Boas obras perdoam pecados?

Uma pessoa me fez esta pergunta: quanto ao papel das boas obras na justificação, elas “perdoam” transgressões da lei ou apenas ajudam no processo de santificação?

É patente que as boas obras têm um papel considerável na nossa salvação, pois nós somos perdoados quando andamos na luz. Esse papel inclui, com certeza a purificação dos nossos pecados, como diz o Senhor: “Antes, dai esmola do que tiverdes, e tudo vos será limpo.” (Lc 11:41).

Essas palavras do Senhor não estão isoladas, mas refletem um pensamento, presente desde o Antigo Testamento, de que as obras de compaixão pelos necessitados são mais eficazes que os sacrifícios para suplicar o favor do Senhor — prioridade responsável, em grande medida, pela distinção entre “lei moral” e “lei cerimonial”. Assim: “…a justiça livra da morte.” (Pv 10:2; 11:4); “Pela misericórdia e pela verdade, se expia a culpa…” (Pv 16:6); “Exercitar justiça e juízo é mais aceitável ao Senhor do que sacrifício.” (Pv 21:3); “…põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres…” (Dn 4:27); “…misericórdia quero, e não sacrifício…” (Os 6:6); “…a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz.” (Hb 13:16). O mesmo em Tobias e Siraque.

Por isso, lemos em 1Pedro 4:8: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados.” Nossa caridade cobre os nossos pecados. Um exemplo disso é a caridade feita para com aquele que se desviou da verdade, trazendo-o de volta ao caminho (Tg 5:19–20). Também isso cobre pecados.

Nas palavras do Rev. Jeremy Taylor (1613–1667), no seu livro Morte Santa: “…as esmolas são, portanto, eficazes para a abolição e perdão dos nossos pecados, porque elas são preparatórias e impetratórias da graça do arrependimento, e são frutos do arrependimento; e assim São Crisóstomo afirma que o arrependimento sem esmolas é morto, e sem asas, e não consegue levantar vôo até o elemento do amor.”

Essas coisas aparecem através da bela imagem da balança, que contrapõe virtudes e vícios: “o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança.” (1Sm 2:3); “Pesado foste na balança, e foste achado em falta.” (Dn 5:27)

Retornando à pergunta inicial, é importante entender: não há diferença real entre dizer que as boas obras perdoam pecados e dizer que elas ajudam na santificação. Nossas transgressões são indicadores (parciais) de nossa condição espiritual, do modo como cedemos às paixões da carne e, portanto, da santificação que precisa acontecer. Por isso, arrependimento da transgressão é santificação, como Deus ensina através do profeta:

Quando eu também disser ao perverso: Certamente, morrerás; se ele se converter do seu pecado, e fizer juízo e justiça, e restituir esse perverso o penhor, e pagar o furtado, e andar nos estatutos da vida, e não praticar iniquidade, certamente, viverá; não morrerá.” (Ez 33:14–15)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Princípios Protestantes, na versão equilibrada.

Texto originalmente publicado em 27 de fevereiro de 2019, na minha página do Facebook.

A Reforma Protestante costuma ser explicada a partir de alguns princípios, mas há sempre uma forma radical e uma forma equilibrada de tratar esses princípios.

SOLA FIDE
Forma Equilibrada — A salvação é somente por meio da fé em Cristo. Essa fé salvífica é uma fé viva e frutífera, que opera em amor, não uma fé morta.
Forma Radical — A salvação é somente por meio da fé em Cristo, e essa fé não tem qualquer relação com as obras. Não há qualquer necessidade de busca da santidade de vida (antinomismo).

SOLA GRATIA
Forma Equilibrada — Do começo ao fim, a salvação resulta da graça de Deus, pelos méritos de Cristo, que se tornam nossos de muitas maneiras (meios de graça, especialmente os sacramentos).
Forma Radical — Do começo ao fim, a salvação resulta da graça de Deus, e essa graça não está ligada a nada, sendo totalmente invisível e conhecida apenas internamente.

SOLA SCRIPTURA
Forma Equilibrada — Todos os artigos da fé cristã estão explícitos ou implícitos nas Escrituras Sagradas, havendo um papel fundamental na Tradição como preservação do sentido correto dessas Escrituras. Cada cristão pode fazer o livre exame dessas Escrituras, respeitando o papel histórico da Igreja como sua guardiã.
Forma Radical — Todas as verdades da fé cristã devem estar explícitas nas Escrituras Sagradas. Não há lugar para credos ou tradições (Solo Scriptura), portanto cada cristão é livre para interpretar as Escrituras.

SOLO CHRISTO
Forma Equilibrada — Cristo é o único caminho de salvação, e ele vem a nós através do seu corpo, cuja missão espiritual é não apenas falar sobre Cristo, mas realmente levar Cristo às pessoas.
Forma Radical — Cristo é o único caminho, portanto a Igreja é dispensável e desnecessária para a salvação.

SOLI DEO GLORIA
Forma Equilibrada — Toda a glória deve ser dada a Deus, e devemos honrar aqueles que nos precederam na fé e nos deixaram (em doutrina e em vida) exemplos de fé fundamentais para a nossa santificação. Maria é a mãe de Deus, bendita entre as mulheres.
Forma Radical — Toda a glória deve ser dada a Deus, portanto nenhuma outra pessoa deve ser digna de honra ou pode servir de exemplo. Maria foi uma mulher comum.

SACERDÓCIO UNIVERSAL
Forma Equilibrada — Cada cristão é vocacionado por Deus a exercer um sacerdócio com sacrifícios espirituais (oração, jejum, obras de misericórdia), testemunhar do nome de Cristo, intercedendo por outras pessoas. Os ministros do evangelho são pais espirituais.
Forma Radical — Todo cristão tem autoridade total para exercer1 qualquer ministério. Nenhum dom específico é concedido por Deus a certas pessoas para exercerem ministério do evangelho. Os ministros do evangelho são só professores.

O radicalismo é uma disjunção entre:
– Fé e Obras
– Graça e Sinal
– Escritura e Tradição
– Cristo e Igreja
– Adoração e Comunhão dos Santos
– Sacerdócio e Pastorado

O espírito católico protestante é o da unidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sem amor, a fé não salva. Todos concordam.

Porque, em Cristo Jesus,
nem a circuncisão,
nem a incircuncisão
têm valor algum,
mas a fé que atua pelo amor.

Gálatas 5:6

Esse é, decididamente, um dos meus textos favoritos de toda a Bíblia. É surpreendente notar, no entanto, o quanto esse versículo foi usado pelos cristãos das mais diversas tradições para esclarecer o significado da fé salvadora. Historicamente, esse texto foi usando para explicar também a distinção entre fé morta e fé viva em Tiago 2: a fé viva seria precisamente “a fé que atua pelo amor” (portanto uma fé que tem obras e amor); a fé morta seria a fé sem obras, demoníaca, marcada pelo mero temor (servil). Essa associação entre Gálatas 5 e Tiago 2 é o que eu chamo de “solução agostiniana” para a tensão textual entre Paulo e Tiago. É muito difícil encontrar alguma solução que não passe por ela em algum momento.

Enquanto falamos de fé ou de obras na salvação, parece que falamos de coisas diferentes; quando, no entanto, usamos essas palavras de Paulo para explicar com maior precisão o papel da fé na salvação, todos nós, partindo de perspectivas diferentes, caminhamos na direção de um mesmo equilíbrio. É parte do “mínimo ecumênico” da nossa soteriologia: a crença de que a fé justificante, a fé viva, é fé que opera pelo amor. Só vive pela fé quem vive pela fé viva.

Alguns exemplos (com ênfases diferentes):

“Depois de concluir que a fé está em nosso poder, visto que, quando alguém quer, vem a crer e, quando crê, crê por sua vontade, é mister investigar, ou melhor, recordar a que fé o Apóstolo se refere com tanta combatividade. (…) Esta é a fé pela qual se salvam aqueles a quem diz: ‘Pela graça sois salvos’ (…) Finalmente, esta é a fé que age pela caridade, não por temor, não temendo o castigo, mas amando a justiça.”
Santo Agostinho, O Espírito e a Letra, XXXII, 55, 57

“Assim ele diz ‘Pois em Cristo Jesus‘, isto é, naqueles que vivem na fé em Cristo, ‘nem a circuncisão nem a incircuncisão servem de nada‘, isto é, não fazem diferença, ‘mas a fé‘, não informe, mas o tipo ‘que opera pela caridade‘: ‘a fé sem obras é morta‘. Pois a fé é um conhecimento da palavra de Deus — ‘Que Cristo habite em vossos corações pela fé‘ — palavra que não é perfeitamente possuída ou perfeitamente conhecida a menos que seja possuído o amor pelo qual ela espera.”
São Tomás de Aquino, Comentário a Gálatas 5:6

“A fé deve, é claro, ser sincera. Deve ser uma fé que realiza boas obras através do amor. Se à fé falta o amor, ela não é fé verdadeira. (…) A fé ociosa não é fé justificante.”
Lutero, Comentário a Gálatas 5:6

“Portanto a fé que verdadeiramente justifica é aquela fé que opera através do amor.”
Colóquio de Ratisbona (Martin Bucer), Art V

“Porque a fé nem une perfeitamente com Cristo, nem faz membro vivo de seu corpo, se não se lhe ajuntarem a esperança e a caridade. Daí a razão de se dizer com toda a verdade: a fé, sem obras, é morta (Tgo 2, 17 ss) e ociosa [cân. 19]; e em Jesus Cristo nem a circuncisão nem o prepúcio valem coisa alguma, mas a fé que obra pela caridade (Gal 5, 6; 6, 15).”
Concílio de Trento, Sexta Sessão

“Essa fé morta portanto não é a fé certa e substancial que salva os pecadores. Há outra fé nas Escrituras, que não é (como a referida fé) ociosa, infrutífera e morta, mas que opera pela caridade (como São Paulo declara, Gálatas 5:6). De modo que, assim como a outra fé vã é chamada fé morta, assim também esta é chamada fé viva e vivaz.”
Primeiro Livro de Homilias (Igreja Anglicana), Homilia IV (Da fé verdadeira e viva)

“De modo que, embora a fé conduza o caminho da nossa justificação, ainda assim a santidade de vida manifestada nas obras de caridade, assim como todos os outros atos da vida piedosa, devem abrir para nós as portas do céu e conseguir para nós a entrada na mesma, como é evidente em São Mateus 25:34-41.”
Rev. Peter Heylyn, The Doctrine and Discipline of the English Church

“A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e na justiça dele, é o único instrumento de justificação; ela, contudo não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as outras graças salvadoras; não é uma fé morta, mas obra por amor.”
Confissão de Fé de Westminster (Igreja Presbiteriana), Cap XI, §II
[Seguida ipsis litteris pela Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 e pela Declaração de Savoy (congregacional)]

“O amor não é ingrediente numa fé meramente especulativa, mas é a vida e a alma da fé prática. Uma fé verdadeiramente prática ou salvadora é luz e calor juntos, ou antes luz e amor, enquanto que uma fé especulativa é somente luz sem calor; e, como lhe falta calor espiritual ou amor divino, ela é em vão, e para nada serve. Uma fé especulativa consiste somente na ascensão do entendimento; mas numa fé salvadora há também o consentimento do coração; e a fé que é apenas do primeiro tipo não é melhor que a fé dos demônios, pois eles têm uma fé apenas no tanto em que ela pode existir sem amor, crendo e tremendo.”
Jonathan Edwards, Love, the Sum of All Virtue

“Na fé justificadora o ser humano confia na promessa graciosa de Deus; nessa fé estão compreendidos a esperança em Deus e o amor a Ele. Essa fé atua pelo amor; por isso o cristão não pode e não deve ficar sem obras.”
Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, 4.3.25

“A fé, portanto, não inclui apenas um assentimento à verdade do Evangelho, mas envolve também um compromisso de nossa vontade para com Deus em arrependimento e obediência ao seu chamado; do contrário, a fé é morta (Tg 2:17). A fé viva é inseparável do amor, produz boas obras e aprofunda-se ao longo de uma vida de santidade. (…) Assim como justificação e santificação são dois aspectos do mesmo ato divino, assim também a fé viva e o amor são inseparáveis no crente. A fé não é uma disposição meramente privada e interior, mas por sua própria natureza ela é exteriorizada em ação: boas obras necessariamente brotam de uma fé viva (Tg 2:17ss).”
ARCIC II (Segunda Comissão Internacional Anglicana – Católico-Romana), Salvation and the Church, 10 e 19

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Nova Perspectiva sobre Paulo

Um dos desenvolvimentos mais interessantes e importantes da teologia protestante na segunda metade do século XX é a Nova Perspectiva sobre Paulo, uma proposta de correção de certas leituras da teologia do apóstolo acerca da justificação e temas conexos. De acordo com essa releitura, a doutrina paulina da justificação pela fé não procura responder à pergunta “Como encontramos salvação?”, mas sim “Como sabemos quem é parte da comunidade ou não?”. O debate entre Paulo e seus críticos seria diferente daquele entre Santo Agostinho e seus críticos, ou entre Lutero e seus críticos. Continue lendo “A Nova Perspectiva sobre Paulo”

Trapo de Imundícia ou Linho Fino?

Judas

“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.” (Isaías 64:6)

“Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.” (Apocalipse 19:7-8)

Na interpretação evangélica popular de Is. 64:6, ocorre um erro bastante comum, que é o de atribuir a esse texto uma abrangência universal: o “nossas” de Isaías se torna o “nossas” do leitor e do restante da humanidade, de modo que toda as nossas boas obras (“justiças”) passam a ser vistas como más, sujas, imundas, pecaminosas. Trapo de imundícia são os panos sujos que cobrem coisas que, pela lei mosaica, são julgadas como imundas, como a pele dos leprosos. Continue lendo “Trapo de Imundícia ou Linho Fino?”

Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas

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“Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.” (Romanos 14:10-12)

Embora as Sagradas Escrituras, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, repetidas vezes mencione o juízo escatológico, no qual os vivos e os mortos comparecerão ante o tribunal de Deus para serem julgados segundo as suas obras (cf. Mt. 16:24-27; Rm. 2:4-10; Ap. 20:12-15), recebendo por elas o seu destino eterno, esse tema perdeu vigor na linguagem teológica protestante no século XX, recuperando-se apenas através dos esforços renovados de biblistas. Continue lendo “Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas”