A Casa do Morto (Dt 26:14)

Eu gosto bastante das Bíblias Almeida Revista e Atualizada (ARA) e Nova Almeida Atualizada (NAA). São as que eu mais uso no dia a dia. Mas, sempre que alguém me pergunta sobre elas, eu aponto um defeito: elas são as únicas traduções obcecadas em deixar claro que são evangélicas. (A NVT faz isso com os sacramentos, mas no geral é bem menos.)

Eu já mencionei aqui o caso de Gl 3 e 1Pe 2, em que uma delas ou ambas mudam “por nós” para “em nosso lugar”. Outro caso engraçado é Tg 2:14, em que elas mudam a pergunta “Pode a fé salvá-lo?” para “Pode semelhante (ou essa) fé salvá-lo?”. Não está errado em termos de doutrina, mas a pergunta literal é um pouco mais contundente. É totalmente desnecessário, mas elas querem fechar qualquer brecha para leitura diferente do texto.

Hoje eu percebi um outro caso, que é Dt 26:14. O contexto é a entrega dos dízimos do terceiro ano, que eram dados aos levitas e aos pobres. O texto orienta se fazer uma oração na qual, dentre outras coisas, o israelita afirma, diante de Deus, que não desviou o uso dos dízimos e, com base nisso, suplica a bênção de Javé.

O problema está em uma das sentenças. Veja várias traduções:

“nem disso dei para algum morto” (ARC)

“nem delas dei para os mortos” (ACF)

“dela não ofereci nada aos mortos” (NVI

• “não ofereci coisa alguma dela aos mortos” (NVT)

“nem dei nenhuma parte como oferta pelos mortos” (NTLH)

“dele nada ofereci por um morto” (BJ)

“nada ofereci por um morto” (EP)

“delas nada dei a um morto” (AM)

Variação nas palavras, mas todas com basicamente o mesmo sentido (explico abaixo). Agora segura essa:

“nem deles dei para a casa de algum morto” (ARA/NAA)

A casa de algum morto? Como assim? Todas as outras versões evidenciam algum tipo de crença na possibilidade de interceder pelos mortos, seja indiretamente (levando comida ao sepulcro do morto), seja indiretamente (oferecendo comida a Deus em favor do morto). Ambos os tipos de crença e prática são bem atestados no mundo antigo, e ambos são traduções possíveis da expressão hebraica: ləmeṯ (לְמֵת) pode ser vertido tanto como “por um morto” como “a um morto”.

O texto em si é muito sutil para servir de argumento em favor da intercessão pelos mortos; afinal, é uma sentença negativa, num contexto bastante restrito. Serve apenas para mostrar que essa era uma prática conhecida.

No entanto, nem isso a ARA e a NAA toleraram. Inseriram a “casa de algum morto”, como se fosse um tipo de doação para uma família pobre cujo provedor morreu. Isso não funciona, porque o sentido daquele dízimo é justamente ajudar (também) os pobres, então não seria desvio. Essas traduções aproveitaram uma situação totalmente aleatória para reafirmar a ideia de que seus leitores não acreditam em intercessão pelos mortos.

Perdem, com isso, um indício bem primitivo da crença na “vida após a morte” entre os antigos israelitas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Massacre dos Canaanitas

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“O SENHOR é misericordioso e compassivo;
longânimo e assaz benigno.
Não repreende perpetuamente,
nem conserva para sempre a sua ira.
Não nos trata segundo os nossos pecados,
nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades.”
(Salmos 103:8-10)

A sombra da heresia de Marcião se faz presente quando o Antigo Testamento é nomeado. Fala-se com horror do “Deus do Antigo Testamento”. Com isso, quer-se dizer um que seja furioso, exigente e severo, em oposição ao amoroso e terno do Novo Testamento; um Deus distante e ritualista contra um Deus próximo e sentimental; um Deus que usa os seres humanos em oposição a um Deus que se doa aos seres humanos. Essa é uma das piores caricaturas da Sagrada Escritura. Continue lendo “O Massacre dos Canaanitas”

Juramentos

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“Darás a Jacó a fidelidade, e a Abraão a benignidade, que juraste a nossos pais desde os dias antigos.” (Miquéias 7:20)

O Deus da Bíblia é um Deus de juramentos. Ele continuamente relembra ao seu povo do que jurou lhes conceder. Na Bíblia hebraica, aliança e juramento são a mesma coisa, ou dois lados de uma mesma coisa (Gn. 26:28; Dt. 4:31; 7:12; 8:18; 29:12; Sl. 89:3; 105:9; Ez. 16:8,59; 17:13-19; Os. 10:4). Estar em aliança implica em um compromisso solene da parte dos “aliados”, que é exatamente o que chamamos de juramento. Mas não é por nada além de si que Deus jura: “Eis que eu juro pelo meu grande nome, diz o Senhor” (Jr. 44:26) Continue lendo “Juramentos”