Como orar os Salmos?

Se Deus nos deu um livro de orações canônico, os Salmos, é porque ele quer que façamos uso dele. Na verdade, desde o princípio e ao longo dos séculos os cristãos sempre usaram os salmos, enriquecendo sua vida de oração em geral.

De certo modo, a resposta é: simplesmente leia (ou recite) os salmos com fé e esperança. A oração dos Salmos não deve ser um grande desafio na vida pessoal e particular, ou também comunitária, então as orientações dadas aqui são maneiras de melhorar a leitura. No fundo, você já sabe como fazer.

O corpo: Você pode orar os salmos de várias maneiras, mas uma particularmente apropriada é de pé, com o livro em mãos. Você também pode fazê-lo de joelhos (como vários salmos convocam a fazer). Com o tempo, você vai notar a diferença que faz a posição do corpo. Pessoas desacostumadas a orar de olhos abertos, geralmente pelo hábito de se limitar à oração extemporânea (“espontânea”), encontrarão algum desafio, mas o novo hábito vence, no médio prazo.

A voz: Ore os Salmos em voz alta. Usar a sua voz é uma maneira de concentrar a atenção, e de louvor a Deus com o corpo. Não se apresse demais, “deguste” cada verso, cada sentença. (Os versos dos salmos geralmente são divididos em duas partes paralelas.) E lembre-se: seja reverente, mas mostre vigor. Os salmos são cânticos de guerra.

A história: Cada salmo tem sua história, seu processo de formação, mas colocá-los em uma coleção, dentro do cânon, é dar forma a uma nova obra. Os salmos são a história de um povo em oração. São peregrinos em busca (e com saudade) da Cidade Santa, com espírito sedento pela presença divina e pelos tabernáculos do Senhor. São soldados e generais em guerra, procurando a proteção do Senhor contra os seus inimigos. São pecadores afligidos e contritos, penitentes. São adoradores manifestando louvor alegre e convocando toda a criação, na terra e nos céus, a adorar o Senhor. É um povo sofredor com a esperança do reino universal de Deus sobre todos os povos. Ao orar os salmos, nós nos colocamos como parte dessa história. Esteja consciente disso.

O espírito: os salmos devem ser orados com espírito de devoção e fé, não de estudo. É possível estudar os salmos, é importante fazê-lo, mas orar os salmos não é ficar procurando detalhes para satisfazer a curiosidade intelectual, mas encontrar neles aquilo que enriquece a nossa fé. Deixe o estudo dos salmos para um outro momento.

A contrição: Os salmos penitenciais são os salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Esses sete salmos são particularmente importantes para confessarmos ao Senhor os nossos pecados. Quando algo que você fez lhe pesar à consciência, recite esses salmos (agora de joelhos), pedindo perdão ao Senhor. Como sempre pecados, esses salmos devem ser nossos companheiros de caminhada.

Há outros blocos que seria importante conhecer e usar em conjunto, como os salmos de entronização (especialmente 95-100) e o Halel (113 a 118), que são ótimos para adoração.

A apropriação: Como dito acima, nós somos parte dessa história que os salmos contam. Assim como Pedro em Atos 4:24-30, aproprie-se das palavras dos salmos nas suas próprias orações. O sentimento deve ser: o Deus dos salmos é o mesmo Deus que nós adoramos. Um exemplo de como fazer isso diz respeito à nossa batalha espiritual. Os salmos foram, vários deles, escritos em situação de guerra ou conflito com os inimigos. Mas, como aprendemos no Novo Testamento (Ef 6), nossos inimigos são espirituais, são os poderes das trevas, e é principalmente contra eles que devemos direcionar as armas dos Salmos. Essa batalha é mais óbvia no Salmo 91, mas os “salmos imprecatórios” devem ser usados assim também. Pense, por exemplo, nas palavras do Salmo 35:1-5, que, particularmente, me trazem bastante conforto. O Salmo 5 é uma bela oração matutina que pode ser empregada assim. Assim como os nossos maiores inimigos são espirituais, nosso maior aliado é Cristo, que ora conosco nessa batalha.

As aspirações: Versos isolados dos salmos são muito apropriados como orações breves, chamadas “aspirações”, que podem ser usadas ao longo do dia repetidas vezes, ou em momentos específicos, como no começo de alguma oração, antes da leitura da Bíblia etc. Alguns exemplos comuns:

  • “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor , rocha minha e redentor meu!” (19:14)
  • “Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.” (28:9)
  • “Praza-te, Senhor, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” (40:13)
  • “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos.” (43:3)
  • “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (51:10)
  • “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca manifestará os teus louvores.” (51:15)
  • “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.” (57:5)
  • “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, e concede-nos a tua salvação.” (85:7)
  • “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.” (119:18)

• A frequência: Use ao menos um salmo por dia, no começo. Depois que o hábito estiver firme, dois salmos (um pela manhã e outro à noite). Você pode usar o Salmo 95:1-7 (seguido do Salmo 96:9,13) pela manhã e o Salmo 141 à tarde/noite.

A constância: Use os salmos em todas as situações, mesmo quando nossos sentimentos não estão no lugar. Vários Salmos foram escritos em momento de intensa angústia (como o Salmo 88), mas eles são orações, ainda assim, e mostram como a oração deve ser feita mesmo quando não estamos em paz.

A conclusão: Costumamos terminar as orações dizendo apenas “Amém”, mas uma maneira de terminar os salmos é com alguma doxologia breve (como o “Glória ao Pai”). Uma forma fácil é, após finalizar o salmo, repetir algum verso que chame mais à sua atenção ou seja mais coerente com a sua situação. Aliás, os cinco blocos de salmos bíblicos são separados por quatro transições que são doxologias, e que podem ser usadas (de memória) quando concluímos algum salmo: Sl 41:13; 72:19; 89:52; 106:48. Depois, como sempre: Amém!

• A memorização: Todo cristão deveria conhecer alguns salmos de memória. Alguns salmos que seria interessante considerar memorizar: 23 (segurança), 24, 42-43, 46, 67, 91 (batalha espiritual), 95, 100, 113, 116 (gratidão), 130 (penitência).

• O compromisso: Os salmos apresentam uma forma de oração que não é natural para muitos cristãos, os “atos de fé”, “atos de confiança” e outros, orações geralmente breves nas quais, em vez de apenas pedir algo a Deus, nós nos posicionamos diante dele e afirmamos a nossa fé, nossa esperança, nosso amor, nossa devoção, nosso compromisso e outras coisas. Esse tipo de atitude exigirá, em algumas situações, certa ousadia, mas também serão uma forma de avivar nossa fé e reafirmar nossa lealdade ao Senhor, portanto são uma forma importante de adoração. Alguns exemplos:

  • “No tocante a mim, confio na tua graça;” (13:5a)
  • “Eu te amo, ó Senhor , força minha.” (18:1)
  • “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” (23:6)
  • Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes.” (27:13)
  • Aguardo o Senhor , a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra.” (130:5)

• A defesa: Os Salmos não são apenas deprecação, mas também defesa. Neles, não apenas afirmamos nossa culpa, mas também nossa inocência (“Lavo as minhas mãos na inocência”, 26:6), e, com isso, pedimos que Deus faça justiça diante da nossa situação (“Faze-me justiça, ó Deus”, 43:1). Essa ousadia é necessária numa vida espiritual equilibrada.

Experimente orar os salmos. Encontre nele uma história que, passando por montes e por vales, encontra ao fim sempre motivo de gratidão e para um cântico novo, um motivo para dizer: Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Devoção, segundo São Tomás de Aquino

“Não adoramos a Deus por sacrifícios e dons exteriores em benefício dele, mas por nós e por nossos próximos, pois ele não precisa de nossos sacrifícios, mas deseja que eles lhe sejam oferecidos para promover nossa devoção e a utilidade do nossos próximos.” ST IIa-IIae q. 30 a. 4 ad 1

“Assim a devoção não parece ser nada além da vontade de prontamente se entregar às coisas pertinentes ao serviço a Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 1 co

“…a devoção pelos santos de Deus, mortos ou vivos, não termina neles, mas passa deles a Deus, enquanto naturalmente veneramos a Deus nos ministros de Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 2 ad 3

“Assim necessariamente ocorre que a meditação seja causa da devoção, enquanto naturalmente através da meditação o homem concebe que se entregue ao serviço divino.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 co

“E assim as coisas pertinentes à humanidade de Cristo, como nos conduzindo pela mão, excitam maximamente a devoção, ainda que a devoção consista principalmente das coisas concernentes à divindade.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 ad 2

“Ainda assim, há três razões para empregar a voz em tais orações. Primeiro, para excitar a devoção interior, para que a mente orante se eleve a Deus. Pois por sinais exteriores, seja por voz ou mesmo por outros atos, a mente é movida tanto na apreensão quanto também, consequentemente, na afeição… E assim só devemos usar a voz e tais símbolos na oração conforme excitem a mente inteiriormente. Se, na verdade, por essas coisas a mente for distraída ou de qualquer modo impedida, elas devem cessar.” ST IIa-IIae q. 83 a. 12 co

“…segundo diz o Damasceno, no Livro IV, como somos compostos de natureza dupla, a saber, intelectual e sensível, oferecemos a Deus uma adoração dupla, a saber, espiritual, consistindo na devoção interior da mente, e corporal, consistindo na humilhação exterior do corpo. E como, em todos os atos de adoração (latriae), aquilo que é exterior se refere àquilo que é interior como principal, segue-se que a adoração (adoratio) exterior seja em função da interior, de modo que, pelo sinal da humildade que exibimos corporalmente, seja excitado nosso afeto a se submeter a Deus, assim como nos é conatural que procedemos dos sensíveis aos inteligíveis.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 co

“…mesmo a adoração corporal é em espírito, enquanto ela procede da devoção espiritual e se ordena a ela.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 ad 1

“…um lugar determinado é escolhido para a adoração, não em razão de Deus, que é adorado, mas em razão dos próprios adoradores. E isso por uma razão tripla. Primeiro, em razão da consagração do lugar, pela qual os orantes concebem maior devoção espiritual, de modo que sejam mais ouvidos, segundo indica a Oração de Salomão (2Reis 8).” ST IIa-IIae q. 84 a. 3 ad 2

“…é um modo mais nobre de provocar os homens à devoção pelo ensino e pela pregação do que pelo canto.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 3

“…pelo canto que é empregado com entusiasmo para deleitar, a alma é distraída da atenção por aquilo que é cantado. Mas se alguém canta por devoção, considera atentamente o que diz, tanto porque permanece mais tempo no canto, como porque, como diz Agostinho (Confissões X), ‘todos os afetos do nosso espírito, por sua diversidade, têm modos próprios na voz e no canto, que são excitados por sua oculta familiaridade’. E o mesmo se dá com os ouvintes, que, mesmo quando não entendem o que é cantando, entendem por que é cantado — a saber, em louvor a Deus —, e isso é suficiente para excitar a devoção.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 5

“… devoção, que é o principal ato de religião.” ST IIa-IIae q. 104 a. 3 ad 1

“…aquelas coisas instituídas pelos homens feitas nos sacrementos não são necessárias aos sacrementos, mas são feitas para a sua solenidade, que é acrescentada aos sacramentos para excitar a devoção e reverência naqueles que recebem os sacrementos.” ST IIIa q. 64 a. 2 ad 1

“…que nos batizados se manifeste maior ou menor graça, pode ter duas razões. Por um lado, um recebe no Batismo maior graça do que outro em razão da maior devoção, conforme já dito.” ST IIIa q. 69 a. 8 ad 2

“…aqueles que carecem do uso da razão podem ter devoção pelo Sacramento [da Eucaristia], seja em alguns casos a devoção presente, seja em outros a devoção pretérita.” ST IIIa q. 80 a. 9 ad 1

Rev. Gyordano M. Brasilino