Sem amor, a fé não salva. Todos concordam.

Porque, em Cristo Jesus,
nem a circuncisão,
nem a incircuncisão
têm valor algum,
mas a fé que atua pelo amor.

Gálatas 5:6

Esse é, decididamente, um dos meus textos favoritos de toda a Bíblia. É surpreendente notar, no entanto, o quanto esse versículo foi usado pelos cristãos das mais diversas tradições para esclarecer o significado da fé salvadora. Historicamente, esse texto foi usando para explicar também a distinção entre fé morta e fé viva em Tiago 2: a fé viva seria precisamente “a fé que atua pelo amor” (portanto uma fé que tem obras e amor); a fé morta seria a fé sem obras, demoníaca, marcada pelo mero temor (servil). Essa associação entre Gálatas 5 e Tiago 2 é o que eu chamo de “solução agostiniana” para a tensão textual entre Paulo e Tiago. É muito difícil encontrar alguma solução que não passe por ela em algum momento.

Enquanto falamos de fé ou de obras na salvação, parece que falamos de coisas diferentes; quando, no entanto, usamos essas palavras de Paulo para explicar com maior precisão o papel da fé na salvação, todos nós, partindo de perspectivas diferentes, caminhamos na direção de um mesmo equilíbrio. É parte do “mínimo ecumênico” da nossa soteriologia: a crença de que a fé justificante, a fé viva, é fé que opera pelo amor. Só vive pela fé quem vive pela fé viva.

Alguns exemplos (com ênfases diferentes):

“Depois de concluir que a fé está em nosso poder, visto que, quando alguém quer, vem a crer e, quando crê, crê por sua vontade, é mister investigar, ou melhor, recordar a que fé o Apóstolo se refere com tanta combatividade. (…) Esta é a fé pela qual se salvam aqueles a quem diz: ‘Pela graça sois salvos’ (…) Finalmente, esta é a fé que age pela caridade, não por temor, não temendo o castigo, mas amando a justiça.”
Santo Agostinho, O Espírito e a Letra, XXXII, 55, 57

“Assim ele diz ‘Pois em Cristo Jesus‘, isto é, naqueles que vivem na fé em Cristo, ‘nem a circuncisão nem a incircuncisão servem de nada‘, isto é, não fazem diferença, ‘mas a fé‘, não informe, mas o tipo ‘que opera pela caridade‘: ‘a fé sem obras é morta‘. Pois a fé é um conhecimento da palavra de Deus — ‘Que Cristo habite em vossos corações pela fé‘ — palavra que não é perfeitamente possuída ou perfeitamente conhecida a menos que seja possuído o amor pelo qual ela espera.”
São Tomás de Aquino, Comentário a Gálatas 5:6

“A fé deve, é claro, ser sincera. Deve ser uma fé que realiza boas obras através do amor. Se à fé falta o amor, ela não é fé verdadeira. (…) A fé ociosa não é fé justificante.”
Lutero, Comentário a Gálatas 5:6

“Portanto a fé que verdadeiramente justifica é aquela fé que opera através do amor.”
Colóquio de Ratisbona (Martin Bucer), Art V

“Porque a fé nem une perfeitamente com Cristo, nem faz membro vivo de seu corpo, se não se lhe ajuntarem a esperança e a caridade. Daí a razão de se dizer com toda a verdade: a fé, sem obras, é morta (Tgo 2, 17 ss) e ociosa [cân. 19]; e em Jesus Cristo nem a circuncisão nem o prepúcio valem coisa alguma, mas a fé que obra pela caridade (Gal 5, 6; 6, 15).”
Concílio de Trento, Sexta Sessão

“Essa fé morta portanto não é a fé certa e substancial que salva os pecadores. Há outra fé nas Escrituras, que não é (como a referida fé) ociosa, infrutífera e morta, mas que opera pela caridade (como São Paulo declara, Gálatas 5:6). De modo que, assim como a outra fé vã é chamada fé morta, assim também esta é chamada fé viva e vivaz.”
Primeiro Livro de Homilias (Igreja Anglicana), Homilia IV (Da fé verdadeira e viva)

“De modo que, embora a fé conduza o caminho da nossa justificação, ainda assim a santidade de vida manifestada nas obras de caridade, assim como todos os outros atos da vida piedosa, devem abrir para nós as portas do céu e conseguir para nós a entrada na mesma, como é evidente em São Mateus 25:34-41.”
Rev. Peter Heylyn, The Doctrine and Discipline of the English Church

“A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e na justiça dele, é o único instrumento de justificação; ela, contudo não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as outras graças salvadoras; não é uma fé morta, mas obra por amor.”
Confissão de Fé de Westminster (Igreja Presbiteriana), Cap XI, §II
[Seguida ipsis litteris pela Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 e pela Declaração de Savoy (congregacional)]

“O amor não é ingrediente numa fé meramente especulativa, mas é a vida e a alma da fé prática. Uma fé verdadeiramente prática ou salvadora é luz e calor juntos, ou antes luz e amor, enquanto que uma fé especulativa é somente luz sem calor; e, como lhe falta calor espiritual ou amor divino, ela é em vão, e para nada serve. Uma fé especulativa consiste somente na ascensão do entendimento; mas numa fé salvadora há também o consentimento do coração; e a fé que é apenas do primeiro tipo não é melhor que a fé dos demônios, pois eles têm uma fé apenas no tanto em que ela pode existir sem amor, crendo e tremendo.”
Jonathan Edwards, Love, the Sum of All Virtue

“Na fé justificadora o ser humano confia na promessa graciosa de Deus; nessa fé estão compreendidos a esperança em Deus e o amor a Ele. Essa fé atua pelo amor; por isso o cristão não pode e não deve ficar sem obras.”
Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, 4.3.25

“A fé, portanto, não inclui apenas um assentimento à verdade do Evangelho, mas envolve também um compromisso de nossa vontade para com Deus em arrependimento e obediência ao seu chamado; do contrário, a fé é morta (Tg 2:17). A fé viva é inseparável do amor, produz boas obras e aprofunda-se ao longo de uma vida de santidade. (…) Assim como justificação e santificação são dois aspectos do mesmo ato divino, assim também a fé viva e o amor são inseparáveis no crente. A fé não é uma disposição meramente privada e interior, mas por sua própria natureza ela é exteriorizada em ação: boas obras necessariamente brotam de uma fé viva (Tg 2:17ss).”
ARCIC II (Segunda Comissão Internacional Anglicana – Católico-Romana), Salvation and the Church, 10 e 19

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não há salvação sem amor

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No texto anterior deste blog, eu escrevi sobre uma forma simples de conciliar as doutrinas da justificação pela fé e do juízo final segundo as obras, a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas: “fé” e “obras”, nos salvos, sinalizam uma mesma realidade, o amor divino que se entrega gratuitamente a nós e que habita em nós pelo Espírito Santo, de maneira que a fé justificante é uma fé que opera em amor, e as obras julgadas como dignas da vida eterna são também aquelas feitas em amor. Continue lendo “Não há salvação sem amor”

Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras

Autun, Kath. Saint Lazare, Tympanon - Autun, Cath. Saint Lazare, tympanum -

“Igualmente, acerca da justificação, ensinamos que, falando propriamente, ela significa o perdão dos pecados e nossa aceitação ou reconciliação para a graça e favor de Deus, isto é, a verdadeira renovação em Cristo, e que os pecadores não podem obter essa justificação sem arrependimento e o movimento correto e próprio do coração para Deus e o próximo, que é obra do Espírito Santo.” — Abp. Thomas Cranmer, Treze Artigos de 1538 Continue lendo “Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras”

O Deus misericordioso do Antigo Testamento

Oséias de Rafael

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Mateus 23:23

O uso do Antigo Testamento pela Igreja é uma das mais profundas e importantes interrogações da teologia cristã. Nas décadas anteriores à escrita dos livros do Novo Testamento, os Oráculos Sagrados dos hebreus foram a primeira Bíblia dos cristãos, como foi a Bíblia de Jesus e dos primeiros discípulos. Mortas as últimas testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, em pouco tempo vemos já as celebrações cristãs iniciadas pela leitura das memórias dos apóstolos e dos escritos dos profetas, como nos conta o mártir Justino. Nisso se expressava a fé da Igreja não apenas na continuidade da revelação de Deus entre judeus e cristãos, mas também na continuidade do Deus da revelação, que jamais muda e não mudou entre as duas eras. Continue lendo “O Deus misericordioso do Antigo Testamento”

Teologia do Amor em Agostinho

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“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

A teologia do amor de Agostinho é como que o crescimento das preciosas sementes das Sagradas Escrituras, que nos ensinam que do amor dependem todos os mandamentos, que todas as coisas devem ser feitas com amor, sem o qual nada tem valor, que quem ama cumpriu a lei, que não pode dizer que ama a Deus quem não ama ao irmão, que Deus permanece naqueles que permanecem em seu amor, que o amor procede de Deus e é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo e, sobretudo, que Deus é amor. Por um lado, o amor é a máxima exigência e, por outro, o maior dom. Continue lendo “Teologia do Amor em Agostinho”

Até Deus faz votos de casamento

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“Eu, N., recebo-te, N., por minha esposa, de hoje em diante: para o melhor e o pior, na riqueza e na pobreza, na doença e na saúde, para amar-te e honrar-te, até que a morte nos separe, segundo a santa lei de Deus. Este é o meu voto solene.” (LOCb, Rito de Matrimônio II)

Eu considero os votos a parte mais bonita de uma celebração de casamento. Ainda que haja símbolos muito bonitos nas diversas tradições de ritos matrimoniais, como a troca de alianças, as coroas, as bênçãos e orações, os votos de casamento são a razão por trás de toda a celebração, de certa maneira. Eles expressam o compromisso perene que um casal assume de viver o casamento como Deus o quis, em amor e fidelidade. Continue lendo “Até Deus faz votos de casamento”

São Paulo, o eclesiólogo

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“Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio.” (Atos 20:37,38)

Desde a Reforma Protestante, o apóstolo Paulo de Tarso é lembrado como defensor do “evangelho da graça de Deus” (At. 20:24) e como grande missionário, um dos responsáveis pela pregação do Evangelho e fundação de comunidades cristãs na Europa. O impacto de Paulo na formação do cristianismo e na sua teologia é incalculável. Continue lendo “São Paulo, o eclesiólogo”

Sem Eternidade, sem Amor

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“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus,
e Deus, nele.” (I João. 4:16b)

Deus é amor. Sem Deus, sem amor. Sem amor, sem Deus. Uma ética do amor não é possível sem Deus, isto é, sem o Deus de Jesus de Nazaré, o Deus que é amor sacrificial. Sem Ele, não há qualquer motivo pelo qual o amor deva ser o princípio fundamental e triunfante no universo. Continue lendo “Sem Eternidade, sem Amor”

O Matrimônio é um dom

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“Gostaria que todos os homens fossem como eu;
mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus;
um de um modo, outro de outro.”
(1 Coríntios 7:7)

Freqüentemente se olha para 1 Coríntios 7 na perspectiva do celibato “por causa do reino dos céus” (Mt. 19:12). É mais incomum que se deixe de observar as conseqüências fascinantes da declaração paulina de que o casamento também é um dom da parte de Deus. Ao contrário do que ocorre na ordem civil moderna, o matrimônio cristão não é um direito, mas algo recebido gratuitamente. Afinal, ninguém pode exigir coisa alguma de Deus. É uma vocação. Continue lendo “O Matrimônio é um dom”

Amor Impassível

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“Confiai no Senhor perpetuamente;
porque o Senhor Deus é uma rocha eterna.”
(Isaías 26:4)

Deus não muda. Por toda eternidade, desde sempre e para sempre, Deus é o mesmo. Nada há que o possa mover em qualquer direção. Não obstante, quando olhamos para o Gólgota, não vemos essa impassibilidade; vemos o Deus Crucificado que, entre o sangue e o vinagre, sofre injustamente nas mãos dos que o laceravam. Seria isso mesmo possível? Continue lendo “Amor Impassível”