Oração é Coração

Oração não é falatório, mas alinhamento entre o coração e Deus.

Isso revela um dos perigos de achar que o mais importante na oração é usar palavras espontâneas, falar do seu jeito, pois você acaba tratando a oração como um falar com Deus, conversar com ele, dizer coisas a ele. Isso é parte da oração, mas há algo mais fundamental.

Quando dizemos “Santificado seja o teu nome”, como Cristo ensinou, o que estamos fazendo?

O nome de Deus já é santo, e não estamos simplesmente pedindo a Deus para que continue sendo assim ou que isso seja reconhecido por outras pessoas. O que fazemos, ao pronunciar essas palavras, é posicionar nosso coração do melhor jeito. Cristo nos dá as palavras certas, nas quais podemos meditar, para que possamos estar com Deus. São palavras que nos ajudam a preparar o coração para a graça.

Sem proibir outras formas, Cristo nos ensinou a invocar a Deus dizendo “Pai” ou “Abá”. Essas palavras não têm efeito sobre Deus (ele já sabe que é Pai e não esquece disso), mas sobre nós mesmos, quando as pronunciamos de maneira significativa. Nossa fragilidade se esquece ou desacredita da filiação. As palavras certas, na oração, ativam na nossa fé certa dimensão de honra, proximidade e (lateralmente) fraternidade.

Não sentimos a mesma coisa quando dizemos “O Senhor é meu pastor, e nada me faltará”? Não nos recordamos do seu cuidado? Não reafirmamos nossa fé em sua bondade? As palavras da oração reposicionam o coração.

Tudo isso se perde ou se enfraquece quando eu trato a oração como se fosse apenas dizer coisas a Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

“Soli Deo Gloria” serve para quê?


O princípio “Soli Deo Gloria” é um princípio plenamente bíblico. Afinal, Deus diz, na voz do profeta: “…a minha glória, pois, a outrem não darei…” (Is 42:8; 48:11). Uma vez que que todas as coisas são dele, por ele e para ele, a glória deve ser dada a ele eternamente (Rm 11:36). As doxologias do Apocalipse e do restante do Novo Testamento carregam o mesmo sentimento. Fomos criados para a glória de Deus (Is 43:6-7). Por isso, a glória dada a Deus deve permear nosso comportamento (1Co 10:31).

Essa glória certamente é exclusiva. Mas o que isso significa? Se ela é exclusiva, a quem ela exclui? Na Bíblia, ela exclui o culto aos deuses. O contexto do Segundo Isaías, no qual aparecem as sentenças mencionadas acima, é o do conflito de Javé com um povo que havia se acostumado a cultuar divindades pagãs no Exílio. Deus não divide sua glória com os deuses e ídolos das nações.

Por outro lado, essa glória não exclui o povo de Deus. Num outro momento, a mesma literatura profética fala do destino da Jerusalém redimida: “…sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti… eu tornarei mais gloriosa a casa da minha glória…” (Is 60:2,7). O Templo é a casa da glória divina, o lugar em que essa glória reside. Deus visualiza sua própria glória entre o seu povo.

Numa leitura cristã, na qual a Igreja é o Templo de Deus, isso significa que Deus coloca sua glória e resplendor nos seus santos. Assim, é natural que o Novo Testamento veja os cristãos como “participantes” da glória de Deus (1Pe 5:1), que veja os redimidos como glorificados por Deus (Rm 8:30), que trate o crescimento dos apóstolos como um resplandecer de Cristo “de glória em glória” neles. Nesses casos, Deus partilha, sim, sua glória.

Por isso: “…diante de ti se prostrarão e te farão as suas súplicas, dizendo: Só contigo está Deus, e não há outro que seja Deus.” (Is 45:14); “…diante de ti se inclinarão com o rosto em terra e lamberão o pó dos teus pés…” (Is 49:23); “…prostrar-se-ão até às plantas dos teus pés… eu te constituirei glória eterna…” (Is 60:14-15); “eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.” (Ap 3:9).

Em toda essas coisas, Deus é glorificado, o único plenamente glorificado. Por isso, nesses casos, a glória de Deus não é dividida, porque os homens vivem para a glória de Deus. De fato, Deus ama dividir sua glória com quem não quer glória para si.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Oração Profética, Oração Mística

Entender a oração envolve duas dimensões fundamentais: uma é a dimensão profética, a outra é a dimensão mística.

A dimensão profética é aquela do clamor: o socorro implorado ao Soberano Eterno, a justiça reivindicada perante o Juiz Divino, a misericórdia suplicada ao Pai Celestial. Entramos com humildade e com ousadia perante o Trono Altíssimo, em busca do combate espiritual contra os males do mundo, particularmente aqueles que afetam a nossa própria alma e a vida das pessoas a quem amamos. Orar é buscar a compaixão divina e pelo milagre na terra.

A segunda dimensão, a dimensão mística, é a elevação do coração a Deus. É a dimensão da comunhão espiritual, e da nossa própria transformação e transfiguração nesse processo. É o encontro da alma com Deus e a consequente elevação dessa alma, que está sedenta de Deus. É subir os degraus da escada de Jacó para lá habitar, no único lugar da satisfação definitiva. Orar é buscar a reordenação do coração, dos afetos, do espírito.

A primeira dimensão é a da invocação, é pedir que Deus venha à nossa realidade, é dizer (Sl 70:1): “Praza-te, ó Deus, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” A segunda é a da ascensão, é entrar em Deus, é dizer (Sl 42:1): “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma.” A primeira dimensão olhar para o futuro que Deus cria; a segunda olha para cima, onde Deus está.

Essas não são duas formas de orar, mas duas dimensões simultâneas da oração. Embora um lado possa ser mais ressaltado numa situação — pois somos criatura temporais, nossa atenção e nossas palavras ressaltam lados diferentes em momentos diferentes —, a realidade é que esses dois lados estão sempre presentes na oração como a conhecemos, pois sempre invocamos e ascendemos.

Essa dualidade se deve particularmente à nossa condição, como finitos, como pecadores e como sofredores, ansiando por sermos “absorvidos pela vida”. Como podemos, aliás, invocar a Deus sem sermos transformados, e como podemos ser transformados sem que, no processo, percebamos ainda mais agudamente as necessidades do mundo e nossas próprias debilidades, ainda que agora com uma nova mente? Invocação e ascensão andam juntas.

A imagem do Lugar Santíssimo no Santuário une esses dois lados. O sacerdote, ao entrar nesse lugar, veste o linho dos anjos e contempla o trono de Deus, ele é “ritualmente transformado” mas o faz justamente no momento em que busca a misericórdia divina pela nação. Interceder, nesse processo, é ter comunhão com o coração de Deus e, por isso, tornar-se instrumento profético da causalidade divina, concordando intimamente com o Alfa e o Ômega.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Idolatria não é o que você está pensando

Há dois erros comuns quanto ao pecado da idolatria. Os dois envolvem algum tipo de generalização ou desliteralização desse pecado.

O primeiro erro é confundir qualquer amor ou desejo excessivo com idolatria. Uma pessoa valoriza os bens, a comida, a bebida, o sexo ou outras pessoas de maneira excessiva ou doentia, e alguém conclui que isso seja idolatria. Não chamamos os famosos de “ídolos”? Não falamos do “alcoólatra”? É uma identificação comum.

Esses excessos são pecaminosos, mas eles não são idolatria, e identificá-los com a idolatria é perder o que cada um tem de característico, a maneira própria de cada um nos atrair e afetar nossa alma. Alguns deles podem ser equiparados à idolatria, como é o caso da avareza (Ef 5:5; Cl 3:5); mas note-se que, numa lista de pecados, só um é equiparado à idolatria, o que não é irrelevante.

A idolatria é um tipo de adoração, e nem todo amor excessivo é assim. Por exemplo, a adoração envolve um reconhecimento (gratuito ou interessado) da grandeza do objeto adorado; nem todo amor excessivo é assim.

O segundo erro consiste em tratar a idolatria como “colocar qualquer coisa no lugar de Deus”, ou coisa semelhante. Isso é comum e, em situações normais, nas quais não se exija uma definição precisa, é aceitável.

Mas não é uma explicação exata. Na verdade, não é possível colocar outras coisas no lugar de Deus, porque não é possível amar qualquer outro objeto com todo o coração, alma, entendimento e forças — não é possível dar a qualquer outro objeto o mesmo culto de que Deus é digno, na mesma intensidade.

O amor com que nos dirigimos a Deus só é possível pela graça, não pelas forças naturais — só é possível pelo poder infinito de Deus. Por isso também, não é possível amar qualquer outra coisa com esse mesmo amor, porque nada, por mais sedutor que seja, é capaz de atrair nossa atenção com a mesma força.

As criaturas esgotam nossas forças e não são capazes de nos dar a satisfação infinita que Deus dá, por isso jamais são igualmente amáveis. A idolatria, o culto a ídolos, envolve sempre um amor parcial, pois os ídolos têm sempre defeitos e parcialidade, eles não têm completude, e a lida com eles é sempre a lida com objetos finitos, limitados.

A melhor maneira de definir a idolatria é como o oferecimento do culto divino às criaturas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Mulheres cristãs devem usar o véu?

Por que Paulo ensinou que as mulheres devem usar véu? Uma das Escrituras mais surpreendentes e diferentes da mentalidade moderna é o texto em que Paulo ensina que as mulheres devem orar e profetizar sempre com cabeça coberta, e os homens, com cabeça descoberta.

Tanto na cultura grega quanto na judaica — ambas estão em jogo nas palavras de Paulo —, o véu feminino expressava modéstia, e o apóstolo Paulo parece aludir a isso quando diz que, para a mulher, o cabelo crescido é glória (1Co. 11:14-15), de modo que usar o véu seria esconder essa glória.

Diferentemente do homem moderno, Paulo vê no mundo uma ordem natural das coisas, uma diferença entre homens e mulheres: o homem é a glória de Deus e a mulher, a glória do homem. Por isso, ele não tratava apenas de costumes e tradições, mas da própria natureza. Mesmo um costume que sabemos não ser universal, e que ele queria que os coríntios aprendessem, podia ser visto como uma expressão da natureza humana.

Surpreende a justificativa, porém: a mulher deveria usar o véu “por causa dos anjos”. A interpretação mais comum é de que a, na celebração cristã, existe uma unidade entre o céu e a terra, de maneira que os anjos estão presentes entre os homens, o que exigira a devida reverência. Sem dúvida, os primeiros cristãos tinham um senso claro da companhia dos anjos.

A fé cristã tem obrigações e proibições? Alguém perguntou se as mulheres cristãs ainda devem usar o véu quando oram, como o apóstolo Paulo ensinou. A resposta é a seguinte: o cumprimento da lei é o amor, quem ama cumpriu a lei, e do amor dependem todos os mandamentos.

Para Cristo, era melhor salvar um perdido no sábado que guardar o sábado, e isso deve nos impressionar tanto quanto impressionou os fariseus, pois o sábado é um mandamento para com Deus, e Deus tem prioridade em relação ao homem. Para Cristo, o amor está radicalmente acima de toda a lei. Os fariseus quase tratavam a lei como se os mandamentos tivessem todos a mesma importância; para Cristo, há uma hierarquia, há o mais importante e o menos importante. O menos importante depende do mais importante, e deve ser deixado de lado quando for preciso, para cumprir o mais importante.

O problema das “Testemunhas de Jeová”, por exemplo, não é impor aos cristãos a proibição judaica do sangue, ou confundir transfusão com ingestão, mas ler a Escritura como uma lei chapada que tem de ser aplicada em todas as situações, a todo custo, e como se não “comer” sangue fosse tão importante quanto salvar uma vida.

O texto paulino que determina o uso feminino do véu é perpétuo, porque a Escritura é perpétua, é a voz do Espírito em palavras humanas. Qualquer tentativa de transformar o véu em mera prática cultural ultrapassada é inteiramente danosa à interpretação da Escritura, porque não tem limites; qualquer mandamento pode ser visto como cultura ultrapassada, e, assim, a moral cristã vem abaixo. O véu não deixou de ser usado porque ele era apenas um “costume cultural”; deixou de ser usado por causa dos nossos “costumes”.

Entretanto, isso não significa que as mulheres cristãs estejam automaticamente obrigadas a usá-lo. Cabe à Igreja disciplinar essa questão, observando o que é melhor para cada época e lugar, de acordo com a única lei da Igreja, a lei do amor.

Por isso, a religião cristã é, sem dúvida, a religião do coração e a religião do amor. Só há uma coisa proibida na fé cristã: não amar. Ame e faça o que quiser. Todos os outros “nãos” são maneiras de ensinar e preservar o amor. O amor divino é o maior dom, o maior fruto, o maior mandamento, a maior missão, o maior sacrifício, é o sacramento da vida, é a força do perdão, é a unidade da Igreja, é o motivação da Cruz, é a infusão do Espírito, é a essência sublime e inefável de Deus, porque Deus é amor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Escuridão de Deus

“…Moisés, porém, se chegou à nuvem escura onde Deus estava.” Êx 20:21

Estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou…” Dt 5:22

“…O Senhor declarou que habitaria em trevas espessas.” 1Rs 8:12

Das trevas fez um manto em que se ocultou; escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.” Sl 18:11

Nuvens e escuridão o rodeiam...” Sl 97:2

A Escuridão é um lugar privilegiado de encontro com Deus. Se é verdade que encontrar Deus é encontrar a Luz — o querigma joanino é de que “Deus é Luz” —, e que a escuridão seja naturalmente encarada como ignorância e maldade, é igualmente verdade que há uma outra Escuridão, não a destruição da Luz, mas a transcendência da Luz, a Luz Inacessível e Invisível.

Como sabemos, o Mal é a privação do Bem, mas o Areopagita nos ensina que há outra privação do Bem, não abaixo do Bem, mas justamente acima dele, o Um acima de qualquer compreensão, tão supremo que não pode ser pensado ou dito. Não é a ausência, mas a plenitude infinita do Bem, que nos lança em outro tipo de ignorância — não a recusa da Verdade, mas a Verdade insuportável, inabarcável, insustentável, intolerável, incompreensível.

Por isso, a experiência da Escuridão e do Silêncio, na qual nós nos desapegamos de tudo o que é nosso, na qual abandonamos as criaturas, para atentarmos para o que está além da atenção, a experiência além de qualquer experiência, é o lugar de encontro com o Absoluto.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Duas maneiras de tratar a imaginação

A imaginação ou fantasia é a atividade de formação de representações no pensamento — seja de imagens “visuais”, seja também de sons, sensações, ideias, com todo o mundo afetivo em torno delas. A imaginação abre nosso pensamento para o possível, assim como para o real que transcende o corporal. Através da imaginação, podemos reorganizar nossas memórias e formar quimeras e monstros.

Ela é uma faculdade poderosa, mas não precisamos pensar muito para perceber como a imaginação pode ser muito perigosa. Afinal, imaginar envolve imaginar o mal, criar possibilidades destrutivas. O pecado é, em grande medida, sugerido pela imaginação. Nossa imaginação não se fixa naquilo que é mais racional e melhor, mas forma também possibilidades piores: ela planeja a vingança, arquiteta o crime, deleita-se previamente na crueldade, prepara a traição, fábrica a calúnia, cria o ídolo. Pensemos no quanto o pecado da curiosidade depende da imaginação. O mal que praticamos certamente emerge do nosso próprio coração (Mt 15:19). Vários textos nas Escrituras Sagradas falam de como a imaginação pode ser perversa.

Além dos pecados que praticamos intencionalmente, ao dar ouvidos às sugestões inferiores da imaginação, ela também coloca diante de nós várias prisões: ansiedades e medos se enraizam na imaginação. A imaginação não está sob o controle direto da vontade, então é possível racionalmente sugerir à imaginação alguma ideia — embora isso mesmo seja difícil quando estamos sob efeito de alguma emoção intensa —, mas é difícil simplesmente parar de imaginar alguma coisa. Não depende de um ato simples de vontade. Reordenar a nossa atenção dá trabalho.

Há duas possibilidades de enfrentamento do problema da imaginação, além de ignorá-lo. A primeira possibilidade é negar totalmente a imaginação, a iconoclastia do pensamento. Nessa possibilidade, o problema da imaginação é tratado como incurável, impossível de ser resolvido, então o que devemos fazer é fugir da imaginação tanto quanto pudermos.

Essa primeira possibilidade é irreal no objetivo e insatisfatória no processo. A imaginação não é uma coisa má, mas uma capacidade dada por Deus. Na verdade, a imaginação é fundamental para o amor e para a prática da virtude. Sem nossa capacidade de imaginar e de reconfigurar nossas experiências, somos incapazes de mostrar compaixão e empatia por pessoas diferentes de nós — pois essas coisas envolvem a capacidade de imaginar o sofrimento alheio. A ação moral não é possível sem a imaginação moral. Como vou chorar pelos que choram, sem sentir o que sentem?

Todas as nossas ações conscientes envolvem imaginação. Um missionário que sai de sua terra imagina a possibilidade de converter pessoas. Uma pessoa que inicia um trabalho social com pessoas pobres e estrangeiros imagina o bem que lhes pode ser feito. Essas pessoas imaginam fins possíveis e meios adequados para alcancá-los, assim como impedimentos previsíveis. Há sempre um “cálculo de futuro”, ou seja, imaginação.

Como escreveu Jonathan Edwards (Experiencing God), Deus nos deu a faculdade da imaginação e “nos fez de tal modo que não podemos pensar nas coisas espirituais e invisíveis sem algum exercício dessa faculdade”. Deus nos criou como seres imaginativos, e o processo de imaginação é parte da maneira como nós nos relacionamos com ele. Ele é impossível de ser imaginado, mas é impossível pensar nele sem imaginá-lo de alguma maneira, analogicamente. Isso envolve aquela realidade, ensinada pelo São Paulo, de que a natureza invisível de Deus é manifestada pelas coisas criadas (Rm 1:20). Como ensinou Calvino, Deus quer que nos demoremos nessa contemplação mediada pela criação visível.

O problema da imaginação é real, mas a solução de simplesmente suprimir a imaginação não funciona, ela vai contra o plano divino. Com o Grande Mandamento, aprendemos que Deus quer de nós, exige de nós, que o amemos com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento, com todas as forças — o que significa que não podemos simplesmente tentar suprimir uma dimensão da nossa vida interior, pois isso seria negar a Deus o que é seu. Assim como o desejo não é destruído e anulado, mas dirigido a Deus, também a cura da nossa imaginação está em se centrar nele. Nossa obediência a esse mandamento não se deve a uma necessidade de Deus, pois ele não ganha nada com nosso amor, mas a uma necessidade de nossa, à necessidade que temos de ser curados. Só no Infinito há a cura da nossa imaginação. Uma vez que os atributos divinos estão sempre acima e além de qualquer coisa que conheçamos com nossa memória, é a nossa imaginação que os torna (minimamente) inteligíveis.

Diante disso, a segunda possibilidade é disciplinar a imaginação, dirigir a imaginação na direção correta. Um coração transformado envolve um pensamento renovado (Rm 12:2). É um processo, de modo que Paulo exorta àqueles cristãos em Roma a se renovarem no pensamento. Na mesma carta, ele fala do conflito interior entre as cogitações da carne e as do espírito (Rm 7–8).

Quando lemos as Escrituras, parte do que acontece é que repovoamos o nosso imaginário com os melhores objetos. Quando lemos o primeiro relato da Criação (Gn 1), e imaginamos a ordem por trás das diversas etapas; ou quando pensamos nas Dez Pragas e na abertura do Mar, no Êxodo; ou na batalha entre Davi e Golias; ou nas imagens tremendas do Salmo 18; ou talvez nos verdes pastos e águas tranquilas do Salmo 23, parte do processo de entender as histórias envolve lê-las imsginativamente. Um dos maiores deleites ao ler os evangelhos canônicos está em imaginar aquilo que o Senhor disse e fez, particularmente na sua Paixão e Crucificação, que, segundo São Tomás, são a inspiração principal da nossa devoção. O mesmo se dá com os Atos dos Apóstolos, ou, de modo muito óbvio, com o Apocalipse de São João, um livro que só pode ser lido se usarmos bem a imaginação. As imagens apresentadas e sugeridas pela Sagrada Escritura devem ter um lugar dominante no nosso pensamento, tornando-nos capazes de imaginar o inimaginável, através de representações menores e abertas.

No caso do Apocalipse, em particular, há algo importante a dizer. Num texto anterior, eu me referi a um erro muito comum na leitura do livro, cometido especialmente por pessoas que iniciam no estudo da Teologia: a ideia de que o livro foi escrito em código para que os perseguidores romanos não entendessem que a mensagem dizia respeito a eles. Isso não faz nenhum sentido; se o Apocalipse tivesse sido escrito como um código assim, seria um código muito bobo, pois os romanos poderiam facilmente entendê-lo. Na verdade, a Meretiz assentada sobre a Basta não é um código para se referir a Roma. A verdade é o contrário: a Roma pagã é um código que se refere à Meretriz. Deus nos dá a imagem porque quer que vejamos Roma de certa maneira, quer que imaginemos Roma de certo modo. A Roma que os apóstolos viam com os olhos é um símbolo que se remete a uma realidade espiritual mais profunda e monstruosa. Usamos símbolos porque eles se reportam a realidades mais profundas que o uso comum das palavras. É por isso que a Escritura Sagrada é cheia de símbolos, e não apenas linguagem denotativa simples; ela fala de realidades muito profundas. A leitura alegórica das narrativas bíblicas, mesmo as não claramente alegóricas, depende disso.

Quando oramos, um dos nossos maiores inimigos é a imaginação, que se perde a transitar em vários mundos e foge da realidade invisível e inimaginável do Deus Inefável. Esse é um dos motivos pelos quais, seja na época dos apóstolos, seja séculos depois, a cultura religiosa cristã — herdeira do simbolismo judaico antigo —, desenvolveu através das artes elementos para fortalecer nossa devoção e atenção às coisas de Deus: teatro, música, pintura, arquitetura, liturgia, cerimônia, vestimenta e outras artes que atraem nossa atenção e espírito de reverência. O Rev. Jeremy Taylor escreveu, em seu livro Vida Santa:

Por esse propósito é bom transplantarmos os instrumentos da imaginação para a religião, e por essa razão a música foi trazida às igrejas, assim como ornamentos, e perfumes, e vestes dignas, e solenidades, e cerimônias decentes, para que a imaginação muito ativa e menos discenente, sendo atraída aos seus objetos próprios, possa ser instrumental para um amor mais celestial e espiritual.

Nesse jogo, a imaginação defeituosa é vencida pela inteligência; ela procura o corporal e, como por um anzol, é dirigida ao espiritual. Todos nós sabemos sobre o efeito quase irresistível que a música excerce sobre nossos afetos — Hooker fala de como certas formas de música “levam como a êxtases, enchendo a mente com alegria celestial e, por um tempo, de certo modo separando-a do corpo” —, e podemos ver algo disso nas mais diversas artes. Não usamos “melodias bíblicas” — de fato, nem sequer a ideia do que seja uma melodia é bíblica. Mas precisamos dessas artes não-bíblicas para obedecer à Palavra de Deus escrita. A arte musical nos auxilia na oração, tornando nosso coração mais dócil diante de Deus.

Assim, todo o coração deve ser convertido a Deus, cativo a Cristo, e isso inclui a imaginação. Soterrar a imaginação não é uma conversão completa. A conversão completa é ocupar a imaginação com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe” (Fp 4:8).

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não seria melhor dar tudo aos pobres?

Quando uma igreja é destruída ou depredada por qualquer motivo, de maneira acidental ou intencional, é comum se ver grande comoção e tristeza. Pensemos, por exemplo, no incêndio da Notre-Dame de Paris em 2019, ou na destruição da Igreja Martin Luther (luterana) em 2018, aqui no Brasil. Ou pensemos também naquelas igrejas destruídas por bombardeios, como a Igreja Memorial Kaiser Wilhelm (em Berlim) ou a St Dunstan (em Londres), ambas atacadas por bombardeios na Segunda Guerra, há muito tempo.

Nós nos entristecemos pela beleza perdida e pela comunidade que ali realizava seus serviços religiosos, quando é o caso. A arquitetura sagrada dessas construções nos remete a algo que nos toca profundamente como seres humanos, como pessoas integrais, mesmo quando (normalmente) não somos capazes de interpretar conceitualmente o sentido de cada coisa. É um senso de totalidade e profundidade, de que esses lugares não são casas apenas para abrigar nossos corpos, mas também nossas almas inquietas. Esse tipo de construção se coloca diante de nós como um mundo saturado de sentido e significado, enquanto fora reina a confusão. Não me refiro apenas às catedrais góticas mais famosas, mas mesmo as construções pré-românicas mais simples e brutas, aquelas igrejas visigóticas de pedras irregulares (tão humanas!), se colocam ao nosso redor como uma muralha a nos proteger e a dirigir nossa atenção, sob luz de velas, à única coisa essencial. Estes me falam muito mais, na verdade, inclusive sobre uma vida mais simples.

A destruição ou depredação de igrejas nos diz algo sobre nós mesmos, tanto sobre nosso poder de destruição irrestrito e insano, como também nossa incapacidade de cuidar com atenção e zelo das coisas que afetam nossa alma. O tratamento dispensado às pessoas e às coisas ao nosso redor diz muito sobre nossa própria vida interior, sobre nossas prioridades e nosso tédio (no sentido existencial da palavra). Isso é especialmente verdade quando perdemos o senso de sagrado. Na Antiguidade, como a própria Bíblia testemunha, o espaço sagrado era o lugar de refúgio, onde o sangue não poderia ser derramado em nenhuma hipótese, para onde as pessoas corriam a agarrar as pontas do altar. Foi assim que aprendemos que, no fundo, não devemos derramar o sangue de ninguém.

Nós nos surpreendemos quando ouvimos alguém dizer, diante dessas destruições, que essas coisas não têm importância. Mas não é uma surpresa completa. Não é segredo que muita gente se vê incapaz de reconhecer um valor na beleza artística. Mesmo quando ainda está “pedra sobre pedra”, uma pergunta (legítima) é repetida: não era melhor dar tudo aos pobres? Eu perdi as contas de quantas vezes vi pessoas dizerem coisas assim, geralmente de ateus, cristãos secularizados e evangélicos menos tradicionais. Não haveria uma maneira melhor de investir nosso tempo, recursos e atenção? Não parece um grande desperdício investir em igrejas de pedra belas, ou em conservar as que já existem, quando há outros problemas no mundo?

O que devemos nos perguntar é o que está em jogo: se é não ver real valor nesse tipo de arquitetura, ou se a questão é mesmo com respeito a dirigir os recursos para pessoas pobres (ou outro propósito nobre). Uma pessoa pode achar que esse tipo de construção não tem valor (ou bem pouco), e aí, obviamente, qualquer outro investimento será melhor — o que está em jogo não é exatamente a questão da pobreza (que seria apenas ums forma de atrair atenção para a questão). Outra pessoa pode pensar, no entanto, que tudo deve ser investido na “questão social”, que nenhuma outra forma de direcionar recursos seja válida, mesmo que esse tipo de arquitetura tenha valor. São duas formas diferentes de pensar.

Não é difícil perceber que o cuidado com as pessoas mais pobres é uma questão de muita importância para Cristo, para os apóstolos e para os primeiros cristãos, segundo o testemunho do Novo Testamento. A primeira comunidade de Jerusalém mostra, no relato lucano, uma preocupação muito aguda com a distribuição para os pobres e viúvas, e o apóstolo Paulo, em particular, confere a isso importância considerável, no seu ministério — coisa que ele mesmo conecta a uma orientação dos apóstolos mais antigos. Como no Antigo Testamento, o Novo retrata as obras de misericórdia como sacrifícios a Deus, atraindo o seu favor. Não custa relembrar que Cristo retrata o modo de tratar os famintos, sedentos e nus como determinante no Juízo Final (Mt 25). Isso está continuidade com a maneira como os profetas antigos tratavam as questões morais; de nada adiantava o culto vocal e ritual a Deus se o coração estava longe dele e se as mãos praticavam injustiça. Os jejuns e orações não eram atendidos por Javé. A Igreja morre espiritualmente quando fecha seu coração para esses problemas.

Por isso mesmo, no entanto, é que a questão social se torna facilmente uma boa desculpa para negarmos qualquer outra necessidade dentro da missão da Igreja. “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” (Jo 12:5) — essas são as palavras de Judas, que, no fundo, queria o dinheiro para si. Para Cristo, receber o perfume caro, em vez de doar o valor aos pobres, é uma forma perfeitamente válida e exemplar de honra. Ele não precisava daquele perfume. Mas ai de nós se pensarmos que, porque ele não precisa do que os damos, não devemos lhes dar mais nada. Na verdade, assim, nós nos tornamos pessoas piores.

Essas coisas não são inimigas. Podemos atentar tanto para a melhoria do culto a Deus quanto para as necessidades das pessoas mais vulneráveis. O esplendor da adoração a Deus e o socorro dos necessitados não estão em oposição. Cristo predisse a destruição do Templo de Salomão, mas os próprios discípulos continuaram adorando lá — o livro de Atos tem, em seu programa, o propósito livrar os cristãos da acusação de que eram inimigos do Templo.

A pergunta que cada um de nós deve se fazer é: por que eu não doei aos pobres tudo o que recebi? Essa não é uma pergunta retórica piegas, uma maneira de individualizar uma questões social real. Tente respondê-la. Embora possa ter doado algo, você talvez tenha destinado alguma quantia (excedente) para outras coisas que julgou corretas — talvez com livros e com arte, por exemplo, com coisas que vão te ajudar como pessoa. Porque você sabe que há outras necessidades.

É mais ou menos o motivo pelo qual a Igreja não investe apenas em projetos sociais, mas também em outras coisas — que, por sua vez, devem nos inspirar a servir outras pessoas. Os fatores não são independentes. Então, ao tentar enriquecer o mundo com beleza explicitamente cristã — e não apenas aquela atematicamente cristã já presente no mundo —, com uma contemplação inspiradora e pública, a arte cristã nos dá algo de que todos nós somos indigentes, quanto às necessidades e valores da alma. Não é privilégio de uma elite capaz de viajar ou até de construir para si. Os pobres têm direito a pão e têm direito a beleza.

O Antigo Testamento exemplifica muito bem o modo como Deus atenta para essas nossas necessidades, no detalhamento da construção do Tabernáculo e das vestes dos sacerdotes “para glória e ornamento” — os construtores precisavam mesmo do Espírito profético para realizarem sua obra. A dignidade do lugar e do culto deveria refletir a dignidade de Deus, a “beleza da santidade”, de modo que Deus fosse contemplado no Templo. Por isso, os israelitas tratavam com carinho a dimensão física do culto. “Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste.” (Sl 26:8); “porque os teus servos amam até as pedras de Sião e se condoem do seu pó.” (Sl 102:14).

Esses salmos não são exemplos de um amor doentio pelas coisas ou de um apego infantil pelas realidades corporais. Eles expressam amor a Deus e ao próximo. Amamos as coisas por amor a Deus, porque elas foram consagradas a ele, pertencem a ele, remetem a ele. Por isso, o embelezamento do Templo é visto como um sinal divino (cf. Ed 7:27; Is 60:13).

Essas pedras e símbolos têm um estranho poder acolhedor que nossas construções modernas “puramente funcionais” (ao menos da perspectiva ideológica) não alcançam. Elas clamam e proclamam aquilo que as palavras não conseguem exprimir. Assim como nossas roupas não apenas nos protegem do frio e do olhar, mas nos dignificam e nos colocam acima da condição animal e objetificada — e grande parte da caridade de vestir o nu está aí —, nossas igrejas são como vestes que mostram que há num valor maior do que a nossa própria mesquinhez. Tudo aponta para cima, para fora, para dentro, para baixo, de maneiras diferentes e necessárias.

Essas antigas igrejas, que nós hoje, por priorizarmos mais o dinheiro, não construiríamos, nos falam de uma época em que os homens valorizavam a Deus mais do que nós, a ponto de investirem em construções que só estariam realmente prontas décadas depois de suas mortes, como um testemunho da transcendência do Eterno, e também da eternidade de nosso próprio espírito. Eles não precisavam ver, mas apenas crer, e começar a preparar um mundo melhor para as próximas gerações.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Devoção, segundo São Tomás de Aquino

“Não adoramos a Deus por sacrifícios e dons exteriores em benefício dele, mas por nós e por nossos próximos, pois ele não precisa de nossos sacrifícios, mas deseja que eles lhe sejam oferecidos para promover nossa devoção e a utilidade do nossos próximos.” ST IIa-IIae q. 30 a. 4 ad 1

“Assim a devoção não parece ser nada além da vontade de prontamente se entregar às coisas pertinentes ao serviço a Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 1 co

“…a devoção pelos santos de Deus, mortos ou vivos, não termina neles, mas passa deles a Deus, enquanto naturalmente veneramos a Deus nos ministros de Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 2 ad 3

“Assim necessariamente ocorre que a meditação seja causa da devoção, enquanto naturalmente através da meditação o homem concebe que se entregue ao serviço divino.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 co

“E assim as coisas pertinentes à humanidade de Cristo, como nos conduzindo pela mão, excitam maximamente a devoção, ainda que a devoção consista principalmente das coisas concernentes à divindade.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 ad 2

“Ainda assim, há três razões para empregar a voz em tais orações. Primeiro, para excitar a devoção interior, para que a mente orante se eleve a Deus. Pois por sinais exteriores, seja por voz ou mesmo por outros atos, a mente é movida tanto na apreensão quanto também, consequentemente, na afeição… E assim só devemos usar a voz e tais símbolos na oração conforme excitem a mente inteiriormente. Se, na verdade, por essas coisas a mente for distraída ou de qualquer modo impedida, elas devem cessar.” ST IIa-IIae q. 83 a. 12 co

“…segundo diz o Damasceno, no Livro IV, como somos compostos de natureza dupla, a saber, intelectual e sensível, oferecemos a Deus uma adoração dupla, a saber, espiritual, consistindo na devoção interior da mente, e corporal, consistindo na humilhação exterior do corpo. E como, em todos os atos de adoração (latriae), aquilo que é exterior se refere àquilo que é interior como principal, segue-se que a adoração (adoratio) exterior seja em função da interior, de modo que, pelo sinal da humildade que exibimos corporalmente, seja excitado nosso afeto a se submeter a Deus, assim como nos é conatural que procedemos dos sensíveis aos inteligíveis.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 co

“…mesmo a adoração corporal é em espírito, enquanto ela procede da devoção espiritual e se ordena a ela.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 ad 1

“…um lugar determinado é escolhido para a adoração, não em razão de Deus, que é adorado, mas em razão dos próprios adoradores. E isso por uma razão tripla. Primeiro, em razão da consagração do lugar, pela qual os orantes concebem maior devoção espiritual, de modo que sejam mais ouvidos, segundo indica a Oração de Salomão (2Reis 8).” ST IIa-IIae q. 84 a. 3 ad 2

“…é um modo mais nobre de provocar os homens à devoção pelo ensino e pela pregação do que pelo canto.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 3

“…pelo canto que é empregado com entusiasmo para deleitar, a alma é distraída da atenção por aquilo que é cantado. Mas se alguém canta por devoção, considera atentamente o que diz, tanto porque permanece mais tempo no canto, como porque, como diz Agostinho (Confissões X), ‘todos os afetos do nosso espírito, por sua diversidade, têm modos próprios na voz e no canto, que são excitados por sua oculta familiaridade’. E o mesmo se dá com os ouvintes, que, mesmo quando não entendem o que é cantando, entendem por que é cantado — a saber, em louvor a Deus —, e isso é suficiente para excitar a devoção.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 5

“… devoção, que é o principal ato de religião.” ST IIa-IIae q. 104 a. 3 ad 1

“…aquelas coisas instituídas pelos homens feitas nos sacrementos não são necessárias aos sacrementos, mas são feitas para a sua solenidade, que é acrescentada aos sacramentos para excitar a devoção e reverência naqueles que recebem os sacrementos.” ST IIIa q. 64 a. 2 ad 1

“…que nos batizados se manifeste maior ou menor graça, pode ter duas razões. Por um lado, um recebe no Batismo maior graça do que outro em razão da maior devoção, conforme já dito.” ST IIIa q. 69 a. 8 ad 2

“…aqueles que carecem do uso da razão podem ter devoção pelo Sacramento [da Eucaristia], seja em alguns casos a devoção presente, seja em outros a devoção pretérita.” ST IIIa q. 80 a. 9 ad 1

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deus, O Rei da Montanha: uma teologia da adoração

“Vi o Senhor, que estava em pé sobre o altar…” Amós 9:1

“Moisés, tendo descido do monte ao povo, consagrou o povo; e lavaram as suas vestes. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo…” Êxodo 19:14,18

A entrada em uma igreja normalmente é uma experiência de elevação. É comum que haja ao menos quatro planos paralelos, quatro níveis numa subida contínua. O primeiro nível é o nível exterior, o nível do mundo, com suas regularidades e irregularidades, o palco dos homens, do trabalho, do mercado, da guerra.

Ao entrarmos, subimos ao nível comum dos cristãos, numa diferença de, ao menos, um degrau em relação ao exterior. Esse é o nível do santuário. Nós nos deparamos com um nível diferente à frente, o presbitério, o espaço dos “anciãos”, do clero. Esses três livres são os níveis das pessoas humanas.

Quando Cristo subiu para pregar o seu famoso Sermão da Montanha, ele não se colocou numa posição acusticamente ótima. As pessoas daquela época sabiam que o anfiteatro, como o de Epidauro (fechado por Teodósio II) — ou seja, ou buraco, não uma montanha —, permitia que a voz fosse melhor ouvida. Ele não subiu principalmente para ser bem ouvido por todos, mas para ser visto e contemplado por todos, colocando-se como o novo Moisés que trazia a revelação da Lei desde os céus. Mesmo em igrejas com estrutura de um anfiteatro, como a famosa “igreja da caverna” do Mosteiro de São Simão, no Cairo, ainda haverá uma elevação central, um pequeno monte que se ergue.

Há, contudo, um quarto plano, que costumamos esquecer porque não é um lugar em que possamos colocar os nossos pés. Esse nível é a mesa-altar, o nível em que Deus pisa, de tal maneira que os nossos olhos se voltem para os seus pés. A mesa é o estrado dos pés de Deus (“…adoremos ante o estrado dos seus pés.”).

Essa estrutura geométrica, que envolve a subida em níveis cada vez mais delimitados, é a forma aperfeiçoada de uma montanha, a transposição arquitetônica velada da geografia sagrada. É a contínua conversão da multiplicidade da terra na unidade dos céus. Quando entramos numa igreja, subimos uma montanha. Deus é o rei dessa montanha.

Na profecia de Daniel 2, lemos que a estátua constituída dos reis e reinos deste mundo é destruída por uma pedra que cresce e se torna uma montanha, e que se expande para o mundo inteiro. Essa profecia do reino da montanha não é a única ocorrência de uma montanha nos oráculos divinos, muito pelo contrário. Os montes são vistos como fonte simbólica de bênção e prosperidade (cf. Sl 72:3; Is 30:25; Jl 3:18; Am 9:13), como no Salmo 121. Na profecia que igualmente aparece em Isaías 2:2–4 e Miqueias 4:1-3, os povos da terra são vistos subindo ao elevado monte do Senhor para adorá-lo no lugar de onde procede a sua lei para o mundo inteiro. A montanha que invade o mundo inteiro é o lugar da adoração das nações.

No Antigo Testamento, o monte de Sião foi o centro de adoração da nação israelita por bastante tempo, o lugar onde Deus estava, em seu Templo, e de onde procedia sua benção para o mundo (“O Senhor te abençoe desde Sião”). A subida ao Monte Santo e à Cidade Santa era uma peregrinação espiritual, que exigia purificação das mãos e do coração, como se canta nos Salmos 15 e 24. O povo israelita ia a Jerusalém levando os frutos do seu trabalho e retornava tendo a bênção, a justiça e o favor do Senhor.

Assim, não apenas as profecias veem o cumprimento messiânico de um dos propósitos do Templo na Oração de Dedicação de Salomão, quando as nações do mundo se converter ao Senhor e vão ao Monte Santo para cultuá-lo, mas o próprio Monte se expandiria para o mundo inteiro. A montanha vai, definitivamente, até Maomé.

Momentos marcantes da vida de Cristo se deram em montanhas e regiões montanhosas, como a visitação a Isabel no ventre de Maria (revelação da divindade), o Sermão, várias orações, a Transfiguração no Tabor, a Agonia no Monte das Oliveiras (revelação da tristeza), a Crucificação no Gólgota e a Ascensão. Assim como os discípulos viram Cristo subir, João vê, sobre uma montanha, descer dos céus a Nova Jerusalém. Isso não apenas é uma repetição dos padrões, onipresentes do AT, de culto a Javé e (por rebeldia) a outros deuses em montes — maximamente gravado em nossa consciência simbólica pela Aqedah, o oferecimento de Isaque no Monte Moriá — mas um sinal profético de que nele se cumpriam todos aqueles antigos propósitos.

Exaltando a Nova Aliança diante da Antiga, o texto de Hb 12:18–24 ensina que os cristãos chegaram ao Monte Sião espiritual, à Jerusalém Celestial, à qual mesmo os antigos santos hebreus não tiveram acesso. Os cristãos entraram em uma “assembleia festiva” (panēgyris), o Culto da Montanha, o Culto do Éden.

Quando nós nos reunimos em adoração, entramos espiritualmente no Monte do Senhor. O domingo, o dia em que repousando de nossas preocupações comuns (shabat), é o pico do monte, onde a elevação nós separa das coisas comuns, que a agora nos parecem pequenas, e nos dirige às extraordinárias. Por isso, é um lugar de visão, de revelação, exigindo nossa consagração pessoal. Embora o monte possa ter muitos caminhos, há um pico no qual nós nos reunimos em unidade.

A subida da montanha é difícil, arriscada, dolorosa, exige disciplina, exercícios — razão porque o Purgatório de Dante é uma montanha. E por que tudo isso, se nós não somos capazes de chegar no céu? Porque tanto esforço, se Deus ainda está infinitamente acima de nós? No entanto, ele promete que o encontrarão os que o buscarem de todo o coração. Não precisamos focar o céu. Precisamos apenas subir a montanha. Ele prometeu descer sobre nós, sobre o cume do monte. Ele nos indicou o lugar onde o milagre da graça acontecerá.

Chegar ao domingo é chegar ao cume da montanha, carregando conosco toda a semana que passou, para adorarmos a Deus. Sair do domingo é descer a montanha, levando a benção do Senhor para a nossa vida no mundo.

Rev. Gyordano M. Brasilino