O Perdão segundo Jesus

As parábolas de Jesus nos dão uma imagem magnífica do perdão divino.

Na mais famosa, a do Filho Pródigo, o perdão escandaloso do pai vence toda a vergonha pública e se lança sobre filho, mesmo antes que ele confesse o seu pecado, e o chama à alegria do banquete escatológico. Bastou o retorno do filho. É o perdão doado sem reservas, sobre um filho que havia desonrado o pai, pela felicidade do retorno. O perdão é a reconciliação, é reviver, é ser encontrado.

Na parábola do Credor Incompassivo, o perdão é exigente quanto ao nosso comportamento futuro, mas sua compaixão diante da humilhação penitente é tamanha que toda a dívida é perdoada — nenhum centavo resta a pagar.

Repetindo o tema, a Parábola dos Dois Devedores fala da motivação do perdão: os dois devedores não têm com o que pagar, e o resultado é que aquele que foi mais perdoado amou mais.

Na parábola mais próxima da realidade humana (parábola exemplar), a do Fariseu e do Publicano, novamente bastou confissão penitente e contrita do publicano diante do altar divino, sem o desejo de parecer melhor do que ninguém, e ele retornou para casa justificado.

Essas lindas parábolas estão em continuidade com as narrativas patriarcais de perdão gratuito — de como Esaú e Jacó se reconciliam, ou de como José perdoa os seus irmãos —, e se inserem no Pai Nosso, no qual o perdão divino sobre nós e o perdão humano sobre os nossos devedores se vinculam tanto em natureza (perdoamos do medo modo) como em dependência (somos perdoados porque perdoamos).

A imagem que essas parábolas transmitem não é a de um Pai exigente que só perdoa quando é satisfeito, quando tem sua honra reparada (Sto Anselmo) ou quando tem sua ira satisfeita com violência (Calvino). Deus é maior que a mesquinharia humana.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus não estudou Hermenêutica

Jesus não era biblicista. Certamente ele reconhecia e afirmava a veracidade e a autoridade das Escrituras, referindo-se a eles em seus ensinos. Mas ele as usa com relativa liberdade, seguindo padrões conhecidos da halāḵâ judaica, encarando-as mais como janelas do que como destinos. Ele não esperava que os seus interlocutores usassem as Escrituras de modo restrita, antes traz mais cartas para a mesa.

No diálogo com o intérprete da lei em Lc 10:25ss, Cristo concorda em colocar dois mandamentos da lei acima de todos os demais, mas discorda de que o mandamento do amor ao próximo se limite aos compatriotas. O problema é: se lido de maneira puramente contextual, o mandamento se referia, sim, apenas ao amor entre os israelitas:

Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:18)

Por implicação do paralelismo, o “próximo” corresponde aos “filhos do teu povo”. Essa é a leitura mais natural do texto. Por isso mesmo, o capítulo contém um segundo mandamento equiparando os estrangeiros que vivessem entre os israelitas (Lv 19:33-34); o primeiro mandamento não dava conta. Isso é uma importante expressão de humanidade e empatia, mas não é, ainda, em termos de contexto estrito, um mandamento de amor universal e irrestrito.

Então Cristo usa o mandamento para além dos seus limites contextuais e da intenção do autor. Ele não traz aí um mandamento novo — não é uma questão de “antiga aliança e nova aliança” —, mas observa como deve ser aplicado o mandamento antigo, como a lei deve ser usada. O texto não é a regra última, mas uma expressão dela.

Assim também, nas discussões sobre o sábado. No dia santo, seus interlocutores circuncidavam (Jo 7:21-24) e sacrificavam (Mt 12:5), e isso encontra amparo na lei, de modo que Cristo apela a uma hierarquização implícita nela, que deve ser válida também em situações não prescritas, como naquela de curar no sábado ou alimentar pessoas.

Mas a argumentação vai além: no sábado, eles levavam seus animais para beber água e socorriam seus filhos e animais caídos numa vala (Lc 13:15; 14:5), e isso é um apelo ao senso moral (expresso na lei oral), não à própria lei escrita. O fermento dos fariseus, a hipocrisia (Lc 12:1), consistia precisamente em ocultar o senso moral, e julgar as coisas apenas através de uma prescrição fria da lei, quando ela lhes convém.

Em outras palavras, Cristo exige dos seus interlocutores uma leitura não biblicista, na qual seja válido o princípio da analogia legal através do senso moral. Ele foi além da intentio auctoris e reclamou com quem não fez o mesmo. Se a hermenêutica é a ciência do contexto, Cristo nunca estudou hermenêutica.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo, o Samaritano


Ao contar a Parábola do Bom Samaritano, Cristo reencenou e aprofundou criativamente um tema dos profetas de Israel. Em particular, a parábola provavelmente alude ao sexto capítulo do livro de Oseias. O escriba (real ou ficcional) conhecia essas imagens.

Em primeiro lugar, a essência da parábola pode ser resumida nas palavras célebres do profeta: “misericórdia quero, e não sacrifício” (6:6) — essa era a diferença entre o samaritano (que usou de misericórdia) e o sacerdote ou o levita, preocupados com seus ritos e sacrifícios, mas sem misericórdia. No caso do Cristo lucano, essa mensagem é agora reorientada a expandir o “amor ao proximo” além das fronteiras nacionais.

Em segundo lugar, o texto de Oseias carrega a crítica aos sacerdotes, tratados como perversos e corruptos. “Como bandos de assaltantes que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém…” (6:9). Na parábola, o que mata não é a ação dos sacerdotes, mas sua negligência, indiferença e incompaixão. Eles são como cúmplices, nesse sentido. A Siquém de Oseias, assim como a Jericó da Parábola, é o caminho do Norte, o caminho do Inimigo.

Em terceiro lugar, o próprio Deus se compromete a curar a nação (6:1), vivificando-os ao segundo e ao terceiro dias (6:2). No entanto, enquanto ali a ferida a ser curada é causada pelo próprio Deus, como castigo, na parábola a ferida é causada por ladrões.

Essa história profética agora é relida a partir da mensagem de Cristo sobre o amor para com o inimigo, não presente na crítica original, embora não também desconhecida de Israel (p. ex. Jonas; Jacó e Esaú). Mas aqui essa misericórdia não é reativa (ao arrependimento), mas iniciativa. Na narrativa de Lucas, Cristo havia sido “proscrito” da vila samaritana.

Ao ler a parábola em continuidade com essa crítica profética, ela assume uma aplicação mais ampla do que a óbvia, na misericórdia pessoal nas necessidades básicas — ela nos desafia a reavaliar a maneira como limitamos o nosso amor no trato para com os de fora. Essa misericórdia não é uma doutrina abstrata; ela é vista como um projeto divino no mundo, diferetamente ligado à restauração de Israel, e Deus aparece como aquele que cura. Cristo desafia o escriba a ler o mandamento (do amor ao próximo) para além do contexto original, que provavelmente falava do amor apenas entre israelitas e imigrantes.

Quanto ao seu núcleo se sentido, a parábola não é uma alegoria, mas uma história exemplar (Caird). No entanto, ela tem várias camadas, sendo construída a partir de imagens recebidas das tradições proféticas de Israel — como acontece de modo óbvio também na Parábola dos Lavradores Maus. E, nesse sentido, ela naturalmente se presta ao uso cristão posterior, como alegoria de Cristo como exemplar máximo de amor, como Divino Samaritano.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Boas obras perdoam pecados?

Uma pessoa me fez esta pergunta: quanto ao papel das boas obras na justificação, elas “perdoam” transgressões da lei ou apenas ajudam no processo de santificação?

É patente que as boas obras têm um papel considerável na nossa salvação, pois nós somos perdoados quando andamos na luz. Esse papel inclui, com certeza a purificação dos nossos pecados, como diz o Senhor: “Antes, dai esmola do que tiverdes, e tudo vos será limpo.” (Lc 11:41).

Essas palavras do Senhor não estão isoladas, mas refletem um pensamento, presente desde o Antigo Testamento, de que as obras de compaixão pelos necessitados são mais eficazes que os sacrifícios para suplicar o favor do Senhor — prioridade responsável, em grande medida, pela distinção entre “lei moral” e “lei cerimonial”. Assim: “…a justiça livra da morte.” (Pv 10:2; 11:4); “Pela misericórdia e pela verdade, se expia a culpa…” (Pv 16:6); “Exercitar justiça e juízo é mais aceitável ao Senhor do que sacrifício.” (Pv 21:3); “…põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres…” (Dn 4:27); “…misericórdia quero, e não sacrifício…” (Os 6:6); “…a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz.” (Hb 13:16). O mesmo em Tobias e Siraque.

Por isso, lemos em 1Pedro 4:8: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados.” Nossa caridade cobre os nossos pecados. Um exemplo disso é a caridade feita para com aquele que se desviou da verdade, trazendo-o de volta ao caminho (Tg 5:19–20). Também isso cobre pecados.

Nas palavras do Rev. Jeremy Taylor (1613–1667), no seu livro Morte Santa: “…as esmolas são, portanto, eficazes para a abolição e perdão dos nossos pecados, porque elas são preparatórias e impetratórias da graça do arrependimento, e são frutos do arrependimento; e assim São Crisóstomo afirma que o arrependimento sem esmolas é morto, e sem asas, e não consegue levantar vôo até o elemento do amor.”

Essas coisas aparecem através da bela imagem da balança, que contrapõe virtudes e vícios: “o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança.” (1Sm 2:3); “Pesado foste na balança, e foste achado em falta.” (Dn 5:27)

Retornando à pergunta inicial, é importante entender: não há diferença real entre dizer que as boas obras perdoam pecados e dizer que elas ajudam na santificação. Nossas transgressões são indicadores (parciais) de nossa condição espiritual, do modo como cedemos às paixões da carne e, portanto, da santificação que precisa acontecer. Por isso, arrependimento da transgressão é santificação, como Deus ensina através do profeta:

Quando eu também disser ao perverso: Certamente, morrerás; se ele se converter do seu pecado, e fizer juízo e justiça, e restituir esse perverso o penhor, e pagar o furtado, e andar nos estatutos da vida, e não praticar iniquidade, certamente, viverá; não morrerá.” (Ez 33:14–15)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por eu amo o Evangelho de Lucas?

Dez Razões:

1. É o único evangelho que fala dos muitos evangelhos anteriores (1:1-4). Esse prólogo é bem precioso dentro da nossa compreensão da formação dos evangelhos.

2. É um evangelho mais dirigido a um público gentio, mas contém uma quantidade surpreendente de ditos de Jesus não interpretados, preservados numa forma semítica mais original que a de Mateus, como “Bem-aventurados [vós], os pobres” (6:20) ou o dito sobre odiar a todos (14:26).

3. Enquanto Mateus segue Marcos muito de perto, Lucas produz uma reorganização muito mais intensa. Com isso, ele se torna o evangelho mais longo. (Não deixe que o número de capítulos que usamos para dividir Mateus te iluda.)

4. É o único dos quatro evangelhos em que a mulher que ungiu Jesus foi uma “pecadora” (Lc 7), que Cristo acolhe. Nos demais evangelhos, a história se dá com uma mulher de Betânia (Maria de Betânia em João).

5. Dos quatro evangelhos, é o que enfatiza mais o lugar dos pobres e necessitados (anawim) e, com isso, tem uma ênfase na compaixão maior que os demais evangelhos. Também é um evangelho que fala mais sobre as mulheres em torno de Cristo. De fato, o Cristo lucano associa esse alcance dos pobres e perdidos à sua missão explicitamente (4:16-21; 19:10). (Mais sobre isso adiante.)

6. É o que tem mais parábolas exclusivas, como o Bom Samaritano, a Moeda Perdida, o Filho Pródigo, o Juiz Injusto, o Rico e Lázaro, o Fariseu e o Publicano. Naturalmente, muitas dessas parábolas tematizam a compaixão. Não são apenas parábolas exclusivas, mas também são parábolas que cativaram a imaginação dos cristãos ao longo dos séculos.

7. É evangelho que tem a maior narrativa natalina, com vários cânticos e anjos; Mateus tem algo, Marcos e João não têm nada. Por isso, é o evangelho que chama Maria de “mãe do meu Senhor”. Essa narrativa natalina exclusiva tem uma participação intensa do Espírito Santo, com diversas ações e revelações, um “pré-Pentecostes”.

8. É o evangelho que conecta mais explicitamente a mensagem apocalíptica de Cristo à destruição de Jerusalém pelos romanos (Lc 21).

9. É o evangelho que mais tematiza o custo de seguir Jesus.

10. O evangelho de Lucas não tem quase nenhuma explicação salvífica para a cruz de Cristo. (Mais sobre isso adiante.)

Lucas não é o mais impressionante, mas com certeza é o mais surpreendente dos evangelhos.

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Se os evangelhos sinóticos já manifestam interesse na compaixão, o Evangelho de Lucas é o que mais ressalta a preocupação de Jesus para com os pobres, pequenos e perdidos.

Alguns exemplos:

• As bem-aventuranças que em Mateus falam dos “pobres de espírito” e dos que “têm fome e sede de justiça” (5:4,6), em Lucas se referem aos “pobres” e que “têm fome“, contrapostos aos ricos e fartos (6:20-21a,24-25).

• Somente Lucas registra as palavras de Jesus sobre convidar os pobres e doentes, não os amigos e ricos, para um banquete (14:12-14).

• Somente Lucas registra parábolas sobre os perdidos que desejam se aproximar de Deus e são impedidos ou julgados por outras pessoas, como o Filho Pródigo, o Fariseu e o Publicano e, indiretamente, também o Bom Samaritano. Também só nesse evangelho aparece a parábola do Rico Tolo.

• Assim também, só nesse Evangelho aparece a história de Zaqueu, a versão da história da mulher que ungiu Jesus em a mulher é uma pecadora, e a ressurreição do filho da viúva em Naim.

Por isso, Lucas mostrou também em mostrar, no livro de Atos, a solidariedade dos discípulos para com os necessitados e viúvas. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;” (Lc 4:18a)

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Uma observação interessante, sobre o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos, é que seu autor, mais do que qualquer outro na Bíblia, trata o exorcismo como cura, dizendo que os possessos são curados.

Por exemplo:

Lucas 8:2 “…algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades…”

Atos 5:16 “…doentes e atormentados de espíritos imundos, e todos eram curados.”

Isso afeta a discussão sobre a relação entre o exorcismo e os carismas do Espírito santo, já que Paulo fala em “dons de curar”.

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Jesus morreu pelo perdão dos nossos pecados?

Um dos traços mais surpreendentes da obra de Lucas (Evangelho e Atos) é a ausência quase completa de uma explicação teológica da paixão e crucificação de Jesus. A morte de Cristo aparece muito mais como um martírio, nunca como um sacrifício expiatório explícito.

Mesmo na narrativa da instituição da Eucaristia, diz-se apenas que o sangue de Cristo é derramado “hyper hymōn” (por vós, em vosso benefício), sem uma conexão com a remissão dos pecados, que aparece em Mateus (cf. Mt 26:28; Lc 22:20).

No livro de Atos, nos momentos em que a graça e a remissão de pecados são mencionadas, não há ligação explícita com a paixão e crucificação. Para Lucas, é possível pregar o Evangelho, ao menos em sua forma mais primitiva e querigmática, sem referência à remissão dos pecados, mas não sem o milagre da ressurreição.

Por outro lado, em vários momentos se fala da paixão do Senhor e de como essa morte foi predeterminada nos planos divinos, de como Cristo tinha que sofrer, mas os sermões são marcados pela ênfase típica lucana sobre o milagre: agora, a ressurreição, a exaltação após o sofrimento. Cristo precisou padecer (At 3:18), é verdade, mas os discípulos também (5:41; 9:16).

Em toda a obra lucana, possivelmente a única referência significativa a uma interpretação teológica é At 20:28, que trata o sangue de Cristo como “compra”, não como expiação.

O Credo Apostólico, que não fala da crucificação e remissão de pecados no mesmo fôlego, preserva algo desse querigma lucano.

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A divindade de Jesus às vezes está implícita nas palavras do evangelho. Jesus é aquele que dá sabedoria, por exemplo:

Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem.” (Lucas 21:14-15)

Rev. Gyordano M Brasilino

Alegria na morte do ímpio?

Não devemos nos alegrar com a morte de ninguém.

Cristo criou um grande problema quando fez duas afirmações: (1) que devemos tratar outras pessoas como queremos ser tratados por Deus, e (2) que devemos imitar a bondade de Deus para conosco — basicamente quando ele ancorou, com rigidez, os imperativos das criaturas finitas na Bondade Infinita do Absoluto Primeiro e Último.

Essas coisas estão, é verdade, em linha com a tradição dos profetas de Israel, e não são inauditas no mundo pagão de sua época — são, por assim dizer, o resplendor da Justiça Divina que nossos instintos morais e sabedoria recebida não são capazes de ignorar impunemente.

De todo modo, ao colocarmos essas coisas no centro da vida divina e do caminho cristão, nós percebemos que nossas intenções e atitudes — isto é, da maioria de nós, na maior parte do tempo — estão marcadas por insuficiência e ignorância, que condicionaram mesmo as intenções santificadas dos antigos sábios e profetas israelitas, que não tinham consciência exata e imediata do fim último (não obstante Hebreus 11), e que, em razão disso, tomavam decisões que, conquanto corretas da perspectiva de certo condicionamento teleológico finito da prosperidade de uma nação no Antigo Oriente Próximo, são incorretas para quem procura ser digno do Reino Eterno. Em algum momento, um fim maior derroga um menor.

Assim, lemos as palavras de Provérbios de que “perecendo os perversos, há júbilo” (11:10) do mesmo modo como lemos outros trechos sobre como a violência dos açoites traz purificação para os maus, inclusive crianças ( 13:24 ; 19:18,25; 20:30; 22:15; 23:13–14; 29:15,17), ou outros traços igualmente interessantes e escandalosos da sabedoria bíblica. Embora sejam essas coisas elementos da Escritura Canônica, elas não foram registradas sem atenção para as condições do momento, razão por que os cristãos, ao longo dos séculos, aprenderam a usar os salmos imprecatórios, que desejam a morte violenta dos inimigos de guerra, com referência à nossa batalha espiritual contra pecados, paixões e demônios. Não é clichê demais dizer que nossos inimigos somos nós mesmos.

É claro que nem sempre é fácil equacionar a questão. Afinal, se mesmo grandes lumes cristãos de antanho, como Tertuliano e São Tomás, foram capazes de pensar que os justos inderrogavelmente extasiados na glória da Visão Beatífica jubilariam com o castigo eterno dos malditos (“O justo se alegrará na vingança“, Sl 58:10) — para o escândalo compreensível (mas hipócrita) de Nietzsche —, que mal menor é pensar que homens de carne e sangue, como nós, celebrariam a queda temporal (leia-se: morte) dos tiranos? Não seria essa, inclusive uma forma de simpatizar com os oprimidos? Nós ainda não nos recuperamos do desafio imposto pelo Senhor.

No entanto, Deus não se alegra, e nunca se alegrou, com a morte dos pecadores, mas deseja que eles se arrependam e vivam. A possibilidade de arrependimento, transformação e perdão colocam uma perspectiva diferente nas coisas, especialmente numa religião que tem como missão precisamente isso, não apenas protegendo suas fronteiras santas contra a corrupção do mundo, mas cooperando com Deus pela salvação do mesmo mundo, tanto na união de obras quanto na união de intenções com ele, para que todo joelho se prostre e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor.

Assim, tanto Deus exulta como nós devemos festejar a justiça feita, com o fim do mal na terra. Mas essa questão é mais complicada, porque a justiça não é nunca simplesmente a punição. A justiça (ṣedaqâ) de Deus é restaurativa, e tem como fim último o estabelecimento pleno da ordem divina no mundo. Há um bem quando o mal é impedido, mas há um mal quando a possibilidade de mudança foi, ao menos em parte, eliminada — ou se, ela ainda existindo, escapa a possibilidade concreta de nossa cognição. Um Paulo convertido é justiça maior e bem maior que um Herodes morto. Por isso, ainda que haja uma alegria relativa no bem menor, há um lamento maior pela ausência do bem maior.

O perdão é infinitamente mais belo e inspirador que o castigo, e é uma faceta do Amor Eterno que só se manifestou com a “culpa feliz” dos homens. Mesmo no Antigo Testamento, Davi, que sofreu debaixo das mãos do ímpio e autoritário Saul, lamentou sua morte e felicitou os que o sepultaram.

Afinal, todo ímpio que morre é como qualquer um de nós poderia ter sido, se tivéssemos vivido em condições de vida suficientemente diferentes — e talvez ainda possamos sê-lo. Só o que nos diferencia é o dom de Deus. Por isso, teme.

Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,
que vos vestia de rica escarlata,
que vos punha sobre os vestidos
adornos de ouro.
Como caíram os valentes
no meio da peleja!
Jônatas sobre os montes foi morto!
— 2 Samuel 1:24–25

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ai de vós, os ricos!

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As palavras de Cristo nos parecem, às vezes, escandalosas. Como pode Jesus dizer “ai de vós, os ricos” (Lc 6:24)? Mas e se for um rico honesto? E se for alguém que trata bem os seus empregados? E se for um homem de fé? E se…? Não obstante, foi o que Cristo disse: ai de vós, os ricos, já tendes a vossa consolação. A felicidade de vocês já veio e é temporária.

Pior, Cristo disse que é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino. Na nossa ânsia de “salvar” as palavras de Jesus, de torná-las mais aceitáveis, inventamos mil agulhas e mil camelos possíveis, todos criações da fantasia humana sem qualquer fundamento, quando Cristo, na realidade, nos fala de algo realmente impossível (Mt 10:23-26).

O desejo de Cristo, quanto às riquezas, é muito claro: ele quer que sejam dadas aos pobres para que, com isso, não sejam acumulados tesouros na terra, e sim no céu (Mt 6:19-21). Se nosso tesouro está no céu, nosso coração está no céu; se nosso tesouro está na terra, nosso coração está na terra. Aquilo que valorizamos diz muito sobre o nosso destino. O próprio Cristo fez-se pobre para nos enriquecer, e com isso nos deu o exemplo do que devemos fazer, abrindo nossas mãos. Certamente ele promete cuidar daqueles que são generosos.

Para Cristo, “os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições” são como espinhos que sufocam aquele que poderia frutificar (Mc 4:19). Fica infrutífero porque está cercado por aquilo que o prende, pelos deleites desta vida, por aquilo que o mundo oferta. Poucas coisas são tão mundanas quanto essa acomodação ao espírito do mundo, que nos faz amar os nossos recursos mais do que ao nosso próximo. É nesse espírito mundano, frequentemente motivados por ideologias ateias, que ignoramos as palavras do Senhor acerca da riqueza. Como alguém disse, o bolso é a última parte que se converte.

Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé (Tg 2:5). Ele escolheu as coisas que não são para confundir as que são, por isso “não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” (1Co 1:26). Quanto aos ricos deste mundo, devem herdar a verdadeira vida doando seus bens, sendo misericordiosos e compassivos, sacrificando suas riquezas (1Tm 6:17-19). Uma grande ameaça pesa sobre aquele que ama as riquezas deste mundo mas não é rico para com Deus.

Devemos tomar o cuidado com o tratamento das riquezas como um sinal da bênção divina. O livro de Provérbios está cheio de indicações de como os sábios, os trabalhadores e os justos prosperarão. E, no entanto, também os ricos aumentam suas riquezas nas Escrituras, sem dores e sem preocupação: “Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas.” (Sl 73:12). Não podemos negar que as riquezas podem ser, sim, uma das maneiras pelas quais Deus nos abençoa, mas com que propósito? O que a Escritura nos ensina é distribuir aos pobres para, com isso, ter uma justiça eterna (Sl 112:9).

Eu não digo aqui nada contra profissões muito rentáveis, como a de grandes empresários, que naturalmente terão grandes remunerações. O que está em jogo não é a recepção em si das riquezas, mas duas outras coisas: o propósito para o qual nós as desejamos (cobiça?) e o que fazemos depois que as recebemos (acumulamos?). O amor ao dinheiro é raiz de todos os males, e os que querem ser ricos caem em muitas tentações (1Tm 6:9-10). O mero acúmulo, sem uma preocupação com tantas pessoas necessitadas e com tanto bem que pode ser feito aos nossos semelhantes, é um mal, assim como é um mal desejar esse acúmulo.

Penso que dois cuidados são necessários. Primeiro, não devemos ter desprezo para com os ricos, nem invejá-los. Não se resolve um pecado com outro, e a intenção cristã é sempre a reconciliação, o amor mútuo, não o conflito. Frequentemente a crítica à riqueza, como vista eventualmente no cenário político, é apenas um desejo de tomá-la, como Judas quis. Segundo, essa concepção sobre as riquezas não pode se confundir com um pensamento imaterialista, uma espiritualidade pura que desconhece o corpo e as necessidades desta vida.

Devemos estar satisfeitos com o que o Senhor nos concedeu, na simplicidade do que ele nos deu, como na oração: “não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pv 30:8). Aprendemos na Escritura a estarmos satisfeitos tendo o que comer e com o que nos vestirmos. O espírito mundano nos impede de fazer essa mesma oração.

Rev. Gyordano M. Brasilino