Respostas simples sobre Regeneração Batismal

Baptism of Pocahontas | Architect of the Capitol
  1. O que é Regeneração Batismal?

É a doutrina segundo a qual o propósito e a finalidade principais do sacramento do Batismo consistem em conceder aos batizados a graça da regeneração. Essa graça é a união dos homens com Cristo, e, consequentemente, a remissão dos seus pecados e a restauração da imagem de Deus neles, lhes permitindo participar da vida divina. Secundariamente, a regeneração batismal implica a necessidade ordinária do batismo para a salvação. Essa necessidade existe não como um “requisito” para a salvação, mas em razão daquilo que o Batismo realiza.

Dito de outro modo, existe um vínculo entre o sinal exterior e visível (água, usando a fórmula trinitária) e a graça interior e espiritual, de modo que, quando o sinal visível é validamente usado, a graça interior é concedida. O sacramento do Batismo é sinal eficaz da graça da regeneração. A Regeneração Batismal é o vínculo entre o sinal exterior e visível e a graça interior e espiritual. Paulo dá certeza desse vínculo ao escrever: “se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6:5).

  1. A Regeneração Batismal é uma doutrina bíblica?

Sim, a Regeneração batismal é uma doutrina inteiramente bíblica. Na realidade, a Bíblia não ensina, acerca do propósito do Batismo, nada além da Regeneração batismal. Se a Regeneração batismal fosse falsa, a Bíblia não teria nada a dizer sobre o propósito do Batismo, e aí teríamos que inventar várias coisas sobre o propósito do Batismo, como o fazem aqueles que, sem qualquer fundamento nas Escrituras, dizem que o propósito do Batismo é afirmar a fé ou conversão publicamente. Todos os textos bíblicos que ensinam algo sobre o propósito do Batismo ensinam que o Batismo salva, isto é, que o Batismo “provoca” algumas dimensões necessárias da salvação. Alguns textos bíblicos que exemplificam a Regeneração Batismal são Jo 3:5; At 2:38; 22:16; Rm 6:3-7; 1Co 12:13; Gl 3:26-27; Cl 2:11-13; 1Pe 3:21, dentre outros. Esses textos dependem de se entender que há um só Batismo (Ef 4:5).

  1. A Regeneração batismal contradiz a salvação pela graça e por meio da Fé?

Não. O Batismo é meio de graça. Isso significa que esse sacramento é o momento/lugar em que a graça é recebida. Ele funciona como um canal da graça, de modo que a nossa fé recebe através do sacramento a salvação. Portanto o batismo não é inimigo da Graça. Ele é graça.

Geralmente as pessoas têm dificuldade com essa noção quando presumem que o Batismo é uma obra que nós realizamos. Mas o batismo não é uma obra que o batizado realiza. É uma obra que Deus realiza através do sacramento. A água, por si mesma, não tem qualquer eficácia para salvar. Deus realiza a obra salvífica pelo poder do Espírito Santo agindo através do sacramento, em razão de uma promessa. As águas do rio Jordão não tinham poder para curar; mas, quando Naamã tomou sete banhos nela, foi curado de sua lepra, por conta de uma promessa divina.

Analogamente, podemos dizer que recebemos muitas bênçãos de Deus quando oramos com fé. A fé e oração não são inimigas. A oração é o momento em que a fé se coloca diante de Deus, para ser abençoada. Com o sacramento do batismo acontece coisa semelhante, com a diferença, já indicada acima, de que o batismo não é coisa que o batizado realiza (enquanto a oração o é). Quando, por exemplo, pedimos o perdão dos nossos pecados com fé, através da oração, somos perdoados e esse perdão se dá através de uma obra que realizamos (a oração) e essa obra é a oração. Seria tolice pensar que a oração, nesse momento, de alguma maneira elimina a graça ou a fé. Assim também, é tolice pensar que o sacramento do batismo elimina a graça e a fé. A oração é um meio. O sacramento é um meio.

Não custa lembrar que o grande campeão da justificação pela fé, o reformador alemão Martinho Lutero, era ao mesmo tempo grande defensor da justificação pela graça por meio da fé e do batismo regenerativo (locus iustificationis).

  1. A Regeneração Batismal torna a salvação mérito humano?

Não. Dá-se justamente o contrário. O Batismo nos mostra que a salvação é recebida — ninguém batiza a si mesmo. Isso se torna muito claro quando entendemos o batismo de crianças, que não têm nem poder ter nenhum mérito ou escolha quanto ao seu Batismo. Simplesmente recebem.

Igualmente, mesmo quando somos batizados por um ministro sumamente ímpio, mesmo que, em seu coração, ele seja ateu e profundamente hipócrita, mesmo que ele seja o pior de todos os homens quanto à sua vida moral, mesmo que tenha inúmeros pecados secretos ou mesmo inúmeros pecados notórios e divulgados, a eficácia do Batismo não depende nada de sua virtude moral. Depende da santidade perfeita de Cristo, o único Salvador. Não é o mérito dele (em realizar essa ação) que traz a salvação, mas sim uma promessa divina, cumprida infalivelmente. A eficácia do Sacramento é cristocêntrica. Portanto a salvação não depende nem do mérito de quem é batizado nem do mérito de quem batiza, humanamente falando, mas daquele que batiza espiritualmente falando, isso é, Cristo.

Isso é um pouco obscurecido por uma prática comum em certos ramos evangélicos: exige-se que o batizando demonstre um certo padrão moral mínimo em seu comportamento. Desse modo, o Batismo deixa de ser visto como um presente recebido e passa a se parecer com uma conquista social realizada. É algo a se alcançar, não uma dádiva a se receber. Alguém que visualiza o batismo assim terá, naturalmente, muita dificuldade com a Regeneração Batismal. Mas essas exigências moralistas não são bíblicas e não devem nos deter na investigação da doutrina bíblica do Batismo.

  1. A Regeneração Batismal vai contra a Reforma Protestante?

Não. Embora ela certamente contradiga a doutrina de Zuínglio e de todos aqueles que foram influenciados por ele, ela está plenamente de acordo com o ensinamento de Lutero, de Calvino (em alguns lugares), da tradição anglicana e de vários outros ramos menores. Até o Catecismo Menor de Westminster (reformado) fala dos sacramentos como “meios de salvação” (Q91).

No entanto, precisamos perguntar: que relevância essa pergunta tem? Somos de algum modo obrigados a concordar com os teólogos da Reforma Protestante? De onde vem essa obrigação? Por que seria mais importante a opinião dos teólogos da Reforma que a opinião dos Pais da Igreja?

  1. Todo mundo que não é batizado está condenado? Há regeneração sem Batismo?

Como dito acima, o Batismo é ordinariamente necessário a salvação. Isso não significa que todos os que morrem sem o sacramento estejam automaticamente condenados. Deus não está limitado ao sacramento, nós é que o estamos. Por isso, ninguém pode negligenciar o sacramento. Rejeitar o batismo é rejeitar Cristo. Adiar o Batismo é adiar Cristo. Brincar com o Batismo é brincar com Cristo. Deus prometeu graça através do batismo e devemos receber a promessa divina humildemente, sem questioná-la. Mas, embora Deus não o tenha prometido, ele pode salvar sem o sacramento. Isso aconteceu como todos os santos que morreram antes da Ressurreição do Senhor — todos eles morreram sem o sacramento do Batismo e receberam em Cristo a graça da vida eterna através dele.

Como analogia, afirmamos que a pregação do Evangelho é ordinariamente necessária para a salvação dos homens. Não há outro caminho. Mas uma criança, falecida na graça divina, é salva sem a pregação do Evangelho. Isso não dispensa o Evangelho, como se fosse desnecessário à salvação. Assim também, o Batismo não se torna desnecessário por Deus poder conceder a graça batismal sem o sinal visível.

  1. Por que “ex opere operato” e não outra posição?

A eficácia do Batismo é descrita, na linguagem escolástica, como “ex opere operato“, significando o que, uma vez realizado validamente, esse sacramento “ocasiona”, “causa” ou “provoca” o seu resultado infalivelmente. Isso significa que a validade do sacramento não depende da santidade ou mérito de quem o ministra ou de quem o recebe. Depende apenas da fidelidade de Cristo, que nunca falha.

A eficácia do sacramento é a capacidade de veicular certa graça, segundo a promessa divina. Nós não somos capazes de mudar isso com nossa fé ou falta de fé. Por isso, eu a chama de Eficácia Cristocêntrica. Essa eficácia não depende de nós, mas de Cristo. Isso não significa que todos os batizados sejam automaticamente salvos. Uma hipócrita, que finja adesão a fé cristã com segundas intenções, e seja assim batizado, não foi, por isso salvo. A graça lhe foi infalivelmente concedida, mas ele só desfrutará dela quando (pela graça) se converter desse mau caminho.

Essa eficácia é sinalizada pelo textos bíblicos que tratam o sacramento em termos generalizantes: “todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte” (Rm 6:3); “todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gl 3:27). Nesses dois casos, Paulo aplica intencionalmente para o batismo uma linguagem que se refere a todos os batizados (“todos quantos fostes/fomos batizados”), quanto a certos efeitos espirituais (“fomos batizados na sua morte”, “vos revestistes de Cristo”). Isso implica a certeza do vínculo entre o sinal exterior e visível e a graça interior e espiritual (Rm 6:5).

Em razão disso, podemos dizer: todo Batismo regenera (no sentido de que ele causa isso), embora nem todo batizado seja automaticamente regenerado. A eficácia do Batismo não está em produzir todo o processo, mas em produzir infalivelmente parte do processo. Em vários batizados, não se verá nenhum efeito visível, nenhuma santidade de vida, embora todo batizado esteja revestido de Cristo e, por isso, seja parte da Igreja.

A posição conhecida como “ex opere operato“, e que eu chamo de Eficácia Cristocêntrica, é a única aceitável porque é a única que não mistura a obra de Deus e a nossa obra, ao mesmo tempo que reconhece o que a Escritura ensina sobre os sacramentos. Qualquer posição não-zuingliana sobre os sacramentos, isto é, qualquer posição que ensina que os sacramentos “fazem algo” espiritualmente, terá que decidir se eles o fazem independentemente de nós ou se com nossa ajuda. Fiquemos com a opção cristocêntrica: o que Cristo faz no sacramento, ele o faz sozinho, sem depender de nós.

  1. Como se dá a Regeneração batismal no batismo de crianças? Isso depende de alguma noção de fé infantil (fides aliena, pedofé etc.)? É necessária a fé para que a Regeneração ocorra?

Quando nosso Senhor, na Escritura Sagrada, explica a nossa conversão e salvação, ele toma como referência os pequeninos, isto é, as criancinhas (Mt 18:3). Essa é uma referência importante, pois significa que não devemos encarar a salvação como se ela fosse uma coisa de adultos, na qual as crianças devem ter alguma maneira se encaixar. É o inverso. A salvação é uma coisa de crianças na qual nós adultos devemos nos encaixar.

Por isso, diversas exigências que há para nós, como a fé “consciente”, o arrependimento e a humildade, não existem para as crianças. Essas exigências existem para nós porque elas são modo como nós nos tornamos pequeninos. Não se exige isso daqueles que já são pequeninos. Então, quando falamos de salvação pela fé, devemos entender que as crianças não são salvas com o mesmo tipo de fé que nos salva. Elas ainda são salvas pela fé, e essa fé que é suficiente para salvação delas é suficiente para que desfrutem dos benefícios que lhe são conferidas no sacramento do batismo, já que o Batismo é meio dessa salvação.

Ora, essa fé não pode ter nos pequenininhos o mesmo tipo de consciência que tem nos adultos. Quer tratemos essa fé como a fé dos pais e padrinhos (fides aliena), quer a tratemos como um dom invisível infuso nas crianças (como Lutero e Calvino ensinavam), ou qualquer outro modo, isso é suficiente para que as crianças desfrutem dos benefícios batismais. Ou, se quisermos dizer que a salvação das crianças independente de qualquer tipo de fé, devemos ser consistentes e dizer que também o batismo delas independe de qualquer tipo de fé. Deus cobra mais daquele a quem ele dá mais.

Em outras palavras: a Regeneração Batismal das crianças independente da posição que tenhamos nessa questão. Ela se ajusta facilmente a qualquer noção de salvação infantil que tenhamos. Ela só não se ajusta à posição (ímpia) de que todas as crianças, independentemente de batismo ou da fé dos pais, estão condenadas até o momento de poderem fazer uma profissão consciente de fé, lá pelos 7 anos, 12 anos ou qualquer outra “idade da razão” que os homens queiram criar como limite.

  1. Existe ordem cronológica entre fé e batismo?

Não. Algumas pessoas tentam deduzir uma sequência lógica do fato de que, em alguns textos, a palavra “fé” aparece antes da palavra “batismo”, como em Mc 16:15. Mas a simples sequência das palavras não indica uma sequência obrigatória dos conceitos. Por isso, a ordem aparece invertida (primeiro o batismo, depois a fé) em alguns textos, como Mt 28:19-20 (“…batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado…”) e Cl 2:12 (“Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus…”). Mais uma vez: a sequência das palavras, por si mesma, não quer dizer nada.

Num contexto missionário, a fé (no sentido de adesão à religião de Cristo) quase sempre precederá o Batismo. Primeiro as pessoas (adultos) crerão e, em seguida, serão batizadas. Não conhecemos o coração de ninguém, mas não queremos batizar adultos que não creiam em Cristo.

  1. O Batismo de João Batista regenerava?

Não. O Batismo de João Batista era uma preparação para o Batismo cristão. Aqueles que anteriormente haviam recebido o Batismo de João tiveram de receber o Batismo cristão (At 19:1-6).

  1. E o “ladrão da cruz”?

Ao contrário do que parecem imaginar os adversários da Regeneração Batismal, o caso do ladrão da cruz não é, em nada, diferente dos demais personagens bíblicos que morreram antes da Ressurreição do Senhor, como Abraão, Moisés, Davi ou Jeremias. Todos eles morreram sem o sacramento do Batismo, embora tivessem recebido o selo prévio da circuncisão (que não tinha a mesma eficácia plena do Batismo). Todos eles, ao morrerem, desciam ao mundo dos mortos, e todos eles foram de lá resgatados por Cristo, que lhes abriu as portas do Paraíso. Aqueles que, depois disso, são batizados e morrem, não descem ao mundo dos mortos, mas sobem a Cristo. Uma nova etapa na história salvífica foi inaugurada, e o ladrão arrepedindo, embora esteja próximo da cruz, ainda está antes da Ressurreição.

Assim, embora a Regeneração Batismal possa admitir a possibilidade de que alguém seja salvo sem o Batismo, o caso do ladrão arrependido (tradicionalmente chamado São Dimas) é ordinário. O Batismo se tornou sacramento da salvação depois da Ressurreição, quando Cristo enviou os discípulos para batizarem em seu nome, segundo a fórmula trinitária (Mt 28:18-20). Quando somos batizados, Cristo nos faz a mesma promessa que fez individualmente ao ladrão arrependido.

  1. Existe regeneração prévia e posterior ao Batismo? Como elas diferem?

Ordinariamente, não existe regeneração prévia ao Batismo. Existe uma operação da graça no coração do homens para que eles tenham o dom da fé e, através dessa fé, sejam salvos. Essa operação da graça ainda não é a regeneração definida na primeira pergunta. Nesses casos, essas pessoas ainda não foram remidas dos seus pecados e unidas a Cristo. Ainda aguardam esse momento, no qual receberão essas coisas pela fé. É o caso de Paulo, que só recebeu a remissão (no Batismo) três dias depois de saber que Cristo é o Senhor (cf. At 22:16). Depois do Batismo, nós devemos vivenciar a graça da regeneração por toda a vida. Ela é concedida num momento, mas devemos operar nossa salvação ao longo da vida (Fp 2:12-13), isto é, devemos cooperar com a graça recebida, crescer nela, jamais resistindo a ela.

  1. É possível distinguir entre o Batismo sacramental e o “Batismo no Espírito Santo” (como segunda bênção)?

Há um só Batismo (Ef 4:5), que é o sacramento. Nós podemos e devemos vivenciar esse Batismo ao longo da vida, e isso pode incluir certas experiências de enchimento do Espírito Santo que se manifestam em santidade de vida e dons particulares. Essas experiências não são literalmente um segundo Batismo, mas uma manifestação do primeiro Batismo. Em muitos batizados, a graça interior e espiritual recebida no sacramento é adiada por muitos anos, através de incredulidade, pecado, ignorância e mil outras circunstâncias. Eu não tenho nenhum problema com que o nome de “Batismo no Espírito Santo” seja usado para indicar uma vivência mais plena do poder do Espírito Santo, desde que isso não seja usado para corromper nossa leitura bíblica, como se os textos que falam de “Batismo” na Bíblia se referissem apenas a essa experiência e não ao sacramento. Mais uma vez: há um só Batismo.

  1. O Batismo limpa o Pecado Original? Por que continuamos com a predisposição ao pecado?

Pode-se dizser que o Batismo limpa o Pecado Original no sentido que, no sacramento, nós deixamos de estar presos ao pecado, isto é, recebemos a graça que nos habilita a que o pecado não tenha mais domínio sobre nós (Rm 6:14). É importante entender que essa predisposição ao pecado é um defeito da nossa vontade, ocasionado pelo Pecado Original, mas que o Pecado já está em nós antes de sermos capazes de tomar “decisões”. O Pecado Original consiste em nosso desligamento espiritual em relação a Deus, a morte da alma (assim como a mortalidade do corpo), e através do Batismo nós recebemos a vida de Cristo. Nós recebemos a graça que nos livra do domínio do pecado, mas ainda estamos feridos pelo pecado. O Batismo não elimina essa inclinação automaticamente, embora, em alguns casos, possamos testemunhar pessoas que, depois do Batismo, tiveram grande avanço na sua santificação e puderam deixar certos hábitos do pecado.

  1. Regeneração Batismal é compatível com credobatismo?

Creio que não. Há certos grupos que tentam unir as duas coisas, mas, nesses casos, a salvação se torna mérito nosso antes do mérito de Cristo. A Regeneração Batismal leva naturalmente ao batismo de crianças, porque nenhum motivo teológico pode ser forte o suficiente para excluir as crianças da graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Regeneração Batismal | Material de estudo gratuito

Abaixo temos vídeos e textos gratuitos ligados ao tema da Regeneração Batismal. Pretendo atualizar a lista com o tempo.

[Vídeo] O Batismo salva? | Regeneração Batismal [30min]
https://youtu.be/cbczxGKtyEQ

[Vídeo] Ei, o Batismo salva! | Podcast Taverna dos Clérigos [1h30min]
https://www.youtube.com/watch?v=cMNeBPcRRFs

[Texto] O Batismo não é só um símbolo (parte 1) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/05/31/o-batismo-nao-e-so-um-simbolo-parte-1/

[Texto] O Batismo não é só um símbolo (parte 2) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/06/10/o-batismo-nao-e-so-um-simbolo-parte-2/

[Texto] Notas sobre o Batismo | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2016/03/21/notas-sobre-o-batismo/

[Texto] 1Co. 12:13 e o “Batismo no Espírito Santo” | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/06/02/1co-1213-e-o-batismo-no-espirito-santo/

[Texto] Um só Batismo | Rev. Gyordano | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2016/11/02/um-so-batismo/

[Texto] Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal? | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2021/06/30/tertuliano-ensinava-mesmo-a-regeneracao-batismal/

[Texto] A Doutrina Anglicana dos Sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2018/03/14/a-doutrina-anglicana-dos-sacramentos/

[Texto] Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17) | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2020/12/17/paulo-desprezava-o-batismo-1co-110-17/

[Texto] C. S. Lewis e os sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2018/03/22/c-s-lewis-e-os-sacramentos/

[Texto] A Eficácia Cristocêntrica dos Sacramentos | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/11/29/a-eficacia-cristocentrica-dos-sacramentos/

[Texto] Hebreus 6:4-8 fala do Batismo | Rev. Gyordano
https://vineadei.wordpress.com/2017/05/12/hebreus-64-8-fala-do-batismo/

[Texto] Confessionalidade Reformada e Regeneração Batismal | Jadson Targino
https://jadsontargino.medium.com/confessionalidade-reformada-e-regenera%C3%A7%C3%A3o-batismal-bb3df0b71ba3/

[Texto] Uma defesa da Regeneração Batismal nos padrões reformados | Filipe Leal
https://filipeleal.medium.com/uma-defesa-da-regenera%C3%A7%C3%A3o-batismal-nos-padr%C3%B5es-reformados-185382dfec2e

[Texto] Respostas simples sobre Regeneração Batismal | Rev. Gyordano M. Brasilino
https://vineadei.wordpress.com/2021/07/23/respostas-simples-sobre-regeneracao-batismal/

Tertuliano ensinava mesmo a Regeneração Batismal?

Prague The Fresco Of Baptism Of Jesus In Church Kostel Svatého Václava By S  G Rudl Stock Photo - Download Image Now - iStock

Como eu gosto de dizer, poucas doutrinas são tão uniformes e indisputáveis, entre os Pais da Igreja, como a doutrina da Regeneração Batismal. De fato, ela é mais uniforme do que a própria doutrina da Trindade. Enquanto jamais nenhum Pai da Igreja combateu a Regeneração Batismal, os hereges da época o fizeram, como veremos. Tertuliano se encontra no número dos primeiros cristãos que deram testemunho dessa doutrina. O caso de Tertuliano, aliás, é peculiar comparado aos Pais da Igreja (grupo ao qual ele não pertence plenamente), em razão de alguns problemas doutrinais e históricos presentes nos seus escritos. Isso torna a defesa da Regeneração Batismal, um caso em que podemos aplicar a antiga regra: um momento em que até quem erra sinaliza a doutrina correta.

Pois bem, não é difícil encontrar o ensino de Tertuliano sobre regeneração batismal. Ele escreveu um tratado sobre o sacramento da fonte (De Baptismo), e o propósito desse tratado é precisamente explicar a necessidade do Batismo para a salvação, quando Tertuliano argumentou contra os gnósticos cainitas, comunidade que negava a necessidade do Batismo para a salvação. O tratado De Baptismo inicia propondo o seu tema: “Acerca do Sacramento da nossa água, no qual, sendo absolvidos dos delitos da nossa vida pristina, somos liberados para a vida eterna…” (cap. I). Mais adiante, ele escreveu (grifo meu):

Em razão disso, aqueles criminosíssimos provocadores de perguntas dizem ‘Portanto, o batismo não é necessário àqueles a quem basta a fé; assim também Abraão agradou a Deus, sem nenhuma água, senão com o sacramento da fé.’ Mas, em tudo, as coisas posteriores concluem, e as coisas subsequentes prevalecem sobre as antecedentes. A salvação anteriormente foi pela fé nua, antes da paixão e ressurreição do Senhor; mas como a fé aumentou, aos crentes no seu nascimento, paixão e ressurreição, é ampliado o sacramento pelo selo [obsignatio] do batismo, como uma vestimenta para a fé que antes estava nua, que já não pode salvar sem a sua lei. Pois a lei do batismo foi imposta, e a fórmula prescrita: “Ide”, ele diz, “ensinai todas a nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A comparação dessa fórmula com esta lei: “A menos que um homem nasça da água e do Espírito, ele não poderá entrar no reino dos céus”, restringiu a fé à necessidade do batismo. De Baptismo 13

Nesse trecho, Tertuliano tenta descrever a posição contrária como a noção de que, se a salvação é pela fé, o Batismo se torna desnecessário. Tertuliano não nega a salvação pela fé, mas argumenta que ela não deve ser pela fé nua. O Batismo é como a vestimenta necessária á fé. Para Tertuliano, portanto, o Batismo é necessário à salvação, e ele argumenta em favor dessa noção apelando para o conhecido texto de João 3:5, que limita a entrada no reino de Deus aos que nascerem da água, o que ele interpreta como significando a necessidade do Batismo. Para Tertuliano, “sem o batismo, ninguém pode alcançar a salvação” (nemini sine baptismo competere salutem, cap. 12).

De que maneira o Batismo é necessário à salvação? Num contexto um pouco diferente, Tertuliano acusa Marcião de Sinope (como redução ao absurdo) de privar o Batismo de quatro benefícios: a remissão de pecados, o livramento da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo (Contra Marcion I, 28). Isso concorda com o que propõe o De Baptismo; já mencionamos a remissão dos pecados acima. Ele também menciona o Espírito Santo ao escrever sobre “…o Espírito de Deus, que de início pairava sobre as águas, continuaria sobre as águas dos batizados.” (De Baptismo 4).

Para Tertuliano, através da invocação de Deus, as águas adquirem o “poder sacramental de santificação” (praerogativa sacramentum sanctificationis, De Baptismo 4). Aqui Tertuliano alude à tradução, difusa na patrística, segundo a qual há nas águas do Batismo um poder santificador. Por isso, no mesmo capítulo, ele segue escrevendo: “Portanto, depois que as águas foram, de algum modo, imbuídas com virtude medicinal pela intervenção do anjo, o espírito é corporalmente lavado pelas águas, e a carne é, no mesmo, espiritualmente lavada.” Tertuliano esclarece que não são as águas em si mesmas que purificam, mas seu poder santificador prepara para o envio do Espírito Santo que acontece naquele momento (De Baptismo 6). Por isso, ele distingue o ato do batismo, que é carnal, do efeito do batismo, que é espiritual: a remissão de pecados ( De Baptismo 7).

Esses são só alguns exemplos de como Tertuliano ensinava a doutrina patrística unânime da Regeneração Batismal.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus era inclusivo? 16 razões por que a Comunhão deve vir depois do Batismo.

Medieval Baptismal Font | gardenaccents

A Tradição cristã ensina que a Santa Comunhão só deve ser recebida por batizados. Ao menos ordinariamente, é assim, e a maioria dos cristãos reconhece essa restrição. No entanto, aqueles de tendência mais biblicista sempre acabam perguntando se existe um fundamento nas Escrituras para essa limitação. Cristãos de tendência mais pós-moderna, apaixonados por uma ênfase particularmente aguda na inclusividade, tendem a não ver propósito nessa restrição. Seria uma marca da ‘religiosidade’ do passado, a ser eliminada.

Pretendo oferecer aqui o que considero serem razões corretas por trás dessa restrição. Defenderei que o Batismo é exigido antes da participação na Comunhão. (Não está em jogo, aqui, se há ou deve haver, canônica ou teologicamente, requerimentos ulteriores, como algum processo de catecumenato, Primeira Comunhão ou Confirmação, para a participação na Comunhão. Simplesmente não é o que se discute aqui. Queremos saber se um não-batizado pode participar do sacramento.)

É importante observar que os motivos que eu ofereço só fazem sentido quando tratamos os sacramentos como mais do que apenas símbolos. Para aqueles que veem o Batismo como “mero símbolo” e a Santa Comunhão do mesmo modo, usar um como limitação do outro é apenas questão de conveniência e ordem pública, mas sem um motivo espiritual grave. Assim sendo, a Igreja poderia mudar essa restrição sem efeitos sérios, caso julgasse que seria pastoralmente benéfico em alguma situação. Para alguém que pensa assim, os motivos que eu ofereço não parecerão mais do que analogias rarefeitas.

No entanto, se os sacramentos são realmente sacramentos, sinais e mistérios sagrados, isto é, se eles realmente invocam e selam forças espirituais (“graça”), se eles provocam um impacto espiritual sério, se realmente eles nos introduzem na esfera sobrenatural, se eles têm mais em comum com a magia do que com uma placa de trânsito, a coisa muda de figura. Aqui não tentarei provar que os sacramentos são essas coisas. Falo apenas aos que já lhes dão uma importância maior, e que estão convencidos de que essa posição é correta de acordo com a Escritura ou a Tradição.

Antes dos motivos, é importante dizer que nem todas as pessoas estão aptas a participar da Eucaristia, como Paulo escreve em 1Co 11. Isso pode inclusive ser ruim para elas. A eletricidade é muito útil, mas você não mexe com ela a menos que esteja devidamente protegido e preparado. Uma falha pode ser fatal. Esse é, inclusive, um dos motivos pelos quais sabemos que, para Paulo, o sacramento não era só um símbolo. Uma encenação não deveria ser capaz de fazer alguém adoecer, morrer e ser condenado. Então o sacramento não é e não deve ser para todo mundo. Não se trata de privar as pessoas de um bem, mas de evitar que esse bem as prejudique.

Eis dezesseis motivos pelos quais é mais sensato pensar que o Batismo é um requisito para a participação na Eucaristia:

1. Em Mt 7:6, lemos: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.” Esse texto bíblico, desde muito cedo, foi aplicado ao Batismo pelos cristãos, como registra a Didaquê (documento provavelmente do século I d.C). Não é difícil entender a lógica por trás dessa aplicação: Cristo ensina que coisas santas e preciosas (e a Eucaristia é uma coisa santa e preciosa) não devem ser dadas aos cães ou porcos (impuros, fora da comunidade). Nem todo mundo pode receber o que é precioso e santo. Como o Batismo torna alguém parte da comunidade (cf. 1Co 1:13; 12:13), ele se torna, no mínimo, um requisito para a condição de participante de alguém que pertence à comunidade. Esse argumento leva em conta uma lógica de pureza (limitando a hospitalidade) que se repetirá em argumentos posteriores.

2. Como indica implicitamente o texto de João 3:25-26, o Batismo (de João, ainda) era entendido como uma purificação. A lógica ritual da Bíblia é de que aqueles que estão puros podem participar dos ritos da comunidade, particularmente dos sacrifícios. Isso certamente inclui a Eucaristia.

3. Como lemos em Êx 12:44,48, somente os circuncisos poderiam participar da Páscoa. Ora, Cristo é a Páscoa da qual participamos (1Co 5:7-8), e a nossa circuncisão ocorre no Batismo (Cl 2:11-12). (Observe-se que o Batismo assume tanto o papel dos ritos de purificação com água quanto da circuncisão.)

4. Em linha com o que se disse até aqui, lemos em Hb 10:19-22: “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” Esse texto, por si mesmo, já mostra a necessidade de que tenhamos o corpo lavado com água pura (Batismo) para adorarmos a Deus como devemos. Mas a referência dupla ao sangue e à carne de Cristo parece ser alusão ao mistério cristão da Comunhão, no qual chegamos a Deus, entrando no Santo dos Santos. Mais uma vez, temos a lógica de pureza (“água pura”, cf. Ez 36:25).

5. Em Mt 28:19, os apóstolos recebem a missão de discipular pessoas de duas maneiras: batizando-os e ensinando-os a guardar o que Cristo ensinou. No contexto desse evangelho, aprender a guardar o que Cristo ensinou inclui a participação na Comunhão. O texto presume que, embora haja uma missão para todas as nações, a obediência a Cristo se dá no contexto da formação de discípulos.

6. Aprendemos em textos como 1Co 1:13; 12:13; Ef 4:4-7 e outros que o Batismo assinala nossa pertença à unidade da Igreja. Ora, o mesmo se diz da Eucaristia em 1Co 10:16. Ora, por uma questão de coerência eclesiológica, essas duas coisas só fazem sentido se aquele que participa do segundo sacramento também recebeu o primeiro.

7. Como o Batismo cristão é recebido apenas uma vez, ao passo que a Comunhão é recebida muitas vezes, é muito mais coerente encarar o Batismo como a entrada na comunidade e a Eucaristia como uma continuação nela.

8. No Novo Testamento, o Batismo era feito com certa urgência, sem muita preparação ou ensino prévios. Não se nota a mesma urgência quanto à participação da Eucaristia, ainda que ela seja central. Esse padrão é mais coerente com visualizar o Batismo como antecedendo a Eucaristia.

9. Enquanto o Batismo nos introduz na realidade escatológica futura, o mundo Vindouro (At 2:38; Rm 6:3-7; Gl 3:26-28; Cl 2:12 etc.), a Eucaristia corresponde ao Banquete escatológico do cordeiro (cf. Mc 14:25; Lc 22:30 etc.). Ora, essa vinculação escatológica, por analogia, faz com que aquilo que está ligado no futuro (no “ainda não”) esteja ligado também à sua iniciação presente (no “já”). Assim, se o Banquete pertence ao Mundo Vindouro, a Comunhão pertence ao Batismo.

10. Uma vez que é no Batismo que nos revestimos de Cristo, é nele que recebemos nossa filiação (cf. Gl 3:26-28). Ora, é absurdo que haja comunhão entre os que vivem como filhos de Deus e os que não vivem.

11. Como aprendemos em At 2:38 e noutras partes, no Batismo nós recebemos a remissão de pecados (necessária). Como podemos ter comunhão com Cristo na Eucaristia (1Co 10:16-17) sem a remissão de pecados? Impossível.

12. Aprendemos em Jo 3:3-5 que somente podem ver o reino de Deus aqueles que nascerem do alto, isto é, da água e Espírito. A maioria dos cristãos interpreta essa “água” como indicando o Batismo. Se a Eucaristia pertence ao reino de Deus, ela não pode estar separada do Batismo.

13. Em 1Co 10:1-4, o apóstolo Paulo faz uma leitura alegórica da história da libertação da nação de Israel, aplicando-a aos sacramentos cristãos do Batismo e da Eucaristia. Há uma sequência no texto: primeiro, cruzou-se o mar; depois, bebeu-se da rocha. Primeiro os israelitas foram libertos, depois foram alimentados por Deus. Essa coerência narrativa parece presumir a sequência entre Batismo e Eucaristia.

14. Comunhão presume aliança. Ora, a Eucaristia é comunhão (1Co 10:16-17). Se o Batismo, enquanto circuncisão, envolve aliança (cf. Gn 17:10), a Eucaristia presume o Batismo.

15. Na vida de Cristo e na narrativa dos Evangelhos, o Senhor foi precedido por João Batista, o pregador do Batismo. Esse precursor tem o trabalho de anunciar a preparação para o que Cristo depois faria. O Batismo de João batista deu lugar ao Batismo cristão, mas, ao colocarmos o Batismo antes da Eucaristia, nós preservamos a sequência da vida de Cristo (que só instituiu a Eucaristia perto do fim). Há uma coerência narrativa e cristológica, pois revivemos a história de Jesus.

16. Em At 2:38 e outros textos, vemos que recebemos o Espírito Santo através do Batismo. Em 1Co 10:16, temos comunhão com Jesus através da Eucaristia. Ora, se é através do Espírito Santo que temos comunhão com Jesus, o Batismo deve preceder a Eucaristia.

Embora eu tenha prometido dezesseis motivos, o leitor atento notará que esses motivos têm vários semelhanças entre si. Eles formam um padrão: preparação-comunhão, uma lógica de pureza. Esses motivos podem permitir que outros sejam vistos, seguindo a mesma lógica de observar os traços tipológicos e os benefícios do Batismo, e enxergar como eles fazem mais sentido se o Batismo precede a Eucaristia.

Mas Jesus limitaria a mesa? Essa é uma pergunta importante a se fazer. O que Jesus faria? Mas inevitavelmente, a resposta que damos a essa questão está ligada o modo como vemos Jesus, a imagem que fazemos dele e, nesse ponto, limitamos a sua liberdade nessa questão. O que podemos fazer é, no máximo, refletir a partir dos registros de Jesus. Se tomarmos os evangelhos canônicos como parâmetro — e a própria noção de “evangelhos canônicos” já presume certa seleção exclusiva —, notaremos que há motivos encontrar, na imagem de Jesus, tanto exclusividade quanto inclusividade, em suas ações e palavras.

Vemos nas atitudes de Jesus aquilo que nós poderíamos chamar hoje de inclusividade. Ele comeu e andou com pecadores e publicanos (como Zaqueu); visitou e pregou a inimigos do seu povo (como os samaritanos); convocou crianças; ensinou a mulheres; tocou leprosos; conviveu com os pobres. Ele disse que não veio chamar os justos, mas sim os pecadores. Ele foi até aqueles que nós poderíamos chamar de “excluídos”, os impuros, os de fora. Ele disse: “quem não é contra nós é por nós” (Mc 9:40). Vemos em Jesus uma hospitalidade acolhedora para com todos esses diminuídos. Essas e outras coisas atravessam os evangelhos.

Por outro lado — eu sei que vocês já esperavam por isso —, vemos também no Jesus canônico uma representação da tendência inversa. Ele disse que veio apenas para os perdidos da casa de Israel — perdidos (inclusividade!) mas da casa de Israel (restrição) —, e ensinou os seus discípulos a evangelizarem apenas judeus; ele ensinou que aquele que não desse ouvidos à Igreja deveria ser tratado “como um gentio e publicano”, isto é, como alguém de fora; ele ensinou que não se deveria dar as coisas preciosas e santas aos impuros (cães e porcos); ele falou em parábolas para não ser entendido pelos de fora. Aliás, embora tivesse uma mensagem universal, Cristo em alguns momentos guardava segredos para aqueles que os pudessem reter, até o momento certo, como na ressurreição da filha de Jairo, na Transfiguração, no Gêtsemani e na própria instituição do sacramento. Vemos, no discurso de Jesus, a possibilidade da perdição eterna, das Trevas Exteriores, e o ensinamento de que “porque estreita é a porta e apertado é o caminho que leva à vida, também poucos há que a encontrem.” (Mateus 7:14). A porta estreita e o caminho apertado são símbolos de exclusão. Poucos encontram o caminho, essas são as palavras terríveis de Jesus nas Escrituras. Por isso, ele diz a alguns: “apartai-vos de mim”. Na Parábola das Bodas de Mt 22, depois de fazer um convite a que todas pessoas participem do banquete, o rei manda retirar da festa uma pessoa que entrou sem as vestes adequadas (vv. 11-13). (É interessante observar que a versão de Lc 14 não tem esse trecho, e que Mateus geralmente tende um pouco mais à exclusividade do que Lucas.)

Então vemos inclusividade e exclusividade, e a única maneira de preservar essa tensão é não tentar eliminar um dos dois polos, que emergem por haver uma dualidade contraditória, não em Jesus, mas em nós. Essa dupla tendência aparece belamente nas palavras finais do Apocalipse: as portas da cidade estarão sempre abertas (21:25-26; cf. Is 60:11), mas podem entrar apenas os que lavaram as suas vestes (22:14).

Eu tenho muita simpatia pelos amigos e irmãos que em em Jesus uma mensagem de hospitalidade irrestrita. Eu diria que tenho mais em comum com eles do que com quem vê apenas o Jesus exclusivista, pois também eu quero ser incluído. No entanto, julgo que não encontramos, nas palavras de Cristo nos evangelhos, uma mensagem de comunhão sem restrições. Cristo ressignificou os padrões de pureza, mas não eliminou a noção de pureza em si. Sem isso, qualquer discurso sobre a necessidade de conversão e transformação é sem sentido.

Há um vínculo profético entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico. Onde houver a possibilidade de exclusão no banquete escatológico — “ficarão de fora” (Ap 22:15), “serão lançados para fora” (Mt 8:12) —, deve haver, pelas mesmas razões (mas segundo nossas limitações), possibilidade de exclusão do banquete eucarístico presente, pois “com o tal nem ainda comais” (1Co 5:11). O Batismo, enquanto transição profética, é o momento adequado para assinalar a mudança inclusiva. O sacramento da fonte é a inclusividade de Cristo, a declaração divina de que, pela graça, a partir de agora certas pessoas estão incluídas na comunidade do futuro.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Batismo com o Espírito Santo no livro de Atos — O que eu penso disso?

Antes de tudo, devo dizer que acredito na experiência pentecostal. Assim como diversos teólogos, minhas dúvidas não são sobre a experiência, mas sobre a descrição teológica dela, isto é, no modo como a experiência pentecostal é ligada a conceitos bíblicos ou quase-bíblicos como “batismo no Espírito Santo”, “falar línguas”, “enchimento” e “plenitude” do Espírito, e coisas semelhantes, o que gera consequências para o sentido que essa experiência tem, deve der ou poder ter na comunidade cristã. Acredito que posição que eu defendo não descarta, antes amplia o pensamento pentecostal nesse assunto.

Acredito que a interpretação pentecostal é melhor que a leitura reformada do “batismo no Espírito Santo” no livro de Atos dos Apóstolos. Enquanto a leitura pentecostal simplesmente aceita a “estranheza” dos textos, sem tentar forçar uma pneumatologia alheia a ela, me parece que a leitura reformada procura forçar o texto a enquadrar-se na situação vivenciada pelos próprios reformados e suas igrejas, onde essas coisas estranhas não costumam acontecer, assim como em sua teologia da “regeneração”. Isso não significa que a leitura reformada não seja capaz de fornecer observações pertinentes, nem significa que qualquer dois dos grupos seja monolítico na interpretação de todos os textos relevantes.

Porém acredito que, em razão do anti-sacramentalismo comum entre os pentecostais, algumas conexões presentes nos textos lhes escapam. Além disso me parece o que os pentecostais procuram estabelecer, através das experiências diferentes no livro de Atos, uma regra facilmente aplicável a hoje. Penso que não haja uma regra, ou que a regra, na verdade, seja mais ampla do que imaginam. Essa hermenêutica anti-sacramental afeta principalmente a interpretação dos capítulos 2 (Pentecostes), 10 (Cornélio) e 19 (Discípulos em Éfeso) do livro de Atos dos Apóstolos, precisamente os três textos em que aparece o “falar em línguas” conectado à experiência de recebimento do Espírito Santo, além de traços relevantes dos capítulos 8 (Samaria) e 9 (Paulo). Quando deixamos de lado o viés anti-sacramental, fica mais nítida a regra que devemos observar para a recepção e vivência do Espírito Santo.

Alguns fatores a considerar: (1) o Espírito Santo é concedido, no livro de Atos, principalmente e presumivelmente através do batismo (2:38; 9:17-18) e da imposição de mãos (8:15-20; 19:5-6), dois atos eclesiásticos que ocorrem sempre na mesma sequência, isto é, primeiro o batismo e depois a imposição de mãos; (2) o livro de Atos descreve a experiência nesses momentos como “receber” o Espírito Santo (1:8; 2:38; 8:115,17,19; 10:47; 19:2), o “dom do Espírito” (At 2:38; 8:20; 11:17), dizendo que foram “cheios” do Espírito Santo (2:4; 9:17) ou que o Espírito “caiu” ou “desceu” sobre eles (8:16; 10:44; 11:15); não se diz que os personagens bíblicos foram “batizados” no Espírito Santo, embora a promessa do Batismo seja invocada na explicação do Pentecostes e no incidente da casa de Cornélio (1:5; 11:16).

Os cinco textos mais relevantes, no livro de Atos, para entender essa questão são os capítulos 2 (Pentecostes, Jerusalém), 8 (Samaria), 9 (Paulo, Damasco), 10 (Cornélio, Cesareia) e 19 (Éfeso). Esses textos mais ou menos acompanham a expansão da Igreja tanto de modo geográfico (Jerusalém, Samaria, Damasco, Éfeso) como étnico (judeus, samaritanos, gentios).

No primeiro caso, no dia de Pentecostes, o mais importante, a “descida” do Espírito Santo sobre a comunidade certamente é precedida de orações comunitárias de conteúdo desconhecido (1:14), mas acontece de modo “a-sacramental”. No entanto, após interpretar o evento ligando ao envio da “promessa do Espírito Santo” por Cristo (2:33) e ao seu senhorio (2:36), Pedro diz aos ouvintes que, caso se arrependam e sejam batizados para remissão de pecados, receberão “o dom [dōreá] do Espírito Santo” (2:38), fazendo referência à mesma “promessa” (2:39). A promessa é aquela de Atos 1:5,8: “sereis batizados com o Espírito Santo”. Assim, Pedro oferece aos presentes aquele dom através (também) do Batismo. Não se fala de imposição de mãos ou outra coisa, embora o texto seja demasiado compacto para que se tire muitas conclusões. Esse é um dos três textos em que se fala de “línguas” no recebimento do Espírito Santo.

No segundo caso, em Samaria, os samaritanos evangelizados já haviam recebido o batismo sacramental e crido na pregação apostólica, através do ministério de Filipe (provavelmente o helenista de Atos 6), mas ainda não haviam recebido o Espírito Santo. Dois apóstolos, Pedro e João, descem a Samaria para orar e impor as mãos sobre os samaritanos, para que recebam também o Espírito Santo. O Batismo está, nesse texto, bem claramente atrelado à Imposição de Mãos, e a linguagem empregada é “descida” (8:16), “recebimento” (8:15,19) ou “concessão” do Espírito Santo (8:17). O texto não menciona “línguas”, “profecia” ou outros sinais ligados ao recebimento do Espírito Santo.

No terceiro caso, o de Paulo, não temos uma comunidade, mas um indivíduo, que recebe a ministração de outro: Ananias, que, embora não seja explicitamente contado como apóstolo, é mencionado como um “discípulo” (9:10) observante da Torá (22:12). Ele é enviado pessoalmente por Jesus através de uma visão (9:10-16), não por algum dos apóstolos, e chega três dias depois de Paulo ter tido a visão com Jesus. Ananias lhe descreve o propósito de sua vinda nos seguintes termos: “…para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo” (v. 17), ou seja, cura e enchimento do Espírito. O texto descreve como isso aconteceu: “Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado.” (v. 18). Sabemos que a cura aconteceu por imposição de mãos (9:12), mas enchimento do Espírito Santo corresponde ao “e foi batizado”. Esse batismo é o sacramento, como nos certifica outra versão da mesma história, que segue a mesma sequência: cura e depois batismo sacramental (22:13-16). Nenhuma das duas versões menciona fenômenos carismáticos como línguas ou profecias.

No quarto caso, o da casa de Cornélio, uma família inteira recebe o Espírito Santo: “caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra” (10:44; cf. 11:15), “maravilharam-se de que o dom [dōreá] do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios” (10:45), “receberam como nós o Espírito Santo” (10:47), o que é sinalizado através do “falar em línguas”. Àquelas pessoas, Deus “concedeu o mesmo dom [dōreá]” que aos apóstolos (11:17). Logo em seguida, eles são batizados sacramentalmente; para Pedro, não faria sentido impedir de batizar. Assim, embora o recebimento do Espírito ocorra logo antes do batismo sacramental, Pedro vislumbra uma conexão clara entre as duas coisas. Além disso, na verdade, Pedro estava justamente falando sobre o Batismo: “todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome.” (10:43). Pedro não disse aí que todos os que creem receberão o perdão porque creem, mas que todos os que creem receberão o perdão “pelo seu nome” (dia tou onomatos autou), isto é, através do seu nome. Essa é a linguagem dos textos batismais de Atos (2:38; 22:16). Essa é a fórmula empregada para atos de poder realizados no nome de Jesus, como cura e exorcismo (At 3:6; 4:7,10,30; 9:14,21; 16:18; 19:13); o Batismo aparece aí como um desses atos de poder realizados “em nome do Senhor Jesus”. Tanto em Atos 8 como em Atos 10, o recebimento do Espírito Santo, embora tenha conotações proféticas e esteja, aqui, ligado à adoração a Deus, não se tem em vista uma preparação ministerial. Tanto no acontecimento em At 10 quanto em sua explicação no capítulo seguinte, tem-se em vista a salvação.

No quinto caso e último caso, o dos doze discípulos em Éfeso, aparece toda a sequência: Batismo (sacramento), Imposição de mãos, línguas, profecia. A linguagem usada é “veio sobre eles o Espírito Santo” (19:6), o que ocorre a partir da pergunta de Paulo sobre se “Recebestes… o Espírito Santo” (19:2).

Esses textos não indicam uma “segunda bênção”, mas uma única bênção, que às vezes é recebida tempos depois do batismo sacramental, ou um pouco antes. Ao visualizar uma só bênção, os reformados se aproximam da verdade, mas essa “bênção única” não é a “regeneração” da qual eles falam; é algo posterior ao arrependimento e à fé, às vezes posterior ao Batismo. Se há uma indicação de uma lógica de duas bênçãos, ela está justamente nos dois atos eclesiásticos: Batismo e Imposição de Mãos, embora eles não sejam tratados como os meios exclusivos, e sim os meios ordinariamente esperados da dação do Espírito Santo. Por isso, a leitura histórica mais tradicional desses atos eclesiásticos é: o Batismo e a Imposição de Mãos de fato conferem duas “bênçãos” distintas ambas no entanto, ligadas à dotação do Espírito Santo, uma em continuidade com a outra, às vezes uma sendo vista como aprofundamento e “conclusão” da outra. Assim, uma raiz da noção de segunda benção está plenamente lá na tradição, mas como uma segunda bênção sacramental. No modus operandi divino, no livro de Atos, não há duas bênção, mas uma mesma doação do Espírito divino.

Como existe uma correlação entre os atos eclesiásticos sacramentais e adaptação do Espírito, a expectativa não é de que a infusão do Espírito ocorra através de orações e de buscas do batismo no Espírito Santo (a menos que isso se referia à oração sacramental, como em At 8:15); espera-se que ocorram nos próprios atos sacramentais. Não existe uma noção de “busca” do Batismo no Espírito Santo no livro de Atos. Saindo do livro de Atos, podemos falar de uma busca do “enchimento” do Espírito Santo e de uma “vida no Espírito”, nas cartas paulinas.

Não é difícil perceber que, no livro de Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo é dado como “poder” missionário e profético, como um “capacitador” da igreja para sua missão e ministério particularmente dos apóstolos, como testemunhas poderosas da Ressurreição. A caracterização do Espírito Santo como Espírito Profético aparece tanto na promessa de Jesus (At 1:8) quanto na interpretação dada por Pedro no próprio Pentecostes (2:17-18). No entanto, o caso dos samaritanos e o de Cornélio são diferentes, tendo em vista principalmente a salvação, assim como é diferente a ligação do Espírito Santo com batismo em Gálatas 3 em termos soteriológicos, não apenas ministeriais, então não se pode fazer uma separação muito radical entre pneumatologia paulina e pneumatologia lucana.

Diante dessas considerações, minha posição é a de que o batismo no Espírito Santo é a benção prometida e selada no sacramento do Batismo (I), aprofundada apostolicamente na imposição de mãos (II) e renovada, pela fé, muitas vezes ao longo de nossa vida, particularmente através dos dons espirituais (III). Em outras palavras, o batismo no Espírito Santo é a vida cristã. É a dimensão da vida cristã ligada a um poder profético, não como o ministério de uma elite espiritual, mas disseminado em toda a comunidade messiânica. Aquilo que é prometido no Batismo e aprofundado na imposição de mãos pode ser vivido imediatamente, mas frequentemente os cristãos levam anos para “acessarem” ou “ativarem” as promessas recebidas. Com isso, quero dizer que há “um só batismo” (Ef 4:5), o sacramento, um mistério único que contém compactamente e assinala profeticamente todo o nosso percurso no caminho de Jesus.

Nesse sentido, o momento em que recebemos o sacramento do Batismo não indica necessariamente o primeiro momento em que desfrutamos plenamente da benção profética ali ministrada. O mesmo se dá com a Imposição de Mãos. Em analogia com essas coisas, podemos colocar a oração: se eu oro hoje pela cura de um enfermo, desejo que sua cura aconteça hoje, devo orar para que ela aconteça agora, devo esperar a intervenção de Deus para o presente momento, mas não sou o dono da realização dos seus efeitos, pois eles pertencem a Deus, e por isso podem se realizar algumas horas depois ou amanhã, quando a pessoa que recebeu a oração hoje desfrutará então da cura impetrada. Ou seja, o momento em que a oração é feita e o momento em que a resposta é recebida podem ter um intervalo de bastante tempo.

Assim também, a experiência de enchimento do Espírito Santo, que deve ser esperada para o sacramento ou sinal sacramental, talvez só seja ativado tempos depois. Do mesmo modo, assim como há muitas maneiras pelas quais Deus curou e cura (simples oração individual, intercessão, imposição de mãos, unção com óleo, banho “profético”, cuspe…), Deus pode ministrar seu Espírito de vários modos. Não precisamos estabelecer uma regra para Deus, mas apenas para nós mesmos. Não precisamos crer em duas bênçãos ou em três bênçãos. Podemos acreditar em infinitas bênçãos como infinitas manifestações do Espírito. O Espírito Santo sempre tem mais. Mas é sempre também o mesmo Espírito Santo, a mesma bênção indivisa, o mesmo mistério inesgotável.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17)

Para Paulo, o Batismo não salva?

Quem está informado dos debates em torno da eficácia do sacramento do Batismo e da literatura teológica relevante possivelmente já chegou à discussão em torno de 1Co 1:10-17, texto usado pelos que negam a eficácia do Batismo. Grosso modo, o argumento é de que Paulo (supostamente) dá ao Batismo uma importância inferior à pregação, o que ele não faria se o Batismo fosse meio de salvação. Entre os que veem os sacramentos como meros símbolos e desnecessários a salvação, Paulo mostra nesse capítulo como a pregação do evangelho é essencial e fundamental a salvação e o batismo é acessório e secundário.

É estranho que seja assim, diante de tudo o que Paulo diz sobre o Batismo, em outros textos. Seria uma clara contradição. Um problema nessa leitura é bem comum: ver no texto mais do que ele diz e não ver nele o que de fato ele diz. Não é uma leitura atenta ao texto, mas um uso polêmico do texto. Quando lemos os textos sagrados, devemos estar atentos aos porquês, às razões dadas pelos autores sagrados para suas próprias palavras, e não inventar razões nossas. Não podemos trocar as relações gramaticais do próprio texto pelas nossas próprias inferências (enviesadas teologicamente).

Mesmo exegetas competentes como James G. Dunn caem nesse erro. Veem que Paulo diz que não foi enviado “para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17) e “deduzem” daí que o motivo é que o Batismo é menos importante que a pregação. Leem “Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio;” (v. 14) e deduzem daí que Paulo dava pouca importância ao sacramento. Deduzem daí que isso significa que o batismo não tem uma necessidade salvífica. Mas essas coisas jamais são ditas no texto. Em nenhum momento Paulo diz que não foi enviado para batizar porque o Batismo é menos importante que a pregação, nem que ele agradece por não ter batizado muitos porque o Batismo não salva. Esses “porquês” são coisas que o leitor traz ao texto, não coisas que ele extrai do texto. O viés anti-sacramental do leitor dificulta ler o texto de outra maneira.

É claro, não podemos imputar a esses leitores desonestidade. Somos acostumados, de fato, a tratar aquilo que é essencial como prioridade, então podemos ver uma semelhança entre o que Paulo diz e nossa própria maneira de estabelecer uma hierarquia de valores. Mas ocorre que os porquês são dados no texto, então não precisamos imaginá-los! Nossa responsabilidade é perguntar ao texto qual é sua lógica interna. Paulo não está num debate teológico sobre a importância do Batismo, mas tratado pastoralmente uma situação bem diferente: falta de unidade na Igreja, e usa também o Batismo como marca dessa unidade.

O problema com o qual Paulo lida é dado nos primeiros versículos: “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer. Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo.” (1Co 1:10-12)

O que vemos aí? Um problema de desunião entre os cristãos coríntios. Entre eles, tornou-se comum (“cada um de vós”) se apegar a uma das figuras apostólicas (Paulo, Apolo, Cefas) ou ao próprio Cristo; o vínculo com essas figuras prejudicava a unidade naquela igreja. O tema não se esgota nesse capítulo, mas continua sendo tratado nos seguintes, como indicam as referências continuadas a essas mesmas figuras e ao seu papel da igreja (3:4-6,22; 4:6). É comum descrever esse problema como partidarismo.

Como Paulo começa a tratar do problema? Ele escreve: “Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?” (v. 13). As duas perguntas retóricas de Paulo mostram um tratamento inicial do problema: a unidade de Cristo, a unicidade da obra de Cristo e a uniformidade do Batismo, assunto a que ele retorna no capítulo 12. Cristo não está dividido, portanto a Igreja não pode estar. Paulo não foi crucificado em favor dos coríntios, ele não é salvador; Cristo é. Por isso mesmo, os coríntios não foram batizados em nome de Paulo, mas em nome de Cristo.

Note-se: Paulo coloca, ao lado de Cristo e de sua crucificação, o Batismo como fundamento da unidade dos coríntios. Eles foram lavados, santificados e justificados no mesmo nome (1Co 6:11). Quando se perguntam por sua identidade e, portanto, por sua unidade, os coríntios devem olhar para o Batismo e o fato de que foram batizados no mesmo nome, não no nome de Paulo ou de qualquer outra pessoa. Portanto, Paulo vê aqui, em algum sentido (esclarecido noutros textos), que o Batismo define a identidade cristã. Essa não é uma concepção “baixa” do sacramento, embora não esteja explícito o quão alta ela é.

Vemos, então, que o Batismo (como referencial) entra em cena como parte da solução para o problema de unidade entre os coríntios. Até aqui, a discussão não é sobre o papel ou importância do Batismo. Mas Paulo prossegue:

“Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo.” (vv. 14-17).

Como dito acima, em nenhuma parte do texto Paulo diz que o Batismo não tem importância ou valor salvífico. A intenção está no próprio texto. Quando Paulo diz que dá graças por não ter batizado (v. 14), o motivo não é uma ineficácia salvífica do Batismo, mas sim “para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome” (v. 15) e que “não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17). Quanto ao v. 15, Paulo é irônico quando diz que se alegra de não tê-los batizado; não por conta do Sacramento, mas pelo comportamento dos coríntios. Quanto ao v. 17, o leitor pode presumir que Cristo tenha orientado Paulo ao mais importante, mas o texto em si não diz que Paulo deveria pregar o evangelho por isso ser mais importante, ou mais necessário. Na verdade, Paulo não faz nenhuma oposição, nem estabelece nenhuma hierarquia de importância entre Pregação e Batismo.

Diante do texto como lemos até agora, poderíamos presumir que Paulo simplesmente tinha uma função e deixava o Batismo a outras pessoas. Assim, Cristo o teria direcionado a um ministério específico, para cumprir com maior excelência, só batizando excepcionalmente. Não há motivo para supor que seja algo além disso. Mas há algo mais, no texto: Paulo disse que foi enviado a pregar “não com sabedoria de palavra” (v. 17), e, com isso, dá início a uma longa teologia da cruz, na qual o próprio pregador da “palavra da cruz” é chamado a se esvaziar e ser crucificado. Assim, Paulo, que fora colocado como uma das preferências coríntias, agora humilha sua própria pregação como “loucura”. Por que Paulo traz esse tema logo em seguida, senão porque o auto-rebaixamento de Paulo seja, também, uma resposta ao partidarismo coríntios?

Assim, em vez de colocar sua própria pregação como sendo a coisa mais importante (o que o exaltaria diante dos coríntios), na verdade Paulo se coloca como aquele que faz coisa inferior, ainda que se glorie no Senhor. O que Paulo diz não é “eu sou um apóstolo e faço o mais importante”, mas “eu sou um apóstolo dedicado a essa missão que em nada me exalta”.

Sobre Pregação e Batismo, devemos reconhecer que tanto um quanto o outro são tratados como meios de salvação (de modos diferentes) nas Escrituras. Embora sejam necessários, em ambos os casos visualizamos exceções. Assim, crianças muito pequenas são salvas sem pregação; pessoas que morram antes do Batismo podem ser salvos sem eles. Mas essas situações não eliminam aquilo que o Espírito Santo faz ordinariamente através da Pregação e do Sacramento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Batismo não é só um símbolo (parte 2)

Minha publicação (13)

A doutrina da Regeneração Batismal é unânime entre os Pais da Igreja. De fato, entre eles há mais acordo sobre Regeneração Batismal do que sobre a Trindade. Enquanto a primeira é afirmada por todo mundo, a segunda teve um desenvolvimento histórico até chegar à explicação mais clara e permanente. Continue lendo “O Batismo não é só um símbolo (parte 2)”

O Batismo não é só um símbolo (parte 1)

Minha publicação (7)

Reunidos no cenáculo, os seguidores de Cristo, o discípulos, com Maria e tantas outras pessoa, oravam pela vinda do Espírito Santo, e foi naquele primeiro Pentecostes depois da Ressurreição que o Espírito veio sobre a Igreja. Cristo rogou ao Pai e ele enviou o outro Consolador, o qual, na Igreja, continuaria a missão de Cristo. Continue lendo “O Batismo não é só um símbolo (parte 1)”

C. S. Lewis e os Sacramentos

Resultado de imagem para C. S. Lewis

“Na verdade, minhas idéias sobre os sacramentos provavelmente seriam consideradas ‘mágicas’ por um bom número de teólogos modernos.” Cartas a Malcolm, Segunda Carta

Amado por muitos dos evangélicos mais jovens e odiado pelos neo-puritanos e neo-fariseus que o conhecem (pouco), C. S. Lewis ocupa um papel ambíguo no mundo evangélico. Afinal, ele não era um evangélico no sentido mais usual da palavra. Era um anglicano, e a Igreja Anglicana não é uma igreja evangélica, mas uma igreja com evangélicos e com diversas outras marcas de cristão. De fato, pode-se dizer que o movimento evangélico principiou na Igreja Anglicana; o evangélico anglicano é o evangélico raiz. Ainda assim, C. S. Lewis não pertencia a esse grupo. Era um cristão anglicano puro e simples, a mere Anglican.

Continue lendo “C. S. Lewis e os Sacramentos”

A Doutrina Anglicana dos Sacramentos

1467971258755

“Em nenhuma religião, seja verdadeira, seja falsa, se pode juntar os homens sem algum consórcio de sinais ou sacramentos visíveis.” Santo Agostinho, Contra Faustum 19.11

Gosto de dizer, fazendo graça e com um fundo de verdade, que eu me tornei anglicano por causa do batismo de crianças, rejeitado por tantos evangélicos. Poucas práticas da Igreja mostram tanta beleza na simplicidade e tanta verdade evangélica quanto o amor de Cristo que ali se lança sobre os pequeninos. Todo o Evangelho está ali, implícito ou explícito: o amor de Deus pela criação, a queda da natureza humana, a universalidade do pecado, a necessidade da graça regeneradora, a iniciativa divina na salvação, a Cruz e a Ressurreição, a presença da Igreja, a Santíssima Trindade. Se alguém tem dúvida sobre o princípio Sola Gratia, olhe para o batismo das crianças, que nada contribuem para a própria salvação, antes tudo recebem. Afinal, elas são um grande símbolo do Reino. Continue lendo “A Doutrina Anglicana dos Sacramentos”