Essa oração está presente também na edição mais importante do LOC (1662), numa forma mais simples.

Nessa oração, vemos algo constante na Lex Orandi anglicana, particularmente nas coletas semanais: afirmamos, ao mesmo tempo, que podemos perder a vida eterna através do nosso modo de vida mau e, por outro lado, que perseveramos no caminho é graça de Deus, pelo que lhe pedimos.

O cair é do homem; o firmar é de Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Doutrina Anglicana da Predestinação

BCP

Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Filipenses 4:5a

A teologia anglicana recebeu diversas influências dos pais da Igreja, dos escolásticos e medievais, das reformas luterana e calvinista. O cultivo dessa teologia se deu como via média entre a pressão do radicalismo puritano e o tradicionalismo romano. Como via média, seu papel não foi o de produzir nenhuma nova doutrina — nenhuma doutrina é propriedade anglicana! —, mas reconciliar os extremos através de um culto comum, reconhecendo a intimidade entre nossa fé e nossa adoração. A batalha teológica anglicana sempre foi pela fé orada, não apenas pela fé professada. Continue lendo “A Doutrina Anglicana da Predestinação”