Ainda sobre ansiedade…

Fico impressionado com quanta gente aprendeu por aí que ansiedade é pecado. Até meses atrás, eu sequer imaginava que alguém pensasse assim, acho que nunca ouvi coisa do tipo em nenhuma igreja. Ao que parece, esse tipo de pensamento é incentivado pelo pessoal do “aconselhamento bíblico”.

Isso é resultado de uma prática pastoral irresponsável, de uma hermenêutica superficial, de uma atitude humana incompassiva para com o sofrimento psíquico.

Às vezes, essa abordagem da ansiedade como pecado presta um auxílio relativo a essas pessoas, o incômodo faz com que elas se movam. Tentam enfrentar o problema “sem muletas” e às vezes conseguem, na macheza. Mas, nos casos que eu conheço, ocorre o contrário: achar que a ansiedade é pecado piora ainda mais o problema, já que acrescenta uma preocupação.

Eu não enfrento um problema muito grave com ansiedade. Na maior parte do tempo, eu tenho certa facilidade em perceber a voz da ansiedade e dizer a ela que confiarei em Deus. Para mim, isso normalmente não envolve nenhum esforço heróico, não exige a virtude da fortaleza. Mas, na prática pastoral, convivo com pessoas que não têm a mesma facilidade, se desgastam muito mais para tomarem uma decisão simples. A ansiedade lhes absorve a atenção. Sentem-se oprimidas pela retribuição do passado e pala incerteza do futuro.

A Escritura Sagrada diz, em vários lugares, que não devemos estar ansiosos:

“…não andeis ansiosos pela vossa vida…” Mt 6:25
“Não andeis ansiosos de coisa alguma…” Fp 4:6
“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade…” 1Pe 5:7

Mas o que esses textos realmente dizem? O erro mais óbvio é tratar essas coisas como mandamentos, de maneira que quebrá-los seja pecado. Não são mandamentos, mas exortações, encorajamentos. É como quando a Bíblia diz “Não temas”, “Não chores” e coisas semelhantes. São imperativos exortativos. São palavras de compaixão que procuram inspirar, não condenar, na mesma lógica de Pv 12:25: “A ansiedade no coração deixa o homem abatido, mas uma boa palavra o alegra.” Só uma hermenêutica chapada pode tratar tudo que há na Bíblia como sendo o mesmo gênero de fala.

A Bíblia não trata como pecado a ansiedade, mas o “andar ansioso”. Que atitude é condenada no contexto de Mt 6, por exemplo? Não a de quem tem o sofrimento da ansiedade, mas sim a de quem sai em busca de riquezas, acumulando tesouros para ancorar neles a sua segurança, em vez de (como nos outros textos) procurar segurança no Senhor. Esse é o “andar ansioso” condenado pela Bíblia. Essa é a pouca fé.

A ansiedade de Maria e José por Jesus (Lc 2:48) e a de Paulo pelas igrejas (2Co 11:28) não são pecaminosas, mas antes obrigatórias, porque são resultado de certas responsabilidades pessoais.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ansiedade é pecado?

As pessoas perguntam se a ansiedade é pecado. Existe muita confusão nesse assunto.

É falso o raciocínio do tipo “quem tem fé não tem ansiedade ”. Isso presume um vislumbre muito simplista da natureza humana, e não tem nada a ver com a Bíblia. A maneira como a Bíblia ensina a lidar com a ansiedade — por exemplo, através da oração — prova que não basta ter fé. Ansiedade não é só falta de confiança em Deus.

Na verdade, a ansiedade e a fé se alojam em dimensões diferentes da natureza humana. A ansiedade ocupa a carne (finitude, corporeidade, fragilidade, mortalidade, animalidade, instinto), a fé ocupa o espírito; não há contradição na coexistência delas.

Podemos falar, de um ponto de vista teológico filosófico, de três formas de ansiedade: a ansiedade como impulso, ansiedade como hábito, ansiedade como transtorno. Nem o impulso nem o transtorno são pecados, mas somente o hábito, resultante de um consentimento com o impulso.

Na verdade, o impulso da ansiedade, embora possa adoecer, é necessário para nossa sobrevivência, porque ele é o instinto de que nós não contornamos o futuro — o que é total verdade. Essa informação precisa ser completada pelo espírito, pois só ele sabe que, embora não controlemos o futuro, Deus controla.

Rev. Gyordano M. Brasilino