Quatro enganos sobre Perdão

Quatro enganos frequentes envolvem o perdão.

O primeiro é o de que perdoar significa esquecer. Isso é falso, se tomarmos a palavra “esquecer” no sentido mais comum. Pessoas que sofreram profundamente carregam danos por anos, sem conseguir esquecer o que passaram. Você pode dizer que perdoar implica esquecer apenas se usar o sentido qualificado da palavra — não alimentar a lembrança dolorosa, não dar a ela uma atenção aprisionadora, não se entregar à amargura.

Quando alguém diz “eu não consigo perdoar”, o mais comum é que signifique “eu não consigo esquecer” — e, portanto, que a memória continua trazendo dor. Mas somente feridas superficiais são esquecidas facilmente. Embora ser capaz de respirar sem o fantasma da memória má, encontrando “resolução”, seja muito bom e parte do nosso crescimento, perdoar não significa esquecer.

(Talvez venha daí o mito de que, no Paraíso, as pessoas não lembrariam do que aconteceu nesta vida. É claro que elas lembram, mas lembram com Amor desimpedido.)

O segundo engano é o de que perdoar significa conviver. Esse é um pouco mais complicado. O Amor Divino envolve desejar o bem e desejar a união mesmo com nossos inimigos. Se amo uma pessoa, eu não só desejo que ela fique bem, eu desejo união com ela em Deus. Mas, num mundo marcado pelo pecado e por mil dificuldades das relações humanas e da comunicação, nem sempre a união (ou sua busca) significa presença física, proximidade e convívio. Em alguns casos, o convívio pode ser mau, não só para quem sofre, mas também para quem pratica o mal, porque pode reforçar o hábito do pecado já cometido. (Isso exige atenção pastoral.)

O terceiro engano diferente e quase oposto dos anteriores, é de que perdoar é apenas uma decisão. Querer perdoar já é o começo do perdão, mas ele precisa ser consumado: perdoar é uma ação e se dá no contexto de relação concreta, ao longo do tempo. Por isso, Cristo ensina no evangelho: “se o teu irmão vier a ti…”. Eu entendo as pessoas que dizem que perdoar é uma decisão; querem dizer que perdoar não é só um sentimento ou impulso, e isso é muito verdadeiro — nós perdoamos mesmo quando não sentimos desejo de perdoar. Mas o perdão é um processo e pode levar um tempo.

O quarto engano é de que perdoar significa não punir ou não denunciar algo que nos foi feito. Quando se trata de alguém que habitualmente pratica o mal, permitir que a pessoa saia impune é permitir que ela cometa o mesmo mal contra outras pessoas, o que significa lhe dar oportunidade para ferir a si mesma e a outras pessoas — portanto, é contribuir com o mal, mesmo que numa medida menor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sobre a Comunhão dos Santos

Há alguns meses, terminamos aqui em casa de assistir a série Shtisel, sobre uma família judaica em Jerusalém. A série explora as várias maneiras pelas quais nossa vida é determinada por pessoas que já morreram: pela tradição, pelo luto, pela memória (inclusive a pintura), pelo ensinamento, pela intercessão, pelo parentesco (entre os que ficam), pela herança e por tantas outras maneiras.

Como alguém havia comentado, o último episódio dá um vislumbre do que os cristãos chamam de Comunhão dos Santos — é uma analogia, mas, com o temor que tem quem fala do que não é seu, digo que é uma analogia muito próxima. Os personagens Akiva, Shulem e Nukhem se sentam à mesa para conversar — em ídiche, não em hebraico — e logo se veem cercados, de algum modo, pelos que os antecederam. Essa visão é antecedida por poema de Isaac Bashevis Singer (1903–1991) que diz:

“Os mortos não vão a lugar nenhum. Eles estão todos aqui. Cada homem é um cemitério. Um cemitério real, no qual estão nossas avós e nossos avôs. O pai e a mãe, a esposa, o filho. Todos estão aqui o tempo todo.”

A Comunhão dos Santos é o coroamento da convicção mística do cristianismo. Essa convicção mística tem dois princípios antropológicos.

O primeiro deles é de que nossa humanidade é aberta à presença divina, de modo que nossa jornada humana consiste em encontrar Deus como nossa completude, a dilatação do finito ao infinito. Essa jornada não é, por isso, limitada pela morte. Então encontrar a Deus é se tornar um poder atuante no mundo, é se tornar parte da estrutura que ordena o universo — aqui e além.

O segundo deles é que nossa existência pessoal não é isolada. Assim como somos incompletos e abertos para cima, somos também incompletos e abertos para os lados. Nossa existência pessoal não está apenas no nosso centro de consciência, mas transborda para as pessoas que estão nosso redor. Não existimos como criaturas isoladas. Por isso, embora morramos, nunca deixamos esta vida.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não há uma só maneira de honrar a Deus

Na época de Santo Agostinho, já se discutia com que frequência um cristão deveria participar da Eucaristia – se deveria recebê-la diariamente ou se deveria preferir se abster, na maioria dos dias, por reverência diante do Sacramento. Diante dessa questão, alguém pode esperar que haja uma resposta definitiva, absoluta, invariável, “a certa”. Podemos querer que uma atitude seja condenada como severa demais, como legalista, ou que a outra seja tratada como permissiva demais, fácil demais.

No entanto, em sua Epístola 54, o santo defende ambas atitudes como aceitáveis e que esse não é motivo para divisão, e cita, para isso, o comportamento de Zaqueu e do Centurião, nos evangelhos. Zaqueu recebeu Cristo com alegria em sua casa, enquanto o Centurião impediu essa visita, se dizendo indigno. Ele escreveu:

Pois não brigaram entre si Zaqueu e aquele Centurião, nem se colocou um contra o outro, quando um recebeu com alegria o Senhor em sua casa, ao passo de que o outro disse ‘Não sou digno de que entres sob o meu teto’, ambos honrando o Salvador de modo diverso e quase contrário; ambos miseráveis pelo pecado, ambos alcançados pela misericórdia.”

Em ambos os casos, não há desprezo pelo sacramento – o que participa poucas vezes não o faz por considerar o sacramento como dispensável ou de menor importância, antes por se considerar indigno de participação frequente, ao passo que o outro deseja maior frequência porque entende que precisa daquilo, e não por tratar o sacramento como refeição comum e banal. Assim também, não há presunção por parte deles – o que participa frequentemente, não o faz por se considerar santo, mas precisamente porque sente a necessidade de ser mais santificado pelo sacramento, enquanto o que participa menos, não o faz por rejeitar o sacramento e se considerar capaz de buscar a santidade sem ele, mas para conseguir fazê-lo com um coração mais preparado.

Principalmente: nem dos dois é movido pela indiferença, por um espírito de que “tanto faz”. Ao contrário, cada um leva com máxima seriedade sua própria situação. E ambos são chamados a se aceitarem por amor a Cristo, na paz da mesma catolicidade.

O mesmo valor do sacramento é aplicado de maneira diferente em pessoas diferentes, e ambos participam da graça vivendo os mesmos princípios como podem, em suas próprias realidades. “Quem és tu que julgas o servo alheio?” (Romanos 14:4).

Vários nomes, o mesmo sacramento.

Sunday Eucharist in the Early Church - Justin Martyr - Crossroads Initiative

A Eucaristia tem vários nomes bíblicos. Cada nome enfatiza uma coisa diferente.

  1. Ceia do Senhor. Esse nome aparece em 1Co 11:20. Literalmente, “kyriakon deipnon” é Ceia Senhorial, Ceia Dominical. “Senhor” é uma das designações favoritas da comunidade primitiva para Cristo, a invocação que os distingue enquanto comunidade religiosa particular. Esse nome enfatiza o ato de comer (em refeição compartilhada) sob o senhorio de Cristo, assim como a raiz história ligada ao momento inaugural em que o Senhor esteve com seus discípulos.
  2. Eucaristia. A palavra grega significa “ação de graças” (eucharistia, eucharisteō), um tipo de oração, e o sacramento tem esse nome porque Cristo “abençoou” (Mt/Mc) ou “deu graças” (Lc/1Co) sobre os elementos. Essa palavra grega faz referência à tradição judaica de abençoar e dar graças pelas refeições (b’rachá). Esse nome enfatiza o ato de consagrar, razão por que ele é um dos mais importantes na história do sacramento; indiretamente, esse nome também assinala uma dimensão sacrificial, em referência ao “sacrifício de ação de graças” mencionado no Antigo Testamento.
  3. Comunhão. A eficácia do sacramento é a comunhão (koinōnia) no corpo e no sangue de Cristo (1Co 10:16) e a unidade entre os que dele participam dignamente (v. 17). Esse nome enfatiza, como finalidade, o efeito que o sacramento produz entre nós, unindo-nos a Cristo e uns aos outros.
  4. Pão do Céu. Cristo designa a si mesmo assim no discurso eucarístico na sinagoga de Cafarnaum (João 6). Esse nome enfatiza, ao mesmo tempo, a origem divina e a finalidade espiritual do sacramento (alimento).
  5. Partir do Pão. O nome aparece nos Atos dos Apóstolos (principalmente At 2:42; 20:7,11; cf. Lc 24:30-31,35). Esse nome enfatiza o sacramento como refeição comunitária (partilha) de unidade, em analogia ao que era praticado por diversas religiões antigas.
  6. Mesa do Senhor. Esse nome aparece em 1Co 10:21, reminiscência (indicada no contexto) o altar do pão no Antigo Testamento (cf. Ez 41:22; Ml 1:7,12). Esse nome enfatiza a comunhão espiritual, a partilha e a dimensão sacrificial do sacramento.
  7. Cálice da Bênção, Cálice da Salvação. O nome aparece em 1Co 10:16, mas é possível ligá-lo ao que se lê em Sl 116:13, uma vez que a bênção prometida no sacrifício de Cristo é a salvação. Esse nome enfatiza a dimensão sobrenatural do sacramento.
  8. Sacramento do Altar. Em Hb 13:10, lemos que os cristãos têm um altar exclusivo, isto é, do qual só eles podem comer. Historicamente, esse nome distingue esse mistério do Sacramento da Fonte (o Santo Batismo). Esse nome enfatiza a dimensão sacrificial e sagrada, o culto a Deus, a localização concreta da celebração no seio da comunidade cristã e a dimensão dessa comunidade enquanto Templo, assim como o momento histórico-salvífico da Nova Aliança (em distinção com a Antiga).

Além desses, podemos falar de outros nomes simbólico-proféticos, como o maná escondido e o fruto da árvore da vida.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que nem todo mundo pode realizar a Eucaristia?

Santo Inácio de Antioquia, um cristão que foi discípulo de João e se tornou mártir da fé cristã, escreveu o seguinte: “Considerai legítima a eucaristia realizada pelo bispo ou alguém que foi encarregado por ele.” (Aos Esmirniotas, Cap 8). Existe fundamento nas Escrituras para isso? Continue lendo “Por que nem todo mundo pode realizar a Eucaristia?”

A Presença de Cristo na Eucaristia

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Quando se discute sobre a Presença de Cristo no Sacramento, é comum que o debate se limite a uma exposição das diferenças entre certas teorias clássicas. Fala-se em favor do memorialismo ou mero simbolismo, da presença espiritual, da presença corporal ou física de Cristo no sacramento, como que justificando certa posição e, indiretamente, legitimando as diferenças entre os cristãos, reforçando as trincheiras. Continue lendo “A Presença de Cristo na Eucaristia”

Esmolas e Tesouros

Mendigo

“Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?
Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.”
(Jó 41:11)

“Quem se compadece do pobre ao SENHOR empresta,
e este lhe paga o seu benefício.”
(Provérbios 19:17)

Um dos motivos pelos quais as traduções bíblicas mudam é que a própria língua muda. Às vezes palavras poderosas perdem sua força relativa. A sonoridade muda, a ligação com outras se dissipa na consciência das gerações mais recentes. O uso reiterado em algumas situações, o desuso paulatino em outras, as freqüentes metonímias e analogias, tudo pode obrigar o sentido a migrar. Continue lendo “Esmolas e Tesouros”

São Paulo, o eclesiólogo

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“Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio.” (Atos 20:37,38)

Desde a Reforma Protestante, o apóstolo Paulo de Tarso é lembrado como defensor do “evangelho da graça de Deus” (At. 20:24) e como grande missionário, um dos responsáveis pela pregação do Evangelho e fundação de comunidades cristãs na Europa. O impacto de Paulo na formação do cristianismo e na sua teologia é incalculável. Continue lendo “São Paulo, o eclesiólogo”

Sacramento e Escatologia

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Então se abrirão os olhos dos cegos
e se destaparão os ouvidos dos surdos.
Então os coxos saltarão como o cervo,
e a língua do mudo cantará de alegria.
Águas irromperão no ermo
e riachos no deserto.
(Isaías 35:5,6)

Quando Jesus iniciou seu ministério terreno, atraiu a atenção dos discípulos de João Batista. Os judeus aguardavam a vinda do Messias, o libertador que lhes traria paz, plenitude e salvação. Então João Batista envia seus discípulos a perguntar se Jesus seria esse libertador aguardado. A resposta de Jesus não é um sim ou um não; ele lhes mostra o seu ministério: “os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres;” (Lucas 7:22). Continue lendo “Sacramento e Escatologia”