Imortalidade da Alma

Existem vários lugares na Bíblia em que se pode falar de uma continuidade da consciência após a morte, que tratem da morte como uma partida (peregrinação), mas creio que o melhor texto para apresentar uma noção de imortalidade da alma seja II Coríntios 4:16–5:8. É uma tragédia que tenham colocado a divisão de capítulos bem aí, no meio do assunto.

Esse trecho nos apresenta:
• A distinção entre o exterior corruptível e o interior incorruptível (4:16).
• A distinção entre o passageiro e o eterno (4:17).
• A distinção entre o visível temporal e o invisível eterno (4:18).
• Habitação celestial após a morte (5:1-2).
• “enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor” (5:6)
• “deixar o corpo e habitar com o Senhor” (5:8).

A correspondência leva à conclusão: o homem interior é incorruptível, invisível e eterno. Esse texto transmite a mesma noção de Fp 1:20–24, mas aponta mais claramente para o interior eterno.

Sim, o texto toca na ressurreição corporal, mas não fala só disso. Se lemos essas coisas levando em conta o ambiente cultural grego (dos leitores originais) e as várias concepções de vida após a morte no judaísmo na Antiguidade, não tem outra possibilidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sobre a Comunhão dos Santos

Há alguns meses, terminamos aqui em casa de assistir a série Shtisel, sobre uma família judaica em Jerusalém. A série explora as várias maneiras pelas quais nossa vida é determinada por pessoas que já morreram: pela tradição, pelo luto, pela memória (inclusive a pintura), pelo ensinamento, pela intercessão, pelo parentesco (entre os que ficam), pela herança e por tantas outras maneiras.

Como alguém havia comentado, o último episódio dá um vislumbre do que os cristãos chamam de Comunhão dos Santos — é uma analogia, mas, com o temor que tem quem fala do que não é seu, digo que é uma analogia muito próxima. Os personagens Akiva, Shulem e Nukhem se sentam à mesa para conversar — em ídiche, não em hebraico — e logo se veem cercados, de algum modo, pelos que os antecederam. Essa visão é antecedida por poema de Isaac Bashevis Singer (1903–1991) que diz:

“Os mortos não vão a lugar nenhum. Eles estão todos aqui. Cada homem é um cemitério. Um cemitério real, no qual estão nossas avós e nossos avôs. O pai e a mãe, a esposa, o filho. Todos estão aqui o tempo todo.”

A Comunhão dos Santos é o coroamento da convicção mística do cristianismo. Essa convicção mística tem dois princípios antropológicos.

O primeiro deles é de que nossa humanidade é aberta à presença divina, de modo que nossa jornada humana consiste em encontrar Deus como nossa completude, a dilatação do finito ao infinito. Essa jornada não é, por isso, limitada pela morte. Então encontrar a Deus é se tornar um poder atuante no mundo, é se tornar parte da estrutura que ordena o universo — aqui e além.

O segundo deles é que nossa existência pessoal não é isolada. Assim como somos incompletos e abertos para cima, somos também incompletos e abertos para os lados. Nossa existência pessoal não está apenas no nosso centro de consciência, mas transborda para as pessoas que estão nosso redor. Não existimos como criaturas isoladas. Por isso, embora morramos, nunca deixamos esta vida.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Espírito e espírito

As traduções bíblicas não são neutras! Você sempre recebe a doutrina do tradutor junto.

Uma questão que é discutida há bastante tempo pelos tradutores da Bíblia e exegetas, mas que é praticamente desconhecida da maioria dos leitores, é o modo como traduzimos “espírito” ou “Espírito” no Novo Testamento e particularmente nas cartas de São Paulo.

Eu colocaria o problema da seguinte maneira: o texto bíblico grego não nos dá, em todos os casos, razões gramaticais suficientes para distinguir entre “espírito” (um espírito humano ou qualidade sua) e “Espírito” (o Espírito Divino). Ademais, a maneira como vertemos o texto normalmente é guiada por preocupações dogmáticas que não estavam em relevo na época, quanto à Santíssima Trindade.

Um trecho particularmente significativo é Romanos 8, onde encontramos, lado a lado, momentos que não podem ser vertidos como “espírito” (humano) e outros que não podem ser vertidos como “Espírito” (divino), e vários, entre eles, que podem ser vertidos das duas maneiras, mudando a maneira como lemos o capítulo. Paulo não parecia particularmente preocupado em deixar clara a diferença, inclusive porque ele não presumia nossas discussões sobre natureza e graça.

Um exemplo significativo de texto gramaticalmente ambíguo (vv. 5–6):

☩ “Porque os que são conforme a carne cogitam (phronousin) das coisas da carne; mas os que são conforme o espírito, cogitam das coisas do espírito. Porque a cogitação (phronēma) da carne é morte, mas a do espírito é vida e paz.

Se vertermos como “o Espírito”, a dicotomia do texto é entre o humano e o divino, mas, se vertermos como “espírito”, a dicotomia é entre duas dimensões da própria pessoa humana. Exatamente o mesmo aparece em Gl 5:17, texto que apresenta esse conflito entre carne e E/espírito.

Assim, se escolhemos “Espírito”, temos uma leitura mais agostiniana; se escolhemos “espírito”, uma leitura mais platônica — e curiosamente mais judaica também. Na segunda leitura, o Espírito Divino vem (no contexto) para solucionar uma cisão entre duas partes da natureza humana. Um dos motivos pelos quais essa leitura é particularmente interessante é o modo como ela se mostra como perfeita continuidade para a cisão que aparece no capítulo anterior (vv. 21–23):

☩ “Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino

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“Alguns novos teólogos negam o pegado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada. Alguns dos seguidores do Reverendo R. J. Campbell, em sua espiritualidade quase exagerada, admitem a impecabilidade divina, que eles não são capazes de ver nem em seus sonhos. Mas eles essencialmente negam o pecado humano, que eles podem ver na rua.” (G. K. Chesterton)

A noção de Pecado Original é uma das doutrinas mais polêmicas na história da Igreja, especialmente quando foi primeiramente formulada por Agostinho de Hipona (354–430), mas também no princípio da Reforma Protestante — com formulações radicais pela maioria dos reformadores e, do lado Romano, o estabelecimento de um dogma “completo” do Pecado Original no Concílio de Trento (mas recuperando o Concílio de Orange de 529) —, assim como na teologia racionalista entre os séculos XIX e XX, que assumia uma opinião bastante otimista sobre a natureza humana. Continue lendo “Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino”