Contemptus mundi: o que significa carregar a Cruz?

Uma pessoa perguntou o que significa tomar diariamente a cruz.

Uma porta para entender esse significado é saber o que a cruz representava na época de Jesus. Era um instrumento de morte do Império Romano, com o propósito de ser público, doloroso e humilhante, castigo exemplar que convidava à execração. Era símbolo punitivo do poder imperial.

Num primeiro nível, carregar a cruz significa estar pronto a aceitar sofrimentos públicos, dolorosos e humilhantes, como os de Jesus, como consequência de o seguirmos num mundo que o odeia. Devemos sofrer com alegria, como os apóstolos de Jesus, que se sentiam alegres em serem perseguidos, aceitando rejeições sem reclamar, antes com gratidão.

Essa dimensão de carregar a cruz naturalmente se abre para um universo mais amplo, pois a única maneira de aceitarmos esses sofrimentos e rejeição é se a nossa vida interior estiver arraigada numa alegria celestial, e não naquilo que diabo e o mundo oferecem em termos de prazer e aceitação.

Então essa aceitação de sofrimento imperial cede muito facilmente àquela ampliação pela qual, aparentemente, o responsável foi São Paulo. Pois nele vemos não apenas um crucicentrismo insistente, mas uma imagem da transfiguração cristã como repetição da vida de Cristo: padecemos com ele, morremos com ele, somos sepultados com ele, revivemos com ele.

Então, para Paulo, estar crucificado significa morrer para o pecado (Rm 6:6), para as paixões (Gl 5:24) e para o mundo (Gl 6:14), três esferas interligadas pela doutrina apocalíptica. Cristo se entregou (na cruz) para nos livrar do presente século mau.

Isso se liga à imagem mais ampla do “mundo” no Novo Testamento, enquanto uma era maligna. Morrer para o mundo significa não ser guiado pelas preocupações e promessas do mundo, como a fama, a glória do mundo, a riqueza do mundo. Os discípulos de Jesus não pertencem ao mundo e não devem amar o mundo ou ser amigos dele, ou conformados a ele.

O mundo é a esfera de atuação diabólica. Satanás “engana todo o mundo”, é o “príncipe deste mundo”. O mundo “jaz no maligno”. Os que andam segundo o curso do mundo andam debaixo desses poderes espirituais tenebrosos e enganadores, as forças espirituais da maldade.

Em razão disso, o mundo envolve ilusões que nos prendem aos pecados: cuidados, enganos, ambições, corrupção, paixões, soberba, ódio. A única maneira de se livrar delas é não seguir “o curso do mundo”, antes desprezá-lo, por amor a Cristo.

O mundo é, em suma, a cidade dos homens, que vive para si mesma, para este tempo, para glórias passageiras. Mas a aparência do mundo passa, o mundo passa, e nossos pensamentos devem se dirigir às realidades celestiais e eternas. Tudo o que é o que é passageiro deve ser visto à luz do eterno. O mundo é a criação sujeita à vaidade, ao amor àquilo que não é importante. Santo Agostinho é, nisso, filho de São Paulo e dos apocalipses.

Embora o desprezo pelo mundo (contemptus mundi) seja costumeiramente associado aos celibatários e monásticos, que, por um cumprimento estrito das palavras paulinas, evitam se prender às “coisas do mundo” para se dedicarem às “coisas do Senhor” — significando, portanto, que à maioria dos cristãos é necessária certa lida com o mundo (tolerada ou aceita?) —, o fato é que, no sentido apocalíptico, nenhum cristão deve amar o mundo. E carregar a cruz é sofrer as consequências de não amar o mundo.

Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?” (Marcos 8:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Páscoa livra do medo

Algumas pessoas têm um medo profundo da Sexta-Feira Santa e do Sábado Santo. Têm medo do Cristo Crucificado e Sepultado. Elas se sentem profundamente aflitas com esses momentos, e sentem a necessidade de falar logo da Ressurreição. Sentem a necessidade de se livrar do pesar da Cruz, do peso do luto, que sempre iluminou e inspirou a espiritualidade dos cristãos.

Não é de hoje. Poucos foram os discípulos aos pés do Crucificado.

Em alguns casos, o motivo é que elas veem a Paixão e Morte como algo que Cristo passou no lugar delas, e não com elas e por elas. É algo de que Deus as livrou — Deus nos livrou de si mesmo, dizem —, então não veem sentido em abraçar e participar do sofrimento de Cristo. Não entendem que devemos, sim, beber do amargo cálice da Paixão. Isso empobrece a vida de discípulo, que é carregar a Cruz com Jesus. Com Jesus! Com Jesus.

Amaldiçoar o Crucificado dos nossos corações é negligenciar nossa própria santificação. É o gérmen de uma espiritualidade burguesa e amante da comodidade, e que vê Deus como provedor da nossa comodidade. São Paulo ensina, com todo o Novo Testamento: preciso participar dos seus sofrimentos para participar da sua Ressureição. A fraqueza leva ao maior poder. Por isso aprendemos durante toda a Quaresma: o amor da comodidade é um grande engano. O deserto nos prepara para a Paixão.

Assim como o Crucificado venceu o Pecado, o Sepultado levou o Evangelho até a profundidade do Cativeiro humano, espoliando o forte pela força maior da sua Graça.

Mas é sofrer com Jesus na Sexta e no Sábado o que prepara o nosso coração para a alegria do Domingo de Páscoa, para a exultação do Senhor Triunfante que rompeu os grilhões da morte e aniquilou a força do Inimigo. Hoje não é dia de luto, mas de alegria, de júbilo, de cânticos alegres nos céus e na terra.

Não tenham medo da Sexta-Feira e do Sábado, da Paixão e do Sepultamento. Deus não é o Inimigo. Ele é o teu Libertador. Ele te faz vencer o medo. Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo, Sofrimento e Império

Uma pessoa me perguntou o seguinte: que importância tiveram os sofrimentos de Jesus? A pergunta não é sobre a morte, mas sobre os sofrimentos. Como eles afetam nossa salvação?

Uma coisa que precisa ser entendida, antes de mais nada, é: os sofrimentos de Jesus não foram diretamente causados pelo Pai. Pessoas humanas causaram esses sofrimentos: Pilatos, Caifás, soldados e outras pessoas. Nós causamos o sofrimento de Cristo.

Nenhum texto do Novo Testamento (o cumprimento das coisas), ao descrever a obra da Redenção, ensina que esses sofrimentos foram causados pelo Pai.

Existe um entendimento errado do que significa “a Deus agradou moê-lo” (Is 53:10), que é tão errado como o de quem lê “Deus se arrependeu” e conclui que há arrependimento em Deus. Isso ignora duas coisas: (1) a identidade contextual do Servo de Javé no Segundo Isaías (Is 40–55), que é a nação de Israel sob o juízo divino; (2) o cumprimento concreto dessas coisas no Novo Testamento, a maneira como as coisas visivelmente aconteceram.

Esse entendimento não é possível por um motivo simples: Deus não coopera com pecados. Ele só coopera com o bem, e transforma o mal em bem (como em José), mas nunca coopera com o mal. Todos os sofrimentos que Cristo teve foram pecados dos líderes, dos soldados e da multidão. Nenhum deles foi justo ao castigar o Cristo inocente; pelo contrário. ele sofreu injustamente, por isso apelou ao tribunal divino, “entregava-se àquele que julga justamente“. O diabo, e não Deus, induziu aquelas pessoas a pecarem.

O que o Pai fez, diante de tudo isso, foi entregar o Filho do homem, como os evangelhos repetem. O que os homens fizeram estava dentro da presciência e providência divinas, mas essas coisas incluem a liberdade humana. Deus não é o autor dos pecados dessas pessoas.

Ao falar desses sofrimentos, o Novo Testamento dá preferência a uma expressão: “sofrer“, “padecer“, “sofrimentos” ou “aflições de Cristo” (ou seja, do Messias), não os de “Jesus” ou do “Senhor“. Ao falar do modo como nós participamos desse sofrimentos, essa preferência permanece. Há um motivo para essa preferência de linguagem, dessa a conexão entre sofrimentos e messiado, que causava bastante escândalo. Até hoje, nós falamos dos “Paixão de Cristo”, não “de Jesus”, repetindo a expressão bíblica.

Como isso funciona? De que maneira esses sofrimentos consagram o seu messiado?

Um dos trechos mais antigos do Novo Testamento é o cântico crístico de Fp 2:5-11. Em síntese, ele nos fala de como, em auto-humilhação, Cristo é obediente até a morte e, por isso, é exaltado pelo Pai e recebe um nome acima de todo nome (Senhor). O cântico segue um padrão da justiça restaurativa nas Escrituras: os humilhados são exaltados.

Se entendemos que os sofrimentos de Cristo são tentações, sua obediência até a morte é a vitória contra essas tentações e se constitui o motivo de sua exaltação. Numa linguagem mais antiga, dizemos que a obediência de Cristo “mereceu” a chegada do Reino de Deus; para não usarmos uma palavra tão desgastada (“mérito”), podemos dizer que os sofrimentos de Cristo exigem que a justiça divina façam algo (como em Dn 7): Cristo é vindicado.

Essa é uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam. Esses sofrimentos são correlatos da sua obediência, através da qual ele reina sobre nós. Então os sofrimentos do Messias são a preparação para a sua entrada na glória. Por isso, participamos dos seus sofrimentos. Assim como ele, sofremos injustamente, e o que agrada ao Pai, como nosso sacrifício, não é sermos punidos justamente por ele, mas suportarmos os sofrimentos injustos com paciência e obediência (1Pe 2).

Isso é muito bonito porque tem uma dimensão política. Quando o Messias veio ao mundo, havia um Império que, com forte propaganda (inclusive intelectual e profética), prometia paz e prosperidade ao mundo. Cristo, em vez de agir como esse Império, conquistando o mundo pela força bruta de sua mão onipotente, conquista o mundo através dos sofrimentos, morrendo na mão do Império segundo os homens, vivendo para o Reino segundo Deus.

Essa é só uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus foi ouvido — O Pai disse “Sim”

“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,” Hebreus 5:7

Quando estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Cristo fez uma oração que está profundamente gravada na consciência da primeira comunidade de cristãos, pedindo ao Pai pelo livramento. Essa oração agonizante aparece nos Evangelhos Sinóticos: “Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14:36 = Mt 26:39 // Lc 22:42); e depois é mencionada em Hb 5:7 e 1Pe 2:23, tendo talvez um eco nas palavras de Paulo (Rm 8:15; Gl 4:6).

Antes de ser levado para sua humilhação e morte, Cristo fez uma oração intensa, “com forte clamor e lágrimas”, àquele que “o podia livrar da morte”. Ele disse: “Minha alma está triste [perilypos] até à morte” (Mc 14:34). O evangelista usa palavras graves para descrever o estado da alma de Cristo: ele começou se impressionar e apavorar profundamente [ekthambeisthai] e se angustiar [adēmonein]. O tom é tão forte que é suavizado pelos evangelistas posteriores — o Cristo do Quarto Evangelho nos parece resoluto e determinado, mas mesmo Marcos conhecia a intenção do Filho do homem de doar sua vida (10:45) —, mas mesmo Lucas, na variante textual mais conhecida, fala da “agonia” de Cristo (Lc 22:44), isto é, da batalha que ele enfrentava. Na hora das trevas, Cristo batalhava contra os poderes obscuros que o cercavam e tentavam, e pedia ao Pais que o livrasse da morte. Diante da injustiça que sofreria, Cristo “entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2:23).

E Cristo foi ouvido. Isso surpreende a algumas pessoas, mas a oração de Cristo foi ouvida pelo Pai. Não poderia ser diferente, afinal, ele mesmo disse: “Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11:42). Assim como Cristo havia ensinado ao Pai que seus discípulos receberiam o que pedissem quando fossem obedientes (Jo 15), ele mesmo, estando na perfeita obediência (“por causa da sua piedade [eulabeia]”), recebia do Pai tudo o que pedia. Então Cristo foi ouvido pelo Pai!

Mas como pode ser, se ele morreu? Ele morreu, mas ressuscitou. Ao retornar à vida, ele foi livre daquilo que o prendia. Aqueles que acreditam que a paixão de Cristo foi um “não” do Pai ao Filho terão muita dificuldade em ligar o que está em Hb 5:7 à oração registrada nos Evangelhos, mas, de fato, o Pai passou o cálice. Cristo morreu, mas não morreu eternamente. Ele esteve morto por apenas um tempo. Ao ressuscitá-lo, o Pai dizia o “sim” ao Filho, passando dele o cálice. Como Jó, Cristo foi restituído após os seus sofrimentos injustos, provocados pelas forças das trevas.

Em 2Co 4 (o Evangelho de hoje), Paulo tinha em mente exatamente a mesma coisa. É por isso que ele podia dizer, juntamente, que “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus” (v. 14) e, então, que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (v. 17). Jó foi restituído, Cristo foi restituído, e Paulo sabia que o mesmo poder da ressurreição estava nele. A ressurreição é restituição e muito mais do que restituição.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Cordeiro Vitorioso

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Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Apocalipse 5:5-6a

O mistério da salvação humana está gravado no oráculo do Vidente de Patmos. O Leão Vitorioso, digno de desatar os sete selos do Livro da Vida, que ninguém poderia sequer olhar, é ao mesmo tempo o Cordeiro Morto. A vítima inocente e inofensiva é Rei invencível. Sua morte é uma vitória — mas como? Continue lendo “O Cordeiro Vitorioso”

33 Teses contra a Substituição Penal

Cristo Crucificado

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! João 1:29

Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Gálatas 6:14

A teoria da Substituição Penal ensina que o propósito da morte de Cristo foi o de ser a punição pelos pecados da humanidade ou dos eleitos, uma vez que, supostamente, a justiça de Deus exige que alguém seja punido para que haja perdão. Como fazem crer seus defensores, o Evangelho seria essencialmente a Justificação pela Fé através da Imputação da Justiça de Cristo para o cristão (isto é, aquele que tem fé) e a Imputação da culpa pelos pecados do cristão para Cristo, resultando na Punição Substitutiva de Cristo. A teoria diz respeito a essa transação “forense”. Às vezes, certas versões dessa teoria enfatizam a ira de Deus, que deve “cair” sobre alguém quando há pecado.

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Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)

Rembrandt Ressurreição de Cristo

ὃς παρεδόθη διὰ τὰ παραπτώματα ἡμῶν
καὶ ἠγέρθη διὰ τὴν δικαίωσιν ἡμῶν.
“Ele foi entregue à morte por nossos pecados
e ressuscitado para nossa justificação.”

(Romanos 4:25)

Que relação existe entre a Justificação e a Ressurreição? Se se fizer essa pergunta a um defensor da Substituição Penal e da Justiça Imputada, talvez não se obtenha nenhuma resposta satisfatória. Nessa teologia, a Ressurreição de Cristo não tem nenhum papel salvífico a desempenhar, mas somente a Cruz, por meio da qual a justiça de Cristo é atribuída (imputada) a nós, e nossos pecados atribuídos (imputados) a ele. Justificação seria apenas o projeto divino de matar alguém para que possa perdoar os “verdadeiros” culpados. Não resta nada para a Ressurreição, que assume função apologética: mostrar que realmente Jesus era o filho de Deus, e que seu sacrifício no Calvário foi aceito pelo Pai. É esse o ensino da Sagrada Escritura? Continue lendo “Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)”

Os Sete Sinais do Quarto Evangelho

A Ressurreição de Lázaro, Leon Bonnat [cortada]

E acontecerá que, se eles não te crerem, nem ouvirem a voz do primeiro sinal, crerão à voz do derradeiro sinal;” (Êxodo 4:8)

O Evangelho de João tem, além do famoso prólogo (1:1-18) e do epílogo (21), duas grandes partes, conhecidas pelos teólogos como o Livro dos Sinais (1:19-12:50) e o Livro da Glória (13:1-20:31). Embora os títulos não indiquem tudo que há em cada “metade” do Livro, eles nos apontam para um tema importante no Evangelho de João, que é como os sinais de Jesus apontam para a sua glória; como tudo aquilo que Jesus fez, de algum modo, aponta para sua crucificação e ressurreição. Continue lendo “Os Sete Sinais do Quarto Evangelho”