O problema não é com Deus!

Jesus não veio ao mundo para nos salvar de Deus. Jesus não veio ao mundo para aplacar a ira de um “pai” que deseja ver morte, sangue e violência para se satisfazer. Essa imagem de Deus está totalmente errada, indigna do Eterno, indigna da Santidade Absoluta, indigna de Jesus.

O que aconteceu é que, na época da Reforma, muitas pessoas carregavam uma imagem muito errada de Deus. Não dá para dizer que essa imagem era universal naquela época, pois encontramos doçura e misericórdia em muitos dos pregadores e místicos medievais, como São Bernardo (que tanto inspirou Lutero), Santa Gertrudes, Santa Juliana de Norwich. Mas certamente essa imagem odiosa de Deus foi a que vários reformadores receberam. Ela está no Purgatório de Tomás More, por exemplo.

Veja o que Calvino escreve no livro II das Institutas:

Ora, uma vez que ninguém pode descer dentro de si mesmo e sondar seriamente o que quer que seja sem que, sentindo a Deus irado e hostil para consigo, não tenha necessidade de buscar ansiosamente meio e maneira de aplacá-lo; o que exige satisfação requer-se certeza não comum, visto que sobre os pecadores, até que tenham sido absolvidos da culposidade, cai sempre a ira e maldição de Deus, o qual, visto ser justo Juiz, não deixa impune quem viola sua lei; pelo contrário, armado ele está para a punição.” (XVI, 1)

O que Calvino diz aí? Ele descreve uma experiência de introspecção (“descer dentro de si mesmo”). O que quer que sondasse dentro de si, ele via essa imagem um “Deus irado e hostil para consigo”, e uma necessidade de aliviá-lo. Eu não acredito que Calvino visse só isso em Deus, pois muitas outras partes refletem um pensamento diferente, mas certamente ele sofria com esses escrúpulos de uma consciência anormalmente pesada.

Eu não sei o que é descer dentro de mim mesmo e encontrar esse Deus irado. Boa parte do tempo eu vejo meus muitos e graves pecados, mas, olhando mais profundo, sempre vejo o Deus de amor infinito do qual eu dependo. Eu vejo minha dependência, fragilidade, necessidade. Mas já vi pessoas descreverem exatamente o que Calvino descreve, e vi as consequências danosas desse tormento.

O que ele fez, então? Fez o que a Escritura manda: foi até Cristo para buscar alívio e descanso para a alma, lançou seus fardos sobre Cristo. Mas o fez do jeito errado, e, por isso, em vez de curar a imagem errada que tinha do Pai, ele preservou e reproduziu essa imagem, com a solução errada.

A ira do Pai é seu desgosto com o pecado que nos destrói, que destrói as pessoas ao nosso redor, que destrói a Criação, que sumamente destrói nossa comunhão com ele. O problema que Jesus veio solucionar não é um problema com Deus, mas conosco.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Igreja Anglicana é reformada?

Por algum motivo, várias pessoas diferentes me fizeram a mesma pergunta: a Igreja Anglicana não é reformada?

É preciso entender que a Igreja Anglicana não é calvinista. Quando o Arcebispo Whitgift tentou tornar certo calvinismo moderado em doutrina anglicana, nos Artigos de Lambeth (1595), eles foram rejeitados. Ou seja, a Igreja Anglicana rejeitou o calvinismo como doutrina quando a proposta foi feita. (O que não significa que não haja influências calvinistas na doutrina e liturgia anglicanas; elas existem e são bastante positivas.)

Como eu digo muitas vezes: os 39 Artigos de Religião ensinam a doutrina da eleição e rejeitam ensinamentos como expiação limitada e perseverança dos santos, além de ensinarem certa cooperação com a graça. O Livro de Homilias tem um sermão cujo propósito é ensinar o perigo de perder a salvação. Um trecho:

“Pois se Deus mostrou, a todos os que creem verdadeiramente em seu Evangelho, sua face de misericórdia em Jesus Cristo, que ilumina seus corações, para que eles (se a observarem como devem) sejam transformados em sua Imagem, sejam feitos participantes da luz celeste e do seu Espírito Santo, e sejam conformados a ele em toda a bondade exigida dos filhos de Deus; então, se posteriormente eles negligenciam tais coisas, se forem ingratos a ele, se não ordenarem suas vidas de acordo com seu exemplo e doutrina, e ao anúncio de sua glória, ele lhes tirará o seu Reino, sua santa palavra, pela qual ele reinaria neles, por eles não trazerem o fruto que deles ele buscava.” — Livro de Homilias, On Declining from God

Esse trecho não só ensina a possibilidade de perder a salvação, como o faz à luz da doutrina da dupla justificação. Não se trata da doutrina luterana — perda de salvação por perda da fé —, mas a perda da salvação por pecado.

***

Para os reformadores ingleses, era bem óbvio que a salvação podia ser perdida. Outro dia, compartilhei um trecho em que Hugh Latimer fala sobre essa possibilidade. Quem descreve esses homens como calvinistas não sabe bem o que diz. Eles acreditavam em predestinação, mas não a predestinação como posteriormente definiria Dort.

É por isso que o Art. 16 fala da possibilidade de cair da graça do Espírito Santo através do pecado, o que é óbvio para quem acredita em Regeneração Batismal. De fato, a homilia “On the Declining from God” (do Livro de Homilias da Igreja da Inglaterra), usando a famosa parábola da vinha em Isaías 5, expressa esse fato dizendo:

“…eles não mais serão do seu reino, eles não mais serão governados por seu Espírito Santo, eles serão tirados da graça e dos benefícios que tinham e que desfrutariam eternamente por Cristo, eles serão privados da luz celestial e da vida que tinham em Cristo enquanto permaneciam nele; eles serão (como um dia foram) homens sem Deus no mundo, ou até pior. Em suma, eles serão dados ao poder do diabo, que exerce domínio em todos os que são lançados de Deus, como fez com Saul e Judas (1Samuel 15:23; 16:14), e geralmente em todos quantos operam por suas próprias vontades, filhos da desconfiança e da descrença.”

A mesma homilia ensina ensina: “assim como a salvação é prometida aos fiéis em palavra e obra”.

***

Revmo. Hugh Latimer (☩1555), bispo anglicano e mártir, sobre perda da salvação:

“Então essas pessoas que ainda não vieram a Cristo, ou, se vieram a Cristo, caíram novamente dele e assim perderam sua justificação (assim como há muitos de nós que, quando caímos voluntariamente no pecado contra a consciência, perdemos o favor de Deus, nossa salvação e finalmente o Espírito Santo)…” — Sermão sobre a Epístola do Primeiro Domingo do Advento

Primeiro podemos saber que podemos estar no livro num momento e noutro momento sair dele; como parece ser com Davi, que foi inscrito no livro da vida; mas quando pecou, naquele momento ele ficou fora do livro do favor de Deus, até que se arrependeu e se entristeceu por suas faltas. Assim podemos estar no livro uma vez e, em seguida, quando esquecemos de Deus e de sua palavra e agimos impiamente, saímos do livro; isto é, saímos de Cristo, que é o livro.” — Sermão do Terceiro Domingo depois da Epifania

***

No nosso Livro de Oração Comum, a oração (coleta) desta semana é uma na qual a possibilidade de perda da salvação é apresentada:

“Ó Deus, protetor dos que em ti confiam, sem o qual nada é forte, nada é santo; acrescenta e multiplica a tua misericórdia para conosco, a fim de que, sob o teu governo e direção, vivamos esta vida de tal maneira que não percamos a vida eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.”

O trecho relevante é o que diz “vivamos esta vida de tal maneira que não percamos a vida eterna”. Essa oração está presente também na edição mais importante do LOC (1662), numa forma mais simples.

Nessa oração, vemos algo constante na Lex Orandi anglicana, particularmente nas coletas semanais: afirmamos, ao mesmo tempo, que podemos perder a vida eterna através do nosso modo de vida mau e, por outro lado, que perseveramos no caminho é graça de Deus, pelo que lhe pedimos.

O cair é do homem; o firmar é de Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Eu sou um eleito? Meu filho é um eleito?

O arminianismo e o calvinismo, nas suas versões mais comuns populares, têm certos problemas pastorais que são muito mais fáceis de resolver quando se tem uma perspectiva mais equilibrada e multifacetada. Não adianta discutir esses assuntos, ou rejeitar toda discussão, sem atentar para o modo como essas coisas afetam a vida das pessoas.

O calvinismo, particularmente o de tipo mais puritano, acentua o primeiro problema: eu sou um eleito? O Arminianismo acentua o segundo: O meu filho é um eleito?

Quando criamos uma barreira intransponível entre os salvos e os condenados, e vemos que os primeiros, os eleitos de Deus, devem ser identificados por certas características de “comportamento piedoso”, entramos no primeiro problema. Pois os cristãos mais sérios são aqueles que mais percebem suas próprias insuficiências, e, por isso, nesse esquema, são os que mais provavelmente encontrarão problemas de consciência e duvidarão da esperança da vida eterna, enquanto os que vivem na letargia da doutrina abstrata sem exame de vida, aqueles que têm pecados comuns e aceitos ou invisíveis — a inveja, a gula, a avareza, certas formas de soberba —, não terão problema em se verem como eleitos, especialmente quando cercados de discursos do tipo “descanse em Deus”. Tudo o que o preguiçoso quer ouvir é “descanse!”.

Como não há uma maneira de transpor o caminho dos perdidos para os salvos — aquilo que se chamou de “graça suficiente” —, nós nos deparamos com um “grande abismo”, sem ter o que fazer e sem saber se Deus virá em nosso socorro. As pessoas que caem nesse desespero artificial, criado pela doutrina, serão consideradas como realmente perdidas, pessoas que nunca foram eleitas, que nunca acreditaram “de fato”. Assim, o grupo preserva o senso de que seu remédio realmente funciona — se não funcionou em alguém, aquela pessoa é a culpada. O sofredor é culpado pelo sofrimento. A solução reforça o problema.

Isso é muito fácil de resolver quando você entende que a fonte da graça está bem diante de você. A possibilidade de cooperar com essa graça nos permite perceber que não somos inertes. Não há muro, mas uma escada, cujo primeiro degrau está bem à nossa frente. Graça suficiente e cooperação são necessárias.

Por outro lado, há outro problema, o problema de Santa Mônica e de tantas mães, de tantos pais, ao longo dos séculos, que viram seus filhos longe da graça e da fé. O pensamento de que nossa conversão depende, num nível último, de nossa própria escolha, gera o problema de que não há nada que possamos fazer pelo pecador endurecido, nada que nos dê a segurança de que tudo está nas mãos de Deus.

O que fazemos por essas pessoas? Nós pregamos, nós amamos, nós perdoamos, nós damos exemplo de vida, nós apoiamos, nós temos paciência, nós testemunhamos com misericórdia — tudo isso como “cooperadores de Deus” —, mas, acima de tudo isso, nós invocamos aquele que tem em suas mãos todos os corações e que é poderoso para abrir os olhos espirituais, para mover as vontades, para curar os sentimentos feridos, para saciar todos os desejos da nossa alma na direção do sentido último, que pode remover o coração de pedra, que pode libertar de todo cativeiro das trevas e iluminar o nosso espírito com um clarão que espanta toda a escuridão — aquele que não respeita o pecado e, por isso, não precisa respeitar nossa (falsa) liberdade de pecar.

Então oramos com fé pelo pecador, crendo na eficácia da graça divina. Nós nos desesperamos quando achamos que tudo depende de nós — que a conversão do meu filho depende dele —, mas temos uma firme esperança quando acreditamos naquele que, através de nossas orações, pode inundar a todos nós, especialmente àqueles a quem amamos, com uma torrente extraordinária de graça, atraindo com laços de amor. A graça eficaz é necessária.

Esses problemas pastorais se devem, em parte, a que essas teologias não resultem da experiência histórica dos cristãos, mas do exame de teólogos deduzindo proposições a partir do texto bíblico.

Nenhum teólogo é uma ilha, é claro. Todo teólogo leva sua tradição e experiência — como pecador, como cristão, como membro de uma comunidade concreta, como representante de uma classe social ou raça, como ser humano diante do problema da existência — para o exame da doutrina, na saúde ou na doença, mas a teologia que procura conscientemente se atentar para a experiência e reconhecê-la é diferente. Uma teologia que emerge de séculos de tradição foi “testada” — sabemos os seus resultados e limites. Uma que, assim que surge, logo se torna dogma exigido pela comunidade, não passou pelo exame.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Você acredita na predestinação sem saber

the-creation-of-adam-michelangelo-buonarroti.jpg

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29

Se você é cristão, provavelmente acredita em alguma forma de predestinação, mesmo que não goste da palavra ou não se dê conta. Com isso, quero dizer que certa forma de predestinação está implícita na crença, compartilhada por todos os cristãos, de que Deus criou (e sustenta) o Universo, e que ele sabe de todas as coisas, inclusive o futuro de sua própria Criação. Continue lendo “Você acredita na predestinação sem saber”

Predestinação sem Romanos 9

1200px-Oxyrhynchus_209_(p10)[1]Predestinação é um assunto maravilhoso, cheio de mistério e de glória, como deve ser tudo aquilo que envolve o nome do Altíssimo. Como tudo o que envolve o nome do Altíssimo, perde inteiramente seu sabor, seu perfume, quando tentamos imprensá-lo em certas fórmulas, como se tudo fosse inteiramente compreensível, aceitável. Como se tudo fosse inteiramente burguês. As fórmulas são ótimas, atendem a certas necessidades nossas, necessidades de comunicação, de sistema, de identidade grupal, de fé e de busca para a verdade, mas elas nunca, jamais esgotam quem Deus é. Se verdadeiras, elas sempre nos abrem para a imensidão da Sabedoria Divina, que contemplamos em silêncio estupefato. Continue lendo “Predestinação sem Romanos 9”

Graça resistível e irresistível

old-man-in-prayer-exlrg

A graça é resistível ou irresistível? Talvez essa não seja a melhor linguagem, a mais adequada. Ela parece indicar uma luta da graça contra nós, uma oposição ao ser humano, como se a liberdade divina anulasse a nossa, um invasor a ser resistido, quando na realidade a graça cumpre em nós nosso chamado mais íntimo, nossa vocação mais profunda, o propósito mesmo de nossa existência — ela opera em nosso favor, não contra nós. Ainda assim, é uma linguagem justificável, pois o Espírito Santo age certamente contra a pior parte de nós mesmo, combatendo a carne (Gl. 5:17). O ser humano trabalha contra si mesmo. Falar em graça irresistível é sinalizar que a onipotência divina também está em jogo quando falamos sobre salvação. Continue lendo “Graça resistível e irresistível”

A Doutrina Anglicana da Predestinação

BCP

Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Filipenses 4:5a

A teologia anglicana recebeu diversas influências dos pais da Igreja, dos escolásticos e medievais, das reformas luterana e calvinista. O cultivo dessa teologia se deu como via média entre a pressão do radicalismo puritano e o tradicionalismo romano. Como via média, seu papel não foi o de produzir nenhuma nova doutrina — nenhuma doutrina é propriedade anglicana! —, mas reconciliar os extremos através de um culto comum, reconhecendo a intimidade entre nossa fé e nossa adoração. A batalha teológica anglicana sempre foi pela fé orada, não apenas pela fé professada. Continue lendo “A Doutrina Anglicana da Predestinação”

Um Calvino diferente

calvino

Eu não sou calvinista. Embora concorde com os calvinistas com relação à Eleição Incondicional, não concordo com as doutrinas da Perseverança dos Santos, nem com certas formulações da Expiação Limitada, nem consigo ver como compatível com as Sagradas Escrituras que a graça salvífica seja sempre Irresistível, ainda que seja finalmente vitoriosa. Isso é minha forma de dizer: eu não sou calvinista. Não sou membro de uma comunidade calvinista. Não tenho nenhum amor particular pelo calvinismo. Não planto tulipas. Continue lendo “Um Calvino diferente”